O Outro e a Transferência segundo Lacan

Posted on Posted in Teoria Psicanalítica

Lacan chama a quem é creditado o saber de “o Grande Outro”, e ele funciona como uma referência para a nossa organização subjetiva, que é tecida pelo nosso acesso à linguagem. O conceito é fundamental para concebermos o conceito de Transferência segundo Lacan, bem como o de Sujeito Suposto Saber.

É a esse Outro que nos dirigimos, como se ele fosse a garantia do bom andamento das coisas, lugar de onde emanaria a verdade última de nós mesmos. É essa suposição de um saber no Outro que Lacan localiza como pivô do deslanchamento da transferência, via pela qual o analista vem a encarnar a função de sujeito suposto saber. (Denise Maurano, A Transferencia p. 26).

Transferência

A transferência segundo Lacan não se reduz à repetição por ter seu acionamento vinculado à função do sujeito suposto saber. O que leva à repetição é a demanda de que o analista viabilize esse acesso ao saber. É esse pedido que leva à repetição de um caminho já trilhado nessa mesma direção, no qual o sujeito espera que um saber no Outro acene como via de salvação do real traumático.

Porém, a repetição de que aí se trata não conduz a um bom encontro, no sentido de possibilitar o acesso a isso que falta, mas ao contrário, o que se repete é a falta do bom encontro, designada tiquê por Lacan, tomando de empréstimo um termo de Aristóteles. É, portanto, a repetição do encontro com a falta, com o fracasso na realização dos desejos infantis, com o qual estamos sempre a nos deparar, o que será trabalhado na transferência. (Denise Maurano, A Transferencia p. 27-25)

A ação do Analista

O primeiro plano das questões aqui levantadas se refere essencialmente às condições preliminares para que um analista sustente sua função na transferência, portanto, faça o manejo clínico desta última até que ela possa ser desmontada, finalizando o trabalho analítico. Ponto que corresponde à ausência de resposta última do Outro, ou melhor, queda do Outro, que implica a queda da função do sujeito suposto saber.

Deixando de supor um saber no Outro, a transferência é dissolvida, nos termos do que a originou. Sem o comparecimento da dimensão viva da transferência no que diz respeito à transmissão da psicanálise, tudo o que encontramos são palavras vazias. (Denise Maurano, A Transferencia p. 69-70)

O analista veste o objeto com o mistério do seu silêncio e da sua recusa, para fazer sentir e lembrar que o objeto é sempre insatisfação. Façamos silêncio em nós, aproximemo-nos do objeto insatisfatório da pulsão, aproximemo-nos da sua imagem enigmática e faremos aparecer o grande Outro. Faremos surgir a autoridade, faremos aparecer o grande Outro referente, instituiremos a autoridade do Sujeito Suposto Saber. Autoridade que existe em qualquer terapia. (J.D. Nasio. Como Trabalha um psicanalista p. 46).

A autoridade psicanalítica

Na psicanálise a autoridade, essa dimensão do grande Outro, interlocutor dos sintomas portadores da significação transferencial, nasce graças ao comportamento técnico de um operador, de um prático que sabe evocar a natureza opaca do objeto. (J.D. Nasio. Como Trabalha um psicanalista p. 46).

Assim o analista assume ter que ocupar esse lugar e, como primeiro efeito, produz-se a instituição do grande Outro, do Sujeito Suposto Saber, da autoridade.

Segundo efeito importante sobre o analisando, desta vez: se o analista ocupa esse lugar do enigma, faz silêncio em si, vai exercer sobre o analisando uma certa sedução. O analista vai seduzir, mas seduz de modo diferente do histérico: vai seduzir e vai suscitar no analisando o aparecimento de novos sintomas que trazem a marca da transferência. (J.D. Nasio. Como Trabalha um psicanalista p. 46-47)

O analista encarnando a expressão imaginária do objeto insatisfatório da pulsão, véu opaco da recusa, institui, sem notar, o lugar, desta vez simbólico, da autoridade do Sujeito Suposto Saber. Isso me parece ser uma nuance muito importante. Naquele momento, aproveitamos para dar a especificidade da psicanálise, para diferenciá-la de qualquer outro método. (J.D. Nasio. Como Trabalha um psicanalista p. 68-69)

A transferência segundo Lacan: a típica transferência da Psicanálise

A autoridade do Sujeito Suposto Saber existe em toda transferência: transferência de ensino, psicoterápica, psiquiátrica, em suma qualquer que seja o tipo de transferência. Mas, a característica própria da psicanálise é que o Sujeito Suposto Saber é um efeito do fato de que o analista ocupa o lugar do objeto.

É preciso que o analista se preocupe com aquilo que ele sente em suas entranhas, sem ter que procurar ocupar esse lugar do Sujeito Suposto Saber, para criar a sua autoridade dessa maneira. (J.D. Nasio. Como Trabalha um psicanalista p. 68-69)

O simples fato de que um consulente esteja diante de um analista constitui a prova em ato da sua aspiração e da sua expectativa de ser curado, ou melhor, como dizia Freud em seus primeiros textos, da sua “expectativa crente”. O consulente demanda e, ao fazer isso, ele crê. Crê no poder curativo e transformador que atribui ao procedimento da análise, assim como crê nos poderes da ciência, do saber e do desejo do analista.

Como podemos ver, esse é um primeiro passo em direção ao que se convencionou chamar, na terminologia lacaniana, de “sujeito suposto saber”. (J.D. Nasio. Como Trabalha um psicanalista p. 161) A articulação de Um-pai com o saber na conjuntura da entrada em análise esclarece a comparação feita por Lacan do sujeito suposto saber com Deus — figura de um papai sabe-tudo, papai salva tudo. (Muinet Antonio. A extranheza da Psicnalise. P. 23)

A transferência pela falta e pelo amor

O Sujeito Suposto Saber decorre de uma atribuição ao Outro de algo que vem escamotear a sua falta estrutural, algo relativo ao saber — lá onde está a falta o sujeito coloca o saber, tal como Sócrates para Alcebíades e o analista para o analisante.

A falta do Outro é suprida pelo saber suposto ao analista pelo analisante, e aí o Outro aparece poderoso em decorrência da projeção dos traços ideais que constituem os ouropéis da onipotência. (Muinet Antonio. A extranheza da Psicnalise. P. 44)

A função transferencial “No começo da psicanálise é a transferência”, nos diz Lacan, e seu pivô é o sujeito suposto saber. O surgimento do sujeito sob transferência é o que dá o sinal de entrada em análise, e esse sujeito é vinculado ao saber. (Quinet, Antonio. As 4+1 Condições da Analise. P. 25)

O sujeito suposto saber é definido por Lacan, como “aquele que é constituído pelo analisante na figura de seu analista”, e mais tarde o fará equivaler a Deus Pai. Identificar-se com essa posição é transformar a análise em uma prática baseada em uma teoria que não inclui a falta. (Quinet, Antonio. As 4+1 Condições da Analise. P. 26-27)

Esse sujeito suposto saber, aqui representado pelo denominador, não é necessariamente imposto ao analista pelo analisante. O que importa é a relação que foi estabelecida pelo analisante entre o analista e o sujeito suposto saber. (Quinet, Antonio. As 4+1 Condições da Analise. P. 28)

O amor como endereçamento ao saber estabelece a equivalência entre o ideal do eu e o sujeito suposto saber: o sujeito se mostra, se faz ver, pois se vê amável — donde resulta que ele se faz saber, se presta ao saber do Outro. Essa analogia da estrutura permite que o amor de transferência, como corolário do sujeito suposto saber, venha tapear, visando o mascaramento do “isso”, cuja angústia é testemunha da presença do objeto. (Quinet, Antonio. As 4+1 Condições da Analise. P. 42)

O final do processo de análise

O final da análise é contemporâneo da destituição do Sujeito Suposto Saber. É o momento de desmontar a relação de transferência, segundo Lacan. Se o sujeito, como vimos, é destituído de suas identificações e do objeto que o complementa na fantasia, ele também é desvinculado do saber. (Quinet, Antonio. As 4+1 Condições da Analise. P. 108)

Autor: Denilson Louzada

Foi útil para você? Curta, Comente e Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *