O Mito de Thanatos e a Pulsão de Morte

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O presente trabalho propôs-se a investigar as moções internas que impelem as pessoas a agirem de modo contrário ao que lhes seria favorável – utilizando-se, por exemplo, do Mito de Thanatos (personagem Thanatos ou a figura de Tânatos na mitologia grega). Para tanto, foram realizados, também, levantamentos bibliográficos da obra de Sigmund Freud.

Para fim de explorar conceitos teóricos que permitissem coletar, descrever, comparar e analisar as descobertas, o desenvolvimento e evoluções da teoria pulsional. Isso focalizando, em especial, na importância das elaborações acerca do conceito de pulsão de morte, suas relações com a sexualidade, com o funcionamento das instâncias reguladoras da mente e com as tendências destrutivas do indivíduo e da sociedade.

Embora a análise do conceito de pulsão de morte possa ser elencada como objetivo principal deste estudo, não seria possível realizá-lo descartando outros tantos conceitos configurados de forma relacionada a ele. Como, por exemplo, a pulsão de vida, os instintos de auto-preservação e sexuais, as noções relacionadas ao funcionamento do aparelho psíquico – tais como o id, ego e superego. Ainda, os modos de operar das instâncias reguladoras da mente bem como os antagonismos entre o indivíduo e a sociedade.

Por se tratar de uma investigação conceitual exploratória, a presente elaboração não se propõe a apresentar hipóteses pré-estabelecidas, tampouco validá-las ou refutá-las.

Sendo assim, as reflexões nela promulgadas foram expostas ao longo do texto.

 

Teoria freudiana e o Mito de Thanatos

A escolha apresentada mostra-se relevante porque permite visualizar aspectos longitudinais da teoria freudiana de estudos datados dos anos de 1905 a 1923. Em especial, no tocante às informações que podem favorecer o entendimento das razões que levaram Freud a repensar e realizar diversas modificações no modo de entender o mecanismo das pulsões.

Desse modo, mais do que traçar um recorte cronológico do que seria a primeira ou a segunda teoria pulsional pareceu ser de maior valia enfatizar as repercussões das descobertas desconcertantes. Até mesmo Freud levou certo tempo para acolher, adiando-as até que não fosse mais possível não admiti-las. Quais sejam: a evidente presença de moções internas e externas que levam a humanidade a retroceder à barbárie mesmo em face de condições que poderiam fazer a civilização avançar, ao invés de retroceder.

As polêmicas questões aqui apontadas, longe de serem inéditas, são velhas conhecidas, sinalizadas desde há tempos por Freud e uma série de outros autores. A iminência de uma nova tragédia ou a atuação da barbárie já anunciada. E voltam, como nos tempos de guerra, a operar em larga escala nas mentes, nas ações, na política, na cultura e na sociedade brasileira.

Assim, evidenciando a urgência e relevância da promoção de debates acerca de temas que esclareçam a ponto de evitar que a humanidade retroceda a estágios primitivos de existência.

Considera-se que o método que melhor se aplica aos objetivos propostos neste estudo consiste na realização de pesquisa bibliográfica. Assim, de modo a compor o texto de forma coerente, os elementos conceituais da obra de Freud são apresentados em partes distintas, porém inter-relacionadas.

 

Partes (O Mito de Thanatos e a Pulsão de Morte)

Para fins didáticos, o trabalho se divide em partes, onde são apresentados:

  • Definições operacionais dos conceitos de instintos e pulsões;
  • Delimitações teóricas que ficaram conhecidas como a teoria da libido e a teoria pulsional;
  • Descrição do modo de funcionamento do aparelho psíquico;
  • O funcionamento das pulsões e as relações estabelecidas entre as instâncias reguladoras da mente.

Por fim, tomando por base os elementos discutidos nos itens anteriores, procurou-se analisar os temas discutidos – elencando algumas implicações sociais da teoria freudiana.

Explicitados o objetivo, os conceitos, as teorias, o método aplicado à análise e a relevância da proposta desta elaboração. Cabe, agora, descrever a seqüência dos tópicos que compõem este estudo:

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  1. A pulsão: conceitos e definições
  2. A teoria da libido e a teoria pulsional
  3. O funcionamento do aparelho psíquico
  4. As pulsões e suas relações com as instâncias reguladoras da mente
  5. Algumas implicações sociais da teoria freudiana
  6. Notas conclusivas sobre O Mito de Thanatos e a Pulsão de Morte
  7. Mito de Thanatos
  8. Referências bibliográficas

 

1 – A pulsão: conceitos e definições

Os estudos que desvendaram os mecanismos das pulsões são uma constante na obra de Freud. É importante salientar que antes que o termo fosse fixado, as inquietações do autor quanto ao mesmo fenômeno ou fenômenos semelhantes apareciam sob outras nomenclaturas.

Em geral, referiam-se a moções ou ações internas e externas que impelem o indivíduo à ação (FREUD, 1905/1996). Por esta razão, para fins didáticos, avalia-se necessário iniciar esta análise com a exposição de alguns conceitos e definições dos termos que serão explorados nesse texto.

Vale lembrar, porém, que o objetivo deste estudo não é traçar o percurso histórico e desenvolvimento dos conceitos, mas sim analisar as razões que levaram Freud a ampliar seu entendimento a respeito do mecanismo das pulsões. E, principalmente, as implicações que dela decorrem.

De acordo com as definições do conceito de Freud por J. Laplanche e J.- B. Pontalis, a pulsão corresponde à um: “Processo dinâmico que consiste numa pressão ou força (carga energética, factor de motricidade) que faz tender o organismo para um alvo”.

Segundo Freud, uma pulsão tem a sua fonte numa excitação corporal (estado de tensão). E é no objeto, ou graças a ele, que a pulsão pode atingir o seu alvo. (LAPLANCHE e PONTALIS, 1967, p. 506).

Embora diferentes, noções relativas ao que posteriormente vieram se configurar como o conceito de pulsão que já apareceu em outros escritos sob outras nomenclaturas.  No estudo Três ensaios sobre a teoria de sexualidade, percebe-se a ânsia do autor em esboçar a definição do conceito com mais propriedade.

 

A pulsão como um representante psíquico

Mesmo sem apresentar o conceito de pulsão de forma única e definitiva, este estudo permitiu compreender a pulsão como um representante psíquico de determinada força. Força que impele ao movimento e/ou determinada moção que demanda por uma ação. (FREUD, 1905/1996).

Analisando o comportamento de bebês e crianças, Freud começa a entender as distinções entre a necessidade de manutenção da vida (nutrição) e sexualidade (libido). Nessa medida, o trabalho realizado permitiu perceber que, embora todas as pulsões impelissem o organismo ao movimento psíquico, havia uma distinção entre as mobilizações. Essas, decorrentes de instâncias internas e instâncias externas do organismo, no qual a pulsão representaria as instâncias internas.

Portanto, contínuas, enquanto a excitação seria proveniente de estímulos externos.

De acordo com o autor, tal energia motriz ou quantum de força que leva à ação seria de origem sexual e/ou decorrente do processo de excitação. Tais descobertas acerca da sexualidade infantil foi altamente polêmica e amplamente criticada na época de sua exposição.

Tendo descrito de maneira operacional os conceitos e definições que são exploradas nesta elaboração, passa-se a análise.

 

2 – A teoria da libido e a teoria pulsional

A teoria pulsional é um dos temas mais relevantes da psicanálise. As investidas de Freud a fim de buscar o entendimento, compor, relacionar e distinguir os conceitos que demarcam suas descobertas é extensa e sinuosa, repletas de ir e vir. Nos quais, o estilo de escrita assemelha-se a um diálogo reflexivo consigo mesmo.

Os escritos do autor compunham de forma não linear a descrição de suas descobertas à medida que se sucediam e, por percorrer caminhos nunca antes tracejados por nenhuma outra ciência, são marcados pela forma da própria composição do pensamento do autor. Nos quais, a descrição

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das reflexões sobre descobertas e caminhos tracejados iam configurando, concomitantemente, texto e teoria.

Ao longo de sua busca incessante na compreensão, análise, descrição e comparação dos conceitos a respeito do que se conhece hoje como a teoria pulsional, pode-se dizer que Freud desenvolveu duas teorias. Ou, que a primeira evoluiu para a segunda.

Embora Freud descreva suas primeiras inquietações sobre a sexualidade e a libido em 1905, pode-se dizer que a primeira teoria, que por alguns autores também é denominada como Teoria da libido. Esta foi composta nos escritos intitulados As pulsões e seus destinos (1915/1996).

Tal elaboração interpreta as pulsões estabelecendo uma divisão entre as pulsões do ego e pulsões sexuais, nas quais as pulsões do ego seriam responsáveis pela manutenção do indivíduo. Enquanto as pulsões sexuais representariam a necessidade de manutenção da espécie humana:

“Propus que se distingam dois grupos de tais instintos primordiais: os instintos do ego, ou autopreservativos, e os instintos sexuais”. (FREUD, 1915/1996, p.139)

 

Forças contrárias

Como descrito anteriormente e evidenciado no excerto, antes de cunhar o conceito de pulsão, Freud considerou, inicialmente, que as forças que impeliam o indivíduo a ações poderiam ser classificadas como instintos. Sendo estes de origem primitiva e podendo ser divididos entre instintos do ego e instintos sexuais.

De acordo com o autor, estes instintos teriam propósitos distintos, os de autopreservação tinham a função de preservar a existência individual. Ou seja, do ego, enquanto que os instintos sexuais buscavam satisfação sexual e ficariam a cargo da preservação da espécie.

Por esta razão, esta delimitação permite considerar que ambos instintos corresponderiam ao princípio de prazer e atuariam na unificação, investimento e preservação da vida. Justamente por conta deste modo de interpretação, Freud posteriormente passará a denominar tanto os instintos de autopreservação como os sexuais como pulsões de vida, reconhecidos também como Eros.

Mas, como não existem soluções simples para problemas complexos, à medida que Freud apontava uma explicação possível para suas inquietações, sobrepunha-a prontamente com algumas insatisfações. Como, por exemplo, em relação às incertezas que ele mesmo se deparava por tatear às cegas caminhos inéditos – enfatizando que não hesitaria em abrir mão do recém descoberto à medida que encontrasse explicações mais convincentes para os fenômenos analisados.

Assim fez. Como não se mostrava muito convencido com suas próprias formulações acerca dos instintos de autopreservação e sexuais, seguiu pesquisando. As descobertas posteriores em relação a este tema fizeram então a teoria da libido evoluir.

Evoluindo para uma segunda teoria, ou a teoria pulsional. Considerando que o enfoque deste texto reside mais no que se refere ao avanço da teoria pulsional do que na teoria de libido, considera-se a primeira versão da teoria pulsional suficientemente explanada. Isso, para que seja possível passar para as análises seguintes.

 

Autopreservação x instintos sexuais e o Mito de Thanatos

Sendo assim, a pergunta que se faz urgente é: ora, mas porque Freud passará a denominar tanto os instintos de autopreservação como os sexuais como pulsões de vida ou Eros?

Justamente porque Freud depara-se com uma descoberta que evidencia que o funcionamento psíquico é mais complexo do que inicialmente imaginara. Passando, assim, a considerar que o psiquismo é composto não apenas por mecanismos que impelem à preservação da vida e da espécie. Mas, sim, por mecanismos antagônicos expressos por forças opostas às de vida, nas quais enquanto uma corrente impele para a ação, a outra impele à inanição.

Segundo a nova e surpreendente interpretação do autor em relação aos temas investigados, o mecanismo dual do psiquismo se expressa também por forças que vão além do princípio de prazer. Quais sejam: as pulsões de morte ou Tânatos / Thanatos.

Isso posto, antes de dar prosseguimento à análise, cabe agora descrever detalhadamente o modo como Laplanche e Pontalis descrevem as pulsões de vida: “Grande categoria de pulsões ” – em que Freud contrapõe, na sua última teoria, às pulsões de morte. Elas tendem a construir unidades cada vez maiores, e a mantê-las.

 

Pulsões de vida

As pulsões de vida, também designadas pelo termo Eros, abrangem, não apenas as pulsões sexuais propriamente ditas, mas ainda as pulsões de autoconservação. (LAPLANCHE e PONTALIS, 1967, p.537).

Os referidos mecanismos, descritos em Além do princípio de prazer (FREUD,1920/1996), expressam que Freud reeditou suas descobertas. As nomeações de suas teorias ficaram a cargo de terceiros.

Por esta razão, considera-se que mais vale o teor das teorias e as razões que levaram Freud a repensar. Além de ampliar seu leque conceitual do que as classificações posteriores atribuídas a elas referentes às pulsões agregando em uma moção única os instintos do ego e sexuais – renomeando como pulsões de vida.

Esta nova nomenclatura e a junção dos impulsos de autoconservação e sexuais justifica-se porque Freud descobriu que estas classes de pulsões sofrem impulsos contrários. Esses, aos impulsos de agregação – sugerindo, assim, o que o autor denominou como pulsões de morte ou Thanatos.

Do ponto de vista descritivo, embora as pulsões de morte também fossem responsáveis por demandas primitivas tais como as pulsões de vida. Enquanto as pulsões de vida buscavam a ação, a catexia, o investimento e a unificação, as pulsões de morte estariam associadas à tendência do organismo a eliminar a tenção, à ausência de estimulação.

 

Pulsão de morte

O objetivo da pulsão de morte seria, portanto, buscar a inanição, a descatexização, a desagregação, a descarga. Em resumo, é importante salientar que embora Freud tenha se deparado com descobertas que modificaram sua maneira de pensar.

O autor não descartou de todo as descobertas anteriores a respeito da libido. Assim, pode-se afirmar que a segunda edição de teoria pulsional que considera a dualidade entre as pulsões de vida e de morte não descarta os instintos sexuais e de autoconservação.

Ao contrário, a unificação das pulsões e a descoberta de suas tendências contrárias reforçam a hipótese de que todas as pulsões são de origem sexual. Como não haveria de ser diferente, a descoberta deste fator torna ainda mais evidente a importância da sexualidade na teoria freudiana.

 

3 – O funcionamento do aparelho psíquico

Uma vez compreendido o mecanismo das pulsões, considera-se possível ampliar a análise a fim de favorecer o entendimento do funcionamento do parelho psíquico. Para que, no tópico seguinte, possa explorar as instâncias reguladoras da mente e sua relação com o modo de operar das pulsões.

Amplamente difundido – como se esta fosse a única metáfora aplicável – o inconsciente pode ser representado utilizando-se o modelo de um iceberg. No qual, apenas a parte menor visível representa o consciente enquanto a maior parte representa o inconsciente – estando submersa e inacessível. Ainda, reservando uma série de impulsos e lembranças traumáticas reprimidas socialmente ou pelos caracteres morais e éticos introjetados pelo indivíduo. (FREUD, 1900/1996).

O aparelho psíquico, também conhecido como as instâncias reguladoras da mente, é configurado por instâncias que Freud chamou de id – ego – superego. (FREUD, 1923/1996). Tais instâncias operam – o ou deveriam operar – de modo a equilibrar tensões paradoxais que são oriundas do duelo de forças entre pulsão e repressão.

  • De acordo com Freud, o id representa o reservatório das pulsões originais, os processos primitivos e toda energia motriz da atividade humana. Representa, portanto, a experiência interna subjetiva que não estabelece relação com a realidade objetiva. Por isso, o id pode representar a verdadeira realidade psíquica.
  • Em contrapartida, socialmente formulado, o superego teria a função de contrabalancear e regular os impulsos primitivos do id, tanto de vida como de Morte. Assim, representando a preservação da vida, os valores éticos e morais socialmente determinados.
  • O ego, por sua vez, como tendência, deve situar-se entre ambos. Equilibrando, então, as pulsões e repressões; alanceando os impulsos primitivos e os valores sociais; proporcionando a possibilidade de adaptação à realidade e a formação de um eu saudável.
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Contrariamente ao modo de proceder do id que é operacionalizado pelo princípio de prazer, o ego opera pelo princípio de realidade. Assim, o processo de configuração egoica está sujeito ao controle equilibrado do funcionamento do aparelho psíquico.

Tal processo é resultante da diferenciação entre o dentro e o fora. Inicialmente, ocorre a partir da separação dos corpos entre o bebê e sua mãe (FREUD, 1905/1996).

Até o presente momento foram descritos os modos de operar da mente humana, porém, quando o parelho psíquico não se desenvolve de forma  equilibrada, a personalidade individual pode reagir às intempéries da existência. Assim, manifestando diferentes formas de angústias juntamente com respostas defensivas a elas.

Justamente por isso que, ao analisar diferentes sintomas psicossomáticos, Freud conseguiu desvendar os modos como questões psicológicas poderiam ocasionar patologias. Acompanhadas, estas, de sintomas físicos e comportamentos inexplicáveis do ponto de vista lógico.

Embora seja evidente que algumas respostas psicológicas, patologias, sintomas físicos e comportamentos inexplicáveis se manifestem de forma relacionada, vale frisar que o foco desta análise não reside na investigação das patologias ou sintomas físicos. Mas, sim, na investigação do porquê existem comportamentos inexplicáveis do ponto de vista lógico. E que podem, consequentemente, conduzir o indivíduo e a sociedade a estágios regredidos.

 

Pulsões de morte e os comportamentos

Assim sendo, considera-se conveniente neste ponto da análise relembrar as inquietações iniciais que motivaram a elaboração desta pesquisa bibliográfica: Investigar porque existem moções que se manifestam de modo contrário à preservação da vida.

É por esta razão que as pulsões de morte e os comportamentos orientados por estas pulsões recebem enfoque especial nesta elaboração. No tópico adiante tais questões são exploradas detalhadamente.

 

4 – As pulsões e suas relações com as instâncias reguladoras da mente

Como sabido, a interpretação do conteúdo onírico foi de extrema importância para Freud compreender a forma de operar da mente humana. Propondo, assim, como explicação deste funcionamento, uma estrutura particular que se baseava nas noções inter-relacionadas entre consciente, pré-consciente e inconsciente (FREUD, 1900/1996).

Como mencionado no item anterior, a fim de entender os mecanismos de repressão e recalque oriundos dessas operações, o autor elaborou os conceito de id, ego e superego (FREUD, 1923/1996).

De acordo com o que foi exposto anteriormente, segundo o autor, o id representa os processos primitivos do pensamento. Constitui, então, o reservatório das pulsões e, dessa forma, toda energia envolvida na atividade humana seria advinda do id.

Inicialmente, considerou que todas essas pulsões atuariam no sentido de auto-preservação. Posteriormente, introduziu o conceito das pulsões de morte, que atuariam no sentido contrário ao das pulsões de agregação e preservação da vida. Então, concluindo que o comportamento humano é regido pelo duelo de forças antagônicas entre as pulsões de vida e as de morte.

O superego, a parte que contra-age ao id, representa os pensamentos morais e éticos internalizados. Consequentemente, o ego é a instância que equaciona as tensões entre ambos – tentando equilibrar as necessidades primitivas e valores éticos e morais.

Como apontado por Freud, portanto, as pulsões de agregação e destruição que governam o comportamento humano não agem de forma isolada. Essas estão sempre trabalhando em conjunto.

 

O “eu saudável”

Desse modo, a configuração de um Eu saudável seria resultado do equilíbrio entre a possibilidade de adaptar-se à realidade. Além de interagir com o mundo exterior de uma maneira que seja favorável ao id e ao superego.

Ao que tudo indica, Freud precisava percorrer o caminho inverso dos acontecimentos para tentar alcançar suas origens. Partindo das consequências para atingir as causas, considerando que as manifestações visíveis (sintomas) aparecem como resultado de questões inconscientes de natureza remota, profunda e arcaica.

Assim, uma vez que as pulsões são mobilizações internas invisíveis, foi preciso partir do visível, do palpável, para Freud conseguir desvendar mecanismos invisíveis, obscuros.

Os elementos reprimidos, que não podem existir naturalmente, aparecem de forma simbólica, contendo uma série de elementos. Esses elementos permitem acessar as profundezas da mente, do inconsciente.

Os conteúdo simbólicos dos sonhos, por exemplo, são capazes de revelar os desejos inconscientes que o produziram e aparecem de modo simbólico por conta dos mecanismos de recalque.

 

Pulsões de vida e pulsões de morte

Dos argumentos expostos é possível depreender que, tanto as pulsões de vida quanto as pulsões de morte – bem como o modo de operar das instâncias reguladoras da mente – não podem gozar de livre fruição. Isso porque há uma série de mecanismos atores e repressores internos e externos que regulam seu modo de funcionamento. Consequentemente, fazendo-o se manifestar de forma dinâmica, paradoxal, conflituosa e, portanto, repleta de atritos.

Em linhas gerais, uma vez que a vida em sociedade impõe uma série de renúncias, não seria possível ao ego existir sem manifestar respostas defensivas às constantes exposições. Também, defensivas aos diferentes tipos e intensidades de renúncias que lhe são impostas.

No item seguinte dá-se continuidade à exploração destas ponderações.

 

5 – Algumas implicações sociais da teoria freudiana

Considerar que as respostas do ego a fim de proteger-se de desconfortos, sofrimentos e angústias desembocam em sintomas e patologias, em última instância, é o mesmo que considerar que a própria patologia pode ser entendida como um produto final. Não sendo, assim, outras coisas senão resultado de algo produzido socialmente.

Um fenômeno no qual, segundo Freud, a socialização primária familiar exerce papel causal determinante.

Nesses termos, o que se torna visível ou, o resultado sintomático e patológico é, portanto, apenas a peruca do Zacarias  – para não tornar exaustiva a metáfora do iceberg. Assim, o limitado aspecto visível e superficial e o controverso discurso das patologias são apenas pontos de partida do caminho inverso que se deve percorrer a fim de acessar a origem de um processo socialmente causal.

O estudo desses caminhos inversos pode fornecer elementos significativos para o desvendamento dos processos da mente Humana. Capazes de, além de produzir doenças, fazer com que as pessoas militem contra seus próprios objetivos.

Tendo exposto estas questões, vale apreciar um excerto que descreve, segundo os estruturalistas de Freud, a pulsão de morte:

[…] designa uma categoria fundamental de pulsões que se contrapõem às pulsões de vida e que tendem para a redução completa das tensões. Isto é, tendem a conduzir o ser vivo ao estado anorgânico. Voltadas inicialmente para o interior e tendentes à autodestruição, as pulsões de morte seriam secundariamente dirigidas para o exterior, manifestando-se então sob a forma da pulsão agressiva ou destrutiva. (LAPLANCHE e PONTALIS, 1967, p.528).

 

Fortalecimento do indivíduo

Embora a psicanálise parta do princípio do individual para o social, é somente através do fortalecimento do indivíduo que é possível desenvolver a si mesmo e ao todo. Como bem aponta Freud, por mais que o processo de consciência se dê no indivíduo, a fortificação egoica e a resistência contra os processos de integração só podem formar-se na interface indivíduo-sociedade.

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Assistindo aos terrores da guerra, da barbárie e da capacidade do indivíduo em aderir aos processos irracionais, com uma de suas mais brilhantes obras, Freud pôde, mais uma vez, revelar o poder regressivo da consciência humana. Não por acaso, as inquietações de Freud em relação a como é possível civilizações tão desenvolvidas regredirem a estados bárbaros só poderia ser magnificamente formulada após ele descobrir a existência de pulsões contrárias às de vida.

Na última reedição de sua teoria, as pulsões de vida encontram-se unificadas – mas não mais potentes que sua solitária arqui-inimiga – e têm agora uma segunda e primordial tarefa. Trata-se da função de manter a vida contra as tendências nefastas de Tânatos.

Como a natureza das pulsões é manifestar-se interna e externamente, é necessário ressaltar que, do ponto de vista subjetivo, a resposta saudável do ego para o equilíbrio pulsional seria a pulsão de morte fundir-se às pulsões de vida. Assim, possibilitando formas saudáveis de descarga.

Por outro lado, quando desfusionada das pulsões de vida, as pulsões de morte que não encontram formas de descarga e eliminação de tensões podem voltar-se contra o ego. Então, encontrar no superego um aliado de severa rigidez. (FREUD, 1921/1996).

Nesses casos, o superego poderá regular o ego de forma excessivamente punitiva, fazendo com a agressividade digira-se à destruição do ego. Ainda, ocasionando comportamentos autodestrutivos, forte sentimento de culpa, autoflagelação e aceitação do sofrimento.

 

A energia mortífera

De modo distinto – mas não menos destrutivo – quando a energia mortífera represada consegue evadir as barreiras subjetivas e volta-se para o exterior. Também, consequentemente, explode em forma de agressividade, porém, não contra o ego, mas sim contra o mundo externo.

A resposta agressiva que se manifesta internamente contra o ego é subjetivamente devastadora. Assim como a agressividade voltada para o exterior é objetivamente devastadora.

Nesses casos, comumente ocorre a eleição de determinados alvos para projeção desta agressividade. E, além disso, há também a possibilidade de existirem aliados semelhantes com o mesmo objetivo.

Mediante os argumentos expostos, resumidamente, pode-se depreender que a força motriz das pulsões de morte pode operar de maneira subjetiva,objetiva ou ambivalente. Assim, expressando a dualidade histórica dos conflitos entre indivíduo e sociedade que marcam os processos bárbaros-civilizatórios.

 

6 – Notas conclusivas : O Mito de Thanatos e a Pulsão de Morte

A dificuldade de expor conclusões pontuais acerca do debate proposto não ocorre por acaso. Vale apontar, por isso, que tanto mais este trabalho se mostre relevante quanto mais os questionamentos nele expostos permaneçam em aberto – suscitando novas e amplificadas discussões sobre o tema.

Outrossim, a título de sistematizar as informações apresentadas, pensa-se válido mencionar algumas considerações pontuais sobre os elementos discutidos. A priori, é importante apontar a relevância da descoberta e formulação do conceito da pulsão de morte – noção esta que permitiu a Freud fazer novas interpretações a respeito do funcionamento das pulsões.

E, podendo, assim, reestruturar sua teoria e amplificar seu entendimento a respeito do funcionamento e regulação do aparelho psíquico. Os achados referentes à pulsão de morte e reverberações que dele decorreram atravessam grande parte da obra de Freud. E, em tese, tornaram-se uma das teorias mais relevantes do autor, posto que seu entendimento possibilitou a compreensão de fenômenos relativos à agressividade e ao sentimento de culpa.

Ainda e principalmente, a compreensão dos temas relativos às moções destrutivas voltadas para o ataque das instancias subjetivas e/ou objetivas – fator determinante para a compreensão tanto das psicopatologias quanto do mal estar contemporâneo.

 

Livro de Freud: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade

Do ponto de vista teórico-cronológico, é possível apontar que o germe da teoria pulsional origina-se com os primeiros estudos sobre a sexualidade infantil em 1905. Nos estudos denominados “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” e, posteriores formulações investigativas sobre a libido em 1915 em A pulsão e seus destinos.

Porém, é indispensável salientar que foi somente após a formulação dual dos conceitos de pulsão de vida e morte em 1920, no texto Além do princípio de prazer, que a teoria pulsional pode sofrer significativo avanço. Não por acaso, apenas 1 ano após a descoberta das pulsões de morte Freud publica, em 1921, a psicologia de grupo e análise do ego.

É quando se denuncia, em definitivo, o potencial humano de agir contrariamente aos objetivos de manutenção da vida, da espécie, em suma, o potencial humano para a destruição. Munido dessas descobertas, pôde Freud, a partir daí (em 1923), desenvolver as teorias a respeito do aparelho psíquico id-ego-superego e a relação das pulsões com as instâncias reguladoras da mente.

O brilhantismo deste arcabouço teórico, se não faz recear até que ponto o ser humano é capaz de chegar, que ao menos permita-nos saber, para resistir.

 

7 – O Mito de Thanatos

De acordo com o site Mitologia Online: “Thanatos (Tanatos), ou a Morte, é um nome grego masculino. Tânatos na mitologia grega é filho da Noite, que o concebera sem o auxilio de nenhum outro deus, irmão do Sono (Hipnos), inimigo implacável do gênero humano, odioso mesmo aos Imortais, ele fixou a sua morada no Tártaro, segundo Hesíodo, diante da porta dos Infernos, segundo outros poetas.

Foi nesses lugares que Hércules amarrou Thanatos com laços de diamantes, quando foi libertar Alceste. O seu nome era raramente pronunciado na Grécia, porque a superstição temia despertar uma idéia desagradável, fazendo acordar no espírito a imagem da nossa destruição.

Os eleanos e os lacedemônios veneravam a Thanatos (Tanatos) com um culto particular, mas não se conhecem as cerimônias desse culto. Os romanos também ergueram altares para Thanatos.

Thanatos – também grafado como Thanatus – tinha um coração de feno e entranhas de bronze. Os gregos representavam Thanatos sob a figura de uma criança de cor preta, com os pés tortos, acariciada pela Noite, sua mãe. Os pés de Thanatos, às vezes, mesmo não sendo disformes, estão cruzados, símbolo da posição incômoda em que os corpos ficam na sepultura.” – O Mito de Thanatos, quem foi Thanatos?

 

Referências bibliográficas: O Mito de Thanatos e a Pulsão de Morte

FREUD, Sigmund. 1900/1996. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago. (Vol. IV).

_________. 1905/1996. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Um caso de histeria, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. (Vol. VII).

_________. 1915/1996. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. A pulsão e seus destinos. Rio de Janeiro: Imago. (Vol. XIV).

_________. 1920-1921/1996. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Além do princípio de prazer, A psicologia de grupo e análise do ego e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago. (Vol. XVIII).

_________. 1923/1996. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. O ego e o id e outros trabalhos. Rio de Janeiro:

Imago. (Vol. XIX).

LAPLANCHE, J e PONTALIS, J-B. 1967. Vocabulário da psicanálise. Lisboa: Livraria Martins Fontes Editora.

Site Mitologia Online: O Mito de Thanatos, quem foi  Thanatos.

 

Este material sobre O Mito de Thanatos e a Pulsão de Morte é de Ive Braga, concluinte do nosso Curso de Formação em Psicanálise Clínica.

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