senhor em sua própria casa

Será o “eu” senhor em sua própria casa? Freud explica

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Desde a antiguidade, principalmente a partir do advento da escrita, o homem sempre tem demonstrado uma persona egocêntrica. Assim, centrado em si mesmo, ele procura assegurar locus social escrevendo sua história. Porém, esquecendo-se de suas mazelas e limitações, não raramente. No entanto, ao cometer tais deslizes, ele revela ao contexto existencial que não é “senhor em sua própria casa”. 

Não conhecendo a si mesmo e, aos outros, culminando, com efeito, em crises identitárias; resultando comumente, em catástrofes sociais e ambientais, pressagiando, sem volta, um “apocalipse planetário”. Será que o “eu” é dono de sua própria existência? Continue a leitura e descubra o que Freud diz sobre isso!

O “Eu” é dono de si mesmo? Um pouco de história

Na Antiga Grécia, Péricles, o grande estadista ateniense, dava o “tom narcísico” da natureza do homem de Atenas: “cada um dos nossos cidadãos, em todos os múltiplos aspectos da vida, está capacitado a demonstrar que é legítimo senhor e dono da sua própria pessoa, e, mais que isso, a fazê-lo com uma versatilidade e graça excepcionais” (PÉRICLES, 492 – 429 a.C. apud MOTTA; BRAICK, 1997, p. 33). 

Todavia, seu contemporâneo, compatriota e grande pensador Sócrates (470 – 399 a.C.), se contrapunha ao narcisismo ateniense, expressando a célebre frase: “conheça-te a ti mesmo”. Essência esta que levaria o cidadão de Atenas ao “parto das ideias”, a ontologia do próprio ser.

Ademais, a sabedoria apolínea (do deus grego da razão chamado “Apolo”) recomendada ao “homem da razão”, deveria, através da introspecção, permitir contato com a loucura dionisíaca (do deus grego da loucura e do caos, chamado “Dionísio”), condição essencial ao “homem da pulsão”.

 Assim, facilitando a liberação dos prazeres instintivos do indivíduo, de seus anseios e afetos mais profundos, proporcionando a felicidade e a emancipação. Assim, o inconsciente seria liberado a descarregar seu penoso fardo, localizado nas profundezas da psique humana. O que é advindo das castrações impostas pela existencialidade do “eu”, sob a égide de um “supereu” sublimado.

A filosofia e a Psicanálise

Entretanto, sob a perspectiva de Friedrich Nietzsche, filósofo pré-existencialista do século XIX, tal cooperação entre o “apolíneo e o dionisíaco”, deveras, é aparente. Porquanto, o equilíbrio de forças apolíneas e dionisíacas simbolicamente presentes nas psiques de

distintas individualidades, no decorrer da história, demonstram ser frágeis, conotando uma quimera. 

Com outras palavras, percebe-se, nesse contexto, uma luta constante do “consciente contra o inconsciente”. Uma disputa do “eu” transfigurado em “supereu” sublimado contra o “id”. Ou, ainda, uma espécie de duelo dos deuses “Apolo” (divindade representante da consciência) e “Dionísio” (divindade representante da inconsciência/pulsão/profundezas da alma). Estes descendentes dos “Titãs”, presentes alegoricamente na natureza humana, conforme a cosmovisão grega. 

Afinal, o suposto equilíbrio de forças, interações salutares, pretendidas para tais instâncias psíquicas nos processos de individuação do homem, acabam por revelar, na verdade, uma batalha velada entre “consciência e inconsciência”. 

De outra forma, uma eterna “luta de contrários” que mergulha, inexoravelmente, o homo sapiens sapiens nas profundezas das hibridizações (múltiplas identidades) e crises existenciais.

A batalha entre o Superego e o Id

Em vista disso, a não interação cooperativa entre as estruturas elementares da psique humana (ID, EGO e SUPEREGO, segundo Freud), por mais que estejam próximas e interligadas, despertam, então, as nocividades “apolíneas e dionisíacas”. Transfigurando-se em angústias, conflitos psíquicos que tolhem a liberdade e emancipação das individuações que são o cerne da própria vida. Assim, reprimindo o real, sufocando o natural, extinguindo o ente espiritual. 

Portanto, a partir dessa ideia, a supremacia do “caos” instalado no âmbito dos fenômenos mentais parece ser a tônica no destino de indivíduos que se desalinham ante a trilha da existência. Assim, apresentando uma realidade de transtornos psíquicos que assombram o homem em sua ambiência. Fadando o ser a não existência, ao sepultamento precoce de sua tênue individualidade. 

Nesse contexto, é válido remover o que se pode designar de a “arqueologia psíquica do saber”, utilizada por Sigmund Freud (médico neurologista e psicanalista de origem judaica) na “odisseia científica” de aplacar a fúria entre “Apolo e Dionísio”.

Além de arbitrar possíveis processos de paz entre tais divindades que impregnam personagens humanos, frente aos seus “gigantes existenciais”, muitas vezes, adormecidos.


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O “eu” como senhor em sua própria casa para a Psicanálise

Com efeito, a Psicanálise foi uma invenção freudiana nos idos do final do século XIX. Assim, ela se configura como uma espécie de técnica de escavação arqueológica das instâncias mentais que “enterram” e “encerram” os afetos e emoções humanas.Que promovem distúrbios emocionais, reprimindo-os na camada mais profunda da mente, denominada inconsciente.

Neste processo, o psicanalista e “arqueólogo das emoções”, através de investigações hermenêuticas (campo de estudo e método de interpretação que visa decifrar o não explícito), conduz o paciente sob análise na clínica psicanalítica.

Ele conduz o paciente à enigmática tarefa de extrair das profundezas o “cadáver psíquico” em estado de putrefação simbólica, que apodrece, ou também, desintegra o ser. Isto se dá, igualmente, por meio da técnica da “associação livre” que possibilita, ao sujeito moribundo, o falar livre e sem preconceitos de suas angústias e conflitos psíquicos. 

Assim, visando-se com este recurso, a liberação de suas pulsões aflitivas alojadas no inconsciente, que emperram, não raramente, o processo salutar de formação de identidades e alforria ontológica de distintos indivíduos.

Conclusão

Em suma, desde sua invenção, a Psicanálise, noutros termos, “arqueologia psicanalítica” freudiana, parece, ainda hoje, ser um eficaz instrumento científico de tratamento de inúmeros transtornos psíquicos causados pelos duelos, muitas vezes, nocivos, travados nos campos de batalha da mente, entre “Apolo” e “Dionísio”.

 Tais reveses, assim, são depurados do inconsciente pela também intitulada “Psicologia das profundezas” (Psicanálise), num processo que resulta em ressurgimento para a vida. Como uma fênix mitológica, que renasce várias vezes das cinzas. Por fim, a vastidão que o campo do inconsciente apresenta, faz-se pensar que o “eu”, a consciência, é somente a ponta do iceberg. Por fim, possibilitando a conclusão de que Freud, o “grande arqueólogo” da Psicanálise, tinha razão: “o eu, não é mais senhor em sua própria casa” (FREUD, 1856 – 1939).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MOTA, Myriam Becho; BRAICK, Patrícia Ramos. História: das cavernas ao

terceiro milênio. São Paulo: Moderna, 1997.

Sobre o Autor:

Jurandir de Sousa Corrêa Júnior. Graduado em História pela Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL. Graduado em Música pela Universidade Metropolitana de Santos – SP. Pós-graduado em Educação Musical com destaque para Música Popular pelo Centro  Universitário do Sul de Minas – UNIS. Pós-graduado em Antropologia pela Universidade Candido Mendes – RJ. E-mail: juradosax@gmail.comCurrículo Lattes: CV: http://lattes.cnpq.br/7705467902856031

 

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