Não é de hoje que os livros de Clarice Lispector são usados com frequência como referência para abordar temas analíticos, talvez especialmente quando se trata do amor e do indivíduo vivendo com seus sintomas.
Justamente por ser escritora e por também me aproximar da psicanálise, sinto que a sensibilidade da arte e o olhar para o humano por meio dela são algo que facilitam sua compreensão.
Talvez não pelo sentido que produz, mas pela sensação que se tem ao ler, criando uma identificação quase imediata, ou até mesmo imediata.
A Exposição
Parece que hoje as pessoas temem amar, e o que há é uma tendência a viver os relacionamentos a partir de projeções e espelhamentos.
Noto isso de formas diversas, inclusive em momentos em que apenas a sutileza é capaz de captar aquilo que não é exposto visualmente.
Será que hoje se teme tanto uma relação porque desaprendemos a amar?
Será que a paixão virou algo a ser almejado o tempo todo, talvez como uma forma de escapar da angústia de se viver em solidão?
Não se vê muitas pessoas buscando lidar com o estar só.
É muito fácil acreditar que se está junto quando as redes sociais são, possivelmente, um dos maiores passatempos da atualidade.
Claro que há quem leia um ou outro livro, ou está pelo menos posto que lê para receber curtidas.
Mas, será que ainda existe esse desejo de se intelectualizar por meio da arte?
A Busca de Respostas
Será que ainda buscamos, na literatura, na pintura, na música e em tantas outras formas de expressão, uma maneira de compreender o humano, ou estamos cada vez mais interessados apenas em mostrar que consumimos aquilo que, supostamente, nos torna mais interessantes?
Independentemente da resposta para essa pergunta, escrevo a partir do desejo de convidar o leitor para uma reflexão sobre: por que não amar e por que amar?
Por que não amar? “Amar é dar o que não se tem.”
Se fosse possível resumir a impossibilidade do amor em uma frase, eu usaria essa de Jacques Lacan, em seu Seminário 8: A transferência.
Percebo, tanto na clínica quanto no dia a dia e em outros trabalhos, uma busca incessante por fazer justamente o oposto: exigir do outro aquilo que se espera receber.
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Agem como se o amor fosse algo programado ou controlável.
Talvez seja algo comumente visto em relacionamentos heterossexuais?
Sim.
A Falta
Mas, ainda assim, é condicionado em qualquer ser humano: exigir do outro aquilo que nem mesmo se consegue oferecer a si próprio.
Espaço e solidão
Para amar é preciso suportar a falta que o outro inclusive nem é capaz de preencher da forma que se imagina.
Então, como amar sem reconhecer que o outro não existe para completar aquilo que nos falta, assim como nós não existimos para completar o outro?
Para Lacan, a angústia surge quando “a falta vem a faltar”.
Diante de uma fantasia que se cria sobre o outro, aquela que, mascaradamente, encobre toda falta que se deseja preencher, se uma relação apenas se basear nisso, viverá a partir de um preenchimento de vazios.
A autenticidade dos encontros, a vulnerabilidade e, acima de tudo, o amor acabam perdendo espaço para serem manejados.
Porque nada disso é fixo, nada dura para sempre e a consistência não é algo certeiro.
Ciclo da Mudança
Ainda mais vendo a mudança como um aspecto inato que todos os seres humanos vivenciam.
Mudança de desejo, de pensamento e de ser; as pessoas mudam, logo, os relacionamentos também.
Então, como construir uma relação, que existe a partir de uma construção, sem partir do real e apenas performar aquilo que se deseja suprir como fantasia?
Como diria Ana Suy, a gente mira no amor e acerta na solidão.
Talvez o que esteja presente nessas relações líquidas, supridas e sustentadas pela dependência, e não pelo desejo genuíno de estar com aquela pessoa por quem ela é, mas pelo que se fantasia sobre ela.
Seja justamente o medo de tanto se deparar com o próprio desejo quanto de perceber que o desejo do outro nem sempre é parecido com o nosso, e que é justamente isso que torna uma relação sincera.
O Desejo do Outro
O outro não deseja o mesmo que nós, e a construção de uma relação está justamente em comunicar esses desejos e, por meio da fala, perceber o que é possível e o que não é.
Todavia, é notório que algumas pessoas se mantêm em dinâmicas que não fazem sentido para elas, pois tentam sustentar o desejo do outro de permanecer nela.
Ou, narcisicamente, percebem que o outro não quer, mas, como se quer, tenta-se manter a relação a todo custo.
Neste caso, entram as manipulações e demais joguinhos de poder que muitos casais fazem para alimentar essa visão egóica de relacionamentos, que se baseia apenas na conquista de algo, como se uma relação fosse um troféu.
“E não me digam que, esse desejo, eu não o nomeio, pois é precisamente um ponto que só é articulável pela relação do desejo ao desejo.”
Essa relação é interna.
O desejo do homem é o desejo do Outro”, como diz Lacan.
O Encantamento
Talvez seja a partir disso que surja o desejo de construir um relacionamento no qual a paixão abra espaço para o amor.
Vejo que é isso que ocorre, simbolicamente falando.
Você se apaixona pelo que observa e pensa a partir do que está sendo vivenciado, até porque, no início de uma relação, o outro é quase perfeito.
Esquecemos que ele é humano e também tem defeitos.
Com o tempo, esse outro se coloca de uma forma mais real, e aí entra a decisão de olhar para o real que se é exposto, ou ignorá-lo e fingir que não vê, continuando a fantasiar o que o outro é sem levar em conta o que ele demonstra ser.
É bem provável que, ao fazer isso, muitas relações tanto não fossem para frente quanto, de fato, tivessem mais chances de viver um amor genuíno.
Por que amar?
A Expressão do Amor
Além de o amor ser inevitavelmente algo que faz a nossa vida transbordar em vários aspectos, talvez o prazer de amar esteja em enxergar que o amor vai para além de uma relação.
O amor está no trabalho bem feito, no mergulho no mar, no filme e na música favorita, o amor está em várias coisas.
Por isso, acho que poetas, escritores e artistas se expressam por meio dele eternamente.
Como não se expressar através do amor?
No caso da arte, é literalmente através, e não apenas por meio dele.
Quando usamos o termo “através”, estamos nos referindo a um atravessamento.
Somos atravessados pelo amor e, por meio da arte, sublimamos, através de diversas formas, algo que passa primordialmente pelo sensorial.
Para amar, é preciso sentir.
O Atravessar do Amor
Clarice Lispector, em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, pontuou lindamente algo que se encaixa nessa reflexão:
“E quando notou que aceitava em pleno o amor, sua alegria foi tão grande que o coração lhe batia por todo o corpo, parecia-lhe que mil corações batiam-lhe nas profundezas de sua pessoa”.
Independentemente do que, neste trecho, ela estava se referindo, o amor aqui é sentido, ele é expandido em não só um, como mil corações.
Essa é a consciência de que há esse atravessamento, há este algo que nos toca profundamente e nos estende em mil.
Há uma relação entre o objeto ou sujeito amado e o nosso sensorial.
Isso nos move, nos vitaliza para criar e existir a partir de novas óticas.
Sim, claro que o amor e a paixão caminham de mãos dadas.
O problema não é se apaixonar, até porque a paixão é muito gostosa, sim, então bora se apaixonar pela vida, especialmente por ela.
O Amor que Sustenta
O desafio está em não compreender que a paixão pode ser vista como a agulha que costura uma roupa, sendo essa roupa o amor em desenvolvimento.
A gente se apaixona pelo que o outro nos faz sentir e pelo que nós nos fazemos sentir a partir do outro.
Mas, nem sempre a fantasia se sustenta por si só, porque, no final das contas, a realidade de uma vida necessariamente independente sempre irá se revelar.
Vivemos também para lidar com o sofrimento, com a solidão e com um mundo onde nem sempre estaremos felizes.
Então, seria irreal pensar que alguém teria que preencher a expectativa de sempre te dar apenas bons momentos e ser quase que um pão de queijo para cessar uma fome momentânea.
“Amor será dar de presente ao outro a própria solidão? Pois é a última coisa que se pode dar de si”.
Aqui, no mesmo livro,
Clarice toca no cerne da questão.
A Solidão
Quando lidamos com a solidão, lidamos com o fato de sermos seres individuais que nascem e morrem sozinhos e que também constroem suas vidas de forma independente, mesmo que em coletivo.
Seja em amizades, em relacionamentos a dois, a três ou a mil, nada anularia a realidade de que a solidão é algo a se habitar.
A cobrança de, fantasiosamente, desejar que o outro anule essa experiência humana só seria mais uma causa para o sofrimento.
Para amar, é necessário olhar para a individualidade e, finalmente, ver os outros como eles são, e não como desejamos que eles sejam. Portanto, acho que o amor é uma delícia.
Algumas coisas não são muito agradáveis, como a dependência, a insegurança, o controle, a posse e diversas outras coisas que confundem bastante quando se trata do amor.
Lidar com o vazio, com o “não sei” e com tudo o que tange à solidão é também amar.
Pois, quando se vê aquilo que se tem e, a partir disso, se constrói o que é possível de novo, talvez a vida flua de uma forma muito mais leve.
E é nesse espaço que, pelo menos eu, quero viver. Num lugar onde a palavra e a arte possam, pelo menos, tentar comunicar aquilo que transborda, mas não consome.
Que seja um lugar onde o amor viva em equilíbrio.
Artigo escrito por Maria Beatriz Alves com exclusividade para o Blog do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica.
