Artigo sobre O Desejo: Movido pela falta segundo Lacan

O Desejo: Movido pela falta segundo Lacan

Publicado em Publicado em Psicanálise

Vivemos sob a evidência de que nascemos e morremos sendo “falados” pela percepção do outro, de modo que  estamos sujeitos a essa dimensão da linguagem e desejo de nós mesmos e expectativas do Outro.

Quando Freud mencionou que “o homem não é o senhor da própria casa”, trouxe a tona a terceira ferida narcísica, no sentido de que o indivíduo e o sujeito, embora indissociáveis, não são a mesma coisa.

Lacan, por sua vez, enuncia que o sujeito é barrado em si mesmo.

Ou seja, não somos senhor do próprio discurso, enquanto o inconsciente possui uma linguagem que é própria, estruturada e que nos integra, enquanto ser humano.

As Fases Do Ser Humano

A constituição subjetiva do nosso ser percorre diversas fases.

Ora denominadas como fases do desenvolvimento psicossexual, que possui estrutura cronológica, segundo Freud.

Parte-se da premissa de que, desde o nosso nascimento somos regidos pelas pulsões de vida e de morte, àquela relacionada ao anseio de autoconservação e ao prazer e, esta, à agressividade.

Lacan, propondo uma releitura de Freud, sustentava que essa constituição subjetiva do sujeito se dá pela passagem de três tempos lógicos pelo Complexo de Édipo.

De modo que não se presume ao mero aspecto cronológico defendido por Freud, cuja percepção de desenvolvimento pelo sujeito era cravada na fase fálica.

Corte Lógico De Lacan

Para Lacan, a percepção do desenvolvimento humano ocorre na constatação de um corte lógico.

Onde no primeiro tempo está na percepção da ausência materna, em que a criança interpreta a existência de um desejo da mãe por algo que não se limita a ela.

Já no segundo tempo, a figura paterna surge como representante da castração, já que está simultaneamente no campo de desejo da mãe e como aquilo que promove a privação e a castração para o sujeito, dessa mãe.

E por fim, no terceiro tempo, há a percepção do retorno materno, bem como a atualização da função do pai.

Cujo qual deixa de ser o privador e castrador, para ser o potente doador, ou seja, deixa de ser o falo para deter o falo e como tal, poder doá-lo.

Logo, no terceiro tempo, o falo adquire o status de objeto simbólico, desejável que o pai tem e pode doar.

Por essa análise, a metáfora paterna que substitui o desejo da mãe faz surgir no lugar do significado a significação do falo.

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É o falo que dá unidade a todos esses outros objetos que não se limita à criança.

Portanto, a função do pai, enquanto metáfora é auxiliar a criança a se organizar psiquicamente diante da falta.

O Complexo De Édipo

Lacan, ao se aproveitar da estrutura do Complexo de Édipo Freudiano, nos permite, com o devido respeito, sintetizá-lo como sendo uma relação de desejo para com o outro.

A angústia da castração nasce do incessante questionamento de quem somos diante desse cenário faltante.

Haja vista que tudo sempre deixa a desejar, sendo a utilização do recurso fálico um meio que nos permite seguir em frente até a próxima constatação da falta.

Sendo certo que a referida afirmação simbólica da castração somente é vislumbrada na neurose e perversão, pois na psicose a metáfora nome do pai foi excluído do campo simbólico e é movido pela falta.

A nossa relação com o desejo está implicada pela linguagem e pela divisão subjetiva desse sujeito barrado de si mesmo, que sofre da ignorância sobre o próprio desejo.

Divisão Do Desejo

Já que é um ser “dividido”, que pode apresentar uma relação extremamente complexa com o próprio desejo ao ponto de não querer aquilo que quer, ou querer aquilo que não quer.

Assim sendo, sofremos de divisão subjetiva ao ponto de olharmos para um desejo em nós e ficarmos desalinhados desse desejo.

Dessa maneira, somos castrados não porque o pai nos afastou da mãe para que houvesse a interdição do incesto.

Somos castrados exatamente por não dispormos da condição de nomear a completude do nosso desejo.

Pois, ao demandar, tal ato, parcializa o desejo significado, não se trata do que se quer, mas daquilo que conseguiu dizer do que se quer.

Sendo que, entre o que se quer e o que se consegue dizer, há um outro que ouve, entende.

Que interpreta e dá base no que se disse que queria, podendo haver um abismo imenso entre o que se disse e quer com aquilo que em alguma medida se reconheceu enquanto falta.

O Ajuste Do Desejo

O fato é, quando conseguimos, na medida do possível, ajustar aquilo que demandamos com aquilo que estamos discursando, mais próximos ficamos em relação ao nosso desejo.

Já dizia Lacan que “a demanda da cura vem da voz do sofredor”.

E ninguém duvida que o hábito de “desabafar” é uma via de mão dupla, uma vez que traz um certo alívio àquele que sofre e satisfação naquele que escuta, já que exercita a empatia.

Esse gesto, expresso em linguagem falada ou escrita, viabiliza uma descarga energética pela simples mobilização motora.

No entanto, salienta-se que o “soltar” da angústia propõe um alívio instantâneo e não duradouro.

A Dificuldade Da Mudança

Já que a causa desse sentimento, por ser desconhecida, irá retornar, dando lugar aquele esteriótipo do tipo “nossa, fulano tenta mudar, mas sempre incorre no mesmo caos”.

Tal repetição como manifestação dos mecanismos de defesa que o ego propõe, voltados a proteger a psiquê frente a um sofrimento demasiadamente doloroso.

É como se refutasse uma dor de estômago com antiácidos sem procurar o tratamento adequado.

Freud sustentava que a psicanálise tem por escopo tornar consciente um incômodo inconsciente, sendo tal viabilizado a partir do discurso do sujeito.

E, para que um ato psíquico seja perceptível é importante percorrer todos os níveis do sistema psíquico.

O Significado Oculto Do Desejo

Com efeito, a percepção da realidade externa precisa ser simbolizada, pois aquilo que não foi simbolizado, não pode ser recordado.

E o que impede a simbolização vai desde a imaturidade até a intensidade da experiência vivida pelo sujeito.

Sendo certo que, na psicanálise só é considerado símbolo se o simbolizado estiver reprimido.

Pois, por traz de um significante revelado está um significante oculto.

E para tanto exige-se a atuação dos órgãos sensoriais, já que são as memórias pré-existentes que absorvem a percepção do sistema psíquico do sujeito.

Ao partir da premissa de que, o inconsciente está na linguagem do analisante não percebido do que é falado por aquele que fala.

O Sofrimento Psíquico

Importante esclarecer que a simples tomada de consciência da causa dos sintomas é insuficiente para promoção da cura, ou como diria Freud, para a melhora do sofrimento.

É saudável viabilizar a perlaboração, fundamentada na derrubada de resistências.

Permitindo a incorporação do compreendido a nível pré-consciente e, só depois, com a verbalização, alcançar com maior nitidez a instância da consciência.

Desse modo, através da expressão se diz o que não se queria dizer, revelando, pois, o inconsciente que possui um funcionamento peculiar e incongruente.

Assim, chistes, sonhos, atos falhos e sintomas são consequências conscientes de causas inconscientes.

Desejo E Ato Falho

Sendo referidas representações verdadeiras encenações do desejo, pois o mesmo não reconhece proibições.

Lacan defendia que o sintoma é a realização substitutiva do desejo, sendo a psicanálise uma teoria acerca das consequências do desejo em nós.

Logo, não querer fazer aquilo que está fazendo pode ser uma punição, tal qual se vislumbra diante de um ato falho.

A nossa constituição psíquica inevitavelmente terá a presença do outro.

Expectativa Do Outro

Compreendendo este como sendo tudo o que é externo a mim, o ID que é parte de mim, mas que não sou EU e, por fim, o Grande Outro, denotando o ideal de EU.

O assujeitamento, genuinamente consubstancia um ser de necessidade.

O bebê chega ao mundo num cenário de completo desamparo existencial, necessitando de cuidados para assegurar a sua sobrevivência.

Dessa forma, o papel este desempenhado pelo Grande Outro, que exerce a função materna, inserindo o nascente num berço de linguagem ao interpretar seu balbucio, choro e apresentando-lhe o que há e como funciona o mundo.

De modo que, até mesmo antes de nascer, já recebe um significado, como o nome, a torcida para o time tal, vai usar verde ou laranja, e por aí vai.

E, uma vez transcorrido o período edipiano, outros “atores” também exercerão o papel do Grande Outro, como, por exemplo, professores e líderes religiosos.

Infiltração No Inconsciente

O fato é que o inconsciente é o discurso do Outro, pois é a partir da posição de alteridade do Grande Outro que uma palavra retorna para o sujeito, ou seja, o sujeito recebe o seu próprio discurso.

Assim sendo, sem o Grande Outro não se acessa o inconsciente.

Com efeito, partindo da premissa mencionada, o objeto da análise passa a ser a posição subjetiva em relação ao outro.

Vale dizer: é necessário que o sujeito se estabeleça a partir do posicionamento que ele faz do outro.

Cada vez que se estabelece uma significação para o próprio EU baseado no outro, vislumbra-se a posição subjetiva em relação ao outro.

Diante disso, torna-se imprescindível compreendermos o desejo do Grande Outro que está em nós, para termos a ciência se isso não é fonte de tensões psíquicas.

A Imposição

Bem como, descobrir nosso próprio desejo, no sentido de construir uma identidade a partir do que queremos e não do que nos é imposto.

Portanto, ora precisamos do Grande Outro para nos constituirmos, ora também é preciso se separar desse Grande Outro para não desaparecermos.

Sendo que tal linha divisória é muito tênue e pode causar relevantes tensões psíquicas.

Funções E Tratamento

Por essa outra perspectiva, o início de um tratamento psicanalítico requer do analista a identificação de três funções:

a) Sintomal, voltada a identificação do sintoma analítico que necessariamente tem causa inconsciente;

b) Transferencial, consubstanciada na formação de um vínculo de confiança entre o analista e o analisante, na qual este atribui àquele o rótulo de Grande Outro e;

c) Função diagnóstica, na identificação da estrutura psíquica predominante, se neurótica, perversa ou psicótica de modo a viabilizar a abordagem adequada ao tratamento.

Em face do exposto, através do método da associação livre, viabilizada a partir da atenção flutuante almeja-se alcançar a enunciação, ou seja, ao olhar através do ato da fala.

Além de existir uma intencionalidade no dizer.

Discursos Do Desejo

Lacan dizia que “todas as palavras são feitas para ser implementáveis em todos os sentidos”.

Isto é, a significação se dá sempre por retroação do discurso.

Cada palavra que adentrou no discurso pode ter outra significação.

Sendo certo que a retificação subjetiva convoca o analisante, no seu sofrimento.

E ao olhar para a sua posição subjetiva em relação ao campo do outro e, dar os giros necessários para que então consiga compreender até que ponto está se alienando no desejo do outro.

Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Introdução à Psicanálise de Jacques Lacan da aluna Karina Pereira.

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