Tensões relacionadas à traição conjugal são recorrentes na clínica psicanalítica e demandam uma escuta clínica cuidadosa.

Traição conjugal: Abordagem no setting psicanalítico

Publicado em Publicado em Psicanálise

Tensões relacionadas à traição conjugal são recorrentes na clínica psicanalítica e demandam uma escuta clínica bastante cuidadosa.

Desenha-se um momento em suspenso quando um amante ilícito é revelado em uma relação amorosa que se pensava monogâmica.

Esse momento usualmente é mais contundente para aquele que vinha sendo ludibriado, mas exerce seu efeito de tornado para todos os envolvidos.

O Reflexo Da Traição

A compreensão dessa cena familiar, já que extensamente utilizada nas representações literárias, cinematográficas e quase comum na vida adulta em geral, ainda assim não é uma tarefa fácil.

Ao contrário, trata-se de trabalho hercúleo dado à complexidade psíquica disruptiva que o fato desencadeia.

A família nuclear estimulada desde o patriarcalismo capitalista proposto por Engels em sua obra clássica ‘Origens da Família, da propriedade privada e do Estado’.

Nesta obra consegue-se delinear o papel social esperado de cada componente da cena social familiar.

A má interpretação desses papeis, por qualquer um dos atores da construção familiar, implica na reescrita de toda a história daquele grupo familiar e, portanto, da constatação de traumas simbólicos que precisam ser lapidados.

Transformações

Um dos problemas relacionais enfrentados na intimidade de cada lar é que cada seção dos contratos sociais com os quais as pessoas se comprometem, vem com diversas linhas em letrinhas miúdas.

São pouco invisibilizadas no momento da assinatura e mesmo durante a vigência do contrato, até que algo irrompa em meio a previsibilidade da vida cotidiana, destruindo narrativas e aniquilando certezas.

A metáfora das letrinhas miúdas refere-se aos percalços que o casal certamente enfrentará em sua vida conjunta.

Com situações pelas quais não esperam que acontecessem com eles, embora estejam habituados a testemunhá-las na história de outros casais reais ou ficcionais de quem tem conhecimento.

Manter um relacionamento estável com alguém é assumir um compromisso de parceria que supõe honestidade, transparência e companheirismo, mas em muitos casos, essa ideia é mais do que romantizada.

Facilidade Da Dissolução

Se em um passado não muito distante o casamento era algo difícil de se desfazer devido aos entraves jurídicos e prejuízos sociais e morais, hoje não é algo que demande maior esforço do que outros atos jurídicos similares.

Disso resulta que, na atualidade, os casamentos podem se desfazer rapidamente e com facilidade jurídica.

Portanto, não haveria necessidade real de ludibriar o/a parceiro(a) para colocar desejos sexuais e/ou afetivos com terceiros em prática, sem perder a dignidade e a palavra consignada no momento da união conjugal.

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Ainda assim, casos extraconjugais podem proliferar na vida das pessoas adultas, causando sérios danos emocionais, traumas quase insolúveis e muitas vezes, tragédias imensuráveis.

Na psicanálise nenhum papel social é visto como fixo, tampouco analisado como tal.

A Relação Na Traição

Percebe-se a relação conjugal como um fenômeno dinâmico onde cada um dos parceiros, constantemente, renova sua participação na narrativa, mesmo que para reafirmar o posicionamento que ativamente assume para si.

A complexidade das relações tem centralidade na psicanálise justamente porque é em relação aos papéis dos outros que também assumimos os nossos.

Em meio às muitas maneiras que cada um escolhe se relacionar com o outro, existe uma idealização de exclusividade que parece ser ainda a mais desejada entre homens e mulheres de qualquer orientação sexual.

O ideal de ser único para o outro é um eco longínquo do desejo de termos a exclusividade de nossas mães ou cuidadores somente para nós.

Tanto Freud, quanto Ferenczi e ainda outros psicanalistas salientam que, na infância, existe o desejo de posse.

Posse esta onde durante a fase materna que é parte da constituição psíquica do bebê.

Sentimento De Posse

Este bebê anseia que até mesmo que o olhar da mãe não se desvie dele sequer por um segundo, causando-lhe angústia mesmo com suas breves ausências.

Esse traço parece ser um resquício, na vida adulta, desse anseio de ser único para o outro.

No entanto, ainda que com profundas juras de verdade e fidelidade, lealdade e transparência, existe uma impossibilidade estrutural de sermos únicos e exclusivos para o outro a quem amamos.

Ainda que esse parceiro se mantenha fiel e com olhos só para seu escolhido, essa falta estrutural não pode ser suprida, mas somente ressignificada e suportada, compreendida em sua vertente de fantasia estrutural.

O corte profundo, porém, acontece, quando um dos parceiros se outorga a liberdade.

Ao quebrar as cláusulas do contrato de conjugalidade relacional que por livre e espontânea vontade tenha contraído, sem informar a outra parte.

A Covardia Na Traição

Pode-se perceber que poderia tratar-se simplesmente de informar ao outro do desejo de separação.

Modificar as clausulas do contrato anteriormente firmado, por exemplo, mas por diversas razões dentre as quais podemos citar egoísmo, medo, covardia, vergonha e outras tantas mais.

Prefere-se manter esse lado encoberto enquanto possível, ou até que seja dramaticamente visto.

Quando um caso extraconjugal é descoberto, escancaram-se as ruínas internas em que os envolvidos se encontram naquele exato momento suspenso no tempo,

A pessoa é envolta em incredulidade e decepção, arrependimento ou talvez alívio,

Também há a vergonha e incompreensão atravessado ainda por diversas outras sensações e sentimentos subjetivos.

A Ruptura

Esse terceiro elemento que se interpõe na relação causa uma ruptura brusca e profunda.

A âncora e a urgência de uma gestão crítica da crise é instalada.

Desse lugar alcançado, ás vezes sem querer, não há como sair sem decidir as perdas e danos.

Terá de conviver com um fantasma incômodo na relação.

Assim, o casal é uma formação insubstancial composta de um acordo tácito onde a pedra basal da estrutura é a palavra de cada uma das partes, de estarem juntos.

Denomina-se “palavra” porque um casal pode ser decorrente de diversas necessidades individuais, conscientes ou inconscientes.

De qualquer forma, mesmo nos mais variados modelos de casal, existe a ligação.

E que invariavelmente, repousa no acordo de parceria que é traduzido através de alguma forma de linguagem.

Pode-se seguir em frente, ainda assim.

Porém, a reconfiguração é profunda e, num primeiro momento o casal fica suspenso entre os dois que o compõe para encarar a “terceira pessoa inesperadaa”.

Estruturas Sociais

Aspectos sociais e (supostamente) fisiológicos, a traição é algo recorrente na literatura e nas artes cênicas.

Desde as tragédias e as epopeias gregas, passando por Shakespeare, chegando na contemporaneidade, é um tema que não perde sua constante atualização.

Quase sempre retratada com indulgência quando quem trai é o homem.

A sociedade contemporânea é mais propensa a normalização da infidelidade masculina.

Historicamente construída e atribuída a uma suposta intensa necessidade sexual masculina que ultrapassa os limites do matrimônio como instituição social e de direitos.

A infidelidade masculina ainda conserva um status naturalizado em detrimento ao mesmo comportamento quando performado por uma mulher.

Reproduz estruturas sociais consolidadas e que se tornam um pano de fundo inconsciente para as relações sociais.

Sendo a infidelidade masculina mais um elemento normalizado de desigualdade de gênero e de normas sociais injustas.

Infidelidade Sem Gênero

Quando mulheres são infiéis em seus casamentos, se tornam alvo de outro tipo de julgamento.

Onde as colocará em um lugar de degradação e deslegitimação moral, reforçando estigmas que associam sua sexualidade à promiscuidade e à desonra.

Enquanto práticas similares de traição realizadas por homens tendem a ser naturalizadas ou mesmo socialmente valorizadas como expressões de virilidade.

Acrescenta-se ainda que, longe de ser decorrência de uma suposta maior necessidade sexual reservada aos homens.

A infidelidade masculina é frequentemente vista como aceitável sob uma lógica de permissividade sexual masculina inacessível às mulheres.

Tentativa De Reconciliação

No manejo terapêutico quando um casal chega a clinica e precisa discorrer sobre uma traição, é muito natural que o assunto seja um campo profundamente doloroso.

Normalmente, o casal já passou para a fase em que quem foi ludibriado decidiu-se, a príncipio ainda apostar na possibilidade de continuação da relação.

Nesse momento o que se sugere é sugerir etapas de restauração das diversas camadas da confiança emocional.

Paralelamente, é importante que os dois tenham a oportunidade de compreenderem a si mesmos na relação, de forma a tomarem decisões conscientes sobre a continuidade e na restauração da confiança.

Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Terapia de Casais da aluna Milena Costa.

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