Uso da IA e Menoridade Kantiana: Quem pensa por nós?

Uso da IA e Menoridade Kantiana: Quem pensa por nós?

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A menoridade kantiana consiste na incapacidade de usar o próprio entendimento sem a orientação de outra pessoa, conturbando o uso frequente da IA atualmente.

Um dos textos de Immanuel Kant mais famosos se chama “Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento?” (1784).

Nele, o filósofo define o Esclarecimento (Aufklärung) como a saída do ser humano de sua “menoridade”, da qual ele mesmo é culpado.

E a culpa é do indivíduo quando essa incapacidade não vem da falta de razão, mas da falta de coragem e decisão para usá-la sem tutela alheia.

Saber e Coragem

Não à toa, Kant resume o Esclarecimento em uma única expressão: sapere aude — “ousa saber”, ou “tem a coragem de usar o seu próprio entendimento”.

O que mais me impressiona é que esse texto de apenas oito páginas, escrito no Iluminismo, há mais de duzentos anos permaneça tão atual.

Kant insiste na ideia de que as pessoas permanecem na menoridade por preguiça e covardia.

Cita exemplos como ter um livro que pensa por mim, um guia espiritual que tem consciência por mim, um médico que decide a minha dieta, onde tudo para que a pessoa não precise se esforçar nem usar a própria mente.

Agora imagina se Kant estivesse vivo em tempos de uso da IA.

Delegação do Tempo

Mesmo antes da IA, já se percebia muita gente delegando tarefas que poderia fazer sozinha.

A declaração do imposto de renda, por exemplo.

Por que entregar a outro o preenchimento de um documento que dispõe sobre o quanto de patrimônio você possui?

Não é interessante saber disso? Há quem alegue falta de tempo. Mas, será mesmo?

Será que as duas horas diárias no TikTok não poderiam ser trocadas pela aquisição de algum conhecimento, nem que seja sobre o seu próprio patrimônio?

Os exemplos são muitos, e é claro que todos têm o direito de ter preguiça e delegar suas tarefas.

Mas, e o uso da IA? Aqui a coisa não é tão simples.

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O Tempo Precioso

Recorrer à inteligência artificial nem sempre é mera preguiça: muitas vezes é otimização de tempo.

A IA é fantástica, se bem utilizada.

Tive um chefe que admiro muito e, outro dia, ele me apresentou a teoria do “paradoxo da IA”.

Existe uma linha muito tênue entre a geração Y (1981-1996) e a geração Z (1997-2010).

A geração Y se formou como ser humano sem IA: teve que aprender a pensar, a perguntar, a refletir, a decorar a tabuada, são outros tempos.

Já a geração Z cresceu com a tecnologia: a IA resolve, a IA pensa, a IA decide.

Conflito de Gerações

Quem é da geração Y tende a usar a IA com mais critério, justamente porque precisou desenvolver algum raciocínio crítico e analítico antes dela, ao passo que a geração Z, não.

Daí tantas críticas ao uso deliberado da IA, sem nenhum crivo.

E aí está o paradoxo: quem menos precisa da IA é quem melhor a usa.

Será que a IA vai exacerbar o estado de menoridade?

E será que esse estado é necessariamente ruim?

É tão bom ter preguiça e perguntar para a IA o que fazer! Como tudo na vida, há um lado bom e um lado ruim.

Uso da IA Como Ajuda

Usar a IA sem nenhum critério analítico tende a ser perigoso, usá-la sabendo questionar, e tendo conhecimento suficiente para reconhecer quando ela erra, parece-me um bom caminho.

E talvez seja justamente aqui que Kant continue nos cutucando depois de duzentos anos.

O problema nunca foi a ferramenta, como o livro, o médico, o guia espiritual ou a IA.

O problema é a renúncia: entregar o próprio entendimento e parar de pensar.

A IA não nos condena à menoridade nem nos salva dela, ela apenas torna a escolha mais nítida e mais cotidiana do que nunca.

A cada pergunta que fazemos a uma máquina, resta sempre uma outra, que só eu posso responder: eu ainda estou pensando, ou só estou obedecendo?

Aquele sapere aude de Kant talvez nunca tenha sido tão necessário quanto na era em que ousar deixou de ser preciso.

Este artigo foi desenvolvido pela aluna Lívia Maffei Costa exclusivamente para o Blog Psicanálise Clínica.

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