O narcisista é manifestamente cego à ideia do absurdo, uma vez que o espaço que separa os anseios humanos do plano de suas realizações é suplantado pela imponência de sua própria imagem e semelhança.
Segundo o mito, Narciso era um jovem de beleza extraordinária, capaz de provocar o amor e a admiração dos colegas.
Apesar de ser considerado uma pessoa amável, ele desprezava o carinho de todos que o conheciam.
Entre os que o admiravam estava Eco, a deusa condenada a repetir as últimas palavras que ouvia e, em virtude da rejeição de Narciso ao amor declarado de Eco, os deuses se revoltaram, decidindo punir o jovem.
Amor Por Si Mesmo
Certo dia, enquanto caminhava pelas margens de um rio de águas cristalinas, Narciso apaixonou- se perdidamente pela sua própria imagem refletida à frente.
Mas, ao tentar tocá-la e abraçá-la, a figura desaparecia no último instante.
Consumido pela angústia de um amor inalcançável, Narciso morreu debruçado às margens do lago.
Em seu lugar, nasceu uma bela flor que recebeu o seu nome.
Escrito há décadas antes de Cristo, o mito de Narciso remete a um daqueles textos que escoam na perenidade do tempo e desabrocham, a cada leitura, uma infinidade de reflexões sobre a mensagem passada.
O simbólico transmitido virou tema de poetas, filósofos, educadores e, na modernidade, psicólogos e outros estudiosos da saúde mental.
Narcisista e Seus Excessos
Uma vez que a tragédia emanada da autoviolência, provinda do excesso de ternura de si mesmo, isto é, da própria imagem, retrata um conflito humano que dificilmente se explica por meio de apenas um ponto de vista.
Popularmente, o termo narcisismo (ou a pessoa narcisista) se tornou o logo central dos inquisidores da moral ao apontar aquele que, na impressão das vistas, se enxerga como o centro das atenções e no qual as questões do mundo giram em torno de si.
Ou cujos cuidados consigo são excessivos em detrimento da normalidade.
É o indivíduo que obstrui a timidez com o triunfo de uma confiança sem igual.
Capaz de transformá-lo no mais belo elefante da sala, a extravagância dos gestos, tom de voz e palavreados adornam a imagem que se alimenta, como um urso, da reverência alheia.
O Inalcançável
Em meados dos anos 60, Albert Camus expôs a filosofia do absurdo para explicar a condenação eterna da separação entre o mundo e o ser humano.
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Suas obras elucidam o abismo intransponível que o homem luta para atravessar em busca dos desejos ofertados pelo mundo.
Enquanto este, na condição de detentor dos desejos do homem, é visto como a miragem de uma esperança inalcançável, análoga à linha invisível do horizonte que se afasta na medida em que dela nos aproximamos.
É o real construindo morada num terreno dissociado das pulsões de seres incapazes de abraçar o que nela fora prometido, dando de cara, portanto, com as limitações da espécie.
Narcisista e Confiança
As promessas externas recebidas por aquele que anseia pela realização são causa e consequência únicas de suas vontades, dada a capacidade de o narcisista, ao diluir qualquer possibilidade de fronteira, estar centralizado nas questões do universo, transformando as instâncias opostas num fiel reflexo do seu retrato.
A ignorância de nossas limitações, para o indivíduo narcisista, é resultado direto de nossos fracassos, e não fruto visceral da estrutura da vida.
Em outras palavras, o plano dos anseios humanos e a humanidade que nele anseia é, por excelência, ele mesmo.
Confiança, amor-próprio e imponência são, à primeira vista, virtudes que todo narcisista, segundo o senso de nossa impressão, toma de maneira exagerada para si, uma vez que nos acostumamos a classificar as pessoas com base no que elas apresentam no comportamento.
O Espelho
Olhamos para o sujeito e, por vezes, nos derretemos perante uma autoestima de dar inveja até mesmo ao mais excêntrico dos colegas.
Uma vez que a peculiaridade expõe um tipo de espelho, em vez da figura do outro e encarar o espelho é lidar com a autocrítica.
No entanto, a psicanálise nos ensina e nos prova, todos os dias na clínica, que, embora criemos presença por meio de nossas atuações no mundo, existimos onde as palavras não falam, limitando-nos a dar sinais através da emergência dos afetos.
Os desejos governam as percepções do mundo, pois elas germinam as bases usadas para a razão formalizar as ideias e o pensamento.
O Eu do Narcisista
As palavras são o recurso do raciocínio e este, ao se estender à ação, constrói as vigas para a formação de quem somos na sociedade.
O Eu é o produto das turbulentas relações com a vida, e o fazer diante da vida é a extensão da lógica racional que, na posição de promotor das ideias, viabiliza as experiências internas, tal qual o bolo que existe na medida da ação da forma.
Em suma, ninguém idealiza e interpreta sem que, antes, haja um desejo catalisando a direção da interpretação e da idealização, destilando a lógica cartesiana do existir enquanto pensamos em “sentimos, logo existimos”.
Dessa maneira, o excesso se avoluma como uma bandeira que, além de impressionar o outro, impressiona também a si mesma, garantindo e reafirmando a presença do atributo que se pretende expressar.
A Persuasão
Se exalto a todos de maneira branda, sobretudo em vias de confronto, como um grito que proclama a inteligência ou a beleza que suponho possuir, acabo por atribuir ao convencimento um valor maior do que ao próprio atributo.
E assim, no fundo, já não importa tanto possuir a inteligência ou a beleza, mas fazer com que o outro reconheça, e que eu mesmo me assegure de que as possuo.
Quando a imagem extrapola os limites do prestígio em si mesmo, isto é, apartado da validação alheia, para dar lugar aos anseios da persuasão, já não se refere mais ao valor propriamente dito, e sim à busca da crença do outro.
Este percurso psíquico, embora implícito ao juízo, denota uma falta profunda, na qual a delimitação dos prejudicados serve como escudo para a defesa diante dessa fragilidade.
Narcisista e Ego
A superestimação, portanto, serve de munição contra os difíceis embates do fantasma do sofrimento, gritando para que o mundo se renda à mentirosa máscara da autoestima.
Para um bom entendedor, nem sempre meia palavra basta, pois é necessário ouvir o que elas não dizem, para adentrar no subsolo de nosso mais fiel habitat.
Na medida em que as rédeas do Ego se dissolvem, clamamos encarecidamente para que os excessos resguardem nossa angústia e a transformem numa grandiosa coroa.
Artigo escrito por Eli Vieira para o Blog do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica.
