Como Nossos Pais

Como Nossos Pais: interpretação da canção de Belchior

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O sucesso “Como Nossos Pais” foi escrito pelo saudoso Belchior (1946-2017), mas foi perpetuada e conhecida nacionalmente principalmente através da interpretação de Elis Regina (1945-1982) para o disco “Falso Brilhante” (1976).

Importante mencionar que essa música originalmente é do álbum “Alucinação”, do Belchior. O álbum possui músicas que basicamente retratam do mesmo tema, tanto que ao prestarmos atenção percebemos que todas as canções possuem uma espécie de filosofia fixa, já que viver é melhor que sonhar, nada mais inteligente que uma forma de sintetizar toda essa filosofia abordada em sua obra.

Entendendo a canção: Como Nossos Pais

“Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos quero lhe contar como eu vivi e tudo o que aconteceu comigo”

É perceptível dois segmentos diferentes escritos. O eu lírico não quer falar de coisas compreendidas em livros, discos e das mais diversas teorias. Ele quer falar sobre a prática e sobre tudo aquilo que ele aprendeu se ao longo das dificuldades enfrentadas em sua vida. O aprendizado adquirido através do sofrimento enfrentado em sua vida e da forma mais terrível possível.

Nesse trecho é basicamente constatado a ideia de realidade contra fantasia, ficção ou coisas que são politizadas. O compositor foi um pouco mais duro quanto a isso porque ele mostrou que hoje nós estamos recebendo muitas verdades desagregadas através destes discos e livros.

Ele sugere que temos que ir ouvir as pessoas, ver de fato como essas mesmas pessoas sofrem e como a visão delas será um pouquinho diferente do que o pessoal dos discos e livros.

Viver é melhor que sonhar

“Viver é melhor que sonhar eu sei que o amor é uma coisa boa mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”

A realidade é bem pior do que a fantasia criada. É muito mais difícil do que o canto e dos escritos encontrados em um livro. Assim, criou-se o jargão que viver é melhor que sonhar e, a única certeza, é que o amor é uma coisa boa. Belchior reitera que o amor é importante, que é uma coisa legal.

Outro ponto nesse trecho: qualquer pessoa cantando não vai chegar na dimensão que é a realidade da vida. Não chegará ao conhecimento da dureza da vida de alguém que está respirando pelo mundo a fora.

Daquele que está tendo vários contatos com os outros e recebe, por sua vez, várias pancadas proporcionadas por essa mesma vida.

Em Como Nossos Pais: “O sinal está fechado prá nós”

“Por isso cuidado meu bem há perigo na esquina eles venceram e o sinal está fechado prá nós que somos jovens”

Quem foram os vencedores? Aqui é muito importante pensarmos um pouco sobre a época em que a música foi lançada. O ano era 1976. Período marcado pelas incongruências da Ditadura Militar, no qual a letra retrata em sua totalidade o desapontamento da juventude, mas por outro lado, havia esperanças de dias melhores através de lutas constantes pela posse concreta da democracia na sociedade brasileira.

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É lógico que o “eles venceram” retrata o autoritarismo de quem estava no poder. Já “e o sinal está fechado pra nós que somos jovens”, mostra que são rigorosamente os jovens que tentaram questionar e foram em busca de alguma mudança significativa, assim como havia ocorrido na década de 60.

Como Nossos Pais e um paralelo entre as décadas de 60 e 70

Façamos, agora, um paralelo entre as décadas de 60 e 70. A primeira foi um período em que os jovens reclamaram de muitas coisas, protestaram contra a tirania e houve o surgimento do movimento Tropicalismo, no qual trouxe inovação à sociedade brasileira ao misturar diversas vertentes culturais.

Já a segunda, por sua vez e, segundo a canção, esses mesmos jovens estavam agora parados. Não faziam mais nada. Alguns já tinham enriquecido com o seu discurso, outros simplesmente foram eliminado ou eram calados pelo sistema. Então o sinal estava completamente fechado para aqueles jovens.

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    A partir de agora, Belchior trará a sua visão frente a algumas relações que foram alteradas com base no histórico desses jovens que lutavam e depois pararam.

    Para que perder as noites com questões políticas e econômicas?

    “Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua é que se fez o seu braço o seu lábio e a sua voz”

    Braço, lábio e voz, antigamente eram sinais de protesto. O braço era seu, você tinha o lábio e a voz. Essa voz não era calada. Não se calava perante a um sistema opressor. Mas veja hoje, está completamente dissociado.

    O seu lábio e a sua voz foram feitos para abraçar o seu irmão e beijar sua menina em qualquer lugar. O que está ocorrendo hoje é a falsa sensação de que não temos mais com o que nos preocupar. Para que perder as noites com questões políticas e econômicas? É, simplesmente, sentarmos e contemplarmos o que foi construído.

    Uma espécie de alienação

    Agora os nossos braços, lábios e voz são feitos para o amor e para esquecer um pouquinho dos problemas, ou seja, uma espécie de alienação de não estarmos tentando lutar contra aquilo que é vigente, contra aquilo que pode estar nos fazendo mal. É perceptível que há algumas críticas, em que com certeza valem tanto para hoje quanto para muitos momentos históricos.

    A referência feita ao passado e a necessidade de o esquecermos também é ressaltada nesse trecho. Ora, há coisas que estão sendo construídas não é mesmo? O passado, acabou.

    Há quem considere o passado infinitamente melhor em termos de arte, política e sociedade. Diz que o passado era melhor e que absolutamente tudo era melhor antes. Hoje, temos resquícios dessas memórias, porém tudo é ruim, vazio e triste.

    Uma referência ao sentimento de dor

    “Você me pergunta pela minha paixão digo que estou encantado como uma nova invenção eu vou ficar nesta cidade não vou voltar pro sertão pois vejo vir vindo no vento cheiro de nova estação eu sei de tudo na ferida viva do meu coração”

    É feito uma referência ao sentimento de dor, aquela ferida que insiste em ficar no coração. Imagine uma ferida exposta, em que qualquer contato com ela causa uma dor gigantesca. Até mesmo um simples vento a faz doer.

    Belchior escreveu que a verdade que o vento causador desse sofrimento promete acontecimentos novos, ou seja, aqui ele percebe a possibilidade de um presente ao observar que as pessoas estão vivenciando o passado, porém fazem muito pouco e, ainda assim, é possível vislumbrar uma situação sendo alterada. Logo, quando é questionado a ele sobre a sua paixão, o eu lírico está completamente encantado, semelhante a uma nova invenção.

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    A canção sempre remete ao novo. O passado ficou para trás. É importante colocarmos que está sendo destacado o fato da não necessidade de reverenciar de forma exacerbada o passado. É quase como: acorde e perceba o presente, caso contrário você ficará sem futuro.

    Como Nossos Pais e a sociedade

    “Já faz tempo eu vi você na rua cabelo ao vento gente jovem reunida na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais”

    Aqui, o compositor evidencia que faz tempo que ele percebeu alguma atitude acontecendo em nossa sociedade. Discorre que recordar essas coisas é lembrar de uma movimentação como se fosse uma memória retrógrada, dói mais ainda ao perceber como eram as coisas e a forma em que se acomodaram no presente.

    Machuca perceber que antigamente os jovens se levantavam contra o sistema e que agora estamos simplesmente lembrando que aquele tempo considerado bom e maravilhoso. Enquanto isso, em nosso presente, estamos sentados, aceitando tudo discriminadamente ou sem pensar.

    Não faça referências a discos e livros, não fale de recordações, mas sim do presente e daquilo está vivenciando hoje, pense no que é concreto e não no abstrato.

    Reverenciando o passado da mesma forma que os nossos pais

    “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”

    Tudo aquilo já aconteceu e sofremos muito ao lembrar. Hoje, continuamos iguais e vivemos inertes como aqueles que comumente em nossa juventude criticamos, nossos pais.

    Paremos para pensar as palavras que usamos a eles em nossa fase mais anos rebelde. Antiquado, arcaico, atrasado, obsoleto e velho. O que acontece é que hoje, percebe-se que estamos no mesmo estágio: reverenciando o passado da mesma forma que os nossos pais.

    Nosso cenário musical e o contexto da canção

    “Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não você diz que depois deles não apareceu mais ninguém”

    Eu, particularmente, gosto muito desse trecho, especificamente. Os mais antigos pensam que depois de Caetano Veloso, Chico Buarque, Raul Seixas e Rita Lee não aconteceu mais nada em nosso cenário musical. Mas pensem bem. Apareceu o Djavan, Lulu Santos e Zeca Baleiro. Nem tudo está perdido, mas a discussão é antiga.

    Há pessoas que insistem em reverenciar o passado, acreditam que tudo parou ali, naquele tempo, mas não. São exatamente essas pessoas que não seguiram. Elas decidiram não continuar.

    Um futuro melhor

    “Você pode até dizer que eu ‘tô por fora ou então que eu ‘tô inventando mas é você que ama o passado e que não vê é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”

    É evidenciado a importância de abrir a mente, mudar o foco e descobrir todas as possibilidades existentes no presente. Há diversas maneiras, hoje, de ser e ver o mundo. O que ocorre é que infelizmente muitos estão estagnados, parados. Permanecendo assim é impossível encontrar motivação para continuar.

    No passado houve muitas coisas boas, mas acabou, é impossível voltarmos para vivenciá-lo. O hoje precisa ser construído com decisões que farão o futuro melhor que as experiências e raízes do que foi vivido.

    Como Nossos Pais: migalhas de atenção, amor e dinheiro

    “Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude ‘tá em casa guardado por Deus contando vil metal”

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    Neste trecho, o compositor enfatiza novamente a ideia daquele que lutou por seus direitos, levantou bandeira pela democracia liberdade.

    Porém, infelizmente, hoje, essa mesma pessoa que proclamava o discurso de aceitação e paz está supostamente seguro em sua casa, protegido unicamente por sua fé e aceitando as migalhas de atenção, amor e dinheiro. Tanto o sujeito quanto os seus ídolos foram entregues ao sistema.

    Conclusão

    Belchior afirma que permanecer admirando o passado não resolve o problema, uma vez que é natural que nós sejamos como os nossos pais. Acredite, declara, ao pensarmos assim, a sociedade ficará estagnada e não haverá nada de novo, apenas círculos e mais círculos em volta das repetições vividas pelos nossos pais.

    A ideia central é: contemple o passado sim, contudo, não desmereça o presente. Não há qualquer atuação e possibilidade de intervenção nos fatos do passado, mas o presente, esse com certeza conseguimos ajudar a melhorar.

    No mais, todo o disco aborda essa problemática. Então, vamos aproveitar essa lembrança de Belchior e ouvirmos as faixas de seu álbum, “Anunciação”.

    O presente artigo sobre a música Como Nossos Pais (Belchior) foi escrito por Wallison Christian Soares Silva ([email protected]), Psicanalista, Economista, especialista em Neuropsicanálise e pós-graduando em Gestão de Pessoas. Estudante de Letras e Literaturas.

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