Amor Inventado e Amor Romântico em Psicanálise

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É difícil falar de príncipes e princesas em uma época em que as estórias que começam por “era uma vez” parecem estar condenadas ao esquecimento. O amor inventado e o amor romântico são partes desta reflexão. São tantas posições antagônicas, são tantos ‘mimimi” sobre o que é ser um príncipe e uma princesa, que a figura do “príncipe encantado” talvez acabe se perdendo com o tempo, e o amor deixe de ser inventado.

Para aqueles que precederam esse tempo do politicamente correto e puderam desfrutar as suas fantasias sem culpas pueris, os castelos dos contos de fadas não traziam culpas, traziam apenas uma espécie de diversão guardada em sonhos infantis.

Nossa capacidade de fantasiar um Amor Inventado

O bom de ser humano é que temos uma capacidade nata de fantasiar, de construir, para o bem ou para o mal, fantasias que muitas vezes, parecem trazer sentido as nossas vidas. Somos capazes de inventar um amor. De viver um amor inventado, construído sobre uma fantasia que muitas vezes, tem tudo a ver com contos de fadas.

É possível dizer que o amor romântico nasce sempre do nosso desejo de construir uma persona que está em nós e que é transferida para o outro, amamos alguém, que muitas vezes só existe em nossos sonhos e desejos.

Se todos fossem iguais a você (ou a mim) Essa afirmação é muito fácil de ser confirmada, afinal a maioria das pessoas se relaciona tentando mudar a outra, moldando-a a sua vontade, amamos não o que o outro é e tem, mas sim o que queremos que ele seja, afinal, nós construímos em nossas mentes os parceiros ideias não só nas questões físicas, mas também nas questões emocionais e comportamentais.

A idealização do parceiro no amor romântico

Se a escolha instintiva do parceiro ideal nos manteve e nos mantém como raça ao buscar o melhor para a procriação, a busca inconsciente do parceiro ideal estabelecido no amor romântico nos leva via de regra a grande decepções e a profundas tristezas a medida que percebemos o outro como ele é a impossibilidade de o mudarmos segundo a nossa
imagem e semelhança.

Tenho ouvido com frequência as expressões: “ah se ele fosse assim”, “ah se ela agisse assim”, “ah se ela fizesse isso ou aquilo”, seria tão bom. Poucas vezes ouço alguém dizer: “ah se eu fosse assim”, “ah se eu agisse assim, “ah se eu fizesse isso ou aquilo”.

Na maioria das vezes nós queremos a mudança do outro se adequando ao nosso desejo e às nossas vontades, para que então possamos alcançar a felicidade que inconscientemente estabelecemos sobre as nossas fantasias, segundo o nosso amor inventado.

O que é a Felicidade para a Psicanálise?

Essa tal felicidade (a felicidade segundo uma visão psicanalítica), o que é? Em todos os meus anos de vida, não me lembro de ter encontrado uma única pessoa que não buscasse a felicidade, nesse anos todos, também encontrei poucas pessoas que não estivessem disposta a colocar a sua felicidade nas mãos de alguém, via de regra, as pessoas iam na direção oposta daquilo que Freud dizia sobre a felicidade:

A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz.

Uma esmagadora maioria acredita que a felicidade está em alguém que chegará montado num cavalo ou será encontrado em alguma esquina da vida, alguém que é a sua cara metade, o pedaço que falta, a peça que completa o quebra cabeças da sua vida, o foguete que o levará a ver estrelas.

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Os problemas do amor inventado:

  • ele sempre exigirá o outro, mesmo que o amor não seja correspondido, ou até mesmo quando ele não é real, sem o outro, o amor romântico não se realiza;
  • ele coloca a felicidade como uma responsabilidade do outro, se coloca também no outro, um peso insuportável, que na maioria das vezes não traz a felicidade de um e destrói a felicidade do outro.

A citação de Freud traz à luz uma questão absolutamente lógica. Se a felicidade é subjetiva e nem sequer pode ser mensurada, como aconselhar a alguém, o que fazer para alcançar a felicidade?

Encontrando felicidade e amor não idealizados

Neste artigo o que pretendemos é falar da felicidade colocada no amor romântico, que ainda é um propósito de vida, para muitas pessoas.

1. Eu agora sou feliz

Se também analisarmos que Freud disse que “que cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz” podemos entender que antes de buscar a felicidade em alguém ou mesmo tentar fazer alguém feliz, precisamos encontrar em nós e por nós mesmos a felicidade, e para isso precisamos olhar mais para dentro de nós do que para fora.

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O amor romântico tenta sempre buscar no outro, algo que falta em quem busca, para assim achar a felicidade. Me lembro de uma estória que ouvi há muito tempo de um homem que saiu pelo mundo buscando uma mulher perfeita e depois de andar mundo a fora a encontrou e então aconteceu algo inesperado para ele, ela também estava procurando o homem perfeito e ele não era esse homem.

O que essa estória quer demonstrar é que estamos sempre buscando no outro o que parece nos fazer falta para sermos felizes. Para muitos, parece não ser possível ser feliz sozinho, sem dividir a vida com alguém e por isso mesmo, o medo enorme da solidão que ronda a maior parte das pessoas.

2. Eu agora vivo em paz

Se aprendermos a sermos felizes sozinhos, nunca precisaremos viver um amor inventado e o amor romântico não será para nós uma busca sem fim, será sim um encontro casual, dado por afinidades e não por necessidades, afinal não estaremos buscando a felicidade, estaremos apena vivendo a nossa própria felicidade.

Como escreveu o poeta Mário Quintana:

O segredo é não correr atrás das borboletas…
É cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar,
não quem você estava procurando,
mas quem estava procurando por você!
Cuide bem do seu jardim.

Sobre o Autor: Amarildo Fernandes é psicanalista, teólogo e psicopedagogo com formação em P.N.L., especialista em terapia de casais. Artigo escrito exclusivamente para o blog do Curso de Formação em Psicanálise.

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