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Cremação: implicações psíquicas

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Nesse artigo (pequeno enfoque) vamos tratar do tema do ato da cremação funerária, que ainda é muito sensível à consciência individual e social. Vamos responder a uma indagação proposta: “Quais são as implicações psíquicas e cronológicas do ato de cremação do corpo pós mortem?”

Introdução.

Nesse artigo (pequeno enfoque) vamos tratar de um assunto muito delicado e que continua gerando debates e possui prós e contras, o ato de cremação do corpo após a morte. A cremação tem sido cada vez mais procurada no Brasil.

Anuários registram que entre os anos de 2017 e 2018, o Brasil, dentre vários países do mundo, registrou o maior aumento de cremações, um incremento de 35% e depois a cremação no tecido social foi se difundido pelo país todo.

Esse aumento na procura se deve, entre outros fatores, pela postura da Igreja Católica ter flexibilizado o tema e deixado de condenar a prática como não indicada aos cristãos. Cada vez mais vem crescendo a procura e opção pela cremação no Brasil.

Neste enfoque vamos examinar:

  • o que é a cremação;
  • sua origem;
  • a auto opção consciente de muitos pela cremação do corpo;
  • o risco de uma tentativa de imposição legal higiênica;
  • a questão da cremação quanto a memória da pessoa e na conclusão, vamos ofertar uma resposta sobre a indagação: “Quais são as implicações psíquicas e cronológicas do ato de cremação do corpo pós mortem?

Para entender bem a questão, temos que buscar preliminarmente, o que é a cremação e as suas origens e evolução.

O que é a cremação?

A cremação é uma técnica funerária que tem como objetivo carbonizar (queimar) o corpo humano atestado como morto, falecido, sem vida, e reduzir em cinzas, através de um processo de fornos, onde ocorre a queima total do cadáver.

O método tem sido comum no mundo ocidental como expressão de um ritual cerimonial em fornos crematórios desenvolvidos para esse fim. A cremação é um rito pós-atos de funeral e tem sido uma alternativa já aceita pelo tecido social que, em teoria, oferece menor risco ambiental do que o sepultamento por inumação ou entumulamento do corpo em covas.

A origem da cremação e sua evolução

A cremação não é uma prática moderna. Existem registros históricos da prática do ato da cremação com uma opção de sepultamento por formação de cinzas, cerca de 3.000 anos A.C.

Arqueólogos já localizaram indícios da prática

  • na Europa,
  • nas Américas pré-Colombianas;
  • na Ásia, em especial Índia;
  • no Oriente Médio e Oceania.

As fontes bíblicas canônicas e apócrifas registram também, episódios de cremações. Consta que por volta de 800 A.C, as Ilhas Britânicas e Irlanda, passaram a pratica o ritual, que já existia no norte da Itália, desde os tempos dos romanos, na Grécia Antiga, Hungria, Espanha, Portugal e oeste da Ásia.

No Oriente Médio, no tempo da ocupação romana na Judeia e Palestina, iniciaram a prática que já existia antes, também, em alguns pontos. Os gregos começaram a prática por volta do ano 1.000 A.C.

Os romanos, seguindo na mesma linha de tradição e oficialmente adotaram a prática a partir de 750 A.C. Evidente que a cremação era restrita aos nobres. Os criminosos, assassinos; os suicidas e pessoas atingidas por raios, eram tidas como malditas pela praga ou “maldição de Júpiter’ e eram sepultados por inumação, (enterrados).

Os gladiadores de sucesso e quem era cidadãos gregos ou romanos eram entumulado (túmulo seja de parede ou solo). Interessante que crianças antes de terem seus primeiros dentes, também eram sepultadas na terra, em covas. Vale salientar que no Japão a cremação começou por volta de 552 A.C, com a adoção do budismo, este importado da China.

Muitos países na pré modernidade e na modernidade emergente, começaram a cremar a classe aristocrata. Com exceção da Índia que eram todos cremados na beira do rio Ganges em rituais coletivos e públicos.

Alguns países adotaram o ato da cremação por questões de espaço territorial e higiene.

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    No Brasil, o primeiro crematório foi fundado em 1974, em São Paulo. O “crematório Dr. Jayme Augusto Lopes” que tornou-se um dos maiores crematórios do mundo e pioneiro na América Latina. A partir dos anos de 1980, surgiram em todo o país crematórios e convênios de translado de corpos para cremações.

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    Outros dados e informações considerados úteis sobre a cremação

    Em 1872, três cientistas da Itália, revolucionaram a cremação ao construírem um forno capaz de gerar altas temperaturas para cremar corpos em questão de poucas horas. No Brasil até 1963, a Igreja Católica não aceitava a cremação.

    O Concílio Vaticano II removeu a proibição. Algumas religiões relutam em aceitar ainda a cremação, como o judaísmo, o islamismo, o candomblé. Outras, é rito de passagem obrigatório, como Budismo e Hinduísmo. O espiritismo recomenda aguardar de 2 a 3 dias, ou no mínimo 72 horas, para o espírito se desvincular do corpo físico.

    O tempo varia de acordo com a estatura física da pessoa, podendo levar entre uma hora e meia a duas horas e meia a cremação, onde pessoas obesas cremam mais rápidos face gordura. Quando se é cremado o caixão queima junto.

    Geralmente é aguardado por lei, 24 horas, antes da cremação, em razão da ‘catalepsia patológica’ que pode indicar morte, mas haver sinais latentes e ocultos de vida ainda. Com relação a valores, atualmente, em teoria, estimam a partir de R$ 6.000,00 uma cremação.

    O valor contempla o cerimonial de salão e a urna das cinzas. A cremação de restos mortais já ossificados, dos inumados e entumulados, constam que tem um valor estimado a partir de R$1.500,00, evidente que à cotar. As cinzas de uma pessoa cremada poderão conter os dentes, que podem resistir até 1.000ºC, e dentro tem uma cavidade cheia de células da polpa, conhecida antigamente como “o nervo do dente Modernas técnicas trituram além de remover partes metálicas de cirurgias, como titânio e aço .

    Geralmente, familiares que não sabem bem o que fazer com as cinzas adquirem ou alugam um columbário, ou seja, um local no cemitério onde colocam-se as urnas com cinzas de pessoas que foram cremadas que são espaços climatizados, com assentos confortáveis e que dão a oportunidade para que as pessoas possam prestar suas homenagens naquele local no dia dos finados.

    Os valores variam a partir de R$ 3.000,00 por um ossuário privativo, com a taxa de manutenção. As cinzas de uma pessoa geralmente pesa oscilando entre 1 a 2 Kg de adultos de estatura média. O caixão passa por detector de metais portátil na altura do peito do cadáver para constatar se tem ou não marca passo no corpo que pode explodir devido alta temperatura.

    Por fim, a fumaça sem cheiro do crematórios deve ser observada, pois os gases passam por uma câmara secundária através de uma passagem que filtra e leva para uma chaminé já isenta de cor e cheiro. A auto-opção consciente pela cremação do corpo ‘pós mortem’.

    A cremação no Brasil

    No Brasil, possui restrição na lei, onde na LRP – Lei nº 6.015 de 31 de Dezembro de 1973, vamos encontrar no seu Artigo 77, paragrafo 2º que expressa os seguinte: “A cremação de cadáver somente será feita daquele que houver manifestado a vontade de ser incinerado ou no interesse da saúde pública e se o atestado de óbito houver sido firmado por 2 (dois) médicos ou por 1 (um) médico legista e, no caso de morte violenta, depois de autorizada pela autoridade judiciária.”

    Muitos Munícipios e Estados possuem suas leis próprias sobre a cremação em relação meio-ambiente, instalações, alvarás e tudo mais. O ato de cremação é uma opção pessoal, porém, poderá ser decisão familiar em vários casos de acidentes, doenças.

    Existe um projeto de lei de 2013, de autoria do deputado federal Leopoldo Costa Meyer, (29/11/1949) engenheiro civil e político brasileiro, filiado à União Brasil, que pretende criar nova lei sobre a cremação, mais aprimorada. A cremação não pode ser imposta sem a disposição final da pessoa cujos restos mortais serão objeto da carbonização.

    Não existe ainda no Brasil leis que venham a impor a cremação. A inumação em solo em covas e o entumulamento em solo e paredes ainda são majoritários.

    Cremação e o ‘in memoriam’ da pessoa

    Importante salientar bem que o fogo é considerado em tese, por um segmento que partilha do ritual, na formulação de um pré-juízo social, como indutor do sentimento de desapego do espírito, permitindo que a alma se purifique, liberte-se do corpo e siga sua jornada na esfera espiritual.

    Esta tem sido uma premissa de juízo que é muito ventilada nos cerimoniais como um argumento já difundido no tecido social, porém, existem divergências. Muitos não aceitam o argumento considerado como uma ficção subjetiva a priori, sem provas a posteriori.

    O que chama muito a atenção é o fato da pessoa que será carbonizada, as cinzas não serem colocadas num columbário e serem jogadas ao mar, rios, natureza, ou colocada em vasos com plantas, ou mesmo serem enterradas nos fundos de um pátio, com acesso restrito apenas familiar, o que vai apagar a memória da pessoa falecida.

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    Nos dias de finados amigos, parentes, familiares, conhecidos, não possuirão um local de acesso para o ritual de memória. Esta tem sido uma das maiores implicações que são argumentadas, ausência de um túmulo, foto do falecido, local para cultuar tradições e realizar lembranças e relatos de memórias. Quanto a questão do luto e mas é questionável a ausência do corpo no processo de dissolução da tristeza que visa dissolver o sofrimento.

    Conclusão: sobre a cremação

    Face ao todo exposto, vamos ofertar uma opção de resposta ao questionamento que foi levantado, ou seja, “quais são as implicações psíquicas e cronológicas do ato de cremação do corpo ‘pós mortem’?”

    Embora existam complexidades para ser examinada e considerada sobre vários prismas, como o legal, o espiritual (religioso), sociológico, o psicossocial, econômico, político e psicanalítico, a implicação que tem sido constantemente ventilada no tecido social, embora ainda sem um consenso firmado é a falta da construção de um espaço de acesso aos interessados para elaboração do ritual ‘in memorial’ ao falecido(a) quando inexiste o columbário.

    A memória da pessoa fica perdida, não tem um local com uma foto, uma lápide, uma inscrição para que seja recordada. Essa tem sido a implicação mais corrente em que pese, não existir o túmulo, o simples fato de existir o columbário com uma inscrição demarca a manutenção de um ‘lócus’ (um lugar) onde a pessoa poderá ser sempre lembrada e visitada para ser depositária de flores, orações, intensões, um monólogo, reunião dos amigos, dos que permanecem vivos e tinham por tal pessoa estima e consideração além de sentimentos.

    O ato de cremação suprimiu o ‘locus in corpore’ da pessoa. A cremação destrói dia após dia a memória da pessoa. A pessoa desaparece completamente no imaginário social. Quando perdemos alguém ou algo que amamos, temos que fazer um trabalho para superar esta perda.

    Em tese, o luto termina quando a pessoa sente e percebe que se enriqueceu com a perda, quando sente que, o que foi perdido não voltará jamais porém passou a fazer parte de si e poderá ir adiante com novos vínculos mesmo com a presença da saudade; entretanto, importante haver um ‘lócus’ do corpo. Até porque o luto é um processo lento e doloroso, que tem como característica de uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um novo objeto de amor (S. FREUD, 1915).

    Então é importante um local para se visitar o morto e fazer as homenagens, que seria uma espécie de controle simbólico sobre a morte, que facilita a gestão do sofrimento e, simultaneamente, funciona como uma estratégia de distração que gera um bem estar ao processo de luto. Alguns conflitos familiares podem decorrer do diferente significado que é atribuído às cinzas.

    Enquanto algumas pessoas preservam às cinzas por sentirem que permitem uma proximidade emocional, ainda que totalmente simbólica, com a pessoa perdida, outras valorizam a sensação de libertação e paz que é atribuída à pessoa perdida quando as cinzas são lançadas, por exemplo, ao mar, ao vento, num rio, num jardim, num vaso com uma planta.

    Não significa que as pessoas que não permanecem com as cinzas não as valorizem, apenas atribuem um significado diferente; a ausência de um columbário e o não contato com as cinzas pode provocar constrangimentos no processo de luto, como sentimentos de culpa. por não visitarem “a última morada” da pessoa perdida, no caso num columbário, como se a tivessem esquecido ou negligenciado o falecido(a).

    A ligação emocional com a mesma, torna-se importante para a memória pelas cinzas onde um mero “estranho” à família, mas que nutria sentimentos pelo falecido(a) pode ficar desconfortável e partilhar com outros um mal-estar por não permitirem homenagear o falecido(a) no seu lócus, e isso afeta a manutenção de uma ligação emocional e simbólica previamente construída, que passa ser simbólico para toda vida.

    Esta é a principal implicação psíquica e cronológica com ao ato de cremação do corpo pós mortem. E ainda, por ventura com aqueles que não puderam ir ao velório da pessoa para se despedir fica um vazio existencial não existir um columbário para visitar e uma memória para homenagear.

    Sobre o Autor: Este artigo foi escrito por Edson Fernando Lima de Oliveira, formado em História e Filosofia. PG em Psicanálise. Realizando PG em Filosofia Clínica e estudos de Psicanálise Clínica e concluindo PG em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica. Contato via e-mail: [email protected]

     

    2 thoughts on “Cremação: implicações psíquicas

    1. Penso que a cremação como que torna a pessoa um mero passageiro da História! Minha tia quando presenciou a senhora que trabalhava com ela, mostrar uma foto mencionando não estar a neta falecida, fez uma critica velada de “ainda contar” uma pessoa que faleceu. Mas minha tia como que escolheu falecer, no dia da Natividade da avó dela e, quando me presenteou com vaso disse para ficar uma lembrança eterna dela! Numa missa em que foi realizado, me parece 8 décadas do óbito de uma pessoa (não me recordo com precisão) mas o padre chegou a comentar a bênção que é ser lembrado passadas tantas gerações!!! No mais, está como que se tornando habitual, “troca de cadáveres”, pelo Hospital, ao dar saída do corpo do Hospital. Nesses casos, a Justiça sem delongas, autoriza a Exumação e/ou a correção. A questão é se tiver sido cremado e jogado ao mar, já que em época de Crise Sanitária, não é sugerido aguardar 24 hs. E detalhe: se quem tiver sido cremado quisesse velorio, ezequias e sepultamento!!!!

    2. O relógio a quartzo funciona com a pressão numa ínfima partícula de areia que sobre essa pressão começa a vibrar, por isso não precisa corda nem bateria elétrica. Se uma pedra emite energia por que vamos destruir está energia usando fogo, pois os fogo faz vibrar suas partículas até se consumirem. Portanto o ato de cremar é morrer pela segunda vez.

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