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Egoísmo e individualismo: diferenças para a psicanálise

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O individualismo é uma palavra que provoca controvérsias. Confunde-se também com egoísmo. Agora, qual diferença entre egoísmo e individualismo para a psicanálise? E o que é, realmente, egoísmo para a psicanálise?

O individualismo para a psicanálise

O individualismo se expandiu em razão de avanços que nos levam a gastar cada vez mais tempo em atividades solitárias: computador, do celular, dos jogos eletrônicos. Isso desde o começo da vida, na infância.

Individualismo é a capacidade de exercer a própria individualidade. Seria uma conquista de um estado de autonomia, deixamos de depender de nossas mães.

O egoísmo para a psicanálise

Por sua vez, o egoísta não pode ser individualista, no sentido saudável da palavra. Porque o egoísta é dependente do grupo e não tem competência para suprir o que precisa, do ponto de vista psíquico.

Ele precisa mais receber do que dar. Por vezes, será simpático e extrovertido para alcançar esses objetivos. Nesse sentido, o egoísmo pode ser entendido como um individualismo dependente e narcísico.

No fundo, somos todos egoístas. Defender nosso ego e nos valorizar faz parte da nossa defesa e de obter prazer com os outros. O arriscado é o excesso, que se converte em narcisismo crônico.

Ato falho – Uma espécie de aviso do inconsciente

Vemos que Freud expõe sua teoria das estruturas psíquicas aventando que vários fenômenos o levaram a sustentar a existência do inconsciente. Um deles, Sigmund Freud, denominou de: ato falho.

Nesse sentido, podemos dizer, sinteticamente, que Freud compreende que através dos atos falhos podemos ver o modo como o inconsciente de um indivíduo o trai e revela suas reais intenções.

Os atos falhos consistem em pequenos lapsos da memória, tais como: esquecimentos de nomes, de horários, datas, coisas a fazer, ou algo dito que não era o que tinha sido intencionado a dizer. Erros ao fazer alguma coisa.

Sinteticamente, todo processo em que ocorre alguma interferência no que foi planejado, na atitude esperada, por isso o nome ato falho.

O ato falho antes de Freud

Alguns autores relatam que até antes de Freud os atos falhos eram tidos apenas como simples equívocos, algo feito “sem querer”, que não tinha maior importância, que não possuíam nenhuma causa e eram atribuídos simplesmente a um “descuido”.

E enquanto Freud, por sua vez, pôde mostrar no livro “Sobre a psicopatologia da vida cotidiana” que até os erros mais simples teriam um sentido que possivelmente estaria guardado em algum lugar da estrutura psíquica do sujeito.

Um ato falho não é obra do acaso

Apresentamos o exemplo dado por um desses autores que discorrem sobre esse fenômeno: um senhor estava conversando com uma jovem sobre como a cidade de Berlim estava bonita, com os preparativos para a Páscoa e em dado momento diz: “viu a loja Wertheim? Está toda decotada. Oh, quis dizer, decorada!”.

Esse é um exemplo simples, mas é interessante pois comumente as pessoas têm a tendência a atribuir um erro como esse simplesmente ao acaso, e não procuram investigar o que está oculto. Nessa situação, o locutor diria “oh, desculpe, quis dizer decorada!” e a coisa ficaria por aí mesmo. A outra pessoa da conversa geralmente tende a não dar atenção ao ato falho.

Mas, subsidiados pela teoria de Freud, a interpretação desse pequeno erro seria analisada como uma interferência de um pensamento inconsciente do senhor a respeito do decote da roupa que a jovem senhora estava usando. Em todos os casos estudados , Freud consegue mostrar que os atos falhos são fruto de um processo inconsciente suprimido e que sua causa pode ser descoberta.

Somos frequentemente traídos pelos atos falhos

Outro exemplo foi: um professor de medicina, conhecido por sua arrogância, dá uma aula sobre cavidades nasais. Depois de perguntar se todos os alunos entenderam, recebe da turma um ‘sim’ geral. Diz então que esse assunto é muito difícil e que duvidava da compreensão deles.

Afirma que mesmo em Viena, com seus milhões de habitantes, os que entendem das cavidades nasais podem ser contados num dedo, quer dizer, nos dedos das mãos. Nesse caso, o inconsciente do prof. o traiu. Noutra perspectiva ou no que é uma verdade para esse médico, de todos os outros colegas médicos da cidade, certamente ele acredita ser o único a saber sobre o assunto.

Percebe-se nesses exemplos, o que provoca a irrupção do ato falho. Por razões sociais, sabemos que não podemos dizer tudo o que queremos e, apesar de nosso controle para suprimir o que realmente queremos dizer, o pensamento ainda resiste com notável força no inconsciente para se fazer ouvir no ato falho.

Os atos falhos não são facilmente explicáveis

De fato, alguns atos falhos dizem respeito somente a conteúdos que são significativos para quem os comete. Estes não são assim tão facilmente explicados nem prontamente reconhecidos por quem os comete, e geralmente são dotados de alto valor afetivo.

Portanto, para esses autores estudiosos da teoria freudiana, no que diz respeito aos atos falhos, pode-se dizer que a maioria dos erros cometidos tem um significado oculto. O cuidado de não generalizar é porque para os autores, às vezes, erros são fruto do alto investimento psíquico em outros fatores.

Há esquecimentos para os quais a psicanálise não tem uma teoria explicativa pronta. No fatal esquecimento dos bebês em carros, os pais apontaram a quebra da rotina como causa ocasional das tragédias.

O tempo como um fator influenciador das tragédias

Talvez haja a necessidade de se pensar numa teoria psicanalítica do tempo social, pois, não só pela coincidente alegação de quebra de rotina, o tempo é um fator notável nas tragédias.

A modernidade e os problemas ligados ao individualismo e a sobrecarga de trabalho

Em tempos modernos onde predomina o individualismo e a sobrecarga de trabalho, a rotina impõe estratégicas trincheiras entre o cuidado de si e do outro.

Para o autor David Calderoni, invólucros dos esquecidos, os carros, como meio de transporte, são os veículos de distribuição destes tempos, entre cujas passagens as crianças desapareceram.

Conclusão

A hipótese é que a quebra de rotina contrapôs o cuidado do filho ao cuidado de si, num contexto em que o modo de existência e de acumulação social da riqueza implica uma luta incessante contra o invisível.

Esse invisível e impessoal ladrão dos tempos da delicadeza, da solidariedade, da amizade e do amor, ocasiões em que o cuidado de si e do outro se alimentam reciprocamente.

Assim, em outro tempo e espaço, talvez possamos desenvolver essa direção de ideias.

A compreensão da diferença entre egoísmo e individualismo ajuda a avaliarmos melhor nosso comportamento e o comportamento das pessoas que buscamos conviver e ajudar.

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