ensaio sobre a cegueira no contexto da pandemia

Ensaio sobre a Cegueira no contexto da pandemia

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Este artigo aborda a Síndrome do Covid funcional e sua relação com o Ensaio sobre a Cegueira (ATENÇÃO: com spoiler!)

Vivendo mais de um ano sob as restrições e dores impostas pela Covid 19, estamos todos devastados e torcendo por algo que nos faça voltar a nossas vidas!

Todos?! Nem tanto!

Mesmo que involuntariamente, há pessoas que há algum tempo vivem pela Covid e se desesperam só de pensar que tudo pode terminar com uma simples vacina ou passe de mágica.

Por mais estranho que esta afirmação possa parecer a princípio, acho que todos já conhecemos alguém, ou talvez até mesmo nos identifiquemos com o seguinte comportamento: A última coisa que faz a noite, bem como a primeira da manhã, é atualizar sobre todos os fatos da Covid: todas as informações possíveis são necessárias!

Todos os argumentos são indispensáveis, tanto “de um lado como de outro”. É necessário saber o que “o outro lado está tramando” para que possamos rebater e defender a nossa ideologia: seja ela qual for! E esses novos “covid-funcionais”- termo cunhado neste momento de reflexão, deixam os seus afazeres ou até mesmo seus não afazeres, para suprir de argumentos uma nova legião de pessoas sedentas pelo título de influenciadores digitais.

Segundo Issaaf Karhawi, pesquisadora em Comunicação Digital na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, não é necessário um público de 30, ou 40 milhões de seguidores, como muitos pensam, para se ter sucesso.

Segundo Karhawi, apenas uma entrevista com um digital influencer com mais de 100 mil seguidores no Instagram custa em média R$600,00. Hoje esta atividade é vista de forma profissional, não como um hobbie. Mas não é sobre uma eventual e possível profissionalização do nosso covid- funcional que trata este texto, mas sim da reativação ocupacional de um indivíduo através de um processo que possa resultar em mais perdas do que ganhos quanto a sua sanidade.

Que a internet não tem limites para inovação e inserção no mercado de trabalho, todos já sabemos, mas os efeitos psicológicos dessa possível inserção têm consequências positivas e as vezes nem tanto, principalmente para aqueles que, por qualquer motivo, se encontravam à margem do mercado de trabalho, seja por aposentadoria, afazeres domésticos, filhos e até mesmo por já terem desistido de procurar uma ocupação que o satisfaçam.

Neste contexto, a crise do Corona vírus apresenta uma oportunidade de reinserção social, uma vez que, ao estudar todos os dias sobre o tema, informações e contra informações, são detentores dos argumentos necessários para rebater qualquer ideologia, independentemente de qualquer convicção ou percepção.

Esta situação se agrava, e assume um contexto patológico, quando sob qualquer argumento, mesmo que irremediável, a pessoa balança a cabeça e diz que você não quer enxergar o que está acontecendo, e utiliza o seu arsenal de contra argumentos, que muitas das vezes não tem absolutamente nada a ver com o que foi dito: é o que pesquisadores norte americanos chamaram, após a invasão do Iraque pelas tropas americanas, de “Backfire effect” ou “efeito do tiro pela culatra”.

Note que este indivíduo detém informações suficientes, e muita das vezes melhores do que a do próprio interlocutor que a está contrapondo para entender os argumentos, razão pela qual sua negativa não é fruto de ignorância, mas sim do desdobramento do chamado “raciocínio motivado”, que consiste justamente em selecionar somente as evidências que nos agradam ou que embasam as nossas opiniões.

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Ao receber uma informação que se choca com os argumentos preexistentes, o indivíduo recua no tema, ataca com o que tiver disponível, mesmo que sem sentido, mas mantendo a sua crença, a sua verdade, como num processo de auto hipnose.

A conclusão, infelizmente, é de que quando se trata de matérias de grande repercussão e por um grande intervalo de tempo, simplesmente não adianta argumentar, pois o “covid- funcional” não vai renunciar à sua reinserção social simplesmente porque, “neste momento”, você possui um argumento melhor do que ele. O melhor a fazer é evitar o debate e, como se diz popularmente, “não dar palanque” ao pretenso candidato a digital influencer.

E quanto ao spoiler do filme/ livro Ensaio sobre a Cegueira?! Na última cena do filme, ou nas duas últimas páginas do livro, o primeiro contagiado que perdeu a visão simplesmente a recupera. A partir daí, um a um todos começam a recuperar a visão e ficam deslumbrados de tanta alegria! Nem todos!

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    O filme encerra com um close no único personagem que se deprime com o retrocesso da doença: o que já era cego! Neste momento ele percebe que a excepcionalidade que o tornou, dentro da sua percepção, “igual” ou comum a todos os outros estava terminando e ele teria de retornar à sua condição anterior, seja de cego, seja de candidato a digital influencer procurando um novo e excitante assunto.

    Este artigo foi escrito por Gil Pinto Loja Neto, Psicanalista, Professor Msc. e Especialista pelo Instituto Sírio e Libanês de Ensino e Pesquisa.

     

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