eu não gosto de você

Eu não gosto de você: entenda a expressão

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O que significa quando alguém diz “Eu não gosto de você”? Vamos refletir sobre a frase e a odisseia do discurso alheio ao ser.

Lacan parte da evidência de que a linguagem, a cadeia simbólica, determina o homem antes do nascimento e depois da morte. O bebê vem ao mundo humano marcado por um discurso, no qual se inscreve a fantasia dos progenitores, a cultura, a classe social, a língua, a época etc. Enfim, podemos dizer que tudo isso constitui o campo do Outro, lugar onde se forma o sujeito. Por essa razão Lacan não só insiste na exterioridade do simbólico em relação ao homem, mas também na sua sujeição ao discurso” (JORGE, 2005, p. 44).

Significado de Eu não gosto de você

Como seres tecidos de linguagem que somos, recortados pelo outro e coloridos pelas bordas culturais que nos banham cada qual com suas paletas, devemos procurar ater-nos à noção de que todas as cores que nos tocam a percepção são espectros fracionados do mesmo único feixe que a tudo seduz, molda e transborda travestido das múltiplas facetas inventadas por nossa inabilidade de alcançar ao real.

Se o real é justamente o que nos escapa, como poderíamos pensar em crer no que idealizamos ver ou em qualquer concepção oriunda de tal suposta visão?

Em que instância nos é acessível assertivamente o saber? Essencialmente qualquer manifestação de amor ou ódio a mim, seria sobre mim ou sobre você?

“A relação com o Outro é essencial, visto que o caminho do desejo passa necessariamente por ele, mas não porque o Outro seja o objeto único, e sim na medida em que o Outro é fiador da linguagem e a submete a toda sua dialética” (LACAN, [1957-1958] 1999, p. 145).

A nossa identificação em outra pessoa

Entendendo que todos os supostos “odiosos” se fazem meras refrações e reflexões das fantasias alienadas aos ecos de um “grande Outro” em síntese puro vazio, sendo assim fantasiosamente transmutado em tudo que se possa verbalmente inventar; aceitemos a factual existência furta-cor que nos faz indefiníveis, pois as naturais leis do existir são poderosamente mais fortes que nossas conclusões, vaidades e folclores.

O fato é que apenas somos, e todo resto que pode ser visto, dito ou ouvido, simplesmente inventamos. Assim, curiosamente damos luz a uma questão abordada à milênios no oriente, onde culturas debruçadas na contemplação existencial humana indagavam se, dado que um julgamento pode fazer-se, em alguma instância alimento do condenado, não consistiria então à sabedoria, no poder de agir nos abstendo de atos?

“Vemos o TAO como Nós somos e não como ELE É”

“O Universo não tem preferências, Todas as coisas lhe são iguais. Assim, o sábio não conhece preferências, Como os homens as conhecem. O Universo é como o fole de uma forja, Que, embora vazio, fornece força, E tanto mais alimenta a chama quanto mais o acionamos. Quanto mais falamos no Universo, Menos o compreendemos. O melhor é auscultá-lo em silêncio.” (LAO-TSÉ, [600 a.C.] Tao Te Ching, Poema5)

O outro de quem falo, é a forma como o recorto. Nesse momento de enunciação o outro torna-se parte intrínseca de mim. Se falar sobre é vive-lo, passemos a cada vez mais “ser-nos” pelas dádivas do “real silêncio”, pois que silenciar os lábios seria deixar o “ser” gritar. A partir dessa premissa, se somos nós incapazes de acessar ao pleno real, não nos caberia a compreensão de nossa própria inabilidade em significar histórias que não as nossas próprias, e a convicção de que, entre fragmentos do eu e do outro, o verbo fala mais da história de quem o enuncia que de seu próprio significado literal?

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Eu não gosto de você! Mas do que realmente não gosto?

“O entalhe tem muito bem a função de ser para o Outro, de lá situar o sujeito, marcando seu lugar no campo das relações do grupo, entre cada um e todos os outros” (LACAN, [1964] 1985, p. 195).

Quando conscientes somos montanhas de dúvidas, possibilidades de possibilidades, entre discursos e fantasias de finitos à imortais, podemos ser tudo porque temos em essência a condição de não sermos decerto nada.

As pulsões disformes em uma máquina de desejar continuar a ser, o que quer que seja, mas sendo, na dança das líquidas bordas culturais que nos esmagam e esculpem, tal qual preciosas pedras brutas, inventamos assim nosso valor independente do brilho e da cor. Somos belos, somos pedras, do peso de papel à joia no anel, somos nós, mesmo com todos os nós, belas pedras inventadas. Pois, que ser ou estar, é só questão de inventar.

De fato, existe o gostar?

“Duas faltas aqui se recobrem. Uma é da alçada do defeito central em torno do qual gira a dialética do advento do sujeito a seu próprio ser em relação ao Outro – pelo fato de que o sujeito depende do significante e de que o significante está primeiro no campo do Outro.

Esta falta vem retomar a outra, que é a falta real, anterior, a situar no advento do vivo, quer dizer, na reprodução sexuada. A falta real é o que o vivo perde, de sua parte de vivo, ao se reproduzir pela via sexuada. Esta falta é real, porque ela se reporta a algo de real que é o que o vivo, por ser sujeito ao sexo, caiu sob o golpe da morte individual” (LACAN, [1964] 1985, p. 194).

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    Este conteúdo refletindo sobre o significado da frase Eu não gosto de você foi escrito por Daniel S. (instagram: @psicanalise.br), Psicanalista Clínico, autor, colunista e colaborador literário em Psicanálise e Filosofia (12 992168966).

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