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Pulsões de morte e morte dos instintos

Posted on Posted in Psicanálise e Cultura

Em nossas vidas, muitas vezes, passamos por adversidades e situações que testam nossos limites. Mas, será que isso é o suficiente para sentirmos as pulsões da morte e desistirmos de tudo? Confira agora a visão psicanalítica sobre Kierkegaard, as pulsões da morte e a morte dos instintos!

As pulsões de vida e morte

É famosa a citação de Kierkegaard que, para muitos, simboliza os atualíssimos saltos quânticos da agenda existencial hodierna: “Quando a pior coisa que você conhece na vida é a morte, você quer viver. Mas, quando a pior coisa que você conhece na vida é a obrigação angustiosa de existir, então, nesse dia, você quer morrer.”

Em uma visão líquida, o retrato captado pelas distorções perceptivas do cotidiano parecem retratar uma progressiva e inexorável dessensibilização humana. 

A aparência da morte instintual, o abandono das simbolizações à procura da transcendência. O conforto subjugando o desconforto, e sua consequente atrofia tornam obsolescentes os degradês que separam vida e morte, aparência e realidade, concreção e vácuo.

O que resta de humano na sociedade “humana” parece traduzir o retorno ao estado anorgânico que Freud sublinhou como pulsão de morte.

Seja nos níveis de significâncias relativizadas (relações, objetivos, realizações, propósitos). Seja no âmbito de aspirações transcendentes às mundanidades (o próprio significado ontológico de existir), a corporificação social amórfica atual induzem a um mundo interpretado pela exaustão da repetição que não se reconfiguram mais. Ao contrário, passaram ao estado de convulsão por glutonaria ininterrupta.

Ademais, o conceito dos instintos de morte foi inicialmente descrito em “Além do princípio do Prazer”, em que Freud propôs que “o objetivo de toda a vida é a morte”. 

Assim, Freud acreditava que as pessoas tipicamente canalizam seus instintos de morte para o exterior.  A agressão, por exemplo, surge dos instintos da morte. No entanto, às vezes, esses instintos de destruição podem ser direcionados para dentro, o que pode resultar em automutilação ou suicídio.

Freud e Nietzsche sobre as pulsões do ser humano

Para apoiar sua teoria, Freud observou que as pessoas que experimentam um evento traumático frequentemente reencenam essa experiência. A partir disso, ele concluiu que as pessoas têm um desejo inconsciente de morrer, mas que os instintos da vida moderam esse desejo.

Na visão de Freud, a compulsão de repetir era “algo que pareceria mais primitivo, mais elementar, mais instintivo do que o princípio do prazer que ele substitui”. 

Assim, ele propôs ainda que os instintos da morte eram uma extensão dessa compulsão, na qual todos os organismos vivos têm uma instintiva “pressão em direção à morte”. O que contrasta fortemente com o instinto de sobreviver, procriar e satisfazer desejos. Além disso, quando essa energia é direcionada para os outros, segundo Freud, é expressa como agressão e violência.

Aparentemente, Freud “conversaria” mais com Nietzsche do que com Kierkegaard. Do mesmo modo, para muitos autores, parece patente que essa interatividade não resulta necessariamente em respostas para urgências temáticas contemporâneas.

Além disso, “é possível que a interpretação que apresentamos da leitura que Nietzsche e Freud fizeram da modernidade deixou de lado muitos outros aspectos que mereciam atenção.

 É, portanto, consciente ou inconscientemente, expressão do “violentar, ajustar, abreviar, omitir, preencher, imaginar, falsear e o que mais seja próprio da essência do interpretar” (NIETZSCHE, [1887] 1998, p. 139). Acrescentaria, a esses aspectos, a necessária contingência e historicidade que converte toda e qualquer interpretação numa tarefa infinita. 

Como Nietzsche ([1887] 1998) nos ensinou, só é definível o que não tem história. Não é o caso, portanto, de palavras como vida, cultura, culpa, doença, saúde, as quais foram ganhando uma rica polissemia ao longo dos séculos e que nos forçam a pensá-las e redescrevê-las indefinidamente. (Vincenzo Di Matteo, “Nietzsche e Freud: pensadores da modernidade”

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Freud e Kierkegaard acerca dos conceitos de “melhor e pior”

Como seriam reinterpretadas hoje, por exemplo, o conceitos de valoração entre melhor e pior usando a lente kierkegaardiana nesse contexto? Nessa brevíssima análise, seccionaremos a frase em epígrafe do autor a fim de melhores considerações.

Assim , o filósofo dinamarquês observa em um primeiro momento que , “quando a pior coisa que você conhece na vida é a morte, você quer viver”. A primeira constatação é que o mesmo assumia um juízo de valor a priori. Ou seja, note o grau de determinismo contido no artigo definido: “a” pior coisa.

 Isso porque Kierkegaard é enfático em pôr se como observador a partir de uma premissa de extremos. Em outras palavras, não fizera naquela oportunidade um parecer de gradação – antes, traça um quadro apenas bicolor. O pior antagonizando-se ao melhor, uma polarização , portanto, ideal da apreciação subjetiva.

Conclusão sobre as pulsões

O querer viver aparece, então, como uma contra pulsão: dados intermediários como conformismo, relutância, resignação ou qualquer outra condicionante não são postas em ordenações. 

Assim, o filósofo justificaria essa premissa no encadeamento lógico da conclusão daquela quando conclui:” mas quando a pior coisa que você conhece na vida é a obrigação angustiosa de existir, então, nesse dia, você quer morrer.” 

Como traduzir-se-ia a “obrigação angustiosa de existir” nos dias atuais? Reconhecido como um contraponto a seus contemporâneos idealistas, Kierkegaard via, a partir de seu proto existencialismo, a angústia como um produto da escolha. E, simultaneamente, como o único caminho da libertação. 

Então, reside aí o ponto chave de nosso argumento: quanto menos angústia, menos autoconhecimento. Quanto menos autoconhecimento (alienação voluntária), menos absorção de impactos cotidianos. E, quanto menos enfrentamento, mais pulsão orientada pela “desorientação” da (inescapável) angústia de existir.

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Este texto foi desenvolvido pelo aluno do curso de Psicanálise Clínica João de Jesus Severo da Costa.

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