Filme Alexandria

Filme Alexandria (2009): análise completa

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O texto de hoje fala sobre muita coisa bacana! Ao ler, você terá um momento prazeroso de leitura tanto se for alguém que gosta de filmes como alguém que curte discutir sobre protagonismo feminino e psicanálise. O tópico da discussão é o filme ‘Alexandria‘, que retrata a vida e a morte da matemática Hipátia. Trata-se muito provavelmente da primeira matemática mulher de que se tem conhecimento. É uma narrativa impressionante!

Por que trazer à tona uma análise sobre um filme histórico? Crenças limitantes, a cultura do cancelamento e feminismo

Bom, quando nós trazemos discussões ou a análise de um filme, nem sempre fica claro qual a nossa motivação. É uma crença bastante comum que nem todo filme que explora algo que seja útil para a Psicanálise. No entanto, gostaríamos de provar o contrário. Uma vez que o homem é foco do analista, qualquer filme que apresente uma interferência/atuação humana pode servir de base para conhecer o homem melhor.

No que tange a história de Hipátia de Alexandria, você verá que trata-se de uma narrativa brilhante sobre protagonismo feminino. No entanto, a trajetória de uma mulher extremamente proeminente foi encerrada de maneira involuntária justamente pelo brilho que carregava. Isso nos diz muito sobre como crenças limitantes interferem no desenvolvimento do ser humano enquanto raça.

Em resumo, o filme Alexandria relata as circunstâncias que envolveram o assassinato cruel não só de uma pessoa, mas de suas ideias. Além disso, morreram com Hipátia – pelo menos temporariamente – a oportunidade de uma mulher ser proeminente e ouvida na sociedade. Nesse contexto, fica evidente o quanto é importante que movimentos se unam em favor do direito da mulher. Mais abaixo você confere quais as crenças limitantes a que nos referimos!

Vamos por partes: a verdade sobre Hipátia de Alexandria

Contexto histórico

A nossa narrativa ocorre no século 4 depois de Cristo. Essa localização na linha do tempo é importante porque nesse período, o Cristianismo ainda estava conquistando certo prestígio político. No contexto em que Hipátia vivia, a cidade de Alexandria (localizada no Egito) era parte do território conhecido como Egito Romano. Assim, quando o Império Romano adotou o Cristianismo como religião oficial, o Egito também fez isso.

Tendo isso em vista, a história do filme Alexandria retrata um ápice do conflito entre um bispo cristão e o governador da cidade. O foco central do problema é o fato de que essas duas entidades discordam sobre a atuação de uma milícia de monges obstinada a matar e torturar qualquer pessoa que não adotasse a fé cristã. Nesse contexto, Hipátia foi uma das pessoas “pagãs” assassinadas por uma suposta acusação de bruxaria.

Aqui entra a questão da crença limitante a que nos referimos mais acima. O Cristianismo, por si só, é uma religião que adota como prática de vida o amor a Deus e o amor ao próximo. Assim, quando nos deparamos com uma história assim, não fica muito claro como as pessoas acabaram misturando as coisas. Na verdade, isso acontece bastante quando trazemos preconceitos e concepções para a nossa prática religiosa, o que prejudica muita gente.

Atuação profissional

Bom, no que diz respeito à bruxaria fica um pouco mais fácil entender a lógica por trás dos atos cruéis dos ditos cristãos. De acordo com a Bíblia, a prática é abominável a Deus. Contudo, na Bíblia não há o que fundamente a escolha da tortura e da morte enquanto castigos impostos por seres humanos. As pessoas esqueceram que não são juízes, descartando assim a atuação da justiça divina. 

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Tendo isso em vista, foram os seres humanos que julgaram Hipátia de Alexandria como bruxa. No entanto, um julgamento parcial é um julgamento desumano. Por essa razão, ela morreu sem ter o direito de ser ouvida e se defender. Na verdade, o que as pessoas entendiam ser bruxaria, era uma vertente filosófica praticada pela matemática. Falamos dela mais abaixo!

O Neoplatonismo praticado por Hipátia de Alexandria

Hipátia era uma das figuras mais poderosas da cidade. Era uma proeminente matemática, filósofa e até conselheira dos líderes da cidade. Pouca coisa dos seus escritos sobrou para ser estudada, contudo, as pessoas que se dedicaram a estudar sua vida e obra conseguiram remontar um cenário de sua vida em que ela era uma grande influenciadora. Inclusive, era amada por seus seguidores, quase uma influencer dos dias atuais.

Nesse contexto, o problema é que essa vida tão apreciada e vista foi o motivo de sua queda. Entre suas maiores contribuições, estão:

  • a escrita de livros didáticos de matemática,
  • o aperfeiçoamento de instrumentos científicos como o astrolábio e o hidroscópio,
  • e o desenvolvimento de um método eficiente para divisões longas.
Composição da filosofia neoplatônica

No entanto, nenhuma dessas coisas foi a sua maior contribuição. Aqui, o mérito é todo do ensino filosófico. Por sua vez, esse trabalho deriva do legado de:

  • Platão,
  • Aristóteles,
  • o matemático Pitágoras,
  • e o filósofo místico Plotino.

A escola filosófica que converge os ensinamentos desses estudiosos é conhecida hoje como neoplatonismo. Nessa área, a matemática tem um aspecto espiritual. Como exemplo de assunção teórica, os números eram considerados uma espécie de linguagem sagrada do universo. Não precisava de mais nada para acusar Hipátia de bruxa, de acordo com os ignorantes que a assassinaram.

O filme Alexandria trabalha muito revelando o “lado perverso” do Cristianismo no Egito Romano. A dualidade entre filosofia e religião é muito bem trabalhada nessa conjuntura.

Vida sentimental

No que tange a vida sentimental de Hipátia, os detalhes da sua vida íntima ganharam um status mítico ao longo dos séculos. Sabe-se que seu pai, Teón de Alexandria, era matemático e astrônomo. Contudo, a origem de sua mãe não é conhecida. Tudo indica que ela tenha sido criada sob forte influência paterna, sem irmãos também.

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Ao crescer, Hipátia superou o pai na matemática e na astronomia, se tornando a estudiosa mais importante da cidade e ensinando na escola platônica.

Diz-se que Hipátia era muito amiga do governador Orestes, mas afirma-se também que não havia nenhum tipo de envolvimento amoroso entre os dois. Veremos que no filme Alexandria esse aspecto ganha um pouco mais de atenção do que deveria. Era natural que muitos homens admirassem Hipátia, pois ela era sua professora e uma figura pública importante. Não há registros de que fosse casada.

Posicionamento ideológico e espiritual

Já dissemos que Hipátia era adepta do neoplatonismo. Ademais, ela não era seguidora de nenhuma divindade em específico, mas era pagã se contrastarmos sua vida com o cristianismo. Suas ideias podem ser facilmente aplicadas a muitos tipos de religião.

Apesar do paganismo, judeus e cristãos viajavam para ter aulas com ela. Nestas aulas, todos deveriam e podiam se sentir confortáveis para falar e fazer perguntas. Várias cenas do filme Alexandria retratam como seria essa dinâmica. O foco aqui deve ser no fato que o ambiente em que ela lecionava era apartidário. Assim, apesar de ser uma grande influenciadora, o espaço para discussões era dinâmico e aberto.

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Contudo, o ambiente político da cidade não seguia essa mesma vertente. Por causa da adoção do Cristianismo como religião oficial, havia uma fragmentação político-religiosa na cidade. Obviamente, o apartidarismo pelo qual a professora prezava não passou desapercebido.

Morte

Nós já dissemos que o Cristianismo se tornou a religião oficial de Alexandria, mas agora vamos dar alguns nomes aos participantes da morte de Hipátia. Lembra que mais acima falamos sobre um governador e um bispo em conflito? É aqui que eles entram na narrativa. Trata-se de Cirilo, o arcebispo local, e Orestes, o governador (ou prefeito) de Alexandria.

Cirilo, assim como Hipátia, estava ganhando muita importância no cenário político. Contudo, era ele o responsável por comandar uma milícia de monges que matavam e torturavam judeus e outras pessoas que não seguiam a nova religião oficial. Orestes, por outro lado, era o governador da época. No entanto, era um cristão moderado, tolerante com outros grupos religiosos e não compactuava com a ala mais radical.

Assim, nasce uma disputa entre os dois. Para resolver esse problema, Orestes buscou o conselho de Hipátia. Como já apontamos, ambos eram amigos. Além do laço emocional, a busca por saber o que ela tinha a dizer evidencia o quanto ela era considerada importante por um dos cargos mais altos do governo.

A morte trágica de Hipátia

No que diz respeito ao conflito, a filósofa orientou que Orestes agisse com sobriedade e justiça. Porém, eles não imaginavam que o governador sofreria um ataque ardiloso conduzido por Cirilo e seus monges. Ele foi capturado e torturado até morrer. Nesse contexto, não abandonando seu discurso radical, Cirilo culpou Hipátia por afastar Orestes do Cristianismo. Neste momento, ele alegou que ela era praticante de bruxaria.

Algum tempo depois, enquanto Hipátia passeava pela cidade a caminho do trabalho (ou de casa, os relatos divergem), ela foi vítima de um outro ataque chefiado por Cirilo. Ela foi arrancada de sua carruagem e desmembrada por uma multidão fanática, morrendo de maneira brusca e desumana. A cena da marte tal qual retratada no filme Alexandria não é tão fiel à crueldade que realmente fez parte na história. E nem poderia.

Após a sua morte, vários outros filósofos que a seguiam fugiram temendo a morte. Assim, o ambiente inclusivo que a filósofa construiu para si mesma e para a cidade morreram juntos. Alexandria nunca mais foi o centro de estudo e apartidarismo de antes.

Diferenças entre o filme Alexandria ou Ágora e o que realmente aconteceu

No que tange as diferenças entre o filme Alexandria e o que a História relata, encontramos algumas disparidades sobre sua vida pessoal. Diferente do filme, estima-se que Hipátia tenha morrido muito mais velha, com 55 anos de idade. No longa, ela é interpretada pela atriz Rachel Weisz, que na época das gravações tinha cerca de 39 anos.

Ademais, algumas cenas de romance roubam o protagonismo feminino de modo desnecessário, até na hora da morte de Hipátia. Explora-se bastante a relação que ela tinha com Oreste e com outros homens, o que não condiz com o compromisso que ela assumiu com o trabalho na escola platônica.

No entanto, de modo geral, recebe bastante destaque o protagonismo de Hipátia enquanto cientista, como uma mulher que se posicionava e ensinava homens e fazia descobertas. Uma das cenas mais marcantes é aquela em que ela diz, resoluta: “eu acredito na filosofia”.

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Comentários finais sobre o filme Alexandria

No texto de hoje, você aprendeu a história de Hipátia, primeira matemática cuja vida é retratada no filme Alexandria. Com essa narrativa da vida real, esperamos ter deixado evidente o quanto é perigoso misturar crenças limitantes com religião e política. Vidas brilhantes podem ser prejudicadas. Para aprender como lidar com as diferentes esferas da vida, matricule-se em nosso curso de Psicanálise Clínica 100% online! Confira!

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