luto e depressão

Luto e Depressão: conceito e relações

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Luto e depressão convivem lado a lado, sendo sentimentos que podem se confundir. Um luto não superado pode, em médio prazo, tornar-se depressão.

Luto é o que pode ocorrer na perda de um familiar, ou até mesmo no término de um relacionamento amoroso. Por sua vez, a depressão carrega consigo uma sensação de morte ou perda (muitas vezes sem motivo aparente), que lembra muito um sentimento prolongado de luto.

Luto e depressão, segundo Freud

Perdas humanas acontecem constantemente no cotidiano das pessoas, independente da vontade delas. O tema da vivência do luto aborda o assunto a partir do acontecimento ocorrido ou aguardado, antes ou depois da morte, de um ser humano, na perspectiva do enlutado.

A presente redação terá como foco a conceituação de luto e depressão com a opinião de Sigismund Schlomo Freud em seu escrito “Luto e Melancolia” (1917). Em sequência, resumo teórico de um projeto de capelania a ser realizado numa comunidade sociorreligiosa, a partir do escrito “Cuidando na Enfermidade” de Albert Friesen (2004).

Os autores se complementam e embasam a redação.

O conceito de Capelania tem a ver com o atendimento que as religiões prestam no apoio mental / espiritual aos seus fiéis. A Capelania é, portanto, o suporte eclesiástico que o atendimento de uma missão religiosa (católica, evangélica, espírita etc.) presta ao seu público ou fiéis.

Manifestação de Freud sobre o Luto

Freud realiza um estudo comparativo entre os dois estados em Luto e Melancolia (1917), o estado de ter perdido alguém (luto) e o estado depressivo ou melancolia, ou seja, entre luto e depressão. Para o presente trabalho será focado o parecer de Freud (1917) sobre luto que é assim colocado:

“O luto, de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido e continua”.

Vale a pena notar que, embora o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico. A perturbação da autoestima está ausente no luto.

Trabalho do luto em Capelania

Embasamento do trabalho de luto em Capelania:

Visão de Friesen (2004) sobre Luto e Depressão

Luto é tristeza, avaliação daquilo que se foi. É o reconhecimento das razões da perda, é até mesmo o discernimento do responsável e causador da perda. Luto é choro, é o enterro do que deixou de existir, a decisão de que certas coisas, não serão mais necessárias e que decididamente se abre mão daquilo que se dissipou.

Luto é também a busca de nova esperança, de novos sonhos e planos para continuar vivendo, mesmo diante da ausência esmagadora do bem amado ou desejado.

Acrescenta que tal como a mulher entra em dores para parir o que foi gerado, assim no luto há uma ação para gerar a novidade de vida. Mas o caminho passa pela dor.

Visão de Freud (1917) sobre Depressão e Luto

Para Freud, o luto é um mecanismo saudável e superável com o tempo, não demandando qualquer intervenção. Toda a libido que era endereçada ao objeto é retirada e investida pouco a pouco em outro objeto – o que normalmente exige um tempo para ser trabalhado. Assim, a fim de lidar com a situação traumatizante da perda no luto, é necessário um trabalho de elaboração do aparelho psíquico.

Acrescenta também que, quando o luto é mal elaborado e dependendo de comorbidade, requer atendimento psicológico a partir da depressão instalada.

Quando o luto é bem elaborado e quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido.

Acompanhamento a um enlutado

A dor pode ser mais fácil de passar se acompanhada, dividida, compartilhada com/por pessoas. A capelania estimula a visitação do enlutado e do capelão em comum acordo.

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    Gente conhecedora do processo de crise, choque, desolação, tristeza, reações psicossomáticas, percebe pelo que pode estar passando o enlutado, oferecendo um ombro amigo, choro junto, escutatória, silêncio, toques, alimentação, higiene e ajuda nas decisões a tomar.

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    A percepção aguçada favorece o tipo de atitude mais adequada em cada instante, considerando a personalidade de cada paciente, seu estado de saúde física e emocional e a maturidade do visitador sem ser dado a melindres ou más interpretações inclusive dos circunstantes.

    Quando há conhecimento prévio a respeito falecido, enlutado, família fatore o encontro e medidas a tomar.

    As 5 Etapas do Luto e da Depressão na perda de um ente

    As informações a seguir, resumidas podem oferecer pistas para um intervenção bem sucedida:

    1. Choque – O paciente é surpreendido por uma doença ou morte repentina, podendo continuar a viver como se nada tivesse acontecido e por motivos vários, permanece paralisado e não aceitando intervenção. Mantém-se fixado nesta etapa.

    2. Negação – Aparecem várias desculpas para aceitação dos fatos: exames errados, agir como se não soubesse do que ocorre. Caso interpelado, a reação é de cólera, raiva e agressividade. Surgindo, às vezes, revisão de crenças.

    3. Depressão – Quando o enlutado tem histórico de possível melancolia-depressão pode ocorrer episódios. Há necessidade de observação para não impedir com medicação que o paciente entre em contato com sua dor e haja resiliência no decorrer do luto. A família, quando houver, deve ser acompanhada nas decisões se o desejar. Vimos que luto e depressão estão interconectados. Se o enlutado se prende a esta fase, a depressão pode criar raízes e causar um estado de incapacitação.

    4. Barganha ou negociação – Na angustiante caminhada da aceitação aparecem conjecturas quanto a pleitear favores com Deus, amigos, destino, morte, pagamento de dívidas, promessas, perdão a pessoas, reconciliação numa busca para ser poupado da perda/morte.

    5. Aceitação – Cansado, exausto, decepcionado, frágil, vê-se obrigado a aceitar o inevitável e percebe que tem paz interior e se rende. Apenas alguns relacionamentos fazem sentido, mas, nem sempre. Nessa situação o trabalho da Capelania é de grande valia.

    Definindo o campo de atuação da Capelania no Luto

    De acordo com Eleny Vassão, as etapas podem não seguir a mesma sequência. Pode até faltar ou também voltar para breve estágio anterior por algum tempo. A identificação os elementos luto e depressão, como citado anteriormente, pode contribuir para uma melhor intervenção profissional.

    Na negação da doença incurável manifestam-se:

    • inquietação;
    • irritabilidade;
    • conflitos relacionais;
    • hiperatividade.

    A distinção entre luto e depressão favorece o capelão (como favorece a qualquer profissional dedicado a ajudar outras pessoas), que terá mais facilidade em decidir como agir.

    A decomposição da força vital

    Segundo Eleny Vassão, capelã chefe em alguns hospitais em São Paulo, há estudos sobre a DECATÉXIS (decomposição da força vital), identificando como o estado em que o paciente agoniza como se este mundo não mais existisse.

    De fato não existe mais, não para o moribundo! Ele se torna distante, incomunicável. O incrível é que ainda ainda assim, na profundidade do seu ser, nutre expectativas de que algo milagroso ainda possa acontecer, como um sentenciado no corredor da morte. Assim é o poder da vida. Por pouco não seria mais forte do que a morte!

    No estágio do DECATÉXIS o paciente aparentemente não precisa de mais nada. A presença de um familiar, de alguém que lhe segure a mão poderá ser um dos maiores confortos que o moribundo experimentará diante de sua partida.

    A falta de preparo dos profissionais para enfrentar Luto e Depressão

    A conclusão é de que falta preparação para acompanhar o processo de perdas das pessoas. Numa próxima oportunidade será pesquisado em que medida estão sendo trabalhadas as perdas no sentido geral e Luto no sentido restrito.

    Estudar a mente e o comportamento humanos, por exemplo por meio de um Curso de Formação em Psicanálise, é uma forma de se capacitar para a tão importante missão de ajudar.

    Acrescenta-se que, independente de credo ou crença das pessoas, é necessário melhor preparação para acompanhamento de enlutados e seus circunstantes, seja em centros médicos, entidades sociais, igrejas. Tudo isso, a fim de oferecer atendimento digno, empático, respeitoso, amoroso em situações de riscos em que luto e depressão se encontram presentes.

    Conclusão: Luto e Depressão

    Resta lembrar que é conveniente observar o andamento do processo de luto, verificando a necessidade do atendimento especializado, nos casos de Melancolia ou depressão aparente.

    Finalmente, a contribuição de Freud e Friesen foram inestimáveis para entender a relação entre o luto e a depressão na redação do presente conteúdo.

    A depressão é um estágio temporário do luto. O enlutado deve buscar conhecimento, tratamento e companhia para não se render por muito tempo a esta fase.

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    Este artigo sobre Luto e Depressão foi criado por Maria Araújo, especificamente para o Curso de Formação em Psicanálise Clínica.

     

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