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A narrativa narra o que o narrador suporta ouvir

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Hoje falaremos sobre a narrativa. Como espécie estamos sujeitos a transmissão de vivências através da oralidade, experiências essas que compõem o quadro mnêmico da nossa espécie, espécie fadada desde outrora a evoluir dentro deste processo de transmissão que hoje chamamos de linguagem.

A forma como a linguagem se desenvolveu é uma das grandes incógnitas da raça humana, difícil de ser explicada e dividindo opiniões no meio acadêmico, é um dos problemas mais difíceis de ser solucionado pela ciência devido a poucos vestígios e por ser datada do período pré-histórico humano.

A narrativa contando o que é suportável

Desde a pré-história até a atualidade, pouco se sabe sobre como a linguagem evoluiu, mas, cada vez mais ocorre o abandono de sinais e gestos, que eram a forma primária de comunicação, pois a linguagem evoluiu de tal forma que oferece um escopo amplo, atendendo às necessidades para a comunicação.

A evolução é facilmente observável no campo da linguagem, e a psicanálise dá a devida atenção a esse fenômeno. Dentre os grandes pesquisadores contemporâneos, temos Noam Chomsky e Jacques Lacan.

Chomsky dentre outras atribuições é um filósofo analítico e teoriza que a linguagem é a manifestação, de modo mais geral, cognitiva e complexa; sendo que Lacan investiga a linguagem pelo princípio psicanalítico. Sobre a estrutura da linguagem a psicanálise tem estabelecido conceitos e teorias, observando uma relação entre a linguagem e o inconsciente.

A linguagem permitiu ao humano a narrativa, sendo ela pormenorizada ou não.

A narrativa está fundamentada em um ponto de vista

Um ponto de vista que não se caracteriza por onde a vista alcança mas pelo ponto que a vista suporta alcançar sem que haja a cisão (psíquica) do sujeito por afetação, trauma, responsabilidade ou enfrentamento da carga social depositada sobre o sujeito agente, sendo este o narrador.

______________… “No que diz respeito à relação entre trauma e narração, a novidade é que essas duas noções se tornaram indissociáveis, não há narração sem que essa se dê a partir de uma origem traumática, que a ameaça de modo inevitável”… (Trauma e sua Vicissitudes, p28, SPCRJ – Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro).

Para Lacan, em sua releitura de Freud, a narrativa está baseada na linguagem. Segundo Lacan, o inconsciente se estrutura na linguagem e está, à essa, alienado como forma. Sendo o mundo interno (inconsciente) estruturado sobre a linguagem podemos observar a narrativa, não como relação de fatos, mas como estrutura a ser observada. A estrutura sobre a qual a narrativa se apoia revela interessa mais dentro do setting analítico do que os fatos em si.

A linguagem

Partindo do princípio que basicamente a linguagem comunica através da narrativa, que se subdivide em tantas outras formas que ampara, que direciona e que censura o conteúdo narrado.

Uma das características naturais do sujeito humano é a narrativa interna, estruturada na linguagem característica de um tempo. A narrativa nunca é livre, está ambientada ao que é permitido pela estrutura social em que o indivíduo cresceu e foi moldado e como pertencentes a uma estrutura social, está sujeito a regras.

Regras estas que regulam a estrutura consciente e inconsciente. Das regulações conscientes, temos como exemplo as regras gramaticais, e das regulações inconscientes, temos como exemplo aquilo que é recalcado e que o sujeito não tem consciência. Sem, contudo, excluir aqui o papel do superego que através de seus mandamentos filtra a narrativa, cumprindo assim um papel de “protetor” do ego na sua estrutura narcísica.

A narrativa e o sujeito

A narrativa está sujeita a interpretação da linguagem interna, apresenta nível de afetação intrínseco a cada sujeito. Afetação que é muito própria e individual, de acordo com a forma que a psique se estruturou neste indivíduo ao longo do processo de construção da personalidade e vivências.

A emoção contida na narrativa transmite o nível de afetação, é a forma de o narrador comunicar o nível de afetação ao qual este foi acometido pela situação.

A falta de emoção ao narrar revela, em muitas situações, o que foi suprimido e comunica mais do que a emoção que transborda facilmente, as emoções estão sobre um “controle”, pois no sujeito neurótico elas são perceptíveis e algumas vezes, controláveis.

Quadro psicótico

No quadro psicótico, a distorção da realidade produz reações que não condizem com a realidade, neste quadro há uma dissociação do real e uma narrativa de forma característica e maníaca

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    Para narrar o narrador se apoia na linguagem, como vimos antes. Quem conta, nunca conta tudo. A narrativa é subjetiva, pois refaz a história sobre as memórias que estão sob o domínio da consciência. Sabe-se que a consciência nem tudo suporta, que alguns fatos são recalcados no inconsciente.

    Um comportamento observável é alguém dizer: eu não suporto falar disso, eu não suporto ouvir essa história, deixando claro que a psique não oferece suporte, uma defesa que felizmente o indivíduo consegue expressar está sendo erguida para que o sujeito não seja atingido por aquilo que é insuportável. O insuportável afeta de tal modo que o narrador não consegue narrar a história real ou quando consegue narrar, ou é obrigado a tal, conta somente o que não ameaça a estrutura psicológica.

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    Uma escolha consciente

    A narrativa muitas vezes não é uma escolha consciente, assim como não é consciente o ideal do eu, que o ego defende. A psique sempre se protege. Qualquer ameaça que possa aniquilar o sujeito é atacada, recalcada ou afastada. A psique tem uma forma própria de instinto de preservação para garantir a sobrevivência.

    Muitas vezes o consciente não quer ser consciente de determinada verdade, isso é muito comum no setting analítico onde se observa que o paciente não escuta, não assume sua parcela volitiva por seus pensamentos e ações. Dentre as funções do ego consciente estão a linguagem e a comunicação, outras partes do ego seguem estruturadas no inconsciente.

    Ao pensar em narrativa, não podemos deixar de observar que tudo que é exteriorizado pela fala também é captado pela audição. O que é narrado, retorna ao narrador que precisa suportar se ouvir, a narrativa sofre uma influência daquele que obrigatoriamente ouve (ouve-se). Na escuta acontece um enfrentamento do personagem, como ouvinte que carrega aspirações narcísicas.

    A realidade da narrativa

    Um conjunto de fatores compõem a narrativa de um fato, narrativas muito além do real. Lacan diz que a realidade é provisória, o real é aquilo está entre a dualidade desejo/aversão, na experiência efêmera do ato.

    Da experiência efêmera até a linguagem, de base estruturada no inconsciente, produz o indivíduo a narrativa que é suportável, dotada de algum sentido, onde essa narrativa é repetida, mesmo contrariando aos fatos, de forma alienante para que a realidade não “quebre” a visão narcísica. A alienação pode ser vista, sobre esse aspecto, como um mecanismo de defesa.

    Retornar a parte excluída da história produz sintomas, caracterizando um quadro doloroso, traumático e de desamparo.

    Conclusão

    Freud, Além do princípio do prazer(1926) descreve a situação de desamparo com as seguintes palavras: ”o ego se sente desamparado, atordoado e abandonado à sua sorte diante de uma aluvião de excitações demasiado poderosas para que os processos mentais do ego possam-nas manejar”.

    Conclui-se que a narrativa seja a suportável dentro da estrutura psíquica, onde o único meio de o analisando rasgar o espelho narcísico ou seja, passar do plano do imaginário para o simbólico ao ser confrontado por uma figura externa, que pode ser na figura do analista que tal como a função “Lei do Pai” (Lacan) faça sucessivas confrontações com a realidade.

    No setting analítico o manejo para o rasgar das máscaras e quebrar os espelhos da idolatria narcísica são dosadas de forma a respeitar o ritmo e o que cada indivíduo suporta da realidade.

    Este artigo sobre narrativa e sua relação com o narrador foi escrito por Ezilda Azevedo, psicanalista formada pelo IBPC. Atendimentos online. e-mail para contato: [email protected].

    2 thoughts on “A narrativa narra o que o narrador suporta ouvir

    1. Romulo Caixa Ferreira disse:

      O artigo é muito esclarecedor!

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