Além do princípio do prazer

Além do princípio do prazer: pontos importantes de Sigmund Freud

Posted on Posted in Teoria Psicanalítica

“Além do princípio do prazer” foi publicado por Sigmund Freud em 1920 em alemão com o nome original de “JENSEITS DES LUSTPRINZIPS”. Uma obra com importantes contribuições psicanalíticas como a pulsão de vida e pulsão de morte e a compulsão à repetição.

Pontos importantes do livro “Além do princípio do prazer”, de Sigmund Freud

Nesta maravilhosa obra o autor vai como o nome diz além do princípio do prazer, pois traz a luz questões muito importantes na prática clínica do psicanalista, como por exemplo, pessoas que vão repetindo questões de sofrimento mesmo compreendendo o motivo delas acontecerem, um certo prazer no desprazer. Trazendo uma nova hipótese em relação ao funcionamento psíquico, o conflito entre pulsão de vida e pulsão de morte.

A pulsão de morte estaria ligada a uma necessidade biológica de todos os organismos que é de retornar ao estado inicial, ou seja inorgânico, inanimado, sem vida, compreendendo assim que a pulsão de morte ou pulsões de destruição entra em oposição à pulsão de vida (Eros). No que tange ao princípio do prazer se mantém o entendimento, mas deve-se levar em consideração que para que ele se estabilize a pulsão de vida deve controlar a pulsão de morte pelo menos em parte, pois se não tudo se acaba.

Neste texto ele fala também que quando a pulsão de morte domina a pulsão de vida, a destrutividade se sobressai na vida psíquica, como por exemplo no masoquismo e no sadismo, já em comparação quando a pulsão de vida assume o controle, essa destrutividade é em parte neutralizada e a agressividade se coloca a serviço do ego, podendo assim ser externalizada de formas mais saudáveis e menos autodestrutivas.

O princípio do prazer e além dele

No texto “Artigos sobre metapsicologia” (1915) Freud traz o conceito de princípio do prazer, onde no psiquismo existem tensões que são seguidas de descargas e que o aumento dessa tensão é acompanhada de desprazer e também de uma descarga de desprazer, exemplificando no desejo sexual e na fome.

Complementando estes processos psíquicos existe uma variação no que tange a quantidade de energia, então se supõe a existência no psiquismo de um princípio regulador destas variações de tensão, deu o nome deste de princípio do prazer, que tem como objetivo produzir prazer e evitar o desprazer. No que diz respeito a tendência de estabilidade nos processos psíquicos o autor traz que isto acontece pela presença de outro princípio, este chamado de princípio da constância que tem como objetivo principal regular deixando o nível baixo de estímulo.

Freud percebe que não é apenas isso e que o princípio do prazer não domina e regula todos processos psíquicos, pois a prática clínica mostra outra coisa, indo muitas vezes contra o prazer e direcionado ao desprazer.

Além do princípio do prazer e as forças que se opõem a satisfação

As forças que se opõem a satisfação das pulsões são duas: a primeira é o princípio da realidade esta que permite atrasar a satisfação e em partes suportar o desprazer temporariamente, como por exemplo, uma graduação em que o sujeito deseja muito formar-se, desejando ocupar o lugar de profissional e ter o certificado, mas tem que suportar os estudos durante anos para realmente formar-se e assim ocupar e autorizar-se ocupar aquele lugar.

Leia Também:  Hipnose: resumo segundo a Psicanálise

Em segundo lugar o ego, tendo em vista que ele pode causar muito desprazer que é motivado pelas pulsões interiores no decorrer do desenvolvimento, sendo este contrários para o ego como no caso do desprazer neurótico.

Neste sentido tanto em uma como em outra este desprazer é causado pela percepção das pulsões exteriores ou interiores que existe um certo perigo, neste sentido quando o aparelho psíquico procede de forma adequada a esta percepção de perigo, obedece tanto o princípio do prazer como o da realidade.

Duas fontes de repetição: A neurose traumática e o jogo na criança

Freud traz estas duas situações que a repetição acaba por tentar administrar uma experiência dolorosa. No caso da primeira a neurose traumática advém de um choque que coloca a vida em risco, onde assume a sua manifestação pela angústia, por variados sintomas e sonhos repetitivos. Nos sonhos repetitivos tem como ponto principal a repetição desta situação repetitiva, um ponto de observação e que vai contra a teoria de que o sonho é a realização de um desejo.

Na segunda seria a repetição do jogo na criança, Freud observa seu neto de uma ano e meio, o não protestar a ausência da mãe chama atenção, ao contrário a criança brincava muitas vezes de jogar uma bobina de madeira amarrada a um cordão para longe e depois puxar de volta, este ato estaria relacionado a mãe, onde fazia ela desaparecer e aparecer novamente neste brincar.

Segundo Freud o menino tentava transformar esta experiência desagradável da ausência da mãe, de uma atitude passiva, passa para uma ativa, passando assim da passividade para a atividade e outra questão que ao lançar o objeto para longe de si, o menino de certa forma pode satisfazer o impulso reprimido de vingança por a mãe ter o deixado sozinho. Freud conclui que o jogo na criança teria como função ser uma forma de repetir as experiências que causaram o desprazer na tentativa de controlar a situação emocional. Sendo viável pensar que este brincar repetidamente pode levar a uma elaboração e estando colocada no princípio do prazer.

Além do princípio do prazer e a compulsão à repetição

De acordo com Freud a transferência seria a apresentação de fragmentos que estão reprimidos, estes do passado infantil do sujeito e na análise acaba se repetindo e abre a possibilidade de isto ser elaborado no presente, é o que se busca na análise e que o autor aponta em seu texto “Recordar, repetir e elaborar” (1914), mas entretanto em alguns analisandos este processo de elaboração vem a fracassar e a repetição vem a se tronar uma compulsão à repetição, esta que não advém do conflito entre consciente e inconsciente, que o inconsciente induzirá uma descarga no consciente, de acordo com a teoria da primeira tópica freudiana no caso da neurose.

Se pode observar que esta compulsão à repetição não traz nenhum prazer, tanto na análise como no cotidiano do analisando. Mas na análise mesmo não gerando nenhum prazer ele acaba por repetir na transferência estas situações de desprazer, este repetir compulsivamente seria um desejo ativo do analisando, entretanto inconsciente, por isso ele não percebe.

    NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ



    Quero informações para me inscrever na Formação EAD em Psicanálise.

    Considerações finais

    No texto Freud coloca esta questão da compulsão à repetição como algo que vai além do princípio do prazer, com isso introduz a pulsão de vida e o conflito com a pulsão de morte, deve-se levar em consideração o período de perdas que ele teve neste período histórico inclusive de sua filha Sophie em 1920 e o sucídio do amigo psicanalista Victor Tausk da mesma forma os medos deixados pela primeira guerra mundial, podem ter contribuído para esta escrita sobre pulsão de morte.

    Leia Também:  Sugestão Hipnótica: técnica de Freud

    Na clinica psicanalítica faz muito sentido esta compulsão de repetição e como isto pode estar atrelado a pulsão de morte que visa a autodestruição do sujeito, como por exemplo no caso da adicção, que esta dependência química em algo primeiramente visa o prazer, mas em segundo plano pode estar ligada a destruição deste sujeito, lembrando que esta vai acontecendo de maneira inconsciente e a psicanálise nas sessões de análise é uma alternativa para que isto venha a ser percebido conscientemente e haja a sua interrupção.

    Com este texto Sigmund Freud traz que pode existir um prazer no desprazer, isto pode ser pensado em relação a ganhos secundários em relação aos sintomas, em que o ego se adapta e se acostuma as certas circunstância, mesmo quando elas causam mal-estar e angústia, são colocações polêmicas dizer que o ser humano é capaz de sentir prazer e gostar da dor, mas se pensarmos na compreensão em que a psicanálise traz da psique e dos mistérios do inconsciente é completamente possível aceitar esta visão.

    Referências bibliográficas

    QUINODOZ, Jean-Michel. Ler Freud: guia de leitura da obra de S. Freud. Artmed Editora, 2007.

    O presente artigo foi escrito por Bruno de Oliveira Martins. Psicólogo clínico, particular CRP: 07/31615 e pela plataforma online Zenklub, acompanhante terapêutico (AT), estudante de psicanálise pelo Instituto de Psicanálise Clínica (IBPC), contato WhatsApp: (054) 984066272

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *