Inconsciente entre caos e cosmo

O Inconsciente entre o caos e cosmo

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Neste artigo vamos abordar um tema fundamental para a formação da personalidade e o Inconsciente entre caos e cosmo.

Entenda a diferença entre CAOS e o COSMO que caracterizam o inconsciente e que plasmam a psiquê. Por meio da mitologia e da Psicanálise o autor Marco Bonatti trata responder a seguinte pergunta:

É preciso ordenar o caos do inconsciente para obter o equilíbrio psíquico ou é necessário repensar as certezas conscientes e dar espaço às energias não expressadas, removidas e reprimidas?

Uma antiga lição diz: dê espaço à desordem e aos caos

Na mitologia Nòrdica dos povos vikings que habitavam as regiões do Norte da Europa (Escandinávia, Grã Bretanha, Islândia e parte da França) o fim do mundo, conhecido como Crepúsculo dos Deuses, era chamado de Ragnarok. O Ragnarok indicava a destruição da ordem cósmica, a destruição do equilíbrio e da paz universal (Cosmo).

Alguns eventos funestos, catástrofes naturais, o eclipse do sol absorvido pelas trevas, a terra submersa pelo mar, levariam ao aniquilamento do equilíbrio garantido pelos Deuses e mostrariam o destino e o fim da humanidade. O mito do Ragnarok descreve uma terrível batalha travada entre os Deuses e os Gigantes nascidos do Caos que inclusive provocaria a morte do grande Odin do elmo dourado e do invencível Thor dono do trovão.

Nesta batalha cósmica haveria duas forças antagônicas: a força do bem liderada pelo Deus Odin senhor da guerra e, a força do mal e das trevas liderada e encarnada pelo Deus Loki. Odin contra Loki, o bem contra o mal, a luz contra a sombra, a guerra contra a paz, o Cosmo contra o Caos.

Ainda sobre a Lição e o Inconsciente entre caos e cosmo

A princípio da batalha, é impossível não torcer pela derrota do mal, sendo o responsável pelas desgraças do homem, a desfeita da harmonia e da paz. Contudo, também o mal teria uma razão de ser. Se você ficou curioso, continue a leitura.

Está escrito que os lobos, as forças aliadas ao mal, amigos de Loki teriam devorado o sol e a lua, deixando a terra cair na escuridão e que uma serpente saiu das águas do mar espalhando veneno para cada recanto da terra, mas que Thor, com seu poderoso martelo e trovão, aliado a Odin, teria freado a serpente, sacrificando sua vida, vítima dos malefícios da cobra.

A história narra um grande incêndio, uma Apocalipse que destruiu o Mundo pelo fogo do gigante Surtur, logo depois uma tempestade varreu a Terra e a teria feito cair em um longo inverno, aparentemente sem vida e esperança.

A Mitologia Nòrdica

No grande livro da Mitologia Nòrdica (Langer, J., 2015) está escrito: “Irmãos lutarão. E matarão uns aos outros; Filhos das próprias irmãs; Pecarão juntos; Dias doentes entre os homens; Em que pecados do sexo aumentarão; Uma era do machado, uma era da espada; Escudos serão partidos; Uma era do vento, uma era do lobo; Antes de o mundo cair morto.”

Contudo, a esperança que sempre é a última a morrer em batalha fará ressurgir um novo Universo, uma terra fèrtil brotará do mar e uma nova geração de homens descendentes de Odin e de Thor se espalhará pela terra, a primavera e fertilidade se alternarão as geladas do inverno.

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O Ragnarok que geralmente está associado ao fogo, a destruição, ao fim das certezas e das verdades imanentes, da ordem do Cosmo que garante tranquilidade, paz e o equilíbrio, também trouxe uma re-generação provocada pelo Caos, a um novo universo, um novo equilíbrio, a novos Deuses. Foi assim que no amanhecer do novo dia as árvores voltaram a dar frutos, os lírios a crescer nos campos, as aves a popular as florestas e os peixes os mares. Uma nova luz brotou das sombras e das trevas do Caos e da desordem nasceu uma nova ordem.

Consciente e Inconsciente entre caos e cosmo

De fato, o Caos, é causa de desordem, violência, quebra das certezas e paradigmas, mas através suas chamas purificadoras, através seus enigmas e sua energia pulsional, ímpeto e paixões é também responsável pela regeneração e a ressurreição de novos Deuses que brotarão do turbilhão do Caos.

Das cinzas e do Caos aparecerá uma nova humanidade (menos humana e mais divina) e o planeta será repovoado por um casal sobrevivente (que foi salva dos desfechos da batalha para se proteger no árvore da vida), com o mesmo sangue nobre dos Deuses falecidos em batalha. Um novo homem, com uma psique renovada vai sair das cinzas como uma Fênix, encarnando novos valores e idéias, olhares e percepções da realidade e da própria vida.

O novo homem, a igual que Fénix, que podia viver 1000 anos, admirando sua própria beleza e voando com tranquilidade no céu azul, decidiu morrer (morte das certezas), deixando-se incendiar pelo sol do Deus do Egito RÁ e das suas próprias cinzas ressurgiu mais forte, mais bela e autêntica.

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    O cósmico de regeneração

    Deixou de ser uma simples ave e tornou-se um símbolo universal, cósmico de regeneração, da imortalidade da alma após a morte.

    Assim será pelo Mundo e pelo homem que após o desfecho das tristezas da barbárie moderna poderá ressurgir das cinzas, das dores e das feridas, de uma vida medíocre imposta por fora, de uma vida aparentemente ordenada por outros.

    Abandonará seu lugar/zona de conforto, não se deixará plasmar das expectativas sociais ou dos modelos ideais do ego, do narcisismo estético, mas buscará exatamente aquilo que a pessoa realmente é, aquilo pelo qual nasceu cumprindo seu destino único e irrepetível.

    Todo excesso de ordem esconde uma falta

    Quando existe um excesso sempre existe uma falta, que sublimamos com coisas, idéias, objetos, pessoas ou pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos. Portanto, o excesso de ordem esconde um apagamento, uma renúncia ao imprevisto e inesperado, um medo ao desconhecido e uma falta de esperança no futuro.

    Existem pessoas que buscam desesperadamente uma realidade ordenada, mas ao encontrá-la, descobre não ter brilho. Assim, para que possa ressurgir um novo universo, para que novas energias possam entrar na vida das pessoas acolhendo elementos divinos e espirituais, para que uma nova fase na vida possa re-iniciar, é necessário que a realidade corrupta, viciada e imperfeita (quase sempre ordenada, pré constituída e artefacta) seja abandonada, destruída, superada.

    Em definitiva, neste sentido o Caos pode ser pensado como força e energia de renovação, como motor que impulsiona a mudança de hábitos, modelos, ideias crônicas que causam sofrimentos, dores e sintomas. A realidade externa e a realidade interna funcionam com os mesmos princípios de compensação, quando você reprime uma emoção, diria Freud, ela volta da pior forma, quando você não dá espaço ao desordem do inconsciente se manifestar você bloqueia ou resiste a um novo início.

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    Inconsciente entre caos e cosmo e o fim

    Segundo Michael Morelli, no Caos, o fim (do mundo e das certezas) coincide sempre com um novo início. “É necessário ter o caos cá dentro para gerar uma estrela.” Friedrich Nietzsche.

    Contudo, o homem busca o próprio equilíbrio na ordem, no conforto, das certezas ou na ausência de riscos e imprevistos, mas de repente quando o Caos entra na vida (às vezes por um insignificante motivo que torna-se álibi) acaba caindo no fundo do poço, na sombra sem enxergar saídas.

    Entretanto, é logo aí, bem na sombra do inconsciente, quando não se enxerga uma luz, bem no ponto em que todas as certezas caem, que pode aparecer uma energia transformadora que levará o homem a um novo caminho existencial, a uma trilha diferente e a uma conclusão inesperada.

    Uma pequena lição de Vida

    Durante uma viagem para a Grécia, logo após visitar a acrópole de Atenas, parei em umas enormes pedras para descansar. As pedras, niveladas pelo tempo e pelo vento, olhavam para a cidade e a grande construção de Péricles. Não eram pedras comuns, eram as pedras do areópago, um espaço que tinha hospedados juristas, filósofos, poetas e o mesmo evangelista Paulo, um santo, um louco que saiu da Palestina para convencer e evangelizar os gregos politeístas.

    Uma missão quase impossível, para quem não tem fé. Ele de fato queria introduzir o Caos no Cosmo ordenado dos Deuses Gregos, queria quebrar os padrões de pensamento, quebrar os estereótipos e dar início a uma nova era, a era cristã.

    Quando estava deitado no areópago tentando imaginar a história contada por Homero, entre mitos e Deuses, entre heróis e monstros, refletir sobre as origens do pensamento e da criação da civilização passou um grupo de turistas acompanhados por um guia que pararam bem na minha frente.

    Ainda sobre a lição, o velho e o menino

    Todos eles ficaram contemplando aquela obra magistral de construção do Império Grego que dominou o Mundo primeiro como potência e depois como cultura. O guia falava bem baixinho, quase humilde e começou a contar a seguinte história. Um dia um curioso menino perguntou para seu velho Mestre qual era a coisa mais importante na vida.

    Pois, o menino achava que aquele velho com experiência e com a sua longa barba branca podia ter uma resposta. O velho ficou pensativo, pois tinha que achar uma resposta compreensível e pudesse ser experimentada para o menino. Nada melhor que um bom exemplo para entender a vida. Logo em seguida, o velho disse: menino, segure e aperte seu nariz com a mão esquerda. O menino fez aquilo que o velho homem mandou, mas como não conseguiu respirar abriu a boca ofegante.

    Conclusão

    Então, o velho mandou fechar a boca e, antes que o menino desmaiou, perguntou-lhe: você entendeu? O menino que tinha ficado vermelho e apavorado com a lição, disse: o AR! Sim, respondeu o velho, o ar é a coisa mais importante da vida, porque sem ele você não pode viver.

    Aquele velho respondia ao nome de Sócrates e gostaria de acreditar que aquele jovem menino curioso respondesse ao nome do grande Platão. Em definitiva, foque no que é essencial. E como disse o pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos”.

    Talvez, porque o essencial, como o ar e a psique, são invisíveis aos olhos e estão se reorganizando no inconsciente travando a última batalha entre Caos e Cosmo em busca de uma nova estrela para brilhar.

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    O presente artigo foi escrito por Marco Bonatti. Nasceu na Itália, naturalizou-se brasileiro, reside no Brasil em Fortaleza/CE (e-mail: [email protected] facebook: [email protected]), possui doutorado PhD em Psicologia Social – UK – Buenos Aires, Argentina; Graduação em Filosofia FCF/UECE – Fortaleza, Brasil; Pós graduação em relações internacionais, Valencia, Espanha; Graduação em língua francesa na Sorbonne, Paris, França; Atualmente é Psicanalista em formação e colunista no IBPC/SP (Instituto Brasileiro Psicanálise Clínica).

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