conceito de caráter

Conceito de Caráter: o que é e quais tipos

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Entenda o conceito de caráter. Afinal, o que é caráter, quais seus tipos e como ocorre sua formação? O autor Marco Bonatti avalia a definição, a partir da psicanálise.

Neste breve texto analisaremos os fatores que, no decorrer do desenvolvimento psíquico de uma criança, determinam a formação do caráter em um adulto, moldando a sua forma de agir, pensar, sentir e Ser (Dasein).

O caráter além de representar as características psico-físicas de uma pessoa (individualidade), constitui uma especial armadura que protege o indivíduo dos ataques-estímulos do mundo externo (ambiente social) e interno (inconsciente).

Conceito de caráter

Segundo Wilhelm Reich (1897-1957): “O caráter consiste em uma mudança crônica do ego que se poderia descrever como um enrijecimento”. (Significado do caráter. Blog: Psicanálise Clínica. SP: 13/10/2019. Disponível em www.psicanaliseclinica.com.br / Data de acesso: 29/12/2020).

Em outras palavras, o indivíduo só aparentemente tem liberdade de escolhas, mas de fato ele responde mecanicamente aos estímulos e depende do seu grau de endurecimento do ego que forja a estrutura do caráter (traços) e condiciona a forma de perceber, sentir, atuar e valorar, interagir com o ambiente (Ser com os outros) e com o mundo em que vive (Ser no mundo).

Caráter como mecanismo de defesa

Segundo Wilhelm Reich o caráter se forma como mecanismo de defesa do ego que protege o indivíduo frente às pulsões sexuais e a libido (energia psíquica inconsciente).

Isto é, o caráter é formado como defesa infantil frente a ansiedade da sexualidade, frente os desejos provenientes do ID e o medo de punição por parte dos pais, além de outros fatores que analisaremos mais adiante.

A couração na formação de caráter

É interessante notar como uma criança, com medo de punição dos país, reprime a energia psíquica em excesso formando a armadura do caráter e ao mesmo tempo produz uma “couraça muscular” que pode tornar um indivíduo rígido (e.g. enrijecimento) e resistente à energia libidinal.

Por outra forma, a couraça do caráter é energia psíquica reprimida e somatizada nos músculos do corpo, que impedem a energia de fluir livremente e as pulsões sexuais (que respondem ao princípio do prazer) de obter a satisfação do desejo.

Em definitiva, para Reich: “As couraças de caráter definem o acúmulo de repressões de uma pessoa sobre os seus instintos” (A Psicanálise de Wilhelm Reich. Blog: Psicanálise Clínica. SP: 29/02/2020).

De fato, os nós corporais, chamados por Wilhelm Reich de couraças, além de endurecer os músculos do corpo, aprisionam a emoção (do latim, e-movere) e estão na origem do trauma neurótico.

Para Wilhelm Reich o trauma neurótico pode ser curado a partir da dissolução do nó (mediante técnicas específicas) e a descarga emocional relacionada (e. g. ab-reação em Sigmund Freud).

Entretanto este ponto marca a principal diferença entre Sigmund Freud (1856-1939) e seu discípulo Wilhelm Reich.

Os tipos de caráter ou traços de caráter

Se para Sigmund Freud a repressão e os traumas neuróticos podiam ser solucionados através da “cura pela fala” (método da associação livre); para Wilhelm Reich a terapia tinha que envolver a parte física (corpo) do paciente, dissolver a couraça muscular e permitir a emoção aprisionada (prazer, raiva, ansiedade, etc.) e a sexualidade reprimida de manifestar-se livremente (método análise de caráter).

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Na verdade, existe uma história escrita no corpo de cada indivíduo-paciente, a própria história de vida que comunica para o analista e para o mundo uma importante mensagem que, na maioria das vezes, se revela superior à própria mensagem verbal.

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    Traço de Caráter Esquizoide

    Cabe ao analista corporal decifrar e interpretar a linguagem (alfabeto do corpo) e ou conteúdo da comunicação forjada nele (manifesta e/ou latente).

    No entanto, os traços de caráter surgem por problemas ou eventos traumáticos que podem existir ao longo das diferentes fases de evolução psicosexual da criança.

    Segundo Wilhelm Reich, em sua reflexão sobre o conceito de caráter, durante a fase de gestação uterina pode-se formar o traço de caráter esquizóide, em particular quando o bebê-nascituro experimenta a dor da rejeição por parte da mãe.

    Todavia o bebê que experimenta a dor da rejeição desenvolve também um recurso, isto é, a capacidade de imaginação, criação e raciocínio, que o levam a viver em um mundo diferente do plano real (abstração).

    No traço esquizóide, o bebê pode desenvolver um formato do corpo magro e esticado, um olhar desfocado/ausente e uma cabeça grande, além de alimentar sentimentos de isolamento (fala pouco e têm pouca sociabilidade).

    Traço de caráter oral

    Logo depois, na fase oral quando o bebê recém nascido e a mãe são em simbiose (uma coisa só) o bebê tem necessidades físicas (alimentação) e emocionais (ser amado), mas pode experimentar a dor do abandono (as necessidades do bebê não são devidamente atendidas: por excesso “mamou demais” e/ou por falta “mamou de menos”) formando-se o traço do caráter oral.

    O sistema nervoso vai moldar o corpo da criança com traço de caráter oral dando uma forma ao corpo mais arredondada, com pernas curtas e o bebê desenvolve a características da oralidade (necessidade de falar e se expressar e/ou de compensar a falta de oralidade com diversas substâncias ou objetos); no qual o lado sentimental (extroverso) será muito intenso por medo dele sofrer novamente a dor do abandono.

    Traço de caráter psicopata

    Por volta dos três anos de idade, na fase anal, quando a criança desenvolve sua individualidade (percebe o mundo exterior) e a capacidade de movimento (primeiros passos) pode também experimentar a dor da manipulação (a criança recebe atenção, aprovação ou desaprovação, em função das coisas que faz e diz para satisfazer os outros) e desenvolve o traço de caráter “psicopata” querendo manipular os outros, inclusive o pai para conseguir vantagens da própria mãe e vice versa.

    Segundo a reflexão de Wilhelm Reich sobre o conceito de caráter, o formato do corpo do indivíduo com traço de caráter psicopata (de não confundir com as principais organizações psicóticas: esquizofrenia, paranóia e melancolia) é aquele de um triângulo invertido (forte na parte de cima e fino na parte debaixo) podendo desenvolver o recurso (quando ele não fica preso na armadura-enrijecimento a causa do ressentimento do trauma) de liderar grupos, articular e negociar.

    Traço de caráter masoquista

    Ademais na fase anal a criança desenvolve a capacidade de controlar os esfíncteres (xixi e cocô), mas pode também experimente a dor da humilhação (deboche do tipo “ele fez cocô nas calças”) e forjar o traço de caráter masoquista (que implica segurar o cocô; a persona fecha-se em si mesma, interiorizando situações difíceis e ficando introversa).

    No traço de caráter masoquista o sistema nervoso da criança contribui para dar um formato do corpo mais quadrado (musculatura tensa e rígida) desenvolve sentimentos de implosão e introversão, mas também têm a possibilidade (poder vir a ser, potencial) de utilizar o recurso deste traço e de transformar-se em uma pessoa detalhista e organizada, com capacidade de suportar a dor e de enfrentar situações difíceis, etc.

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    “In medio stat virtus” diziam os latinos, para expressar como as principais virtudes do homem ficavam no médio termo, ou seja, em cada situação é necessário encontrar o equilíbrio, por exemplo no traço masoquista entre o hábito excessivo (excessivamente organizado) e a falta de hábito (falta de organização).

    Assim, cabe o entendimento, quando o indivíduo (ego) não supera a fase anal em forma normal, desenvolverá alguma neurose e trauma existencial em que os sintomas patológicos aparecerão também no corpo (além da mente) e acompanharão o sujeito pelo resto da vida até a sua resolução.

    Traço de caráter rígido

    Por último, para entendermos o conceito de caráter a partir de seus tipos, quando a criança por volta dos 4-5 anos de idade chega na fase fálica desenvolve a sua sexualidade (complexo de Édipo e/ou complexo de Electra) e identidade (percebe-se um Eu diferente do pai e da mãe), podendo também experimentar a dor da traição (e o medo da castração), ou seja, sente-se traído pela mãe que escolhe o pai e vice versa.

    A menina percebe a perda do amor do pai-amante e o menino percebe a perda do amor da mãe-amante (vivido pela criança como fantasia sexual).

    No traço de caráter rígido a pessoa desenvolve um formato do corpo esportivo e harmônico, com potencial para desenvolver o recurso da competitividade (agilidade, execução de tarefas e capacidade de atingir resultados) por medo da criança experimentar novamente a dor da traição precisa vencer todas as “batalhas” e se tornar, aos olhos dos outros, melhor, mais forte e mais experto.

    Conceito de caráter e sua formação

    É importante ressaltar que não superar de forma saudável uma fase psicossexual produz pontos de fixação no sujeito adulto (as experiências infantis podem ser vividas em formas frustrantes ou em forma de estimulação excessiva) facilitando o regresso a uma fase anterior como meio para lidar com uma situação difícil.

    Portanto, todos os traços de caráter são caracterizados por fixações, restrições, rigidez, neurose e armadura do ego, mas também estão sempre acompanhados por recursos (habilidades) correspondentes (manifestos ou ocultos).

    Infelizmente, não cabe em este breve texto sobre a conceitualização de caráter explicar e descrever o ressentimento traumático que estaria na etiologia (causa) das neuroses (formando cada traço de caráter) assim como as últimas técnicas modernas (e.g. japonesas, russas e italianas) utilizadas para curar as principais neuroses e desvios da personalidade, podendo ser objeto, por este estudante, de um futuro trabalho de TCC.

    Sem embargo, é importante entender que os diferentes traços de caráter acima descritos são armaduras-couraças corporais e sobretudo emocionais que o ego cria (mecanismo de defesa) frente às dores existenciais sofridas pela criança julgadas insuportáveis e inaceitáveis.

    Além da teoria do caráter de Wilhelm Reich é necessário lembrar que a estrutura psíquica da personalidade (seu jeito autêntico de Ser e de se relacionar) pode depender:

    • das dinâmicas das instâncias psíquicas (id, ego, superego) que formam a teoria da personalidade (Sigmund Freud, 1856-1939);
    • da relação da criança com os pais (Melanie Klein, 1822-1960); e
    • da relação da criança com a mãe (Donald Winnicott, 1896-1971), entre outros autores.

    De qualquer forma, não é possível menosprezar a peculiar visão reichiana sobre a Análise de Caráter, que representa uma aguda e detalhada leitura da estrutura somatopsíquica de uma pessoa, diferente da ciência psicanalítica freudiana que é, sem dúvida alguma, estimada e reconhecida por todos nós.

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    De fato, Wilhelm Reich não renegou a sua formação psicanalítica (também foi nomeado Presidente da Sociedade Psicanalítica em Viena onde atendeu os casos mais graves que Freud mandava para ele) e sempre mantive uma boa relação com seu Mestre, mas no decorrer do tempo, afastou-se, simplesmente porque mudou o campo da pesquisa científica e o método da terapia.

    De qualquer forma (concordando ou não), a Análise de Caráter de Wilhelm Reich poderá ser uma ferramenta complementar e empírica, auxiliando a Psicanálise para melhor entender as dinâmicas de formação do caráter, da dor existencial, do trauma do paciente e dos recursos potenciais escondidos em cada traço de caráter.

    Se a genialidade de Sigmund Freud permitiu descobrir a importância da mente (inconsciente) dentro do corpo; seu discípulo Wilhelm Reich teve a ousadia e a preocupação de ir além e descobrir (numa visão sistêmica) que também o corpo explica a mente (análise de caráter) e que este revela a história de vida e os traumas (presentes e passados) de cada um de nós.

    Este artigo sobre o conceito de caráter, os tipos de caráter e a reflexão do tema na psicanálise foi escrito por MARCO BONATTI ([email protected]), residente em Fortaleza/CE, doutorado PhD em Psicologia Social – UK – Buenos Aires, Argentina; Graduação em Filosofia FCF/UECE – Fortaleza, Brasil; Pós graduação em relações internacionais, Valencia, Espanha; Graduação em língua francesa na Sorbonne, Paris, França. Atualmente é estudante em Psicanálise Clínica no IBPC/SP.

     

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