Stanley Keleman

Stanley Keleman e a anatomia emocional

Posted on Posted in Conceitos e Significados

Você já ouviu falar sobre os conceitos de Stanley Keleman? Neste artigo o autor Marco Bonatti explora um tema essencial para a formação da personalidade, a relação entre emoções, corpo e mente. Para isso, partiremos dos conceitos de Stanley Keleman sobre a anatomia emocional.

Você já parou um instante para responder a estas três perguntas: Existe uma interação entre Sentir, Pensar e Agir? O que significa “anatomia emocional”? Como as emoções, a partir dos afetos intrauterinos da mãe, afetam a formação do corpo e da mente do bebê? Se você ficou interessado em descobrir como seu corpo reagiu, se formou e moldou em função dos impulsos e emoções que vivenciou desde o feto materno, continue a leitura.

Stanley Keleman e o mito do Pelicano: emoção e pathos

A história do Pelicano é única e vale a pena lembrá-la, para introdução do tema. A lenda conta como o corpo do Pelicano, uma grande ave branca que pinta com suas largas asas o azul dos mares do Norte da Europa, da África e do Sudeste Ásiatico tornou-se o símbolo e alegoria da paixão. Bem conhecido pelos povos antigos, foi adorado pelo egípcio e transformou-se para os cristãos, no símbolo da eucaristia. Tomás de Aquino (1225-1274) escreveu sobre o mítico Pelicano este célebre passo: “Pie pellicáne, Jesu Dómine, me immúndum munda tuo sánguine, Cujus una stilla salvum fácere, totum mundum quit ab ómni scélere”.

“Ó pelicano piedoso, Senhor Jesus, purifica-me, impuro, com o Teu sangue; do qual uma única gota pode salvar o mundo inteiro de todos os pecados.” Com seu bico alongado, as pernas em forma de mão e a garganta em formato de saco, o Pelicano é capaz de pescar e segurar uma incrível quantidade de peixes. A lenda conta que quando o Pelicano sente que seus filhotes estão com fome e não tem comida perto, ele bate seu bico no peito até sangrar e então deixa suas crias se alimentarem das gotas do sangue que dele transborda.

O peito do Pelicano branco como a veste sagrada de um sacerdote pinta-se de paixão, vira um quadro, uma mandala com manchas vermelhas. As fortes emoções (de amor e dor pela possível perda) que ele experimenta para seus filhos, acabam moldando seu corpo através da auto flagelação e da mutilação. Seu sangue torna-se o alimento principal, as emoções e a paixão transformam seu corpo em símbolo de vida.

Stanley Keleman e o que significa

Cada vez que experimentamos algumas emoções, o corpo participa em forma passiva ou ativa, como no caso do pelicano. A palavra E-MOÇÃO vem do latim e-movere, ou seja, é a energia pulsional inconsciente que produz um movimento para o corpo e o organismo.

É como se o nosso corpo respondesse ao um concerto, o concerto das emoções. Vozes que vem do profundo, às vezes barulhentas, às vezes silenciosas, mas que não podem ser caladas, pena de descarregar sua tensão e conflito no próprio corpo (ex. psicossomática).

Embora a voz da nossa emoção não possa ser ouvida pelos demais, embora possa ser reprimida, a informação é registrada e visível no corpo que inconscientemente recebe, imprime, registra cada palavra, som, tom, melodia, contração ou xingamento. O corpo torna-se o espaço físico e temporal, a sede, o espelho, a plateia e o palco de todas as sinfonias das emoções que são tocadas do fundo da alma.

Stanley Keleman: Anatomia emocional

O corpo, a diferença da linguagem verbal, não finge, não cria fantasias. Ele representa nossa história de vida: passada, presente e futura Stanley Keleman (1931-2018) foi precursor da psicossomática, em seus estudos demonstrou as relações entre soma (corpo) e Psique (alma, espírito, emoções). A abordagem de Keleman foi essencialmente pragmática, ele notou como a anatomia do corpo dos seus pacientes reagia e se formava (psicologia formativa) diante das solicitações e impulsos da subjetividade (inquietações, sentimentos e emoções). É dizer, o corpo registra toda a história de vida e as transformações que o indivíduo experimenta durante as fases de desenvolvimento refletindo o percurso existencial (fatos, relações, ambiente).

Vale ressaltar que o indivíduo não é somente determinado geneticamente (embriologia) ou que está apenas sob o domínio da mente (psicanálise), mas que é sobretudo uma soma de “experiências encarnadas” que constituem a estrutura e o binômio corpo-emoção. Em outras palavras, para Keleman o indivíduo não é mais o sujeito racional Cartesiano do penso, logo existo (cogito, ergo sum), ou aquele Freudiano da existência submersa, que existe além daquilo que pensa, sente ou fala (raiz inconsciente), mas um sujeito movido pela energia (emoção) que, a medida em que é expressa ou reprimida, forma como você é na vida. É dizer, o corpo é o resultado do binômio “anatomia emocional”.

Leia Também:  Cura Gay: uma questão polêmica

Em outras palavras, “cada configuração de forma somática está relacionada a diferentes experiências subjetivas”. (IBPC). Em definitiva, como bem explica o Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica realiza-se uma verdadeira “cartografia de formas corporais” que dependem das interpretação dos fatos, de como o indivíduo lida com eles e do autodiálogo formativo que pode estar aberto num processo evolutivo para novas emoções ou fixado/cristalizado com velhas experiências.

Os afetos intrauterinos que moldam o corpo

Diversos estudos, autores e teorias, apontam para a existência de quatro dimensões evolutivas do corpo: Fase genetica, Fase intrauterina, Fase infantil e Fase adulta.

O que caracteriza a primeira fase não é somente a estrutura atômica fixa dos genes (DNA e essência masculina e feminina), mas também a evolução EPIGENÉTICA (história dos antepassados, bloqueios de expressão, alimentação, estresse ambiental, etc) que podem alterar e modificar a sequência dos genes.

É dizer, o destino não está totalmente escrito geneticamente (ou seja, predeterminado), mas pode depender e ser influenciado por causas externas ao organismo, como as emoções. A segunda fase, conhecida como fase intrauterina, é caracterizada por uma presença dos afetos que afetam a estrutura da personalidade.

As funções sentir(emoção), pensar(mente) e agir(corpo) são afetados pelo estado emocional da mãe

De acordo com o brilhante Psicanalista e médico Dr. Fernando Freitas (Corpo com Ciência, a busca da Fonte) os afetos intrauterinos da mãe dependem dos estímulos externos e moldam a personalidade do bebê. É importante ressaltar que já a partir dos primeiros meses de vida a mãe gestante começa a perceber os movimentos uterinos do seu bebê.

Embora, muitas mães não atribuem importância aos primeiros sinais, reagindo de forma passiva, outras entendem que está acontecendo uma fundamental comunicação emocional que envolve diferentes atores e meios, percebem de forma ativa, que cada emoção pode ser absorvida, transmitida e refletida naquele minúsculo ser humano em formação, o embrião.

Por exemplo, a ULTRASSONOGRAFIA evidencia como os movimentos fetais e as batidas cardíacas do bebê são influenciados pelo estado emocional da própria mãe, podendo acelerar ou desacelerar. Desta forma, o corpo do nascituro é plasmado pelos afetos (positivos ou negativos) vivenciados pela gestante. Segundo David Boadella (1931- 91 anos), fundador da Biossíntese, existem três afetos que influenciam o psiquismo do bebê e, a princípio, são associados às três camadas do embrião (embriogênese): Afecto umbilical, Afeto cinestésico e Afecto da pele-fetal.

    NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ



    Quero informações para me inscrever na Formação EAD em Psicanálise.

    A função do sentir, agir, pensar e Stanley Keleman

    O primeiro afeto umbilical afeta a parte interna do embrião, ENDODERMA, que responde a função SENTIR. Quando o afeto da mãe (emoção) é negativo a função sentir do bebê é prejudicada. O segundo afeto cinestésico afeta a parte mediana do embrião, MESODERMA, que responde à função AGIR. Quando o afeto da mãe, quando suas emoções e sentimentos são de tristeza, desconforto, ansiedade a função agir do bebê fica contraída, dificultando seu movimento interno e logo externo podendo se tornar rígido e agressivo ou flexível e harmonioso.

    O terceiro afeto é aquele da pele fetal que afeta a parte externa do embrião ECTODERMA que responde à função PENSAR. É dizer que quando a mãe está estressada, pensando em excesso e preocupada com a gravidez ou com causas externas (ambiente, marido, outros..) o estímulo atinge a função pensar e o sistema nervoso do bebê (ainda que no útero) fica acelerado e tenso. Entretanto, todos os três afetos, afetam os órgãos de sentido e o sistema nervoso do bebê (eg. neurociência: sistema parassimpático e simpático produzem a contração e/ou relaxamento dos músculos e nervos do sistema nervoso central).

    O processo de formação do embrião é conhecido como MIELINIZAÇÃO do desenvolvimento CEREBRAL. Assim, quando a mãe está estressada o útero que acolhe o bebê fica frio e duro reduzindo o aporte/fluxo de sangue; enquanto a mãe está bem, em situação de conforto (ambiental e emocional) o útero fica acolhedor, morno e o aporte/fluxo de sangue é normal. Em definitiva, os afetos da mãe, incluindo a qualidade da alimentação e os nutrientes (ex. amamentou com leite próprio ou usou leite ninho), o tipo de útero (ex. acolhedor ou frio), a quantidade de sangue (ex. fluxo normal, reduzido ou em excesso) e sobretudo o estado emocional da mãe (ex. estressada e infeliz ou relaxada e feliz) condicionam a futura qualidade de vida e a personalidade (psique) do bebê.

    Asimismo e Stanley Keleman

    Asimismo, quando os afetos da mãe em relação ao bebê são positivos (amor, acolhimento e desejo) e o ambiente externo é favorável (conforto, ausências de estresse), o sistema nervoso do bebê, é preservado e, em tese, não desenvolverá nenhum trauma. Por isso que a gravidez é um momento crucial que precisa de muito cuidado. Pois o feto recebe, decifra e registra todos os sons e afetos externos, a química das vibrações e percepções passam através da placenta, condicionando o fluxo sanguíneo que alimenta e nutre o nascituro.

    Leia Também:  PNL e inteligência emocional para a vida e o trabalho

    Francis Mott (Prêmio Nobel da Física em 1977), estudou as interações entre os afetos intrauterinos e o mundo externo, analisando como a organogênese desenvolve as diferentes formas corporais (eg. Body type): Indivíduo magro e fino, prevalência de ECTODERMA e da função PENSAR (responsável por orientar e decidir) Indivíduo robusto e musculoso, prevalência de MESODERMA e da função AGIR (responsável pela musculatura, sangue, ação). Indivíduo arredondado, prevalência de ENDODERMA e da função SENTIR (responsável pelo aparato digestivo, respiração).

    Obviamente, esta é uma simples exemplificação didática, dificilmente encontramos indivíduos com um molde corporal puro. A pessoa não é uma tábua rasa, em branco, mas é uma síntese de diferentes situações em que as funções sentir, pensar e agir, a partir da fase genética e epigenética (fase 1, evolução do corpo); através do fluxo energético (normal, em excesso e/ou em falta) dos afetos intrauterinos (fase 2), juntos com as dinâmicas (presentes na evolução da fase 3 Infantil e da fase 4 Adulta), a marcaram/fixaram de uma forma mais ou menos acentuada.

    A emoção hostil da mãe e os traumas durante a gestação formam o traço de caráter esquizóide no bebê (WILHELM REICH)

    Quando o filho não é querido, desejado e pior quando é rejeitado pela própria mãe o bebê percebe através da corrente sanguínea e das emoções que está em um ambiente hostil e assustador e põe em prática alguns mecanismos de defesas biológico-naturais para sobreviver. O bebê também experimenta sentimentos de rejeição, abandono, raiva, medo, o desajuste emocional da mãe provoca a alteração do sangue e dos hormônios que penetram no feto e chegam diretamente ao seu sistema nervoso. Segundo o ilustre psicanalista austriaco- americano Wilhelm Reich (1897-1957) o bebê rejeitado desenvolve o traço de caráter esquizóide.

    O formato do corpo Esquizóide, caracterizado pelo trauma “eu não te quero” è magro, esticado, com cabeça grande (acúmulo de energia e fluxo sanguíneo), se caracteriza por falar pouco, sentir menos e pensar muito, evita contatos, experimenta a dor da rejeição com o mundo lá fora, tenta se abstrair e isola-se para evitar sofrer, cria um mundo paralelo fantasioso em que pode brincar, sentir-se seguro e acolhido. Desta forma, o corpo e a mente viram uma estátua de argila, desenhada e esculpida pela mão invisível das emoções.

    No próximo artigo sobre Máscara e Sombra, explicarei melhor como na mesma pessoa podem coexistir mais de um traço de caráter (mecanismo de defesa de regressão ou progressão). Embora exista em cada indivíduo um traço de caráter predominante e escondido que causa o trauma principal, a dor existencial e as psicopatologias, em particular quando é vivenciado em uma dinâmica disfuncional.

    Conclusão sobre Stanley Keleman

    Em definitiva, o mundo de fora do bebê depende do mundo interior da própria mãe e do ambiente circunstante (social, familiar, cultural, etc.). As dinâmicas e os fatos que acontecem, são vivenciadas e interpretados durante as fases de desenvolvimento psicosesual de uma criança (fase oral, anal e genital) determinam a forma de ser (corpo), de sentir (emoções) e de pensar (mente) de um adulto.

    Desta forma, o corpo torna-se o templo, o altar em que são imoladas todas as emoções como no caso do Pelicano, sacrificados todos os acontecimentos, interpretados todos os fatos da realidade psíquica, tornando-se a síntese da vida interna e externa de uma pessoa que condiciona o desenvolvimento psíquico saudável ou doentio da sua personalidade.

    Logo o corpo, não somente a mente, é o maior tesouro de informações e vivências do paciente, ele encarna nosso pior fardo emocional ou expressa a harmonia, bem estar com a vida psíquica e o Mundo.

    O presente artigo foi escrito por Marco Bonatti. Nasceu na Itália, naturalizou-se brasileiro, reside no Brasil em Fortaleza/CE (e-mail: [email protected] facebook: [email protected]), possui doutorado PhD em Psicologia Social – UK – Buenos Aires, Argentina; Graduação em Filosofia FCF/UECE – Fortaleza, Brasil; Pós graduação em relações internacionais, Valencia, Espanha; Graduação em língua francesa na Sorbonne, Paris, França; Atualmente é Psicanalista Clínico em formação e colunista no IBPC/SP (Instituto Brasileiro Psicanálise Clínica).

    5 thoughts on “Stanley Keleman e a anatomia emocional

    1. Nos casos em que li ou presenciei sobre a Transexualidade, sempre me vem a lembrança da memória fetal: uma verificação quer pela hipnose ou aquela forma mais direta: mulher com nome masculino como “radical” ou vice versa, antes de cogitar fazer a transição! Minha mãe quis que toda prole viesse do genero feminino e, em cada um dos filhos, houve como que uma “repercussão” particular, digamos assim! Os que casaram, não tem aquele pragmatismo que atrelam aos homens, são os que cedem quase sempre, por exemplo!

    2. Muito bom artigo! Os primeiros meses de vida do feto , são realmente importante para o desenvolvimento psicológico da criança

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado.