Significado de Crise

Significado de Crise: conceito entre luz e sombra

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Entenda o significado de crise, a relação entre luz e sombra da psique que afunda suas raízes na antiga Grècia, no mito de Kore/Perséfone e que diz a respeito da evolução, da vida e da morte, da dor e da alegria que acompanham o homem desde a obscuridade do inverno existencial até chegar a luz do verão da sua evolução psicofísica.

Em este artigo o autor Marco Bonatti pergunta-se:

É possível uma nova visão da angústia, neurose e da depressão, o mal do século XXI? Pode haver evolução na obscuridade, luz na sombra? Na dor pode estar presente o remédio e a cura da doença?

Você ficou curioso? Então, continue a leitura e descubra a importância, a beleza e a lição que vêm da mitologia, de um passado que se faz presente e que se projeta para além do futuro da humanidade.

Introdução ao mito de Perséfone

O mito de Kore/Perséfone evidencia um olhar diferente, uma perspectiva mais ampla e inesperada sobre a dor e a cura, sobre a sombra e a luz do psiquismo. Kore, é a belíssima e inocente filha de Zeus (Deus do Olimpo) e Demetra (Deusa da agricultura e da fertilidade), que brotava luz para os campos de lírios, cheirava como erva fresca após a chuva e seu candor era igual ao primeiro sol de madrugada.

Hades, irmão de Zeus, Deus do submundo, do reino dos mortos, não tardou muito para se apaixonar por ela, e com o consentimento de Zeus a roubou para torná-la sua esposa. A bela e ingênua Kore chorou e gritou desesperada para que suas lamentações chegassem ao ouvido da sua mãe Demetra, que desesperada foi procurá-la durante nove dias e nove noites em todos os confins da terra, mas em vão.

Pois, uma vez ultrapassado o submundo, não era fácil ouvir a voz dos defuntos (assim como não é fácil ouvir e entender a voz do inconsciente). Somente no décimo dia, Hécate, a Deusa do luar, comovida pela tristeza de Demetra revelou-lhe o macabro plano, logo confirmado por Hélios, Deus do sol.

O desespero de Demetra e o significado de Crise

Foi assim que Demetra, desesperada e aflita pela perda da querida filha, deixou de sorrir para a terra e esta parou de brotar e germinar, os campos ficaram sem grão, as árvores sem frutas, os homens sem colheitas, e os Deuses sem oferendas. Pois, toda a vida na Terra e a sobrevivência do homem dependia da fartura dos campos, das safras e das messes (banquetes).

Os homens depressivos e angustiados, à beira da extinção, pararam de louvar e agradecer aos Deuses pela fartura das colheitas e, o inverno e a morte começaram a soprar sobre a terra gelando e queimando todas as colheitas. Zeus preocupado enviou Hermes, o fiel mensageiro, para falar com Hades e convencê-lo a devolver Kore (agora chamada Perséfone, deusa e rainha do mundo dos mortos) para sua mãe Demetra.

Hades surpreendentemente aceitou o pedido de Zeus, mas antes de deixar partir Perséfone ofereceu-lhe o melograno, fruto proibido, para que ela pudesse comer e se alimentar na viagem de volta. Todo mundo sabia, a excepção da incauta Kore, que quem comia algo do submundo, ficaria preso nele e morto pela eternidade.

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Significado de Crise e o restabelecimento das estações

Zeus precisava encontrar logo uma solução antes que os homens morressem de fome, um acordo que não violasse as leis do Universo e gerasse conflito entre os Deuses, preservando a paz do Olimpo.

Assim Zeus fez uma conciliação que agradou a todos, estabeleceu que Kore, que tinha comido somente 6 sementes do fruto do melograno, ficaria metade do tempo do ano na obscuridade (esposa de Hades) e a outra metade do ano, voltaria para Demetra irradiando a terra de luz e iluminando as estações.

Foi assim que aconteceu a história de Perséfone e Demetra, foi assim que foi restabelecido o ciclo natural das estações e depois o rígido inverno, chegaria a vitalidade da andorinha que propiciava a explosão de cores do verão e logo o outono que é precursor do inverno.

Ainda sobre a lenda

A lenda diz que quando Demetra abraçou novamente Kore, a explosão de felicidade foi tamanha que a Terra voltou a brotar, o grão reapareceu nas plantações, os frutos nas árvores, as flores nos campos.

Os homens, voltaram a confiar na natureza, aprenderam a esperar, a não ter medo da sombra do inverno porque logo teria chegado a luz do verão.

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    Aprenderam a confiar em si mesmos, a plantar no inverno para colher no verão, a acreditar na mágica da criação e da vida, na força dos Deuses e as oferendas e as preces de louvor voltaram para os Templos e o ciclo da vida e da morte, da luz a da sombra, foi restabelecido sobre a face da Terra.

    Uma explicação Psicanalítica do mito e o significado de Crise

    Podemos pensar no inverno como no lado obscuro e necessário da alma humana, como o início e o fim da vida. O inverno representa aquilo que é ignoto, não conhecido, até inconsciente e que afunda suas raízes debaixo da terra, na sombra, longe dos olhares indiscretos.

    É o centro e a sede das energias primordiais, dos sentimentos não expressos, das emoções ocultas, das verdades latentes, dos desejos e da essência da semente que já têm impresso seu destino.

    Kore representa um arquétipo duplo, de um lado a andorinha da infância, a beleza, a luz e a espontaneidade de uma adolescência incauta e sem nome (identidade) e, por outro lado Perséfone, a sombra, o passado, aquilo que foi e que continua sendo e existindo, mas que precisava se separar da sua mãe Demetra para encontrar o próprio centro, a própria identidade (torna-se rainha).

    Princípio de individuação e o significado de Crise

    Pois bem, enquanto Kore vivia abaixo das asas da mãe Demetra, plasmada pelas expectativas parentais e sociais, espelhando-se em uma luz refletida, não podia viver de luz própria e não desenvolvia seu projeto autêntico de vida.

    Precisará se desfazer do papel de vítima passiva, frágil e inocente, desvincular da imagem feminina de filha subjugada, que vive a vida segundo os modelos dos outros, atravessar a obscuridade do inverno para se tornar esposa e rainha e renascer para vida como uma identidade e unicidade (princípio de individuação).

    Demetra è mãe, è parteira, è o verão da colheita, è o princípio da realidade, que alegra-se e dá fruto para as árvores, grãos para os campos, ao passo que chora e grita pela perda e pela espoliação. Demetra representa também a saudade. São as folhas que caem no outono após recolher a fruta das árvores no verão, é o milho de ouro que deixa espaço para o cupim e que prepara o terreno (húmus) para uma nova safra.

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    A relação do Superego

    Zeus, é o pai onipresente, são os princípios morais do Superego, a consciência daquilo que é possível fazer (eu devo) e daquilo que não é possível fazer (as proibições).

    Todas as transformações das estações mostram que o ciclo natural da natureza acompanha a vida humana (humores, valores, percepções, decepções e crise), e que mesmo que exista separação entre uma etapa do desenvolvimento psico-sexual ou entre uma estação e outra (inverno/verão; outono/andorinha) existe continuidade psíquicas, um laço que afunda as raízes no passado obscuro e inconsciente, mas que vive no presente e se projeta para o futuro na medida em que cumpre com aquilo que realmente somos chamados a realizar e viver (autorrealização).

    O verdadeiro significado de Crise

    Vivemos em um mundo onde a palavra crises tornou-se predominante e negativa (crise ecológica, crise alimentar, crise na saúde, crise econômica, crise na ocupação, crises de valores, crise de identidade, crise existencial, crise como doença e patologia, etc).

    Em psicanálise a palavra crise está associada a uma disfunção da organização psíquica ou da personalidade do indivíduo, a sua incapacidade de lidar com emoções e pensamentos, de resolução do conflito psíquico diante as demandas do id e do superego, da incapacidade de lidar com ideias insuportáveis, etc.

    Por exemplo, um estado emocional em crise pode determinar diferentes neuroses (angústias e depressões) ou nos casos mais graves uma psicose com consequente perda da realidade e a substituição por delírios, alucinações e paranoias.

    A etimologia da palavra

    A palavra crise passou a indicar uma condição puramente negativa que diz respeito a uma deterioração, uma perturbação, uma rachadura, uma cisão da psique humana. De fato, esquecemos que a etimologia da palavra crise tinha no passado um significado diferente, positivo.

    O termo “crise”, de derivação grega (κρίσις), originalmente indicava a separação, o ato de debulhar, ou seja, a atividade conclusiva na coleção de grãos consistia na separação do grão de trigo da palha. Portanto, o termo era de derivação agrícola e significava escolher e separar o necessário daquilo que era desnecessário ou inútil.

    Crise significava tirar, descascar, eliminar aquilo que é poluído, aquilo que não serve, separar a palha para exaltar o grão, a semente, a essência. Em definitiva, crise (na sua acepção antiga, que queremos resgatar) significa não carregar o supérfluo, o efímeros, eliminar o desnecessário como os pensamentos e os modelos alheios que impedem a uma pessoa de viver conforme a sua natureza e essência. Toda crise implica uma transformação. É exaltar o ouro através da separação do chumbo (eg. Alchimia).

    Conclusão sobre o significado de Crise

    O mito de Perséfone mostra como a evolução de Kore começa quando percebe e decide estar em contato com o lado obscuro da sua alma, se separar (crise) do modelo de perfeição ou de subjugação dos seus pais para encontrar a sua unicidade (luz própria). O fato de Kore ficar no além do mundo, no mundo subterrâneo, a faz tornar Perséfone (rainha).

    A aceitação da dor de Perséfone de ficar entre sombra e luz é responsável pelo aparecimento do milagre das estações da Natureza, uma perfeição que se repete ciclicamente a cada ano e que origina a vida. “A Natureza é Deus e Deus é a Natureza” diria B. Spinoza (1632-1677).

    É a mesma dor da gestação que precede o nascimento do bebê, de uma nova vida. É um despejo de vida desde dentro, desde o útero obscuro das próprias emoções e energias libidinais que originam o milagre da criação.

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    As transformações acontecem na obscuridade

    Talvez, precisamos pensar que as maiores transformações acontecem na obscuridade (não na luz) no silêncio (não no barulho), no mistério das coisas fora do tempo (não nas evidência e fatos manifestos, mas nós conteúdos latentes), fora do pensamento racional, além dos porquê e das causas (mas quando deixamos espaço ao instinto, ao sentir e ao perceber, a acolher o inesperado).

    Por exemplo, um ovo quando quebra por uma causa externa dá uma omelete, mas quando a implosão vem de dentro (pela energia pulsional) gera um pintinho. Além disso, Kore precisou descer no inferno do seu subconsciente para encontrar a vida e seu caminho de volta.

    Igualmente, nossa alma quer florescer para se tornar o que é, assim as dores e as angústias, os sintomas (são mensageiros do inconsciente), são viagens interiores, oportunidades para evoluir e encontrar o caminho da cura e da auto realização que passa através da Crise (separação, eliminação). Disse C. Jung “só aquilo que somos realmente têm o poder de curar-nos”.

    Respeitando e descobrindo a missão da semente

    Em definitiva, só cumprindo, respeitando e descobrindo a missão da semente (Self) que pode-se experimentar o verdadeiro gozo para se tornar o que você é.

    Basta pouco, basta viver o projeto autêntico pelo qual nascemos (não aquele de outro) e nos transformar seja uma rosa, seja um girassol ou uma simples borboleta.

    Seja o que for, mas seja uma coisa única e não uma repetição! Porque “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, Caetano Veloso.

    O presente artigo foi escrito por Marco Bonatti. Nasceu na Itália, naturalizou-se brasileiro, reside no Brasil em Fortaleza/CE (e-mail: [email protected] facebook: [email protected]), possui doutorado PhD em Psicologia Social – UK – Buenos Aires, Argentina; Graduação em Filosofia FCF/UECE – Fortaleza, Brasil; Pós graduação em relações internacionais, Valencia, Espanha; Graduação em língua francesa na Sorbonne, Paris, França; Atualmente é Psicanalista em formação e colunista no IBPC/SP (Instituto Brasileiro Psicanálise Clínica).

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