mito de Eros e Psiquê

Mito de Eros e Psiquê na mitologia e na psicanálise

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Entenda a relação do mito de Eros e Psiquê: Eros (Amor, Cupido) e Psiquê (Alma) que atravessa o mito narrado por Apuleio nas Metamorfose (II século d.C.) e que diz a respeito da sexualidade, do desejo e do amor.

O amor no mito de Eros e Psiquê

Em este artigo sobre Eros e Psiquê o autor Marco Bonatti pergunta-se:

Pode existir uma Psicanálise que ignore as leis eternas do Amor? Ou vice versa ocorre buscar em cada manifestação do Amor (Eros) e da Alma (Psique), o eterno presente?

Possivelmente, o mito de Amor e Psiquê nos ajude a trazer a lume uma velha história.

O mito de Eros e Psiquê

Psiquê era uma jovem muito linda e admirada o bastante para ser chamada de Venere (Vênus). Evidentemente isso não podia ficar despercebido e logo despertou a inveja da verdadeira Deusa Vênus que não aguentava mais que uma simples humana, mortal podia ser “venerada” mais que uma Deusa e quis vingar-se.

Vênus encarregou seu filho Amor (Eros) que fizesse apaixonar Psique pelo homem mais feio e miserável do planeta, de fato um monstro, mas a profecia tomou um rumo inesperado. Acidentalmente Eros, que dificilmente falhava em atirar uma flecha (eg. atos falhos em Freud), feriu-se e ficou perdidamente enamorado de Psiquê, logo ele, que representava o desejo e a paixão e que nunca tinha-se apaixonado por alguém.

Eros, que não podia contar isso para sua mãe Vênus (Afrodite na mitologia grega) perguntou o que fazer para seu pai Júpiter (Zeus na mitologia grega). Júpiter (Zeus), conhecido como Deus da sabedoria, da luz e da verdade, primeiro tratou de eliminar todos os pretendentes fazendo com que eles sentissem somente admiração para Psiquê, mas nunca amor (ninguém queria casar com ela) e segundo aconselhou Eros de levar Psique para seu Castelo, longe dos maus olhares (pois sabia que o verdadeiro amor precisava ser guardado no segredo dos dois amantes e não exibido).

Ainda sobre o mito de Eros e Psiquê

Quando Psiquê acordou no belo Castelo sentiu-se amada por alguém cheio de atenções, mas que não conhecia, pois Eros havia coberto seu rosto (eg. Velo de Maia) para não revelar seu segredo e sua identidade.

Psiquê, na sua inocência e pureza, não precisava ver o amante para acreditar no amor, pois somente a percepção deste nobre sentimento trazia-lhe felicidade.

Sem embargo, a dúvida foi tomando conta do seu coração quando as duas irmãs (que invejavam o Amor entre Eros e Psiquê) a visitaram no belo Castelo convencendo-lá que tinha se apaixonado por um monstro e precisava descobrir e revelar sua identidade. Foi aí que Psiquê, vencida (corrompida) pela voz da razão, uma noite quando Eros estava dormindo, pegou uma lamparina, aproximou-se do leito do amante e tirou o velo do seu rosto.

A beleza de Eros

A surpresa da imensa beleza de Eros foi tamanha que Psiquê deixou cair uma gota de cera sobre o rosto do namorado, ferindo-o e acordando-o.

Eros assustado fugiu e Psiquê ficou tão abalada e desesperada de procurar o templo de Vênus, pedindo perdão e misericórdia para a Deusa que de fato a odiava.

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Vênus que estava ainda mais contrariada com este amor, pois não queria ver seu belo filho junto a sua rival, mandou Psiquê superar várias provas, entre elas a mais difícil, descer nós inferos, entrar no mundo de Hades, e trazer de Perséfone a jarra da eterna beleza (com a promessa de não abri-la).

Depois de muitas aventuras e desventuras, Psiquê conseguiu a preciosa jarra que continha o elixir da eterna beleza, mas desobedeceu abrindo o “vaso de Pandora” e caiu vítima de um feitiço mortal.

O encontro de Eros e Psiquê

Eros encontrou Psique meia morta, já completamente inconsciente, a beijou e o sopro do eterno entrou no coração da namorada. Eros acordou Psiquê e novamente decidiu pedir ajuda a seu pai Júpiter para levá-la ao Olimpo e finalmente torná-la imortal.

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    Foi assim que a energia pulsional erótica de Eros (a flecha de Cupido) entrou na Alma de Psiquê e fez com que os dois nunca pudessem viver e se separar pelo resto da vida. Pois agora, Eros e Psiquê estavam unidos pela eternidade no Olimpo dos Deuses.

    Do amor entre Eros e Psique nasceu Voluptas (eg. Volúpia) que representa o prazer e a satisfação intensa dos impulsos sexuais e dos desejos físicos e espirituais.

    Considerações sobre o mito de Eros e Psiquê

    O encontro entre dois mundos, o conúbio do mundo humano de Psique com o mundo divino de Eros originam o Amor. O Amor significa: A, Alfa privativo; MOR, morte, ou seja, além da morte. Em outras palavras, eterno.

    É interessante notar que a tensão entre o lado terreno e lado espiritual, entre o real e o fantástico, entre o humano e o divino, produz um SALTO que permite aos dois personagens de evoluir, de abrir horizontes mentais, perceber sentimentos e desejos inconsciente, experimentar emoções inesperadas.

    Para Soren Kierkegaard (1813-1855) nossa existência se define por uma tensão e uma possibilidade. A grandeza do homem é aquela de viver esta tensão, perceber a angústia (categoria mais alta) entre o céu e a terra, entre o finito e infinito e de eleger Ser como possibilidade entre um projeto de vida acabado (Terreno) e uma tensão infinita (Divino).

    Psique é contagiado por Eros

    Diversamente de Kierkegaard, o salto entre Eros e Psique, não determina somente a supremacia do indivíduo espiritual sobre o indivíduo racional, mas a possibilidade transcendente de realizar a liberdade como tensão (coexistência) para uma existência autêntica. De certa forma, Eros è sublimado por Psique e Psique é contagiado por Eros.

    É dizer, cada personagem do mito de Apuleio acabam incorporando a função e característica do outro mostrando que não pode existir dualismo (isto ou aquilo, Out Out), mas a coesistência do feminino e do masculino, do céu e da terra (isto e aquilo, Et Et).

    Eros vive em Psique e Psique não pode existir sem Eros. É o feminino e o masculino que compõem nossa essência psíquica.

    Amor é a soma de Eros e Psiquê

    Em definitiva, Amor é a soma de Eros e Psiquê, de prazer, êxtase e de transcendência e espiritualidade, de instinto e razão.

    Porém a soma do Amor não é aritmética (no amor 2+2 não dá 4), mas a soma (que dá fato é uma superação) é uma alquimia que produz um salto e um resultado absolutamente inesperado.

    O istinto sexual libidinal erótico (inconsciente) e a razão do ego (cônsciente) são transformado em uma história única de Amor. O presente torna-se eterno através do divino, que enxergamos e percebemos, e que está em nós.

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    O amor entre os povos primitivos

    Interessante notar que para os antigos nativos da Nova Guiné, não existia relação entre a atividade sexual e a gestação. O sexo era apenas prazer e descarga da energia libidinal, enquanto a fertilidade primeiro nascia no coração da mulher para depois se formar no útero.

    Segundo Mabel Cavalcante, havia uma espécie de magia, feitiço que acompanhava a reprodução na etapa mágico religiosa. Alguns povos primitivos (Aruntas da Austrália) acreditavam na existência de espíritos infantis em Tòtem que logo manifestaram-se no corpo das mulheres.

    Para os povos antigos a reprodução era prerrogativa da mulher e a prevalência dos Deuses era de sexo feminino. Era louvada a fertilidade da mulher porque como uma Deusa inspirou a fertilidade da terra (Demetra).

    Três tipos de amor

    É soberba viver apenas o amor autoerótico (Eros), esquecendo de formas de amor mais sublime como Philia e Ágape?

    Respondemos a esta pergunta no artigo sobre o Narcisismo: https://www.psicanaliseclinica.com/sobre-o-narcisista/

    Aqui é interessante lembrar que os gregos dividiam o Amor em três formas:

    Eros (representa o amor pobre que nasceu entre Poros e Pênis no banquete de Afrodite e que visa somente o próprio prazer e satisfação libidinal; Philia (philos, ou seja, amizade) é o amor entre amigos e que visa a um retorno afetivo. Ágape (em latim Cáritas) é o amor sublime e incondicional, desinteressado e desmedido.

    Se Eros é biologia pura, amor carnal, energia pulsional e instinto animal, as outras duas formas de amor são sublimes, porém humanos. Assim que a busca do prazer, a necessidade da posse e a satisfação do desejo sexual inicia com a tônica “eu quero”, mas precisa passar pelo crivo do “eu posso” e do “eu devo” que junta sensualidade a sexualidade.

    O amor no psiquismo no mito de Eros e Psiquê

    Se o amor narcisista fica somente no primeiro estágio de Eros (autoerotismo e desejo para si), o amor eterno é Ágape (transcende a necessidade), podemos pensar, em termos didáticos que:

    Eros (representa a parte biologica animal) – ID – EU QUERO (Inconsciente) Filia (parte humana) – EGO – EU POSSO (consciente) Ágape (parte espiritual) – SUPEREGO – EU IDEAL /EU DEVO ou EU NÃO POSSO

    Para Aristóteles (e também para o cristianesimo herdeiro do pensamento grego) existia o dualismo do ser humano “animal e racional” (o homem era essencialmente animal, social, racional e político conforme sua natureza, hábito e razão). É dizer, havia separação entre um amor Erótico inferior (amor sexual) e um amor Agapico superior (amor espiritual).

    Apesar disso, precisamos superar o dualismo para uma visão unitária e polimorfa do Amor que compreenda a parte afetiva, instintiva e racional.

    Conclusão

    Nos antigos textos Veda das “Upanishad”, os indianos representam o amor com um elefante amarrado em uma árvore por um fio de seda. Esta é a alquimia do amor tão frágil e invisível como um fio de seda, mas tão forte e indissolúvel para amarrar um elefante.

    Uma das letras da música de Ivete Sangalo diz: “Porque toda razão e toda palavra não vale nada, quando chega o Amor”.

    Em definitiva, sem Eros não haveria Ágape, pois o amor superior é gerado pelo amor inferior, sem sexo não há homem e sem homem não há amor espiritual; para a Psicanálise (mas sobretudo para a Psicologia analítica) não existe separação, mas simbiose, ou seja, cada parte da Alma é a parte de um tudo que antecede a vida (inconsciente coletivo e mito orfico), não são diferentes estágio de evolução, mas representam o complexo e a totalidade do psiquismo humano (infragmentável) que presenteia, antecede e perpassa os homens de gerações em gerações.

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    É assim que acontece a mágica do amor entre Eros e Psiquê e o resgate do eterno presente!

    O presente artigo foi escrito por Marco Bonatti, residente em Fortaleza/CE (e-mail: [email protected] facebook: [email protected]), possui doutorado PhD em Psicologia Social – UK – Buenos Aires, Argentina; Graduação em Filosofia FCF/UECE – Fortaleza, Brasil; Pós graduação em relações internacionais, Valencia, Espanha; Graduação em língua francesa na Sorbonne, Paris, França; Atualmente é Psicanalista em formação e colunista no IBPC/SP (Instituto Brasileiro Psicanálise Clínica).

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