pulsão de vida

Pulsão de Vida e Pulsão de Morte: conceitos em Psicanálise

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A partir da grande descoberta do inconsciente, apresentada por Sigmund Freud, o conceito de Pulsão de Vida e morte passou a permitir uma profunda compreensão da dinâmica da psiquê humana.

A palavra alemã “trieb”, a qual foi traduzida para o inglês por “drive” e que, diretamente ao português poderia ser “direção”, “impulso” ou “instinto”, acabou por ter a tradução como “pulsão”, especialmente a partir da compreensão de que a palavra instinto mais bem estaria concorde com influências natas da próprias da espécie animal de modo geral.

Ensaio sobre Pulsão de Vida e de morte e suas possiblidades na psicanálise

O conceito freudiano trata de uma energia psíquica direcionada a algum objeto, não previamente definido, ou seja, enquanto o instinto de sobrevivência de alimentar-se é o mesmo sempre para todo e qualquer ser, uma pulsão psíquica de buscar o prazer poderia se direcionar tanto à alimentação quanto aos mais diversos objetos (internos ou externos).

De todo o modo, as pulsões são conteúdo inconsciente, direcionadas à vida (Eros ou sexual) ou à morte (agressão, Tânatos). Enquanto a pulsão sexual tem um conteúdo criador e expansivo, ou seja, permissivo da geração, é aquele que permite o homem busque o seio, o alimento, o relacionamento, a criação e o próprio trabalho.

Apesar do nome da pulsão de morte, seu conteúdo agressivo, por sua vez, não indica necessariamente o ruim ou o mau. Essa ideia foi dimensionada, mais recentemente, por Rudolf Bernet, ao escrever que “uma leitura atenta de Para lá do Princípio de Prazer de Freud sugere que o mecanismo da repetição cega, a oposição a toda a mudança e uma vontade niilista em afirmar o seu próprio poder excessivo caracterizam todas as pulsões.” (‘In’: As pulsões de morte e o enigma da compulsão de repetição – https://doi.org/10.4000/cultura.2615)

Pulsão de Vida e o desejo da morte

É possível se diga que o desejo de morte esteja vinculado à pulsão de não mais ter pulsões, ou um desejo de paz. De todo o modo, essa pulsão permite a destruição necessária à formação do novo, da exclusão de um conteúdo indesejado.

Nesse contexto, para que possa haver o nascimento é preciso o abandono do útero, para que haja o caminhar, do seio, e novas significações possam ser feitas a partir da perda de objetos outrora indispensáveis. Uma pulsão de vida sem o respectivo contraponto, é por demais pueril, enquanto o simples desejo de destruir, sem seu complemento, não permite o germinar de algo novo nos escombros do antigo e defasado.

Psiquicamente, um desejo de vida impulsiona para a atividade e, por isso mesmo, exige um eterno trabalho, o qual traz a angústia ao sujeito, a qual apenas poderá ter fim caso a pulsão de morte também exerça seu papel. Diz-se, então, haver também uma pulsão de repetição, pois, no momento em que o ser humano consegue catexizar sua pulsão sexual em determinado objeto, surge a ideia de repetir, incessantemente, a busca por esse objeto, com o seio da mãe, que não mais pode alimentar como deveria.

A sobrevivência

Libertar-se desse eterno retorno é indispensável, como se percebe, para a sobrevivência. Nessa esteira, essa pulsão de repetição parece ser permissiva de uma saída saudável da angústia, permitindo uma ressignificação de antigas catexias que, diante do princípio da realidade, não mais causam um verdadeiro prazer, mas, ao revés: angústia.

Essa realidade, trazida pelo mundo externo, colide com a incessante busca do prazer que direciona o sujeito não mais à vida, mas à satisfação de uma angústia que apenas cresce, podendo, inclusive, originar sintomas neuróticos.

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Segundo Zimerman (ZIMERMAN, D. E. Fundamentos psicanalíticos: teoria e clínica – uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999), o princípio de prazer, “sob a influência dos instintos de autopreservação do ego, é substituído pelo princípio de realidade. Este último princípio não abandona a intenção de fundamentalmente obter prazer; não obstante, exige e efetua o adiamento da satisfação, o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la, e a tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer”

A Psicanálise

À psicanálise, então, conhecedora dessas pulsões inconscientes, é possível o auxiliar do analisando na tomada de consciência de questões objetais que causam angústia (como a busca do seio perdido ou sua projeção em outro objeto) ou que já se transformaram em sintoma.

Ora, trazer à tona que o desejo de um seio materno influencia nas dificuldades relacionais do sujeito adulto, por exemplo, permite não apenas seu crescimento com a atualização de sua psiquê à realidade atual, como também abre os caminhos para o alívio da angústia inconsciente do adulto que ainda queria um eterno colo, o que, à evidência, não é o melhor caminho para relacionamentos saudáveis em par de igualdade.

Nessa hipótese, portanto, se verifica que a pulsão erótica de mamar acaba por dar lugar a uma pulsão de morte, sendo necessária a compreensão consciente da realidade para a destruição do objeto outrora amado, ressignificando-o com um olhar adulto que pode dar a si mesmo a nutrição que precisa, e, de quebra, tornando-se apto a, de forma inteira, relacionar-se com uma outra mulher que não a sua própria mãe projetada.

O presente artigo foi escrito por Paulo Ricardo Suliani( [email protected]). Advogado especialista e mestre em ciências criminais, estudou e atuou, por mais de uma década, com conceitos como crime, culpa, punição e lei, encontrando na psicanálise o conteúdo faltante nas relações humanas com que lidava. Está em formação psicanalítica no Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica (IBPC) e em Terapeuta do Psicotrauma orientada para a Identidade (IoPT) pela Escola Lia Bertuol. Autor de diversas obras e artigos. Professor e palestrante. Eterno aprendiz.

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