O que é a inveja na interpretação da Psicanálise?

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Se você chegou até aqui é porque se pergunta como a psicanálise entende a inveja. Nesse artigo, vamos trazer um pouco dessa discussão para você. No entanto, antes de chegarmos até o que ela significa para a psicanálise, achamos importante ver o que o dicionário diz. Além disso, queremos falar do conceito de modo geral para, aí sim, abordarmos a visão psicanalítica do assunto.

A inveja segundo o dicionário

A inveja é um substantivo feminino. Etimologicamente, a palavra é de origem latina. Ela vem da palavra “invidere“, que significa “não ver”. Dentre seus significados vemos:

  • Sentimento de cobiça à vista da felicidade, da superioridade de outrem;
  • Sensação ou vontade indomável de possuir o que pertence a outra pessoa;
  • O objeto, os bens, as posses que são alvos de inveja.

Dentre os sinônimos de inveja vemos: ciúme, emulação.

Conceito de Inveja

A inveja ou invídia, é um sentimento de angústia, ou mesmo raiva, perante o que o outro tem. Este sentimento gera o desejo de ter exatamente o que o outro possui, seja coisas, qualidades ou “pessoas”.

Ela também pode ser definida como o sentimento de frustração e rancor gerado perante uma vontade não realizada.

Aquele que deseja as virtudes do outro é incapaz de alcançá-la, seja pela incompetência e limitação física, seja pela intelectual.

Ademais, a inveja pode ser considerada um sintoma em certos transtornos de personalidade. Um exemplo é o Transtorno de Personalidade Borderline. É possível encontrar esse sentimento em pessoas que possuem o Transtorno de Personalidade Passivo-Agressiva e também em quem tem o Transtorno de Personalidade Narcisista.

Na tradição católica, a inveja é também um dos sete pecados capitais (CIC, número 1866).

O que a psicanálise tem a dizer sobre a inveja

A inveja diz respeito aquele que não vê a realidade, como dissemos mais acima. Muito pelo contrário: ele a inventa de modo fantasioso e até delirante.

A pessoa invejosa não possui visão para ver a si mesmo. Sua visão está voltada para fora, para o outro. Ele deixa de perceber o que tem e, nesse caso, o que não tem passa a possuir maior importância. O outro tem, ele não tem.

Nesse contexto, deseja-se o que o outro tem. Além disso, quem tem iveja não admite sua falta e muitas vezes age de acordo com sua cobiça de modo extremo. Mais profundamente, o invejoso quer ser o outro. Como o sentimento é instintivo, se assemelha a fome. O indivíduo tem fome do outro.

Canibalismo

Em alguns casos, é possível valer-se do conceito de canibalismo para acaracterizar o invejoso. Quando alguém tem fome do outro e consegue o que ele tem, pensa que seu poder passará a lhe pertencer. Isso ocorre em algumas culturas primitivas.

Na impossibilidade de comer o outro vivo, o invejoso destrói o objeto invejado com suas próprias mãos. Ele faz isso tramando, caluniando, tecendo uma teia de mentiras para que as outras pessoas sintam por ele compreensão. Até mesmo promove uma cumplicidade de modo a comseguir que outras pessoas fiquem contra a figura invejada.

A inveja em Shakespeare

Quando olhamos para as obras de William Shakespeare, temos a história de Iago e Otelo. Nesse contexto, assistimos a inveja causando destruição e morte através da intriga. Otelo, personagem principal em O mouro de Veneza, peça escrita em 1603, é um general que promove Cássio a tenente. Seu suboficial Iago sente-se traído, já que desejava ter sido o funcionário promovido.

No entanto, ele não parou para refletir na razão pela qual o outro veio a ser promovido e não ele. Não observou sua falta e foi fazer justiça pelo caminho instintual, o que é usual para muita gente. A partir daí, Iago, em seu ódio por Otelo e por Cássio, começou a semear a discórdia entre o casal Otelo e Desdêmona.

Assim, o homem começou a conceber um terrível plano de vingança que tinha como objetivo arruinar seus inimigos.

Iago tratou de fazer com que Otelo acreditasse que Cássio e sua esposa Desdêmona estavam tendo um romance. Por ciúme, outro problema terrível, Otelo estrangula sua esposa em uma atitude insana. Em seguida, sabendo do erro e injustiça que cometeu, Otelo crava um punhal em seu próprio peito. Assim, Iago concebe e leva a cabo sua trama delirante e letal.

Voltando à essência da inveja

Ao se deixar levar levar pela inveja, uma pessoa volta a um estado primário do ego. Dessa forma, ela é dirigida somente pelos instintos, algo que aprendemos a controlar com o tempo. Embora a pessoa tente criar justificativas racionais para suas atitudes, na verdade, não existe razão para esse comportamento.

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O que existe é de fato uma pendência para a irracionalidade, isto é, uma instintividade que se traduz no comportamento primário e que pode levar alguém à insanidade.



Melanie Klein, inveja e ego na infância

Para a psicanalista Melanie Klein, a origem da inveja é percebida já na primeira infância, ou fase pré-objetal. Isto porque a criança não é capaz de distinguir-se do mundo que a circunda. Assim, encontra-se na “fase anobjetal” ou do “narcisismo primário” de Freud.

Ao longo do desenvolvimento do bebê, em uma situação ideal o sujeito ao invés de invejar aprende a admirar. Assim, ele se encantará com as diferenças e de modo a apreciá-las no outro. Sua curiosidade e êxtase diante do novo, das descobertas ocorrem de maneira alegre e livre do medo da perda.

Isso acontece porque sempre haverá descobertas maravilhosas para fazer e quando não, o sujeito terá em si mesmo a força de elaborar algumas para si. Além disso, ele aprenderá a cair e se levantar.

Quando as coisas não acontecem desta maneira, o invejoso e a invejosa pensam “eu não quero ser eu, eu quero ser você”. Deseja-se transformar nesse outro com capacidade de amar, se alegrar, de viver a dor e o sofrimento, mas sem se anular.

Afinal, para a pessoa que está em desequilíbrio, a pulsão da vida não está no centro e, por essa razão, deseja isso do outro.

Toda essa incursão a respeito da teoria do desejo na infância é importante. Além de revelar como nosso desejo se forma e amplia a questão das pulsões, discute como o internalizamos. Segundo a psicanálise, nós internalizamos traumas de infância em nosso inconsciente.

Esses traumas se traduzem nos comportamentos do nosso dia a dia. Daí que nosso sentimento pode ser mais ou menos inflado.

Conclusão

A inveja é algo que nos aprisiona. Se olharmos só para o outro, deixamos de lutar pelo que queremos. É preciso entender em que nível a nossa infância interfere na nossa vida adulta, além analisar e trabalhar isso. Uma maneira de conquistar esse autoconhecimento é por meio de nosso curso de Psicanálise Clínica online. Confira o programa e matricule-se!

 

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