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Sexualidade na Adolescência: reflexões de uma professora em sala de aula

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A convivência com adolescentes, em sala de aula, pode proporcionar aos educadores uma observação profunda acerca de uma fase do desenvolvimento do ser humano. O presente artigo vai te fazer perceber, através das concepções de uma docente, como acontece a sexualidade na adolescência.

As barreiras educacionais

Desde o início, o desejo de estudar psicanálise vinha sendo instigado pela frustração diante de um processo artificial de ensino de alunos.

Esses alunos se apresentavam com inúmeros problemas. Às vezes, o diagnóstico era de cunho psicológico. Outras vezes, de origem biológico. Mas, na maioria das vezes, sem qualquer diagnóstico e com sintomas visíveis e fáceis de se identificar em sala de aula.

Por muitas vezes tentei buscar ajuda, dentro e fora da escola, mas os entraves burocráticos e a morosidade do sistema público de saúde serviram de empecilhos, tanto na minha busca de uma terapia para os alunos, quanto no interesse dos alunos com o tratamento.

A relutância das famílias em aceitar os problemas de suas crianças

Muitas famílias não desejam um diagnóstico que torne oficialmente um dos seus membros como um “anormal”.

Elas desconhecem tratamentos, tanto na psicanálise quanto na psicologia, e psiquiatria com potencialidade de melhorar a qualidade de vida desses jovens.

Reflexões das vivências de mais de 20 anos de trabalho

Estudando as fases de desenvolvimento propostas por Freud e refletindo sobre cada uma delas, apresento algumas reflexões. São questionamentos, que certamente minha ainda pouca leitura sobre o assunto, há de parecer primária.

São resultados de vivências de mais de 20 anos na educação, lidando com alguns comportamentos de adolescentes e jovens que muitas vezes são taxativos para identificarmos defesas patológicas como isolamento, anulação, projeção entre outras.

A partir da observação do comportamento do aluno em fase de puberdade, em uma escola de Ensino Médio, dos relatos dos mesmos sobre suas relações, identifiquei alguns comportamentos desses alunos.

Esses alunos seriam a superação das fases de desenvolvimento identificadas, por Freud, e também comportamentos que evidenciam a sexualidade na adolescência.

A fase oral

Segundo Freud, a primeira Fase, designada como oral, ocorre de 0 a 2 anos de idade. Nela a criança tem como princípio de prazer levar objetos à boca e dar relevante importância ao ato de sugar, morder. Apresenta-se narcisista, considerando-se o centro do mundo.

É muito comum observar alunos do Ensino médio com faixa etária entre 14 e 17 anos levando insistentemente objetos à boca. Pude observar que isso se dá em momentos quando são advertidos pelo professor e/ou quando precisam utilizar a oralidade em seminários ou ainda quando tentam explicar o não cumprimento de prazos e atividades avaliativas.

A inserção de objetos na boca, pelos alunos, sinaliza a etapa da sexualidade na adolescência

Muitos deles não percebem o gesto de colocar a caneta, o bocal, o lápis, a borracha, clips ou até mesmo pedaços de papel de caderno na boca. Eles mostram surpresa quando sinalizamos o hábito. Esses alunos nem imaginam que esses gestos tem a ver com a sexualidade na adolescência que está em desenvolvimento.

Essas observações nos levam aos seguintes questionamentos:

  • de que forma esses jovens passaram quando crianças pela fase oral diante de uma falta de afetividade desencadeada por núcleos familiares bem distante do padrão pai-mãe-filho(a) ?
  • quais orientações são passadas para eles enquanto infantes sobre a higiene corporal e de que forma essas informações influenciaram a formação do ego-corpo?

As diferentes classes sociais na escola

Alunos de classes sociais de grande vulnerabilidade mostram baixa estima, enquanto aluno de classes mais altas e que também frequentam a escola pública, pelo simples fato de seus pais não aceitarem mais financiar uma escola particular, possuem autoestima.

Os últimos chegam à escola cheio de rompantes, de orgulho e demonstração de sentimento de superioridades sobre os primeiro. No entanto, camuflam o verdadeiro motivo de terem saído da escola particular de origem.

Os alunos de classes mais baixa mostram menor autoestima. Não gostam do que produzem, resistem aos elogios e evitam falar sobre a vida pessoal.

Na maioria das vezes, esses alunos são inteligentes e dotados de bastante criatividade, mas não associam qualquer valor ao sistema de ensino.

O comportamento dos alunos

Apesar de não haver um senso crítico demonstrado por eles quanto ao sistema de ensino, é notória a dificuldade desses alunos de permanecerem em sala de aula, de cumprir as tarefa mesmo tendo domínio do conteúdo abordado e de se engajarem em qualquer projeto pela coletividade.

Outro comportamento muito comum e que acredito ser também reflexo da não superação das fases de desenvolvimento, causando os distúrbios comportamentais são os alunos silenciosos. Esses não falam quase nunca, mas tem no olhar a perspicácia de observador. Sentam-se no final da sala, nas últimas cadeiras preferencialmente nos cantos das salas para ter uma visão diagonal dos colegas.

Não interagem, não participam, não dizem o que pensam. Em determinados momentos, evitam o contato visual com o professor. Em cada sala de aula que lecionei, houve a presença de pelo menos um aluno com esse perfil, tanto do gênero masculino quanto do feminino, nunca homossexuais que preferem os centros das salas.

A história de um aluno pouco interativo

Para relatar uma situação inusitada com um dos alunos que chamo aqui de silenciosos, trago de memória um aluno que nunca tinha respondido nem ao menos o tradicional “presente” na hora da chamada. Ou levantava uma das mãos sinalizando sua presença na sala ou seus colegas se encarregavam de responder por eles.

Após me certificar que não havia qualquer deficiência física no aluno, como por exemplo, dificuldade na fala ou surdez, passei a conversar diretamente com ele para que houvesse interação. Consegui apenas algumas afirmativas com acenos de cabeça.

A influência da cultura familiar na sexualidade dos jovens

No ano seguinte, o aluno agora já repetente, senta-se na mesma sala e no mesmo lugar. Perguntei em particular ao jovem o que ele faria para que o resultado do ano anterior não se repetisse e ele respondeu um categórico “nada”.

Novamente as unidades se passaram e o aluno não mostrava qualquer interação em qualquer aula ou disciplina.
Um dia, quando já não tinha mais esperança, no final já da última unidade do ano letivo, instalou-se na sala um debate sobre nudez.

Quando outro aluno expôs como era bem resolvido em relação a própria nudez e, inclusive, sobre a nudez dos seus pais, pois tinha o hábito de tomar banho com seus genitores, o dito silencioso, levantou a mão. Pediu a palavra e, para surpresa de todos, expôs um discurso carregado de pudor sobre o próprio corpo e a nudez dos pais.

O melhor orador de uma congregação religiosa

O que ocorreu foi muito intrigante e surpreendente para todos os presentes, principalmente pela desenvoltura do aluno em expressar suas ideias. Seu discurso era praticamente um protesto contra o senso comum, naquele momento, de que não havia nada de errado em ver os pais sem roupa.

Conceitos sobre Deus, pecado, respeito foram jogados na sala pelo menino tido como silencioso. Curiosa com o fato inusitado, pesquisei para descobrir de onde vinha tanto domínio da oralidade. Descobri que o jovem fazia parte de uma congregação religiosa e que era um dos melhores oradores entre os jovens.

Considerações finais

Mas então, por que o silêncio em sala de aula?

Não cogito de forma alguma responder qualquer pergunta que aqui faço pelo simples fato de não ter as respostas, o que pretendo é levantar mais e mais perguntas, que possam criar um caminho de possibilidades de compreensão da sexualidade na adolescência, do comportamento humano.

Professores que estudam Psicanálise (conheça nosso Curso de Formação em EAD) têm mais elementos para compreender e ajudar os seus alunos, especialmente no ensino médio, em que os alunos estão passando pela transição drástica que é a puberdade.

Autora: Catia Garcez (exclusivo para o site Psicanálise Clínica).

 

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