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Teoria Crítica: entendendo a Escola de Frankfurt

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Veja hoje sobre a teoria crítica. “Na psicanálise nada é tão verdadeiro como os seus exageros” (Theodor Adorno, Minima Moralia, aforismo 29). Neste trabalho, refletiremos sobre o papel que a psicanálise teve nas elaborações e análises da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. Esta reflexão é relevante porque ela busca compreender uma das mais originais correntes de pensamento do século XX, a qual refletiu sobre a sociedade, a cultura, os costumes, a literatura e incontáveis outros temas.

Mostraremos como tal corrente é devedora do referencial teórico da psicanálise – sobretudo daquilo que foi escrito por Freud em seus anos finais. Assim, como objetivo, buscaremos neste trabalho demonstrar o valor que a psicanálise teve para tal escola, afinal, ela se baseia sobretudo nas reflexões marxistas e psicanalíticas para elaborar suas análises e conceitos.

Além disso, temos como objetivos apresentar e comentar alguns destes conceitos, sintetizando as ideias dos autores de tal escola, e mostrar a relevância que tal arcabouço teórico tem ainda nos dias de hoje.

O trabalho sobre a teoria crítica

Na primeira parte do trabalho, abordaremos a gênese do Instituto de Pesquisa Social (que foi o berço da Escola de Frankfurt). Na segunda parte, focaremos em apresentar os principais conceitos da Teoria Crítica, relacionando-os à psicanálise.

Na terceira parte, argumentaremos sobre a relevância que tais reflexões têm ainda nos dias de hoje. Vamos conhecer os teóricos da Escola de Frankfurt com as propostas interpretativas trazidas por seus comentadores: somente assim poderemos ver a riqueza das reflexões de tal Escola.

O Instituto de Pesquisa Social, o berço da Escola de Frankfurt

Conforme mostram Jay (2008) e Jeffries (2018), o Instituto de Pesquisa Social (que seria o berço da chamada Escola de Frankfurt) foi fundado em 1924, graças ao patrocínio de um rico comerciante judeu, o qual doou uma considerável fortuna a pedido de seu filho, já que o jovem almejava a construção de um centro de estudos marxista na Alemanha. Todos os membros do Instituto eram judeus de famílias abastadas (numa época em que o antissemitismo já era bastante acentuado no país) e tiveram uma formação sólida em diversas áreas (sobretudo a Filosofia).

Somado ao fato de serem judeus, havia o viés marxista de suas análises, o que os tornaria, alguns anos depois, alvos dos nazistas. Por conta da perseguição, o Instituto de Pesquisa Social precisou mudar de sede (foi para Amsterdã) e seus membros se tornaram exilados: primeiro foram para a Inglaterra e, depois, para os EUA. Neste último destino, viveram algumas décadas, seja lecionando, pesquisando ou auxiliando o governo estadunidense no combate ao nazismo, fornecendo informações e análises que contribuíram nos esforços de guerra.

Apenas Walter Benjamin, membro honorário do grupo, não conseguiu se exilar: enquanto tentava fugir, foi interceptado por seus perseguidores e, para não ser torturado e preso em um campo de concentração, optou pelo suicídio. Os demais membros se estabeleceram nos EUA até o fim da Segunda Guerra Mundial e, após a guerra, se dividiram: alguns continuaram na América (como Marcuse e Erich Fromm), enquanto outros voltaram para a Alemanha (como Adorno e Horkheimer).

A inovação dos pensadores da Escola de Frankfurt e a teoria crítica

Apesar de alguns ensaios anteriores, foi apenas durante o exílio nos EUA que o Instituto de Pesquisa Social fez algo extremamente inovador para a época: uniu em suas análises marxistas o referencial teórico da psicanálise. Até então, tratava-se de algo impensável, já que o arcabouço de Marx tinha uma visão materialista por demais focada em aspectos econômicos, negligenciando qualquer dimensão mais psicológica. Para os membros do Instituto, contudo, a junção de teorias era salutar para compreender a realidade social do momento.

A junção era feita, grosso modo, com base na dialética hegeliana: tese, antítese e síntese. Basicamente, tratava-se de uma análise calcada no movimento, isto é, as reflexões nunca eram estanques. Exemplificando: assim como o capitalismo não surgiu do nada, mas foi gerado por meio das interações entre indivíduos (ainda que de forma não intencional e num processo), os indivíduos eram alterados pelas dinâmicas do capitalismo, algo que afetava a própria subjetividade das pessoas. Se para Marx (e para o marxismo ortodoxo) o comunismo era o destino final, o fim da história, e fatalmente ocorreria, dadas as leis históricas que ele afirmou ter descoberto, para os teóricos do Instituto de Pesquisa Social isso não estava garantido: na verdade, não havia sinais de que haveria a instauração e expansão do comunismo, haja vista a ascensão de regimes totalitários (nazistas, fascistas etc.).

A importância da psicanálise, para tais pensadores, era a de permitir entender o porquê de a revolução não ter acontecido e, possivelmente, jamais vir a acontecer: a explicação estava na mente dos indivíduos, não nas leis econômicas. Apesar de focar suas análises nos mais diversos objetos (economia, literatura, cinema, música, costumes etc.), o que garantiu unidade ao Instituto, permitindo que ele se tornasse uma Escola, foi a junção do marxismo à psicanálise, algo que é chamado de freudo-marxismo por Genel (2017).

Uma instituição abstrata

Esta foi sua característica mais elementar. Vale dizer que, aqui, entendemos “Escola” não como algo físico, o espaço em que se leciona e estuda, mas como uma instituição abstrata, que fornece linhas conceituais gerais e que direciona as pesquisas desenvolvidas pelos membros do grupo, os quais possuem frequente e intenso intercâmbio cultural e científico com os outros membros, construindo uma “linguagem comum” que servirá de léxico e pressuposto para novas reflexões.

Nesse quesito, a Escola de Frankfurt gerou um corpus conceitual que é chamado de Teoria Crítica da Sociedade ou, mais comumente, apenas Teoria Crítica, na qual analisa os mais diversos aspectos da sociedade por meio do referencial teórico supracitado (o freudo-marxismo).

Principais conceitos e sua dívida com a psicanálise e a

O uso da psicanálise foi tão profícuo no grupo que gerou diversas discussões acadêmicas – e algumas delas não acabaram tão bem. Erich Fromm, psicólogo que era a referência em psicanálise para o grupo, acabou afastado do Instituto nos primeiros anos de exílio, por propor uma visão muito heterodoxa dos conceitos freudianos. Foi mais ou menos nessa época que ganhou destaque no grupo Herbert Marcuse, um filósofo que havia estudado com Martin Heidegger, o qual, por sua vez, tornou-se um apoiador do nazismo, fazendo com que seu pupilo, um judeu, se afastasse dele e procurasse guarida no Instituto. Marcuse se apropriou um pouco tardiamente do referencial psicanalítico, mas isso não o impediu de bolar conceitos instigantes, como o de “dessublimação repressiva”.

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Como é sabido, Freud propôs a ideia de sublimação e a explicou como sendo uma forma de dar um novo direcionamento às pulsões. Assim, em vez de dar vazão à libido, por meio da repressão das energias sexuais e seu direcionamento para outras áreas, era possível criar as maravilhas da civilização. A arte, por exemplo, seria uma forma de sublimação, criando algo belo ou útil por meio desse desvio da energia sexual para outras esferas (artísticas, neste caso específico). Na obra “O Mal Estar na Civilização”, por exemplo, Freud mostra o quanto a repressão é necessária para que haja uma civilização.

É só por meio da repressão e da sublimação subsequente que é possível construir algo, em vez de apenas ser escravizado pelos desejos pulsionais e pela busca de sua realização. Para Marcuse, contudo, a sociedade moderna estava gerando um outro fenômeno, a dessublimação repressiva. Basicamente, as pessoas não eram mais instadas a controlar suas pulsões: a sexualidade era exacerbada e imperava o hedonismo.

O prazer

Contudo, a sexualidade que era apresentada como algo compulsório aos indivíduos não era livre, mas quase uma obrigação social. Os indivíduos eram estimulados a ter prazer, cada vez mais prazer. Esse imperativo, por sua vez, era acompanhado de uma repressão ubíqua: tão logo deixasse de buscar prazer e de ser produtivo, o indivíduo era descartado. Mais do que isso: se tentasse buscar prazer de um modo não convencional ou tentasse questionar algo, seria perseguido e proscrito socialmente.

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    Os pensadores da Teoria Crítica

    Isso gerava, para Marcuse, um cenário em que só seria possível encontrar o homem unidimensional, o indivíduo que não reflete, não cria, não pensa: apenas consome prazer e produz mercadorias. Um homem-objeto que não tem nenhum valor intrínseco. Para o autor, tal cenário já estava cada vez mais próximo de se concretizar e ele não via nenhuma saída possível para resolver o problema. Aliás, o caráter de aporia, de não ver saída ou escapatória, era um dos traços distintivos da Teoria Crítica: todas as análises eram pessimistas e levavam à beira do desespero, fazendo com que seus membros fossem apelidados, pejorativamente, de apocalípticos.

    Um outro membro do Instituto, também chamado de apocalíptico pelos detratores, e um dos principais expoentes da Teoria Crítica, foi Theodor Adorno, filósofo e musicólogo. Ele abraçou a psicanálise com ainda mais vigor que os outros membros do grupo, defendendo as concepções mais ortodoxas de Freud e se opondo a propostas revisionistas que pipocavam no período (motivo que levou ao seu desentendimento com Erich Fromm). Conforme mostra Benjamin (2017), a psicanálise foi um dos principais pilares do pensamento deste filósofo. As duas principais obras de Adorno que abordam a psicanálise são “Estudos sobre a Personalidade Autoritária” e “Ensaios sobre psicologia social e psicanálise”, embora em diversas outras obras ele tenha, como referencial de fundo, as reflexões freudianas.

    Apenas não nos deteremos nestes outros livros por questões de espaço – e porque as duas obras que apresentaremos já conseguem sintetizar os conceitos e propostas do autor. O primeiro desses textos, publicado em 1950, trata-se de uma pesquisa monumental, feita em colaboração com diversos pesquisadores dos EUA. Em um primeiro momento, foi realizado um grande questionário padronizado e algumas entrevistas em profundidade para averiguar o apoio que ideias autoritárias tinham entre os estadunidenses – e o resultado foi acachapante.

    Valores tradicionais

    Para operacionalizar os achados, foram criadas algumas escalas (como a F de fascismo e a AS de antissemitismo). O objetivo delas era mensurar o grau de apoio que os indivíduos davam a propostas autoritárias e de desrespeito aos direitos fundamentais. Constatou-se que havia um grande contingente de indivíduos que apoiariam governos fascistas nos EUA, e pelos mais diferentes motivos: crença na necessidade de um líder forte, para combater “comunistas”, melhorar a economia, favorecer valores tradicionais e familiares que supostamente estavam em risco etc.

    As explicações dadas para esse apoio ao autoritarismo eram sobretudo psicanalíticas, analisando a infância dos entrevistados, o caráter libidinal de se apoiar uma figura forte como líder, a estrutura psíquica desses indivíduos etc. O mais profundo uso da psicanálise, contudo, pode ser encontrado nos ensaios sobre psicologia social e psicanálise, os quais foram publicados ao longo dos anos (sobretudo a partir dos anos 40) e traziam algumas reflexões que seriam utilizadas no estudo sobre a personalidade autoritária, além de desenvolver outros enfoques relevantes que não foram abordados no estudo sobre a personalidade autoritária.

    Dito de outro modo, é um conjunto de textos que foram escritos antes e depois do estudo sobre a personalidade autoritária, abarcando, portanto, um longo período de tempo e mostrando as evoluções no pensamento do autor.

    Adorno: Psicologia das massas e análise do Eu

    O ensaio que mais se notabiliza nesse processo de amadurecimento intelectual é aquele em que Adorno analisa o padrão da propaganda fascista na rádio estadunidense, que foi originalmente publicado em 1951. Para fazer tal reflexão, o autor retoma o clássico texto de Freud, “Psicologia das massas e análise do Eu”, reapresentando-o e atualizando suas proposições para o contexto estadunidense, com seus meios de comunicação de massa. Para Adorno, há um ganho narcísico e libidinal ao se seguir um líder forte e autoritário, confrontando e perseguindo minorias (judeus, homossexuais, comunistas etc.).

    Em um primeiro momento, há como deslocar a frustração e culpa pelos fracassos: não é o indivíduo que falhou e não teve sucesso (financeiro, afetivo etc.), pois ele foi a vítima da minoria da vez, erigida como inimiga. Grosso modo, se o “outro” (um indivíduo qualquer) fracassa, ele merece a sina que teve, pois é um fracassado. Por outro lado, se é um membro do grupo que falhou, ele é vítima de algum complô (de judeus, comunistas, homossexuais etc.), complô este que o impediu de ter o merecido mérito que lhe cabia. Além desse deslocamento, há o ganho narcísico de se saber conhecedor de um complô que mais ninguém, ou quase ninguém, conhece.

    O indivíduo que segue o líder autoritário se sente mais inteligente que os outros cidadãos, pois apenas ele, os outros membros do grupo e o líder descobriram “a verdade”, o complô, a conspiração. A inovação que Adorno traz, devedora da psicanálise, está em propor uma interpretação psicanalítica para o fenômeno. Para ele, num nível inconsciente, os indivíduos não acreditam de fato na mensagem que é passada pelo divulgador de propagandas fascistas, pois tais mensagens são absurdas, sem nexo argumentativo e rasas, constituindo-se como meros slogans.

    A teoria crítica para Adorno

    Na verdade, segundo Adorno, o indivíduo finge que acredita na mensagem, e finge tão bem, que acaba acreditando em seu fingimento, não na mensagem em si. Justamente por isso, de nada adianta combater as mensagens fascistas, pois o indivíduo poderia alterar a narrativa no decorrer do processo: de judeus, os inimigos poderiam ser homossexuais, ou comunistas, ou feministas, ou o que quer que seja. Dever-se-ia combater, isso sim, o processo de identificação libidinal entre o líder e a massa, pois tal processo é o responsável por gerar o fingimento que é mobilizado nas práticas autoritárias e fascistas.

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    Combater tal processo, contudo, não é uma tarefa simples: como combater um elemento inconsciente de identificação? Lembremos, nesse aspecto, do caráter de aporia que já havíamos mencionado anteriormente: Adorno mostra o problema, mas não consegue identificar uma solução. De um modo geral, uma possível proposta de mostrar com argumentos racionais que seguir um líder fascista não será benéfico para o indivíduo que o segue é apenas um começo (e bem insatisfatório): é a apresentação para o consciente de algo que deve ser combatido no inconsciente.

    Uma saída, nesse aspecto, seria fortalecer o ego do indivíduo, para que ele pudesse resistir aos instintos destrutivos do Id que são capturados pelo Superego representado pelo líder autoritário (que aparece como um Ideal de Eu para a massa). Fazer isso, todavia, envolve dar alguma autonomia para o indivíduo, reconhecer seu caráter de cidadão emancipado e que pode resistir às armadilhas, algo cada vez mais improvável de acontecer, já que ele se encontra acossado pelas demandas da sociedade e sem o mínimo de segurança existencial. Eis aí, portanto, uma verdadeira aporia. Como seria possível reverter tal situação?

    A Dialética do Esclarecimento (Adorno e Horkheimer)

    Também merece destaque a reflexão feita em “Dialética do Esclarecimento”, a principal obra da Teoria Crítica, escrita por Theodor Adorno e por Max Horkheimer em 1947. Nesta obra é apresentado o conceito de Indústria Cultural, que seria uma das reflexões fundamentais de tal Escola. Tal conceito analisa a produção cultural, a qual é feita em moldes industriais no capitalismo. Em sua argumentação, leva em conta, principalmente, a indústria fonográfica e o cinema, mas seus achados poderiam ser transpostos para outros nichos (livros, HQs etc.). Segundo os autores, tal produção padronizada, visando ao lucro e ao consumo em larga escala, afeta até mesmo a subjetividade dos indivíduos, embotando sua capacidade reflexiva e crítica, em prol da mera passividade .

    Nesta obra em questão, a reflexão que é mais devedora da psicanálise é aquela que reflete sobre os elementos do antissemitismo. Segundo os autores, o antissemitismo não depende dos judeus para exisitir: os judeus são apenas os bodes expiatórios da vez. Segundo eles, há um processo de deslocamento e de projeção que deve ser estudado, em vez de apenas falar que os alemães eram antissemitas, por isso prenderam e mataram os judeus nos campos de concentração. Ora, em um primeiro momento, os indivíduos projetavam seus impulsos egoístas, gananciosos e usurários num grupo, afirmando que os judeus eram egoístas, gananciosos e usurários (poderiam afirmar que os ciganos, os negros, os homossexuais ou qualquer outra categoria tinha esses maus atributos).

    A seguir, deslocavam a ira que sentiam, por estarem impotentes numa sociedade opressiva e por serem abusados por patrões expropriadores, para o grupo minoritário da vez: já que não podiam agredir o patrão ou a própria sociedade (ou os líderes políticos), canalizavam o ódio e atingiam as vítimas de vez, sentindo que, com isso, se vingavam das injustiças pelas quais passavam. Segundo os autores, tal mecanismo não foi invenção do nazismo – este apenas criou o assassinato em nível industrial. Assim sendo, poderia ser utilizado em outros momentos no futuro. Uma sociedade opressiva seria terreno fértil para proliferar indivíduos que perseguem e agridem os outros, tentando mascarar suas próprias más características e extravasar suas frustrações e angústias. Algo que podemos ver claramente nos dias de hoje, no auge da polarização política pela qual temos passado – o que nos leva à próxima seção.

    A Teoria Crítica ainda tem valor?

    Apesar de a Teoria Crítica ter passado por diversas transformações ao longo dos anos – por exemplo, a segunda geração da Escola de Frankfurt, com filósofos como Jurgen Habermas, abandonou a faceta “apocalíptica” e passou a defender a democracia burguesa e o Estado de Direito como fins em si -, os estudos de sua primeira geração não esgotaram seu arcabouço teórico inicial e as possibilidades explicativas que tal arcabouço continha. É verdade que houve, ao longo dos anos, diversas críticas às propostas interpretativas desses teóricos, como a crítica que foi feita ao estudo de Adorno sobre a personalidade autoritária.

    Como mostra Costa (2019), as críticas foram várias e se referiam, sobretudo, à incapacidade de mensurar de forma efetiva seus achados, já que eram embasados na psicanálise e no inconsciente. Afinal, como se analisar de forma quantitativa o inconsciente dos indivíduos? A despeito disso, o fato é que tal estudo sobre a personalidade autoritária foi um marco teórico e ainda hoje tem investigadores que o adotam. Prova disso é o fato de que em 2017 foi feita, no Brasil, uma pesquisa semelhante pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

    Tal pesquisa constatou o autoritarismo presente no país, o qual só tem se exacerbado nos últimos anos. Além disso, os estudos sobre a propaganda fascista são extremamente atuais e deveriam ser utilizados nos dias de hoje para refletir sobre as fake news e sobre os apoiadores de líderes autoritários. Vale ter em vista que tais líderes se valem das novas tecnologias (como a internet) para propagar discursos que emulam aqueles que eram veiculados pelas rádios na década de 40 do século passado.

    As ciências sociais

    Devo dizer, aliás, que tenho me direcionado para esses aspectos em minhas pesquisas de doutorado: em 2021, apresentei, no 45º Encontro Nacional da Anpocs (o mais prestigioso congresso brasileiro na área de Ciências Sociais), uma reflexão sobre o movimento Escola sem Partido que usava o arcabouço da Teoria Crítica como referencial teórico e, em 2022, apresentei, no II Seminário Jornalismo Contemporâneo da Faculdade Cásper Líbero, uma reflexão sobre as fake news tomando o ensaio de Adorno como disparador do debate.

    Ademais, nos dias de hoje, refletir sobre fenômenos como a eleição e popularidade de Donald Trump encontrará ecos nas reflexões que Adorno e outros teóricos da Escola de Frankfurt fizeram no século passado durante sua estadia nos EUA. Dito de outro modo, a Teoria Crítica não é mera curiosidade a ser abordada num curso de história das ideias, mas um arcabouço vivo, que ainda tem muito a oferecer para análises da sociedade contemporânea.

    Certamente demandará algumas adaptações (como trazer a internet para o centro das pesquisas), mas esse sempre foi um pressuposto da Teoria Crítica: a constante reformulação e debate, atualizando os conceitos, para permitir uma análise atual da sociedade e de suas contradições, sem entendê-la como algo estanque e que não sofre mudanças.

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    Conclusão: sobre Teoria Crítica (Escola de Frankfurt) e psicanálise

    Como vimos nesta monografia, a Escola de Frankfurt aliou de forma inovadora duas das principais correntes teóricas do século XX, a saber, o marxismo e a psicanálise. Dito de outro modo, seus teóricos incrementaram as análises de cunho marxista, excessivamente materialistas e pautadas em fenômenos econômicos, trazendo a dimensão psicológica para a análise, notadamente a psicologia profunda do inconsciente.

    Apesar dos mais variados temas que foram discutidos pelos membros do grupo (indo da autoridade familiar à música, passando pela literatura, cinema, antissemitismo, autoritarismo, dentre diversos outros tópicos instigantes), poderíamos dizer que uma de suas tônicas era responder à grande questão do seu tempo: se as leis históricas e econômicas apresentadas por Marx eram verdadeiras, por que não houve uma revolução? Por que o proletariado não se uniu contra a burguesia e aboliu, pela luta de classes, todas as classes sociais, criando uma nova sociedade (comunista)?

    Esta era uma questão premente, pois, com efeito, por todos os lados, apenas se encontravam dois cenários: países supostamente aderindo ao socialismo, mas criando uma burocracia opressiva e espoliando o povo; movimentos totalitários se tornando hegemônicos e instituindo governos opressores, como o nazismo alemão ou o fascismo italiano. Tais movimentos conseguiam, por vezes, apoio da classe operária, que era prejudicada pela política levada a cabo pelos novos governos.

    Como explicar um tal apoio?

    Para os membros da Escola de Frankfurt, apenas com o arcabouço teórico da psicanálise seria possível encontrar uma resposta satisfatória para o problema. Afinal, não se tratava de uma decisão racional, mas não faria sentido chamar os indivíduos de irracionais, posto que, em todo o resto, se portavam da maneira mais apropriada para uma sociedade tecnológica. Assim, a explicação deveria ser procurada mais ao fundo, dentro do inconsciente dos indivíduos. A grande sacada de tais pensadores foi a de articular o pensamento freudiano ao panorama social do momento, tentando explicar a sociedade moderna com o auxílio desse referencial.

    E aí estava o ganho qualitativo que foi trazido às Ciências Sociais: não se explicava a sociedade apenas de um modo mecanicista (crítica dos membros da Escola de Frankfurt aos positivistas) nem explicavam os indivíduos apenas pela dimensão psicológica. Havia um diálogo dialético entre essas duas esferas, que permitia refletir sobre a sociedade por meio das discussões sobre o inconsciente dos indivíduos, ao mesmo tempo em que era possível discutir sobre os indivíduos percebendo o papel que a sociedade tinha em sua formação psíquica.

    Dito de outro modo, os indivíduos fazem a sociedade e a sociedade faz os indivíduos. É um processo dinâmico, complexo e dialético que jamais está completo: sempre há uma tese, uma antítese e a sua síntese, a qual se tornará a tese do próximo processo. Basicamente, é este processo que permite explicar porque a sociedade está sempre em movimento, indo por direções que não foram determinadas previamente pelos indivíduos: são as interconexões entre indivíduos e a sociedade que fazem com que novas subjetividades surjam e, ao mesmo tempo, garantem que a sociedade sempre se modifique – e a palavra “modificar” é relevante nessa análise, pois não estamos falando de modo valorativo, indicando um progresso ou um declínio.

    A teoria crítica e reflexões

    Vimos alguns conceitos relevantes trazidos pelos teóricos desta escola, como a dessublimação repressiva ou a ideia de fingimento, as quais, além de estarem profundamente atreladas à psicanálise, têm o grande mérito de se manterem atuais hodiernamente, permitindo profícuas reflexões sobre a realidade contemporânea. Graças a isso, pudemos argumentar e defender que a Teoria Crítica elaborada pela Escola de Frankfurt ainda é relevante nos dias de hoje.

    Ainda que tal escola tenha passado por diversas reformulações e mudanças de enfoque – Habermas, por exemplo, abandonou a psicanálise e passou a adotar a Psicologia Social de George Mead -, as propostas da primeira geração não foram superadas pelos enfoques posteriores: são diferentes abordagens para os mesmos problemas de se compreender a sociedade. Prova disso é o fato de temas caros à Teoria Crítica, como o estudo sobre a personalidade autoritária, ser revisto e aplicado para a sociedade brasileira poucos anos atrás, conforme vimos.

    Mas mais do que isso: qualquer um que se detiver na vasta literatura produzida por estes teóricos verá a riqueza conceitual e analítica que ela possui, e o quanto ela ainda é válida para explicar nossa sociedade contemporânea. Em síntese, poderíamos dizer que a grande contribuição desta monografia é a de chamar a atenção para a Teoria Crítica, mostrando que ela ainda é útil para refletir sobre a sociedade moderna e contemporânea e como sua utilidade está atrelada à psicanálise. Foi só graças a ela que a Teoria Crítica pôde fornecer interpretações contundentes para a realidade social em que seus pensadores viviam, com todas as contradições de tal realidade. É também com o auxílio dela, por sua vez, que poderemos pensar nossa própria realidade, também com suas contradições.

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    Este artigo sobre Teoria Crítica, Escola de Frankfurt e Psicanálise foi escrito por EDUARDO MARANGONI CANESIN, para o Curso de Formação em Psicanálise.

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