planejar a mente na terceira idade

Terceira Idade: o que é, como planejar a mente?

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Não se trata de alguém obsoleto, ultrapassado ou até mesmo sem utilidade, como tive a oportunidade de constatar em alguns textos ou vídeos utilizados como fonte de pesquisa sobre a Terceira Idade. Mas, sim, de um ser repleto de experiências, com uma história de vida, em sua grande maioria, cheia de fatos interessantes e marcantes.

Trata-se de alguém que merece grande respeito acima de tudo, e muita compreensão. Alguém que ainda pode (e deve) contribuir com a sociedade em geral, mas que muitas vezes não “se encontra” como uma nova pessoa que apenas adentrou a uma nova fase.

O idoso é uma pessoa, como qualquer outra, que chegou num ponto da vida que merece uma avaliação, na verdade, uma autoavaliação. Porém, que muitas vezes demanda coragem dele próprio para enfrentar o passado, que pode ou não ter sido doloroso, frustrante, mas que pode servir de base para uma nova fase repleta de novas ideias e afazeres, que podem vir a tornar essa nova experiência muito prazerosa.

Este trabalho tem o objetivo de mostrar que com planejamento e orientação através da Psicanálise, o idoso pode construir uma nova fase da própria vida. Isso, com um olhar diferente daquele frequente a esta etapa, olhar este que pode levá-lo a novas e profundas experiências de forma a tornar seu convívio diário, algo desafiador, motivador e gratificante.

 

1 – A realidade atual da Terceira Idade

Em dias em que a produtividade, a busca frenética pelos resultados e o extremo imediatismo, associados ao egoísmo e ao individualismo, fica claro que o espaço para o idoso tem mais e mais se reduzido.

Nas grandes metrópoles, esta situação tende a ser mais grave e complexa ainda, dado que praticamente inexiste o convívio social. Como, por exemplo, as relações ou conversas prolongadas entre amigos ou vizinhos, quaisquer que sejam os temas destas.

Nos dias atuais a busca pela sobrevivência do ponto de vista financeiro deixa pouco espaço para os idosos.

Peguemos a título de exemplo, um casal com dois filhos relativamente novos, em idade escolar. Muito provavelmente, ambos (pai e mãe) trabalhem em horário integral, visando trazerem ao final do mês o dinheiro necessário para bancar as necessidades da família.

Gastos como comida, vestuário, assistência médica e odontológica, escolas, etc. Tudo faz parte do hall de contas a serem honradas a cada mês.

A vida toma um tom acinzentado com um aspecto complexo onde a tônica do dia-a-dia é a correria desenfreada em busca da “sobrevivência”.

 

A percepção do tempo na Terceira Idade

Pouco tempo sobra para se dedicarem aos filhos e menos ainda para o casal.

Imaginem o que restaria para eventuais avôs e avós que seriam os idosos, iniciadores desta família, como progenitores dos pais e mãe acima citados. Fica característica a falta de atenção que os idosos teriam neste contexto.

Ocorre, porém, que estes, independentemente do quão idosos são, tem várias demandas.


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Cabe aqui uma pequena e rápida definição, que seguramente tem sido alterada no decorrer do tempo, mas que atualmente se apresenta da seguinte forma: “Idoso é todo indivíduo com sessenta anos ou mais” – OMS (Organização Mundial da Saúde).

Tal definição veio sendo alterada no decorrer dos anos em função de vários aspectos.

 

Políticas públicas para a 3a Idade

As diferentes políticas públicas vigentes e cada país, as condições sócio- econômicas, entre outros fatores fizeram e ainda fazem com que esta definição mude de tempos em tempos – com a alteração da idade cronológica, principalmente.

Há vários anos, era considerada idosa uma pessoa que atingisse os cinquenta anos. A longevidade era bastante reduzida, dadas as doenças não conhecidas e os escassos tratamentos para combatê-las. A mortalidade então era alta, de forma que pessoas com mais de cinquenta anos eram poucas.

Com o passar dos anos, com as pesquisas da medicina, com os avanços desta, associados aos avanços tecnológicos em termos de equipamentos e da indústria farmacêutica, a vida tornou-se longeva.

Em determinados países do continente asiático, são comuns pessoas com mais de cem anos de idade. Este novo cenário vem trazendo uma nova problemática mundial.

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Some-se a isto, o pouco conhecimento que o mundo detém com relação à terceira idade. Isso em aspectos como saúde, participação social, economia, – principalmente, por que a longevidade é algo bastante recente e como tal, não teve tempo hábil para um mapeamento destes quesitos, ao mesmo tempo que suas demandas também são conhecidas somente superficialmente.

Resumidamente, o idoso tem se tornado foco de pesquisas e estudos para que num futuro próximo tenhamos alternativas mais eficientes para os aspectos acima citados, entre outros.

 

2 – Um olhar econômico e social sobre a Terceira Idade

“Como tratar a Terceira Idade? O mundo tem capacidade para tal?” Há espaço para o idoso do ponto de vista social ?

Se olharmos, por exemplo, para aspectos como aposentadoria, algo intimamente ligado à terceira idade, a questão toma proporções bíblicas de difícil solução.

Atualmente, a natalidade encontra-se em queda vertiginosa, dados os altos custos envolvidos, etc. Isto acarreta queda da força de trabalho e consequente menor arrecadação para o Serviço Social, responsável pelo pagamento das aposentadorias.

Olhando esta questão no longo prazo, certamente chegaremos a um colapso facilmente provado pela reduzida entrada (a arrecadação supracitada) versus a crescente saída para as aposentadorias da crescente população de terceira idade. Em paralelo, temos a questão social, na qual vemos o idoso quase sempre colocado de lado, sendo tratado como alguém que não pode mais contribuir social e economicamente.

 

Uma questão cultural…

Trata-se de uma questão cultural que toma a grande maioria dos países, sejam eles desenvolvidos ou não. Os poucos programas de inclusão do idoso no ambiente social. Quase na sua totalidade, tratam-no com atividades que dão uma conotação de infantilidade – coisa que ao contrário, acaba por baixar ainda mais a autoestima do indivíduo.

Situações onde o idoso não consegue oportunidade profissional, também são comuns.

Este cenário contribui fortemente para uma população crescente em um estado de depressão que pode gerar graves consequências.

 

Definição de Terceira Idade: significado

Cabe neste momento definirmos o que vem a ser o envelhecimento,  o que é terceira idade, o que significa terceira idade?

Trata-se de um “processo biológico natural responsável por alterações no funcionamento do organismo, que conduzem à mensurável perda da capacidade adaptativa de resposta ao ambiente diante do estresse e de doenças crônicas”. (Claude Bernar e James Fries)

O ser humano passa sim por uma espécie de “degeneração”, porém esta ocorre, na média, inicialmente com o físico, em consequência do avançado da idade. A mente também sofre desgaste com a idade cronológica avançada, porém o inconsciente não. Seus processos são atemporais e não envelhecem.

As demandas continuam, o idoso em condição mínima de saúde tem desejos, tem sonhos. Mas, que, na sua grande maioria são sufocados dia após dia, dadas as poucas ferramentas disponíveis para a terceira idade.

Este quadro gera no idoso uma série de consequências negativas, com reflexos físicos e mentais. O mundo vem correndo, no sentido de resolver tal situação, porém a velocidade com a qual as soluções são implementadas é muito reduzida frente à real demanda.

Cabe ao idoso se reinventar. É neste ponto que um planejamento prévio faz-se necessário. A Psicanálise pode auxiliar de forma bastante eficiente e eficaz neste sentido.

 

3 – Aspectos psíquicos

Sabemos que em termos gerais, o que dita a terceira idade, é primordialmente a ação do tempo sobre o corpo físico do indivíduo, que mediante esta ação e este tempo, podem ou não promover de forma mais ou menos acentuada um “desgaste” deste corpo físico. Este “desgaste” pode acarretar problemas como doenças ou limitações que podem vir à afetar de forma significativa o indivíduo. Isso, em aspectos vários do seu dia-a-dia, seja na forma de lidar com atividades cotidianas ou mesmo no contato e convívio social.

Ocorre, porém, que um indivíduo não é formado única e exclusivamente por um corpo, saudável ou não. Mas, também, por uma mente, que influencia diretamente, inclusive nas suas condições físicas.

 

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A saúde mental e física

O desgaste físico pode gerar, por exemplo, uma ferida narcísica – uma vez que esse indivíduo não mais se vê como uma pessoa hábil fisicamente para fazer o que fazia antes de apresentar este estado de desgaste físico.

Podemos ter igualmente uma situação inversa, na qual um idoso saudável pode tornar-se depressivo frente a, por exemplo, obstáculos sociais relativos à suposta desqualificação para o trabalho. Essa, oriunda de valor errôneo dado para a incapacidade da terceira idade, ou mesmo para uma diminuição do seu convívio em meio social, seja em rodas de amigos – ou, até mesmo, entre seus familiares.

Neste cenário, o quadro depressivo (de origem puramente psíquica) poderia vir a desencadear situações de adoecimento físico, dores, etc. de clara origem psicossomática.

 

O Ego e a mente na Terceira Idade

Além disso, temos ainda a condição do Ego na terceira idade que aqui vou chamar de “difícil”. Trata-se daquele idoso “teimoso”, característica comum nesta idade. Trata-se de um traço adquirido ao longo do tempo e que trás uma conduta de difícil contorno que é a do “profundo conhecedor da vida e de tudo”.

Este idoso é extremamente resistente à qualquer opinião alheia à sua, seja qual for o aspecto, incluindo os relativos à sua saúde, em especial a saúde mental. É aquele indivíduo que quase sempre não aceita um diagnóstico, seja ele, de depressão, confusão mental (demência), etc., aceitando menos ainda indicações de tratamento, etc.

Naturalmente que este Ego de difícil acesso não é uma regra, podendo existir indivíduos idosos com uma situação oposta. Sujeitos extremamente frágeis psiquicamente, com um Superego “carregado” de crenças limitantes vindas de gerações passadas que se basearam na sua maioria em ensinamentos religiosos, por exemplo, ou em características e hábitos regionais (países de origem da família do idoso).

Fica claro, portanto a grande importância da condição psíquica do idoso, frente a seu quadro geral de saúde, porém cabendo diferentes e diversas abordagens.

 

A 3ª idade e as perdas…

Em adição, há o fator relativo às perdas no decorrer da vida. Não é só nesta fase da vida (na Terceira Idade), mas principalmente nela em que o indivíduo faz um balanço de sua vida e pode constatar algumas perdas, que em sua grande maioria são doloridas, gerando angustias, dúvidas em relação ao futuro, possível dependência de terceiros, etc.

Tal desdobramento acontece por que o ser humano é dotado de capacidade para refletir sobre sua condição, imputando-a inclusive um juízo de valor.

Outro fator que pode trazer sérias consequências é o lugar desse novo sujeito. Esse, que até pouco tempo atrás, tinha uma condição física, econômica e social, completamente diferentes da que existe com a chegada da velhice.

Esta nova condição pode vir a deixar esse indivíduo sem um lugar para si próprio, não se identificando como sujeito. E isso pode ocasionar uma série de consequências psíquicas, emocionais, sociais ou até mesmo físicas.

 

A morte, a Idade Avançada e a Psicanálise

Outro desdobramento comum seria um pensamento com relação à própria morte, dado que somadas às próprias perdas. Este indivíduo, ao fazer um balanço de sua vida, dá-se conta da perda de objetos, parentes e amigos, o que o leva normalmente a pensar que “sua vez” está chegando.

Por todos estes e muitos outros fatores psíquicos e emocionais que o uso da Psicoterapia (psicologia para idosos). Mais especificamente, da Psicanálise, que é de fundamental importância como forma de ajudar este sujeito a elaborar todo este balanço, esta autoanálise. Isso, com vistas a adentrar em uma nova fase da vida, fase esta que pode ser tão motivadora e desafiadora como qualquer outra fase já vivida, com o acréscimo e vantagem da experiência e maturidade acumulada ao longo de toda uma jornada até este ponto e da eventual não incumbência de responsabilidades como criação de filhos, apresentação de resultados frente a cargos (cenário profissional), etc.

É neste momento que o indivíduo, com o auxílio da Análise, pode lançar mão de hobbies, exercícios físicos condizentes com sua condição física, buscar atividades que sempre teve vontade de fazer. Porém, que nunca dispôs de tempo para tal, coisas que tragam prazer em viver.

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Conclusão: o que é terceira idade

Como vimos, a terceira idade é repleta de variáveis e nuances além de fatores que podem ser vistos como complicadores para que esta fase da vida possa ser vivida.

Do ponto de vista psíquico, cabe ao indivíduo se preparar para esta fase. Assim, ressignificando e reconstruindo sua identidade à partir de sua autoanálise, momento em que vai fazer um balanço de sua vida vivida até então, algo normal de se fazer quando é chegada a terceira idade.

Pode-se chegar a resultados de tristeza em decorrência de eventuais infortúnios ou arrependimentos vividos que ainda assim podem ser trabalhados e ressignificados, ou resultados que mostrem novas possibilidades.

Neste ponto a Psicanálise pode ser de grande valia, na medida em que pode ajudar o indivíduo neste profundo e intrigante mergulho. Onde, este pode questionar-se quanto àquilo que já foi feito na vida e o que pode vir a ser feito deste ponto em diante, qual seu papel enquanto sujeito, ajudando-o a ser mais flexível e moldável novamente, dando-lhe condições para reinventar novos padrões de vida que permitam novos ganhos, novas habilidades, conhecimentos, contatos sociais, etc.

Através da Análise, o indivíduo pode assumir a responsabilidade pelo seu próprio destino, permitindo uma emancipação de seu passado, possibilitando novas experiências futuras.

 

A psicoterapia – a psicologia da terceira idade

Uma vez amparado pela Psicoterapia, o sujeito pode vir a se sentir capaz frente às suas experiências vividas. Dessa forma, fortalecido através das dificuldades superadas, podendo avançar em uma nova vida com vários lugares e papéis disponíveis.

Uma nova linguagem, novas simbologias e novos simbolismos podem surgir.

A sexualidade, que é algo de extrema importância, mas pouco abordada na terceira idade, principalmente pelos homens pode ter novo significado e lugar, o que pode ajudar nos relacionamentos sejam eles já existentes ou não.

Em suma, o idoso pode passar a se sentir vivo, ativo, valorizado e pronto para uma nova jornada de novos investimentos e alternativas desafiadoras.

Pode passar a enxergar, desse modo, a morte apenas como outra fase para a qual estará caminhando como outra pessoa qualquer, seja ela idosa ou não.

 

A Psicanálise e a Terceira Idade

Cenários mais complexos podem ainda existir, com quadros de traumas passados, etc. Mas, ainda assim, através de um planejamento baseado na Psicanálise, envelhecer passaria a não ser em linhas gerais, um momento negativo de perdas e desilusões, mas uma fase na qual, potenciais adormecidos poderiam vir à tona.

Por exemplo, projetos abandonados no passado poderiam ter espaço com liberdade e tempo para serem levados a cabo e, sobretudo, uma fase de criatividade na qual o sujeito, dotado de experiências e maturidade, pode vir a se conhecer realmente e se tornar pleno de si.

 

Referências bibliográficas

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  6. SANTOS, Álvaro da Silva; ALBINO Araceli; SANTOS, Vitória de Ávila; GRANERO, Grabriela Souza; BARROS, Maria Teresa Mendonça de; FARINELLI, Marta Regina. Abordagens da psicanálise no atendimento ao idoso: uma revisão integrativa. [Online]. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-98232018000600767&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: jan. 2020.
  7. SCHWARZ, Lídia Rodrigues. Envelheser – A busca do sentido da vida na Terceira Idade. Uma proposta de psicoterapia grupal breve, de orientação junguiana. (pp. 69-101). Dissertação de Douturado, Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. [Online]. Disponível em: <https://teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47133/tde-16122008-161154/publico/schwarz_do1.pdf>. Acesso em: fev 2020.

 

Este material sobre Terceira Idade: como planejar a mente? é de Cássio Gebara, concluinte do nosso Curso de Formação em Psicanálise Clínica

 

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