abuso sexual infantil

Abuso sexual infantil: aprendendo a reconhecer

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Constantemente, a mídia tem mostrado casos de abuso sexual infantil, que acontecem tanto no Brasil e no mundo, ocasionando uma verdadeira repugnância moral em toda sociedade. A família ao receber a notícia do abuso sexual, pode a princípio não dar credibilidade a criança e achar que a mesma está mentindo.

Mesmo porque a criança pode inventar relações sexuais imaginarias com adultos sendo que isto não é regra. Por esse motivo existe a necessidade de se ouvir o que a criança tem a dizer e também de se investigar o que foi relatado.

Entendendo o abuso sexual infantil

Geralmente, em crianças que sofreram abusos são observados sintomas relacionados ao medo e a ansiedade, como por exemplo, insônia, terror noturno, diversas queixas psicossomáticas, anorexia, e regressão no funcionamento emocional, tais como chupar dedo, roer unha, enurese. Também se observa o medo de defrontar com pessoas do sexo oposto, fobia escolar, medo de agressões físicas.

Em alguns casos, a criança desenvolve uma síndrome de estresse pós-traumático, que se caracteriza por ataques de pânico, depressão e o medo mórbido de novos ataques. A criança sente-se perdida e desprotegida e por esse motivo desenvolve sintomas histéricos e alterações na personalidade. Podem refletir tentativas da criança de se defender das impressões traumática que a situação incestuosa ou agressiva lhe gerou, associados à defesa primitiva, como negação, separação interna do evento e isolamento do afeto.

Em casos mais extremos de reações de dissociação podem inclusive levar a distúrbios do tipo personalidade múltipla, e convulsões histéricas. As consequências biopsicossociais nas situações de abuso estão, muitas vezes, relacionadas a fatores como: condições em que ocorre, idade da criança, grau de intimidade que a criança tem com o agressor entre outros. Por isso, é fundamental que existam medidas que visem à proteção da criança e minimizem as possibilidades de recidivas.

Formas de abuso sexual infantil

Muitas vezes, o abusador aproveita de uma relação de confiança que é construída junto à vítima para praticar o ato de violência sexual e alcançada essa relação, o abusador passa a exercer formas de ameaça e dominação sobre a criança. O abuso sexual intrafamiliar refere-se ao abuso sexual incestuoso, fato que muito tem ocorrido em nossa sociedade hoje e que deixa marcas profundas nas crianças para sempre.

Essas crianças são acometidas por sequelas físicas, ficam deprimidas, sentem medo e se culpam ao mesmo tempo, além da incapacidade de confiar novamente nas pessoas em virtude da violência psicológica a que foram submetidas. O modo de inserção de uma criança na situação de abuso sexual está mais relacionado à sua organização psíquica do que se possa imaginar.

A memória, os sentimentos e os efeitos ligados à experiência incestuosa e de abuso são passíveis de adquirir significados muito pessoais e diversos em diferentes momentos, devido ao próprio desenvolvimento ou até mesmo por associação com novos dados. Isso leva a crer que um fato aparentemente insignificante pode, a depender de quem o recebe e da forma como o interpreta, adquirir uma nova conotação com grande intensidade psíquica, que originaria num trauma.

O trauma do abuso sexual infantil

O abuso sexual infantil é causador de grande trauma, pois a criança fica empobrecida na experiência do devaneio e da construção de um psiquismo, pois o pai que abusa acaba com o imaginário da filha e neste não haverá mais espaço para brincar com ele. Entre eles haverá uma grande confusão, tanto de línguas quanto de corpos, funções familiares, sonho ou realidade.

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Sendo assim, quando existe por parte da criança uma compreensão da ocorrência do abuso sexual cometido pelas figuras parentais, certamente sempre acarretará um acontecimento traumático, podendo ou não se perpetuar como trauma a depender da capacidade elaborativa do sujeito. Acontece uma violação de lei que tem como consequência tirar o sujeito de um lugar de direito – seja de filha e filho ou de criança – e colocá-lo num outro de insegurança e de não identidade, causando-lhe uma profunda desorganização.

Os pais têm o dever de zelar pelo bem-estar dos seus filhos. Entretanto, quando estes usam o poder que lhes é confiado para satisfazer seus desejos e necessidades pessoais, ocasiona uma confusão entre os papéis e funções dentro das famílias, sobretudo, em casos de abuso sexual, pois tais atos na maioria das vezes são seguidos por cenas de sedução e carinho, disfarçando, portanto, a violência e o abuso. Deste modo, esses comportamentos acabam deixando a criança confusa, e, dependendo da relação que ela tenha com o agressor, pode denunciar ou calar-se.

Reconhecendo o abuso

Quando o pai biológico é o autor do abuso sexual, essa relação configura-se numa situação incestuosa de grandes implicações, pois o pai, ao impor a lei de seu desejo, transgrida a lei cultural que proíbe o incesto, traindo assim a confiança da criança, aproveitando-se de sua vulnerabilidade e imaturidade. O silêncio é garantido com seduções, promessas, cumplicidade e até mesmo ameaças.

Tal situação frequentemente é beneficiada pela conivência e cegueira materna e de outros familiares e a criança passa a viver uma relação traumática e conflituosa permeada por diferentes sentimentos como ódio, medo, raiva, prazer, culpa e desamparo. Sem dúvidas pode-se observar que o incesto é uma experiência devastadora e se insere nos conflitos familiares.

Seu impacto emocional é destruidor, em parte por questões culturais, mas principalmente pelo fato da criança ou adolescente ser colocado num papel de adulto. Quem deveria ser representante da lei, o que viria orientar e limitar seus desejos e ações, construindo seu senso ético, está totalmente incapacitado para tal. Já no abuso sexual extrafamiliar, o agressor, na maioria das vezes, também é alguém que a criança conhece e confia: médicos, educadores, padres e pastores, responsáveis pelas atividades de lazer etc.

Considerações finais

Sabemos que ainda há muito a ser entendido e a ser feito em relação ao fenômeno do abuso sexual infantil, e que as respostas não são de responsabilidade apenas do Estado, mas de todos nós. É preciso romper com o silenciamento da família e, principalmente da mãe, pois essa tem um papel significativo para que a vítima venha a se sentir acolhida e possa denunciar o fato.

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    Existe em cada um de nós um compromisso de mudança da situação atual que envolve o abuso sexual cometido contra a criança. Nossa contribuição será pouca se trabalharmos sozinhos, mas somados aos trabalhos de toda a comunidade, tanto na denúncia dessa violência como na forma de ajudar a família a se erguer como tal, melhorando as condições das crianças e adolescentes, talvez poderemos dar-lhes o exercício de um futuro e do papel de pais e adultos diferentes daquele passado e desse presente.

    Sendo uma questão muito polêmica acredita-se que é preciso entender como este fato pode acarretar uma série de consequências na vida da criança e do adolescente, tanto físicas quanto psíquicas que podem comprometer suas relações sociais e consigo mesma.

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    O presente artigo foi escrito por Paulo Cesar dos Santos, aluno IBPC, graduando em pedagogia e psicologia. Email [email protected]

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