O filme ‘Tudo em todo lugar ao mesmo tempo’ lançado em 2022 ganhou fama de “filme do ano”, mas ao mesmo tempo que foi aclamado por muitos, também foi criticado por outros tantos que o consideraram “sem pé, nem cabeça”, iremos aprofundar na análise do filme no olhar da Psicanálise.
Talvez, justamente porque o filme não segue uma narrativa cronológica.
A narrativa parece ter a estrutura de uma sessão de análise psicanalítica.
Ele apresenta pontos desconectados que vão se juntando e construindo o “quebra- cabeça” que é a história de Evelyn e sua jornada de redução de sintomas.
Necessidade de Aprovação
Ela é uma imigrante chinesa nos Estados Unidos.
Casada, tem uma filha lésbica, um pai rigoroso e uma lavanderia como negócio de família a beira da falência.
Em meio a uma confusão envolvendo impostos, ela vai até o Internal Revenue Services, um tipo de receita federal americana, explicar alguns gastos.
Um dos principais conflitos é com relação à sua filha Joy, que busca aprovação da mãe e do avô por conta de seu relacionamento homossexual.
A grande aventura na análise do filme gira em torno da visita de Evelyn e Waymond, seu marido, a esta espécie de receita federal.
Os Limites
Já no elevador, Waymond se transforma e avisa que sua vida está em perigo e precisa entender como pode impedir um grande desastre.
A partir deste ponto, Evelyn começa sua jornada confusa por diferentes universos, inclusive para parar as ações da vilã Job Tupaki, que é a sua filha Joy, mas de um outro universo.
Neste universo em questão, Evelyn era uma cientista e levou sua filha para além dos limites dela.
A mente de Joy acaba tomando conta de todos os universos e ela passou a vivenciar tudo em todo lugar ao mesmo tempo.
Essa antagonista está, na verdade, em busca de alguém que a entendesse – mas principalmente gostaria que Evelyn, sua mãe, a aceitasse como ela é e entendesse os caminhos que resolveu trilhar com sua vida.
O Vínculo
A vilã cria um buraco negro representado por um donut escuro que suga mais do que simplesmente luz, mas Jobu diz que colocou todos seus sentimentos e tudo que aconteceu a ela nesse donut.
Como o filme teve um destaque no cinema internacional, inclusive sendo premiado e recebendo indicações de Oscar, muitas foram as análises fílmicas apresentadas nos mais diferentes espaços.
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Nosso principal objetivo com dispositivo analítico levantado é entender como questões da transmissão psíquica geracional se manifesta nas personagens do filme.
Assim como existe uma influência direta nos vínculos e ações destes personagens.
Como mencionado a narrativa se parece muito à uma sessão de terapia psicanalítica mediada pela livre associação.
Por isso parte da crítica aponta para uma construção de roteiro “sem pé nem cabeça”.
Relação Familiar
Mas, juntando as peças trazidas pela narrativa apontamos para vários insights que nos levam a entender o vínculo da família protagonista e seus sintomas.
Por exemplo, o negócio montado por Evelyn e seu marido, Waymond, ao chegarem nos EUA é uma lavanderia.
Está já é por si só uma metáfora importante, uma vez que no campo da família dizemos que lavamos roupa suja e esta “lavanderia” emocional se dá durante toda a construção fílmica.
Um ponto importante para entender aspectos vinculares que são fruto de transferência geracional nesta família é a relação de Evelyn com seu pai, Gong Gong.
Ele é um, chinês que não fala inglês e é bastante tradicional com relação a valores familiares e sociais.
Isso podemos perceber mais por conta das falas de Evelyn tentando “roteirizar” sua família do que propriamente por ações dele.
A Análise do Filme
Evelyn tenta passar uma imagem ao pai de que é bem sucedida nos EUA, que sua filha recebeu uma boa educação e fala a língua materna de sua família.
Outro ponto evidente nesta relação é que provoca sintomas relevantes nestes vínculos é que Gong Gong é atento para estas questões mas não é alguém com disponibilidade para demonstrar amor e proferir palavras afetuosas.
A transmissão psíquica aqui fica evidente porque a tratativa de Evelyn para com sua filha, Joy é a mesma que recebeu de seu pai, embora sejaque é uma mãe preocupada e com atenção as necessidades da filha, não demonstra.
Existe um vínculo de afeto, mas isso só é possível ser captado nas entrelinhas, nos olhares e em algumas ações mas não existe manifestações de afeto através de toques físicos.
Ou mesmo palavras de amor, incentivo ou carinho de Evelyn para Joy.
Na verdade, Evelyn está muito no concreto, ela não tem tempo para brincar ou para o subjetivo.
Os Vínculos
Ela está sempre ocupada e cheia de atividades para dar conta.
Já o marido tenta trazer este tipo de vínculo mais afetuoso.
Ele, por exemplo, cola olhinhos em todos os lugares pra trazer este sorriso este “brincar” para o cotidiano da família.
Não temos muita informação – ou quase nenhuma – sobre o funcionamento dos vínculos familiares de Waymond.
Aliás, não temos quase nada de informação ou histórico da mãe de Evelyn também e, mesmo de como se dava o contexto deste núcleo familiar.
A mãe de Evelyn aparece ao lado de Gong Gong em uma única cena de flashback.
Ao compararmos os sintomas vinculares de Waymond e Evelyn podemos perceber que eles vêm de contextos familiares completamente diferentes.
Ou seja, os exercícios de conjugalidade e parentalidade tinham formatos bastante diferentes e o resultado das trasmissões geracionais bastante distintos.
Imaginação e Fantasia
É uma pena que o contexto familiar de Waymond não seja tão trabalhado na produção fílmica porque nos falta elementos para traçarmos que tipo de vínculos inconscientes foram feitos entre o casal protagonista da trama.
É bastante evidente que Evelyn não está bem emocionalmente.
Ela é uma mulher imigrante, mãe de uma adolescente, gestora de um negócio e de uma casa, também principal cuidadora de seu pai idoso.
Está claramente sobrecarregada e reflexiva com sua existência.
É essa reflexão sobre sua existência e escolhas que abre as portas para este multiverso apresentado na análise do filme.
Ela começa a imaginar e vivenciar como teria sido a vida se ela tivesse escolhido outros caminhos, outros vínculos. Um destes cenários é um filme romântico, por exemplo.
Trazendo novamente esta relação da trama fílmica ter um funcionamento parecido com uma sessão psicanalítica, Evelyn não cria uma resistência ao pensar e “vivenciar” essas outras possíbilidades, estes outros “universos psiquicos.
Ela mergulha profundamente e analisa como teria sido, como poderiam ter funcionado estes caminhos.
Fortalecimento do Ego
A narrativa do filme vai se amarrando em torno de todo esse conflito familiar.
Essas outras experiencias/possibilidades acabam sendo fundamentais para que Evelyn consiga ter insights importantes, fortaleça seu ego no enfrentamento de suas questões, como vemos mais no final do filme.
Ela também tem uma redução dos seus sintomas tanto intrapsiquicos como em seus vínculos.
Toda essa “análise” que ela enfrenta com muito transferência em suas relações nestes outros universos – e só isso daria pauta para outra análise.
Com isso, faz com que ela consiga enfrentar a sua vida atual de forma menos psicótica, podemos considerar.
Ela revisita memórias e possibilidades que teve na vida para trazer luz ao que está vivendo hoje.
Evelyn começa a repensar, experienciar e ressignificar.
Ela tem que lidar internamente com a aceitação da filha, acolher os vínculos que a filha está criando e o que ela está vivendo.
Tudo isso, não deixa de ser um enfrentamento com o pai e a transmissão psíquica geracional estabelecida.
Análise do Filme e Sintomas
Ela tem que administrar a ciência do pai dela com relação a homossexualidade da neta e também entender que a filha, Evelyn, não está indo bem nos negócios.
Ao escolherem essa narrativa desconstruída e um caminho diferente do cronológico, eles trazem muitas metáforas e uma delas é a quantidade de cenas de lutas.
Onde foram considerados por alguns críticos como desnecessárias e fora do gênero que a análise do filme se propunha.
Num olhar psicanalítico podemos perceber que estas cenas foram trazidas justamente porque existe uma luta bastante intensa no mundo psíquico de Evelyn.
Ela trava conflitos entre as instâncias id, ego e superego.
Ela ressignifica muitas coisas em uma forte batalha intrapsíquica para reestabelecer seu funcionamento.
Construção de Vínculos
Um exemplo desta ressignificação é que a vida de Evelyn até então era muito dada ao fazer e não a ser.
Muito focada em tarefas e não em seus vínculos.
Ao “fazer” achava que estava proporcionando “coisas” para os seus vínculos, mas não estava de fato vinculando com eles.
Ela parte de tudo que poderia ter sido, olha para o passado e ressignifica.
Aí começa a olhar de forma abrangente e com cuidado para tudo que ela é, hoje.
Tudo que ela conquistou e chega na família, no afeto, no amor, no vínculo.
Percebe-se que este vínculo é a grande preciosidade da vida dela, mas demora para se dar conta disso.
Ela passa muito tempo presa a concretude de uma realidade objetiva de sofrimento.
É uma repetição circular e neurótica que aparece em diferentes metáforas fílmicas, como a cena dos espelhos, círculos e ciclos da máquina de lavar, a rosquinha no cabelo da vilã, a rosquinha que suga tudo.
A Sonhada Libertação
A cena do espelho circular, logo no início do filme é bastante significativa porque a família está feliz, cantando e parecem estar brincando e se divertindo.
A mãe tampa a boca da filha.
Esse movimento é muito emblemático porque é o que a mãe tenta fazer durante toda a narrativa.
Isso se dá como fruto da transmissão psíquica geracional de uma parentalidade castradora e que acaba por resultar em fortes sintomas no vínculo mãe e filha.
Evelyn alcança a libertação de amarras neuróticas.
Atravessa o mar tempestuoso de psicoses e chega em transformações importantes intrapsíquicas com um ego bastante fortalecido.
O filme permite que a audiência acompanhe um processo transformador de redução de sintomas da protagonista.
A principal ferramenta de transformação é a revisitação da história de vida dela.
O Reestabelecimento do Vínculo
Isso se faz interessante porque temos um discurso midiático sempre bastante voltado ao fazer, atendendo uma demanda capitalista e neoliberal de produtividade.
De acordo com a análise do filme deixa de lado a objetividade de Evelyn e nos presenteia com uma possibilidade de olhar para uma subjetividade que se mostra tão essencial naquela contexto vincular.
Evelyn acaba entendendo que o movimento de brincar de Waymond e colar “olhinhos” em tudo é importante.
Faz diferença não só “fazer” pelos vínculos mas proporcionar gozo.
Entende que isso se faz importante para o grupo vincular e sua situação intrapsíquica, se libertando assim de buscas de prazer apenas por meio de mecanismos de defesa do inconsciente.
Ao seguir essa jornada consegue reestabelecer ou – mesmo podemos dizer que – criar um vínculo de fato robusto com sua filha a aceitando e demostrando o afeto que tem para com ela.
Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica do aluno Wagner Cantori.
