Lacan sempre defendeu para os seus pacientes e para a comunidade de psicanalistas a importância da postura da responsabilidade por si como uma via de construção de compromisso com o seu bem-estar e felicidade.
“Em psicanálise, nenhum conceito pode ser fixado no tempo” e isso reflete a sua busca pela atualização do tratamento psicanalítico para adequá-lo aos novos sintomas e angústias do homem que ficou desbussolado.
Como uma condição (e proposição) para uma vida plena.
Responsabilidade
Mas, a postura responsável é sempre desafiadora em nosso cotidiano e nos cabe saber identificar as diversas armadilhas que podem nos capturar e nos fazer repetir comportamentos.
Em vez de escolher e criar nossos próprios caminhos.
No livro Inconsciente e Responsabilidade, Jorge Forbes apresenta esta ideia de um inconsciente que leva o “ser falante” a responsabilizar-se pela invenção de um estilo singular de usufruir de seu corpo e de sua vida.
É com o auxílio da psicanálise que adquirimos a compreensão necessária para a invenção dessas respostas individuais, coerentes com a nossa história, com os nossos desejos e com o nosso processo de transformação.
O Comprometimento
Em diversas passagens descritas no livro de Jorge Forbes, há detalhes significativos da prática de Lacan para a responsabilidade do analisando.
Lacan cobrava um preço alto por seus atendimentos (não comentado no livro).
Na minha percepção, este já é um primeiro compromisso do paciente com seu processo de cura.
Ele precisa querer e se comprometer com o tratamento.
Outro ponto destacado é o tempo de atendimento da consulta, que foi reduzido, em comparação com os tempos e frequência adotados por Freud.
A Fala Sem Retorno
Essa seria mais uma ação que estaria estimulando a busca mais intensa por respostas, propiciando a objetividade e estimulando a consolidação de conclusões pelo paciente.
Lacan trabalhou com maestria com a significação das palavras, demonstrando que nosso inconsciente é trazido à tona por meio delas.
A reflexão, provocada pelo que foi dito, pelo que não se consegue “desdizer”, propiciava o enfrentamento dos medos e o encontro com seu íntimo.
Jorge Forbes destaca, no livro, a fala de Pierre Rey, paciente de Lacan.
QUERO INFORMAÇÕES PARA ME INSCREVER NA FORMAÇÃO EM PSICANÁLISEErro: Formulário de contato não encontrado.
Pierre “declara ter aprendido com Lacan a nomear as coisas, nunca recuando perante uma palavra, não fugindo de uma situação em que julgasse importante defendê-la em nome da ética.
“Se não tinha mais medo das palavras, como poderia temer as coisas?”
A Condução
A psicanálise do século XXI é uma “obra” em aberto, que está continuamente sendo aprimorada para apoiar as transformações que ocorrem com o homem e com a sociedade com o passar do tempo.
Pode-se dizer que Lacan foi quem iniciou esta tarefa.
Primeiramente, ele fez a releitura do arcabouço teórico de Freud, trazendo uma nova forma de chegar ao inconsciente, apoiada na linguística.
Depois, criou a Clínica do Real, mais apropriada para nossa sociedade horizontal.
No tratamento psicanalítico atual observamos várias mudanças contundentes na sua condução, quando comparamos com os tratamentos descritos por Freud.
Destaca-se, em primeiro lugar, que o foco da análise não está mais na resolução dos traumas do passado.
Responsabilidade e Regras
O foco é para o futuro: entender as angústias e problemas do presente para criar uma visão de futuro, imaginar e delinear opções de ações.
As angústias não devem mais justificar a nossa “paralisação”, como no passado, mas devem ser o motor de criação de saídas para as crises que enfrentamos.
A culpa, antes causada por infringir as rígidas regras, deve ser transformada em responsabilidade para inventar respostas para o novo mundo, tais como:
novas regras, novas estruturas e contextos inclusivos e diversos, nos quais possam caber cada singularidade de cada ser que sofre.
O ser falante de outrora, se calou e/ou já não fala tanto, pois descobriu novas formas de se expressar e trocar ideias.
Desafios da Vida
O conhecimento não é mais transmitido apenas por meio de treinamentos e de estudo, são necessárias experiências, vivências, que contemplem muitos aprendizados e que desenvolvam a visão multidisciplinar e única de cada um.
Verdades absolutas não existem mais… foram substituídas por certezas momentâneas e a razão se tornou sensível e humanizada, não é mais fria e cristalizada.
Novos tempos, novas abordagens, novos desafios, novas formas de tratamento psicanalítico.
Jorge Forbes explica que a psicanálise praticada no século XXI, exige responsabilidade e consequência.
No passado, o psicanalista aceitava as narrativas dos pacientes para proceder a busca de explicações no seu passado que justificassem suas condutas inadequadas no presente.
Havia um “abono” para as ações que tinham conexão com memórias do inconsciente.
Surpresas ou Coincidências
Hoje, as condutas inadequadas comprometem as relações com as pessoas e afetam drasticamente o convívio social, o psicanalista mostra caminhos para harmonizar essas consequências danosas.
Estimulando reflexões e análises que possibilitem a escolha ou a invenção de novas reações e novos rumos para os relacionamentos.
O analista demonstra um “desabono pelo inconsciente” e “empresta consequências” para nortear o posicionamento ativo e da responsabilidade do paciente.
Um outro ponto muito interessante, destacado por Jorge Forbes, é a abordagem de Lacan para situações que, aparentemente, acontecem por “acaso”.
Situações que nos causam surpresa e que evoluem para “coincidências inevitáveis”, nas quais nos confrontamos com nossas vulnerabilidades e vergonhas.
Os Acasos
Lacan explica que esses “acasos”, que se repetem e nos confrontam com experiências que nos causam estranhamento e desconforto, na verdade, são oportunidades de um encontro com nossa intimidade, com nossa essência.
Uma oportunidade de acolhimento e remodelagem para criar uma nova forma de “articular-se com o mundo”.
Ele cria uma grafia própria para este tipo de sintoma, que seria o “sinptôme”, oriundo da palavra “ptoma”, que indica “queda” e teria relação com o tal acidente (o estranhamento de algo).
E que, com o tratamento, sai da perda das identificações para a identidade essencial, o acidental vai achando sua explicação, se tornando uma coincidência, algo conhecido e reconhecido.
Jorge Forbes comenta sobre os desafios que a psicanálise enfrenta.
Anteriormente, o desafio era sair de uma situação na qual o paciente vivia um tipo de impotência e levá-lo até uma nova situação de potência, e, isso só era possível por meio do conhecimento e do esclarecimento.
O Inesperado
Nos tempos atuais, o desafio é sair de uma situação na qual o paciente também vive uma situação de impotência e conduzi-lo para a situação “impossível”!
Essa nova superação só é viável com a invenção de novas formas de reação, com o uso da criatividade, com novos comportamentos e novos pontos de vista, mais alargados e reposicionados na forma e no ângulo do olhar.
No livro, Jorge Forbes comenta que Lacan considera que o paciente deve ter alta quando tem a percepção de felicidade.
No seu texto ele comenta que felicidade não é oriunda de merecimento.
Felicidade depende de ousadia e de coragem.
Enfim, a “felicidade é suportar o inesperado”.
Não se explica, se ressignifica, como em uma “magia”. A magia consiste em saber “nomear” a vida de forma diferente, com novos significantes e chamá-la para perto de você, ela virá!
Às vezes, podemos, novamente, nos deparar com algo “estranho” dentro de nós, “mas quando já não se vale dele como escusa” .
Justamente porque se reconhece que esse “estranho” é íntimo, desabonamos o inconsciente e nos responsabilizamos.
Responsabilidade por Si
Incrivelmente, nos deparamos com a liberdade e a felicidade.
A psicanálise do século XXI está em aberto, precisa continuar a ser inventada.
O grande desafio é apoiar este processo de invenção para soluções que nos libertem dos comportamentos que nos aprisionam na busca de satisfação e liberdade na sociedade altamente positivista em que vivemos.
Ações automáticas e narcisistas estão nos conduzindo para depressão, burnout, síndromes de pânico e tantas outras doenças.
Nossas invenções devem ter postura responsável com a coletividade, devem resgatar nossa humanidade e devem ser belas.
O homem desbussolado precisa criar, redescobrir a arte, escolher ser responsável por seu destino e, assim, reconhecer sua liberdade de manifestar sua vida.
Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Regina Caldeira.
