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Sonhos de Mary Shelley: Interpretação freudiana

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Dois sonhos tidos pela escritora Mary Shelley inspiraram o material para escrever seu mais famoso romance, Frankenstein.

No dia 19 de março de 1815, Mary Shelley escreveu o seguinte em seu diário:

“Sonhei que meu bebê havia regressado à vida, que ele não tinha morrido, apenas ficado gelado e que eu, esfregando seu corpo e posicionando junto ao fogo, resgatava-o da morte, de volta à vida”.

Neste primeiro sonho, é perceptível que se trata de uma realização de desejo, em querer que sua filha na verdade esteja viva.

Que só perdeu a vida porque “ficou gelada”.

Sonhos com Significado

É interessante a maneira como Mary descreve a forma como traria a filha de volta: esfregando seu corpo e o posicionando junto ao fogo.

O fogo apresenta um aspecto simbólico desde os tempos primevos.

Na mitologia grega, o titã Prometeu foi quem roubou o fogo dos deuses e o entregou aos seres humanos, permitindo o desencadeamento cultural e o aprimoramento da técnica.

Para o homem primitivo o fogo devia ser algo semelhante à paixão amorosa — um símbolo da libido.

O calor que o fogo irradia evoca a mesma sensação que acompanha o estado de excitação sexual, e a chama lembra, na forma e nos movimentos, o falo em ação.

Simbologia dos Sonhos

A partir da análise freudiana dos sonhos, há diversos componentes sexuais envolvidos neste primeiro sonho.

Eis que a significação concedida ao sonho, mais especificamente ao objeto do bebê, pode representar a dor de Mary em ter perdido o falo reconhecido na filha.

O bebê é o próprio falo, e ato de esfregar o bebê no fogo é sua onipotência fantasiada, uma dominação sobre ele, que não estaria disposta a renunciar.

O gesto de esfregar é uma conotação para o ato sexual, o momento de fricção do pênis dentro da vagina que se encerra com a ejaculação para iniciar o processo de ovulação.

Fica claro que o fogo no sonho é o sêmen responsável pela vida.

O Luto

Existem poucas informações na carta de Mary sobre o dia em que ocorreu o sonho para que possamos levar a interpretação adiante.

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Mas, o processo de reanimação cadavérico é algo que Mary Shelley levará a cabo durante sua vida como escritora, intensificado sobretudo com o romance Frankenstein.

De qualquer maneira, a perda de seu primeiro bebê foi extremamente dolorosa para ela.

Esta perda sinalizou um despertar, ainda que fugaz, para a sua maternidade:

“Um novo acorde em seu temperamento foi posto em vibração com o advento desse bebê, o materno, antes bastante ausente de sua disposição, e que finalmente se afirmaria como a nota tônica de sua natureza”.

Visões nos Sonhos

Na introdução de seu romance Frankenstein, Mary Shelley escreve o seguinte quando deitou em seu travesseiro, no verão de 1816:

“Vi o pálido cultor de artes profanas ajoelhado junto à coisa que criara.”

Vi horripilante fantasma de um homem estirado que, em seguida, por força de um poderoso motor, mostrava sinais de vida e movimento desajeitado, a meio caminho de viver.

Que assustador devia ser, porque de um terror supremo seria o efeito causado por qualquer esforço humano a imitar a estupenda engrenagem do Criador do mundo.

Se bem-sucedido, atemorizaria o artista, ele fugiria, cheio de horror, de seu artefato.

E o faria na esperança de que, abandonada, a breve faísca vital que transmitira se extinguisse, de que aquela coisa, receptora de tal e imperfeito sopro, refluísse em matéria morta.

O Despertar

E poderia ir dormir acreditando que o silêncio do túmulo apagaria para sempre a fugaz existência do horripilante cadáver que tomara como se fosse o berço da vida.

Ele adormece, mas é acordado, abre os olhos, eis que a coisa horrenda, ao lado da cama.

Puxa as cortinas e o examina com seus olhos amarelados e úmidos, mas curiosos.

Depois desse ocorrido, Mary relata que, no dia seguinte fez algumas breves transcrições das imagens que passaram pela sua cabeça no momento do sonho.

Transcreveu para não esquecer seu conteúdo manifesto.

Como resquícios do dia anterior ao sonho para produção do material onírico, Mary escutou conversas entre Lorde Byron e Percy Shelley a respeito das doutrinas filosóficas que tratavam do princípio da vida.

A Pressão Interna

O sonho aconteceu quando Mary Shelley estava hospedada na mansão de Lorde Byron.

Dias depois que eles decidiram — Byron, Percy, Mary e o médico de Byron, Polidori — escrever uma história de terror.

Mary era constantemente pressionada por Percy para iniciar a história.

Porém, ela estava com uma espécie de bloqueio mental.

“O vazio da capacidade inventiva que é o maior tormento de quem escreve”.

Novamente, Mary incitou que o calor vital pudesse criar uma vida a partir da reunião de partes fabricadas de corpos.

O fogo, mais uma vez, era o princípio que anima todos os corpos, sua privação significaria a privação da vida.

Foi o que escreveu na introdução do livro Frankenstein.

Significado Profundo

Uma coisa que não foi dita na interpretação do primeiro sonho, mas que encontra oportunidade para ser dita na interpretação deste segundo sonho.

Foi durante as constantes fugas de Mary e Percy dos credores, em fevereiro de 1815, que a primeira filha de Mary nasceu.

O bebê enfrentaria, no seu nono dia de vida, condições sub-humanas por ter que enfrentar chuvas e um frio constante devido a fuga do casal de casa em casa, para despistar os credores.

O frio, então, teria um significado profundo na vida Mary:

É o que privaria um ser humano da vida, sendo o fogo o exato oposto.

Não é à toa que o título do livro Frankenstein também carrega o nome de Prometeu moderno:

Aquele detém o fogo, detém o princípio da vida, da racionalidade e da criação.

Prometeu roubou tal bem dos deuses, e agora, tentamos imitar os deuses criando nossa própria criatura.

Reanimação

Outro fato curioso que diz respeito a obsessão de Mary Shelley pela reanimação de corpos durante essa fase da vida, é que, quando ela morreu, o seu único filho que não morreu antes dela.

Percy Florence, encontra na escrivaninha de sua mãe, um baú contendo alguns fios de cabelo de seus outros filhos mortos e um pedaço do coração de Percy Shelley.

Vale a pena lembrar que Percy morreu em uma expedição de barco com seu amigo e seu corpo foi encontrado nas margens de uma praia.

É possível que o ensejo para Mary Shelley ter guardado esses itens veio depois que ela também ouviu as conversas entre Percy e Lorde Byron durante a estadia na mansão deste.

Esperança nos Sonhos

Em determinado momento, os dois “falaram dos experimentos do dr. Darwin” [Erasmus Darwin, avô de Chales Darwin].

Onde suspeita-se manter um pedaço de aletria num vidro até que, por algum meio extraordinário, o macarrão começou a se “mover voluntariamente”.

Não podemos afirmar com certeza devido a falta de cartas ou informações mencionando por que ela guardou esses itens.

Porém, podemos inferir que, no fundo, Mary nutria uma esperança de poder utilizar esses itens para trazer seus amores de volta a vida.

Ou como ter simplesmente guardado de maneira simbólica.

Esses dois sonhos fazem parte da categoria de sonhos que Freud nomeou como sonhos não reprimidos de modo não disfarçado.

São geralmente sonhos tidos por crianças, onde o conteúdo manifesto não se confunde com os pensamentos oníricos latentes.

Interpretações da Angústia

Embora possamos ver, de maneira clara, que os dois sonhos tratam-se de uma realização de desejo, aspectos simbólicos estão presentes.

Como é o caso do fogo no primeiro sonho e a renúncia ao amor no segundo sonho.

Devido ao criador se espantar com a feiura de sua criação.

Mesmo se tratando de uma realização de desejo, o conteúdo do sonho foi tão penoso para Mary Shelley que em ambos os sonhos ela despertou em angústia:

No primeiro sonho, após tentar aquecer seu bebê no fogo, ela desperta e vê que ele já não está mais ao seu lado; e no segundo sonho, depois que os olhos do criador se abrem:

“…Aterrorizada, abri os meus”

Mary Shelley, sem nunca ter conhecido a mãe e com um pai muitas vezes distante e sombrio, encontrou nos livros o consolo que precisava para não transformar aquilo que definhava em desespero.

Sublimou sua energia sexual para a escrita, e acreditava, mais do que ninguém, que as pessoas só se rebelavam contra o mundo por que não encontraram um amor para elas.

Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica do aluno Felipe Carvalho.

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