azul é a cor mais quente

Azul é a Cor mais Quente (2013): sinopse e análise do filme

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O filme “Azul é a cor mais quente” trata da descoberta do desejo não ortodoxo por parte de uma jovem francesa.

Ficha técnica do filme Azul é a cor mais quente

Título original: La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2. Elenco: Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos e Salim Kechiouchev. Direção: Abdellatif Kechiche. Roteiro: Abdellatif Kechiche e Julie Maroh. Ano de produção: 2013. Países de produção: França, Bélgica e Espanha. Duração: 2h57min. Classificação indicativa: 18 anos. Baseado no romance gráfico “Le bleu est une couleur chaude”, de Julie Maroh.

Sinopse: Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma jovem de 15 anos. Encontra na cor azul dos cabelos da colega Emma (Léa Seydoux) a sua primeira paixão. Sem poder contar a mais ninguém sobre seus desejos, Adèle vive intensamente um amor secreto. Enquanto isso, vive uma batalha com os padrões de sua família e da moral social.

Uma análise do filme Azul é a cor mais quente

Nos idos de sua adolescência e primeira juventude, em meio a devaneios e festas no quintal ou edícula típicos de casas francesas não urbanas, em meio a cuidadosos jardins, deu-se o estopim do desejo, ao cruzar uma rua qualquer, em relação a uma mulher ou garota mais madura e com o tom que dá nome ao filme.

Sabe-se que foram levadas as atrizes aos limites da interpretação por parte do diretor turco, que geram a posteriori até algum burburinho sobre se se tratava de uma espécie de machismo e subjugação feminina ao explorar seus dotes e performances em cenas que tangenciam o filme adulto e numa repetição ad nauseam de cenas e refilmagens destas rumo à perfeição desejada pelo diretor.

No mais, o que fica é um belo filme, com notável trilha sonora, com os rompantes e até bullying da cena estudantil, os descobrires do desejo, do outro, do passar do tempo, da beleza trivial e invulgar, embaixo de árvores frondosas, à beira-rio, os passeios e voltas com la bici, as tentativas de burlar o desejo, voltando atrás, ao mundo heterodoxo por natureza.

Outros conceitos de Azul é a Cor mais Quente

Isso para ficar em um interessante jogo de palavras e conceitos, as brigas, as crises relacionais, a iminente fase adulta e os dilemas e falta de horizontes claros ou definidores que acossam a nova geração, o álcool e as drogas, o disse-me-disse, o não saber o que fazer com a vida que se tem, o papel ante os pais, o coabitar, o hesitar em sair e ao sair esbarrar com a não aceitação de todo e qualquer comportamento, liberal ou não, especialmente o primeiro.

A cena que parece se dar em Paris dialoga com um filme um pouco mais adulto e de mesma nacionalidade: Perdas e Danos, com Juliette Binoche e Jeremy Irons, de Louis Malle, 1992. Com rompantes agora bem heterodoxos, uma relação proibida se faz e tangenciando e perpassando as raias do permitido, se constrói uma relação pulsional sob bases incertas, ou seja, o terreno do desejo por excelência.

Daí decorrem cenas de especial estirpe, como à porta de edifício eclesiástico, ou a fuga de conferência do meio ambiente, em uma era primeva de debates sobre a falta de fronteiras dos impactos ambientais, notadamente num universo coadunado como o europeu. Isso no papel do protagonista, homem de família, tradicional, mas que oculta, ou reprime, no linguajar da psicanálise, o desejo de voar o voo do desejo.

Cenas memoráveis

Assim se o faz ao se deparar com a personagem de Binoche, em um encontro sorrateiro, que não se sabe se premeditado por parte desta, em um lócus de trabalho do seu par proibido, já que namora o filho deste. Assim se desenlaça o aproximar dos amantes e de seus enredos vivenciais até um ponto em que se torna inviável manter as aparências, dado que a contingência dá as suas caras.

Em cenas memoráveis, como no contorcer de dor da alma do amante não passível de viver seu desejo em uma tarde em lugar outro, e ainda vendo seu objeto de estima e desejo com seu amante, sangue do seu sangue, bem como o desfecho improvável e atroz, o filme dialoga com o primeiro ao tocar o recôndito do humano, seu âmago, o inconsciente, e, por tabela, o desejo. O querer ter o que às vezes não cabe ter.

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O almejar com força da alma e vontade de potência o que está ali, mas não está. A busca da sombra que é o outro ao seu olhar, sempre se esvaindo, como no filme mais recente, também franco, e em franco despontar no streaming, sinal dos tempos, como uma “Pura Paixão” (filme de 2020), que mostra o fascínio de uma escritora e professora francesa por seu amante russo, inatingível, casado e estrangeiro, inclusive aos seus hábitos e seus valores.

Conclusão

Assim se fecha a trilogia, não a das cores que evocam La Republique Française (de Krzysztof Kieślowski):

– A Igualdade é branca,

– A fraternidade é vermelha e

– A Liberdade é azul.

Mas em “Azul é a cor mais quente” temos algo mais parecido com o Escafandro e a Borboleta (filme de 2007), onde o ser desejante se vê paralisado pelo devir a atropelar o desejo e o objeto – pessoa desejado, num torpor da impossibilidade e do acúmulo de energia potencial dele mesmo, posto que o desejo se alimenta da incompletude, de sua não realização, da não fruição ou materialização, do negar da vida ao seu querer, do fugir do ser amado ou almejado, das intempéries e interrupções da vida, a começar pela hora mais sombria, a morte ela mesma.

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    Assim se dá, no espectro psicanalítico o entendimento, sob cores francesas do desejo, que deseja desejar, e assim o fará, por toda a eternidade, seja com a bênção dos amantes ou não, posto que o imponderável está sempre à espreita e está sempre a perfazer o próprio conceito – natureza, mutável e errante, do desejo.

    Este artigo sobre o filme Azul é a cor mais quente foi escrito por Eduardo F. T. (instagram: luis2049edu), escritor por esporte, moto entusiasta.

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