Crise de Ansiedade: o que fazer em momentos de crise?

Publicado em Publicado em Psicanálise, Transtornos e Doenças

É bastante comum sentir ansiedade sempre que temos algo mais importante a fazer pela frente. Contudo, muitas pessoas acabam por perder o controle de si mesmas e entram em uma espiral de agonia e descontrole. Entenda melhor a crise de ansiedade e o que fazer quando ela começar a surgir.

A mão sobe até o peito antes de qualquer pensamento chegar. É o gesto mais universal de quem está tendo uma crise de ansiedade, e também o primeiro passo de um ciclo que se alimenta sozinho. O corpo acelera.

A mente lê essa aceleração como perigo e manda acelerar mais. Boa parte do que se lê por aí sobre o assunto ensina a fazer exatamente o que sustenta o problema no longo prazo, e isso está documentado em pesquisa desde os anos 1990. Abaixo estão o que acontece no corpo, o que fazer nos primeiros minutos e quais conselhos populares atrapalham.

  • A diferença entre ansiedade intensa e ataque de pânico
  • Por que formigam as mãos e por que a vista escurece
  • O ciclo que transforma um susto em episódio de vinte minutos
  • Conselhos comuns que aliviam hoje e cobram amanhã
  • O que fazer nos primeiros minutos, com critério de saída

O que é uma crise de ansiedade e o que ela não é

Crise de ansiedade é uma subida abrupta de medo ou desconforto intenso, acompanhada de sintomas físicos, que chega ao pico em poucos minutos e depois cede. O manual diagnóstico da psiquiatria americana descreve treze sintomas possíveis. Quando quatro ou mais aparecem juntos nessa subida, o quadro é chamado de ataque de pânico.

Isso não significa fraqueza nem falta de controle. O que dispara é um sistema de alarme antigo, desenhado para salvar sua vida diante de ameaça real, e que continua ligado mesmo sem ameaça nenhuma por perto.

O alarme funciona. O problema é o gatilho errado.

Também não significa infarto, ainda que a sensação convença. Aqui vale a regra que nenhum texto deveria omitir: na dúvida, procure atendimento médico. Descartar causa cardíaca é tarefa de quem tem eletrocardiograma na mão, não de quem tem internet.

Critério Crise de ansiedade Dor de origem cardíaca
Início súbito, pico em minutos costuma crescer aos poucos
Tipo de dor aperto no meio do peito, superficial peso profundo, irradia para braço e mandíbula
Comportamento cede sozinha em geral até meia hora persiste e piora ao esforço

O que o corpo está fazendo enquanto você acha que vai morrer

Quase todo sintoma da crise tem explicação fisiológica banal, e saber disso já reduz o susto.

O coração dispara porque a adrenalina foi liberada. A respiração acelera para levar mais oxigênio aos músculos, e é aí que entra o detalhe que quase ninguém explica.

Respirar rápido demais elimina gás carbônico em excesso. Essa queda estreita os vasos do cérebro e produz três dos sintomas mais assustadores: formigamento nas mãos, tontura e sensação de irrealidade.

O ponto decisivo veio com o modelo cognitivo do pânico, formulado por David Clark nos anos 1980. A pessoa interpreta a sensação corporal como catástrofe iminente, essa interpretação libera mais adrenalina, e o sintoma que ela teme se intensifica de verdade.

É um ciclo fechado, e ele explica por que o episódio parece confirmar o próprio medo.

Vale a fronteira: nada disso serve para autodiagnóstico. Arritmias, problemas de tireoide e outras condições produzem quadro parecido e precisam ser descartados por avaliação clínica.

Conceitos importantes para entender a crise de ansiedade

Os termos abaixo organizam a conversa e evitam a confusão entre susto, sintoma e transtorno.

  • Ataque de pânico: a forma mais intensa do episódio, com quatro ou mais sintomas em pico rápido. Nem toda crise chega lá.
  • Hiperventilação, ou respirar demais: respirar acima da necessidade do corpo, o que derruba o gás carbônico e produz formigamento, tontura e visão embaçada.
  • Interpretação catastrófica: ler uma sensação comum como sinal de morte, loucura ou desmaio iminente. É o combustível do ciclo.
  • Despersonalização e desrealização: a sensação de estar fora do corpo ou de que o ambiente ficou irreal, desagradável e inofensiva.
  • Comportamento de segurança: tudo que a pessoa faz para impedir a catástrofe que ela teme, e que acaba impedindo a descoberta de que a catástrofe não vinha.
  • Medo do medo: o estado de vigilância permanente sobre as próprias sensações, que transforma episódio isolado em transtorno.

O último conceito separa duas situações bem diferentes: quem teve uma crise e quem passou a organizar a vida inteira em torno do medo de ter outra.

Conselhos comuns que aliviam hoje e cobram amanhã

Aqui está o ponto que a maioria dos textos erra. O erro tem nome na literatura desde 1999, e chama-se comportamento de segurança.

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Naquele ano, uma equipe liderada por Paul Salkovskis publicou um experimento na revista Behaviour Research and Therapy: pacientes com pânico que abandonaram os comportamentos de segurança durante a exposição tiveram queda maior nas crenças catastróficas e na ansiedade do que os que os mantiveram. Distrair-se conta como um desses comportamentos.

  • Distraia-se de tudo: funciona nos cinco minutos e ensina que você escapou por pouco. A crença de que ia acontecer algo terrível fica intacta.
  • Não pense nos sintomas: o esforço de não pensar mantém a atenção grudada neles. Melhor observar sem interpretar do que fugir.
  • Saia já do lugar: a fuga alivia, e cada fuga estreita um pouco mais o mapa dos lugares onde você consegue estar.
  • Respire fundo várias vezes: inspirar fundo e rápido piora a hiperventilação. O que ajuda é expiração lenta e prolongada.

Isso não quer dizer que técnica de respiração seja inútil. A intenção é que muda tudo: praticada como calmante para impedir a catástrofe, vira mais um comportamento de segurança. Praticada para atravessar a onda sem fugir, ajuda.

O que fazer nos primeiros minutos

Cada passo abaixo tem critério de saída, para não virar conselho vago. Nenhum substitui tratamento.

  • Nomear em voz alta: dizer “isto é uma crise, vai passar”. Critério: a frase sai antes da fuga, não depois.
  • Alongar a expiração: soltar o ar em cerca de seis segundos, mais devagar do que puxou, sem forçar inspiração profunda. Critério: a expiração ficou maior que a inspiração.
  • Ficar onde está: sentar, apoiar as costas e permanecer no lugar até a onda ceder. Critério: você saiu depois do pico, não durante.
  • Observar sem interpretar: acompanhar o que o corpo faz sem transformar em previsão. Critério: nenhuma frase começando por “e se”.
  • Anotar depois: registrar horário, gatilho e duração assim que passar. Critério: dado no papel, não impressão.

O terceiro passo é o mais difícil e o mais útil de todos. Ficar é a única forma de descobrir, na prática, que o pico chega e vai embora sem que nada do que você temia aconteça.

Dúvidas sobre Crise de Ansiedade

As dúvidas abaixo se repetem em consultório e em pronto-socorro.

Quanto tempo dura uma crise de ansiedade? O pico costuma chegar em poucos minutos e o episódio cede em geral dentro de meia hora, ainda que o cansaço fique por horas. Duração muito maior, ou dor que não passa, pede avaliação médica.

Crise de ansiedade pode matar? O episódio em si não é fisicamente perigoso, por mais aterrorizante que seja a sensação, mas o risco está em atribuir à ansiedade uma dor que era cardíaca. Qualquer dúvida sobre dor no peito vai para a emergência.

Tenho um transtorno por causa disso? Ter uma crise não basta: o quadro se caracteriza quando os episódios se repetem e passa a existir preocupação persistente com novos ataques, ou mudança importante de comportamento por causa deles.

Só terapia cognitivo-comportamental trata? Não: ela tem a maior base de evidência, mas abordagens psicodinâmicas focadas no pânico também foram testadas em ensaio randomizado, com resultado favorável. Medicação entra por indicação médica.

A mão que desce do peito

Atravessar uma crise de ansiedade sem fugir dela é o que ensina o corpo que o alarme era falso, e nenhuma técnica substitui essa descoberta. A mão desce do peito quando a pessoa deixa de tratar cada batida como aviso de fim.

Se os episódios se repetem, procure um(a) psicanalista ou psicólogo, com avaliação médica junto. Diante de dor no peito com dúvida, procure emergência.

E você, o que costuma acontecer nos minutos que antecedem a sua crise? Conte nos comentários abaixo.

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One thought on “Crise de Ansiedade: o que fazer em momentos de crise?

  1. Maria de Lourdes da Silva formiga disse:

    Crises de ansiedade.. palpitações,perigo eminente de morte e micção descontrolada

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