Psicopatologia da Vida Cotidiana: Guia Completo

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Este artigo é um resumo poderoso da obra Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana, de Sigmund Freud. Você vai entender o essencial sobre lapsos de memória, atos falhos e suas razões. Por que esquecemos? Por que temos determinados hábitos? Vamos trazer os casos reais analisados por Freud.

Será desenvolvido um breve estudo sobre o livro de Freud, “Sobre a psicopatologia da vida cotidiana”, com o objetivo de reunir informações e dados que servirão de base para chamar a atenção do futuro psicanalista.

O presente estudo busca demonstrar a importância da linguagem na psicanálise, pois é material fundamental para análise na clínica psicanalítica. Através da linguagem a pessoa relata suas experiências, sofrimentos, prazeres e outras coisas mais e, relatando sua vida, acaba por revelar questões inconscientes. Temos como objetivo revelar que situações cotidianas entendidas na sociedade como normal, são fenômenos importantes de serem observados porque revelam o verdadeiro eu e proporciona ao indivíduo seu autoconhecimento.

O ato falho muitas vezes revela o que está no inconsciente, é um vínculo entre o desconhecido e a descoberta, faz entender a relação do inconsciente com a linguagem. O indivíduo ao relatar através da fala experiências, prazeres, sofrimentos, sintomas, etc. faz surgir elementos, expressões, equívocos, esquecimentos, enfim, atos falhos que dão indícios de questões inconscientes.

O que você vai encontrar neste trabalho?

  • A primeira parte do trabalho, aborda os esquecimentos de nomes próprios, palavras estrangeiras e sequência de palavras. Nesta parte vemos que Freud utiliza, com o devido cuidado, de exame psicanalítico para mostrar que por trás do esquecimento dos nomes existe algo recalcado.
  • Na segunda parte, lapsos da fala, leitura e escrita, é possível perceber que falhas aparentemente supérfluas são perturbações psíquicas que se analisadas, será descoberta sua causa;
  • A terceira parte, equívocos na ação, é possível entender o quão é importante observar atitudes fora da normalidade e atos falhos, pois pode revelar uma advertência, algo já esquecido que deve ser lembrado, a resposta de uma ação do passado, uma insatisfação reprimida, etc.;
  • Na quarta parte, atos acidentais e sintomáticos, mostramos a importância de perceber as falhas na ação, de não deixar passar como bobagem um ato que muitas vezes descortina o que é importante saber;
  • Na quinta parte, erros e atos falhos combinados, conseguimos ter uma ideia de que por mais que um indivíduo seja inteligente, isso não o impede de errar grotescamente algo que conscientemente não faria .
  • Na sexta parte sobre determinismo e superstição, fica claro que todos os atos são determinados pelo psicológico do ser humano, sendo de forma consciente ou inconsciente, o fator psicológico sempre determina, e a superstição tem como raiz o conhecimento adquirido em algum momento da vida.

Para atingir esse objetivo, a metodologia empregada foi o estudo do livro de Freud “Sobre a psicopatologia da vida cotidiana” onde ele se dedicou ao estudo dos atos falhos cometidos no cotidiano das pessoas.

Índice de Conteúdos 

  • 1. Esquecimentos de nomes próprios, palavras estrangeiras e sequencia de palavras.
  • 2. Lapsos da fala, de leitura e de escrita
  • 3. Equívocos da ação
  • 4. Atos Acidentais e Sintomáticos
  • 5. Erros e atos falhos combinados
  • 6. Determinismo e Superstição
  • 7. Conclusão

1. Esquecimentos de nomes próprios, palavras estrangeiras e sequencia de palavras.

Esquecimentos de nomes acontecem corriqueiramente no dia a dia de qualquer indivíduo e trata-se de um fenômeno que passa despercebido como se fosse algo insignificante e sem valor, mas se investigado, revela muito mais que um simples engano. Segundo Freud (1901, p. 07 ) “(…) essa situação específica (reconhecidamente comum e sem muita importância prática) em que uma função psíquica – a memória – se recusa a funcionar admite uma explicação de muito maior alcance do que a valorização usual que se dá ao fenômeno.”

Quando a mente faz esquecer um nome próprio e substituí-lo por outro, isso não acontece por acaso, existe uma ligação entre um e outro que leva a um conteúdo até então desconhecido. Freud (1901, p. 08) afirma: “Minha hipótese é que esse deslocamento não está entregue a uma escolha psíquica arbitrária, mas segue vias previsíveis que obedecem a leis.”

O esquecimento de nomes próprios

No seu estudo da psicopatologia da vida cotidiana, com o objetivo de exemplificar esse fenômeno que leva a conteúdos inconscientes Freud analisou um acontecimento que ocorreu com ele próprio quando viajava para Herzegovina e conversava com um desconhecido. Ao tentar falar o nome de um artista, Signorelli, que para ele era um nome muito familiar, vieram outros nomes insistentemente em sua mente, mas não o que ele queria. Freud (1901, p. 08) destaca: “Em outras palavras, suspeito que o nome ou os nomes substitutos ligam-se de maneira averiguável com o nome perdido: e espero, se tiver êxito em demonstrar essa ligação, poder esclarecer as circunstâncias em que ocorre o esquecimento de nomes.”

Para análise de seu esquecimento em sua viagem ele fez algumas observações importantes. A primeira foi que nem o aspecto psicológico do momento e nem o nome próprio esquecido seriam a causa do esquecimento. Freud (1901, p. 08) afirma: “A razão por que o nome Signorelli foi esquecido não deve ser procurada numa peculiaridade do próprio nome, nem em qualquer característica psicológica do contexto em que ele se inseriu.”

A segunda observação se deu ao fato do tema anterior da conversa que estava tendo com o desconhecido causar perturbação, pois falavam da maneira como os turcos da Bósnia e Herzegovina lidavam com a morte e o respeito e conformismo que tinham em relação aos médicos. Ele lembrou que eles respondiam “Herr, o que posso dizer?”, se um médico dissesse que não poderiam fazer nada para ajudar um parente doente. Freud (1901, p. 08) afirma: “O esquecimento do nome só foi esclarecido quando me lembrei do assunto que estávamos discutindo pouco antes, e revelou ser um caso de perturbação do novo tema emergente pelo tema que o antecedeu.”

A terceira observação no estudo da psicopatologia da vida cotidiana se deu quando ele percebeu seu desejo de falar de outro caso, mas, não se sentiu a vontade por estar conversando com um desconhecido, então, reprimiu seu desejo. Ele teve a lembrança que os turcos dão extrema importância a ordem sexual, de tal maneira que chegam ao ponto de perder o interesse pela vida se tiverem algum problema nesse sentido.

Este assunto certamente levaria a outro que mexera muito com ele, por se tratar de um paciente que tinha se suicidado semanas antes, por sofrer de disfunção sexual incurável. Freud (1901, p. 09) afirma: “Suponho que essa seqüência de pensamentos sobre os costumes dos turcos na Bósnia etc. adquiriu a capacidade de perturbar o pensamento subseqüente por eu ter afastado a atenção dela antes que fosse concluída.”

O esquecimento não é casual

Segundo Freud e sua psicopatologia da vida cotidiana (1901, p. 09) “Já não me é possível considerar o esquecimento do nome Signorelli como um evento casual. Sou forçado a reconhecer a influência de um motivo nesse processo.” Nesta quarta observação ele se convence que inconscientemente queria esquecer o assunto de seu paciente que se suicidou e por haver uma conexão associativa e condições adequadas entre os nomes, lugares e situações, houve um deslocamento, deixando prevalecer os elementos reprimidos.

Contudo, Freud não generalizou e não afirma que todo e qualquer esquecimento de nomes sejam frutos de conteúdos recalcados. Freud afirma (1901, p. 11): “Não há dúvida de que existem exemplos muito mais simples. Penso que teremos enunciado os fatos com suficiente cautela se afirmarmos: junto aos casos simples de esquecimento de nomes próprios, existe também um tipo de esquecimento motivado pelo recalque.”

Esquecimento de palavras de língua estrangeira

Já na língua estrangeira o esquecimento pode ocorrer no vocábulo e terá a mesma disfunção psíquica e sintomática do esquecimento de nomes. Segundo Freud, ainda no seu estudo Sobre psicopatologia da vida cotidiana: (1901, p. 12) “Numa série de casos, esse tipo de esquecimento exibe o mesmo mecanismo que nos foi revelado pelo exemplo de Signorelli.”

Freud usa como exemplo a conversação que teve com um jovem que conheceu em suas férias e esqueceu um vocábulo numa citação latina. Estavam conversando sobre a situação da sociedade que estavam inseridos, e o rapaz tenta citar a frase “Exoriar(e) aliquis nostris ex ossibus ultor!” (Deixai que meus ossos surja algum vingador!)” mas com dificuldade substitui por “Exoriar(e) nostris ex Ultor ossibus!” esquecendo a palavra Aliquis.

O jovem já conhecia Freud e suas publicações sobre o esquecimento e pede que o ajude esclarecer o porquê isso aconteceu com ele, e Freud aceita de boa vontade o desafio. “Só tenho que lhe pedir que me diga, sinceramente e sem nenhuma crítica, tudo o que lhe ocorre enquanto estiver dirigindo, sem nenhuma intenção definida, sua atenção para a palavra esquecida.” (FREUD, 1901, p. 12).

O jovem aceita e começa a discorrer ironicamente o que vinha em sua mente, como dividir a palavra aliquis em “a e liquis”, as palavras Reliquien [relíquias], liquefazer, fluidez, fluido, em Simão de Trento e na acusação de derramamento de sangue contra os judeus, no artigo que leu ‘O que Santo Agostinho diz sobre as mulheres’, um ancião de nome Benedito que conheceu durante uma viagem na semana anterior, São Januário e seu milagre de sangue que faz com que seu sangue, que foi guardado em um frasco, em certo dia festivo se liquefaz, e se acontece atrasos o povo fica agitado, o que ocorreu na ocupação francesa mas o comandante interviu junto ao clérigo para que acontecesse bem de pressa e de fato aconteceu.

Neste momento o jovem começa hesitar, pois se lembra de uma dama que poderia dar-lhe a notícia de estar sem vir as regras por estar grávida e isso seria uma notícia bastante desagradável para os dois. Embora de início ele não veja nenhuma relação e necessidade de expor o ocorrido, acaba aceitando terminar a análise com Freud e logo desvendam o porquê do esquecimento da palavra “aliquis” Freud percebe que o esquecimento tendencioso foi motivado por recalque:


NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ


Você preparou bem o terreno. Pense nos santos do calendário, no sangue que começa a fluir num dia determinado, na perturbação quando esse acontecimento não se dá, na clara ameaça de que o milagre tem que se realizar, se não… Na verdade, você usou o milagre de São Januário para criar uma esplêndida alusão às regras das mulheres (Freud, 1901, p. 14).

Apesar de o jovem ainda imaginar que possa ser apenas mera coincidência, Freud não tem dúvida de que não são, mas respeita a decisão do jovem. “Posso dizer-lhe, no entanto, que qualquer caso semelhante que você queira analisar irá levá-lo a “acasos” igualmente notáveis” (FREUD, 1901, p. 14).

O esquecimento da palavra “aliquis” foi causado pela perturbação entre o que ele falava e o que estava guardado em seu íntimo. Lamentava por sua geração estar condenada à atrofia, como se desejasse uma prole, mas no seu íntimo ele não queria ter filho, surgindo um protesto através do esquecimento da palavra. Segundo Freud (1901 p. 15) Ficamos conhecendo um segundo mecanismo do esquecimento – a perturbação de um pensamento por uma contradição interna proveniente do recalcado.

Esquecimento de sequências de palavras

O esquecimento é revelador da psicopatologia da vida cotidiana, isto é, de como nossa vida habitual revela sinais do funcionamento do nosso inconsciente. Para outro exemplo de esquecimento de nomes e seqüência de palavras Freud, agora no idioma nativo, para perceber a similaridade com o esquecimento no idioma estrangeiro, utiliza o exemplo de um colega que se propõe recitar um poema que acredita conhecê-lo de cor “A noiva de Corinto”, mas logo de início já esquece o poema, fica na dúvida entre a sequencia de palavras e pergunta para Freud: “de Corinto a Atenas ou de Atenas a Corinto?.”

Depois desta primeira perturbação a recitação seguiu aparentemente sem qualquer erro, mas na segunda estrofe ele pareceu procurar por algo em sua mente, mas logo voltou e deu seguimento. Quando foram procurar por deformações perceberam que houve eliminação e substituições da frase.

Forma recitada: “(Mas será que vai ainda ser bem recebido

Agora que cada dia novidades traz?

Sendo ele, como todos os seus, pagão

E eles cristãos batizados?)”

Forma correta:

(Mas será que vai ainda ser bem recebido

Se não pagar caro pelo favor?)”

Freud então abre para questionamentos sobre as substituições e eliminações a seu colega. Este por sua vez, a contragosto reconhece a ligação do esquecimento com sua vida atual e diz que a linha “Agora que cada dia traz algo novo” acredita ter a ver com seu atual trabalho que progride e o deixa muito satisfeito.

A linha “se não pagar caro por favor” o deixou com sentimentos desagradáveis e chegou a conclusão que está relacionado a ter se sentido rejeitado quando fez um pedido de casamento e por não estar em condições financeiras adequadas, não foi aceito, o que faz se sentir mal pensar que nesse novo momento próspero a resposta será diferente.

Freud fez alguns questionamentos do porquê de ele ter misturado sua vida particular com texto “Noiva de Corinto” e embora não tenha acertado nas questões, mas seu papel como analista despertou no colega uma resposta que nem ele mesmo tinha conhecimento até o momento . Segundo Freud (1901, p. 18) “Errei na suposição, mas foi curioso observar como uma única pergunta bem-dirigida deu lhe uma súbita perspicácia, de modo que ele pôde dar como resposta algo de que certamente não tinha conhecimento até então.”

O colega parecendo atormentado murmurra o trecho “Examine-a bem, amanhã estará grisalha” e acrescenta: “Ela é um pouco mais velha do que eu.” Freud percebe todo mecanismo ocorrido e se surpreende ao constatar mais uma vez que os esquecimentos e substituições levam a origens desconhecidas. Segundo Freud (1901, p. 18) “Mas foi sem dúvida surpreendente que a tentativa de localizar a causa de uma falha inofensiva na memória esbarrasse em assuntos tão remotos e íntimos da vida particular do sujeito, investidos de um afeto tão penoso.

Estudo de Ferenczi sobre esquecimento de sequência de palavras

Outro amigo Sandor Ferenczi de Budapeste também contribuiu para a pesquisa sobre o esquecimento de seqüência de palavras. E deu como exemplo um texto de própria autoria que discursou numa reunião social e acabou sofrendo um lapso. Quando isso aconteceu ele logo se retirou para uma sala vazia, longe das pessoas, para anotar as associações que viessem a cabeça.

Em seu discurso Ferenczi se sentiu apreciado por um dos convivas, chegou a dizer que falaria algo ainda melhor, mas na hora de relatar desapareceu de sua cabeça.

Neste caso, o esquecimento teve uma utilidade que favoreceu a prudência, para que não acontecesse de Ferenczi fizesse algo que se arrependeria depois. Segundo Freud (1901, p. 18) “O exemplo também nos apresenta o caso não muito comum em que o esquecimento se põe a serviço de nosso bom senso, quando este ameaça sucumbir a um desejo momentâneo.”

Neste caso o esquecimento teve um significado de utilidade, e após as associações percebeu-se que a amnésia temporária o poupou de questões desagradáveis. Freud diz (1901, p. 18) “Uma vez recobrada nossa sobriedade, damos valor à correção dessa corrente interna, que antes só se pudera exprimir através de uma falha – um esquecimento, uma impotência psíquica.”

Mas questões de esquecimentos, no geral, normalmente levam a questões desagradáveis, íntimas e penosas, que estão guardadas no inconsciente. De acordo com Freud (1901, p. 20) “…estabelecer uma ligação, por alguma via associativa, com um conteúdo de pensamento inconsciente – um conteúdo de pensamento que é fonte do efeito manifestado no esquecimento.

As razões para esquecermos na Psicopatologia da Vida Cotidiana

Existem inúmeras causas para o esquecimento de nomes e poderiam até serem justificadas como uma causa cerebral, porém Freud utilizou o próprio problema de dores com cabeças antes dos esquecimentos, para usar como exemplo, e após observações constatou que as dores são um fator que favorece o esquecimento e não as produz, mas que tem sua causa no fator psicológico.

Questionado se o esquecimento seria problema de caráter geral do cérebro e se poderia renunciar a causa como psicológica, Freud responde: (1901, p.20) “De maneira alguma, no meu entender; isso seria confundir o mecanismo de um processo, que é idêntico em todos os casos, com os fatores favorecedores do processo, que são variáveis e não necessários.”

A análise de Freud sobre os esquecimentos de nomes o fez chegar a conclusão que são todos de fundo emocional, embora sejam sentimentos que estão no inconsciente, através dos esquecimentos é possível observar que por trás deles existe algum sentimento envolvido. Freud explica, no seus estudos sobre a psicopatologia da vida cotidiana:

Quando analiso os casos de esquecimento de nomes que observo em mim mesmo, quase sempre descubro que o nome retido se relaciona com um tema que me é de grande importância pessoal e que é capaz de evocar em mim afetos intensos e quase sempre penosos (FREUD, 1901, p. 20).

Através de seus próprios exemplos, Freud percebe que o esquecimento de nome tem sua causa em fatos temporariamente esquecidos mas que não foram resolvidos. Freud diz (1901, p. 34): “o nome perdido tocou num “complexo pessoal” em mim.”

2. Lapsos da fala, de leitura e de escrita

Freud acredita que o ato falho provocado através da fala, leitura e escrita também são perturbações psíquicas de origem inconsciente, de uma ideia parcialmente reprimida, por isso, também foi objeto de estudo. Freud afirma (1901, p. 107) “Os equívocos da fala não deixam de ter paralelos. Correspondem às falhas que freqüentemente ocorrem em outras atividades humanas e são conhecidas pela denominação bastante tola de ‘descuidos’.”

Freud deu como exemplo, dentre outros, a história do Dr. Stekel que ao conversar com uma paciente abastada, que visitava todos os dias, e estava se recuperando de uma doença muito grave. Ele estava feliz por vê-la melhorando e numa conversa descontraída ele falou da cidade de Abbazia, e concluiu falando: ‘Se, como espero, a senhora não sair da cama logo…’ Para sua surpresa, demonstrou seu desejo inconsciente de continuar tratando da paciente abastada por mais tempo, que segundo ele seria um desejo que é totalmente alheio a minha consciência de vigília e que eu repudiaria indignado.”

Outro exemplo do Dr. Stekel foi quando ele deu um sermão numa esposa enquanto seu marido ouvia atrás da porta, ao se despir ele falou: ‘Beijo-lhe a mão, distinto senhor!’ dando a entender que, o que ele queria, era que a senhora desconfiasse que por trás daquele sermão estava seu marido.

Lapsos de linguagem segundo Freud

Sobre lapso de leitura, Freud recebeu uma carta que o deixou abalado, nela dizia que a Senhora Wilhelm M. estava gravemente enferma e sem chances de melhoras. Ao transmitir a notícia a sua esposa, ela logo percebe que tem algo de errado, porque ninguém chama uma mulher com o prenome do marido. Ele resistiu em acreditar, mas quando reiniciou a leitura constatou que sua esposa estava certa. Freud entende que esse deslocamento na leitura se deu por ter lhe despertado preocupações em relação a outra pessoa, muito próxima, e estava igualmente doente.

Ainda sobre o lapso de leitura, Freud diz que por ser apaixonado por antiguidade, acaba cometendo lapsos para lembrá-lo de sua paixão. Sempre quando viaja nas suas férias e anda pelas ruas das cidades, quando olha os letreiros das lojas, sempre lê ‘antiguidade’ quando de algum modo a palavra se assemelha a essa palavra.

Sobre lapso de escrita, uma senhora escreve uma carta para sua irmã que acaba de mudar para uma nova e espaçosa casa, para exprimir seus votos de felicidades. Ocorre que ela havia escrito no envelope o endereço errado. Era o endereço de uma casa que sua irmã tinha morado muitos anos antes.

Esse lapso a faz questionar o motivo dela ter feito isso, e sua amiga que a tinha advertido do lapso, fala que poderia ser por inveja, porque hoje ela continua morando num espaço apertado, então, ela colocou sua irmã na primeira casa onde não estava melhor que ela. E a senhora concordou que estava com inveja da nova casa da irmã, ou seja, inconscientemente ela tinha expressado através do endereço errado, sua inveja.

Uma revista semanal escreve um artigo de refutação e defesa porque tinham sido acusados de ‘venais’. O manuscrito foi escrito de forma acalorada e cheia de paixão. Várias pessoas leram e aprovaram o artigo, inclusive o redator-chefe, além de aprovado na prova tipográfica, enfim, todos satisfeitos. Mas o revisor descobre um erro de leitura que ninguém percebeu, estava escrito: ‘Nossos leitores são testemunhas de que sempre agimos da maneira mais interessada pelo bem da comunidade.’

Esse lapso deixa claro que conscientemente jamais alguém escreveria um artigo dizendo que age de forma interessada, isso porque, a intenção é se livrar da acusação de se deixar vender por dinheiro. Somente uma perturbação psíquica deixaria isso vir à tona. 

3. Equívocos em atos revelam a psicopatologia da vida cotidiana

É dado como equívocos na ação quando tem uma finalidade, uma intenção consciente, e atos casuais e sintomáticos os que não têm uma finalidade aparente, acontece de forma puramente casual. A diferença entre um e outro é tênue, quase imperceptível.

Existem vários exemplos observados de ato falho em relação às chaves, onde pessoas que vão a determinados lugares que não pertence a determinada chaves, as usam como se pertencesse.

Freud relata que frequentemente quando ia fazer visitas ao domicílio de um paciente e era uma casa ao qual se sentia bem, ele ao invés de tocar a campainha ou bater na porta, tirava suas chaves para abrir a porta como se fosse a sua casa, e analisando percebeu que este ato falho demonstrava como ele se sentia naquele lugar. Freud afirma (1901, p. 108) “Era equivalente ao pensamento: “Aqui me sinto em casa”, pois só ocorria em lugares onde eu me havia afeiçoado ao doente.”

Jones conta que é comum para ele quando tem que interromper um trabalho no seu escritório em casa para ir ao hospital, utilizar as chaves de seu escritório para abrir o laboratório, mesmo ambas as chaves não tendo nenhuma semelhança entre si. Jones diz (1901, p. 108) “Esse erro demonstra, inconscientemente, onde eu preferiria estar naquele momento.”

O caso do Dr. Hanns Sachs

Dr. Hanns Sachs sempre carrega consigo duas chaves, a de casa e do escritório, separadas, uma no bolso da calça e a outra no colete. Mas conta da freqüência em trocar as chaves do escritório pelas de casa. Dr. Hanns Sachs (1901, p. 109, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana) relata: “(…) ao passo que o inverso aconteceu apenas uma vez, quando cheguei em casa cansado, sabendo que um convidado estaria à minha espera.”

Freud usa como exemplo sua ação equivocada ao trocar seu martelo por um diapasão quando ia visitar um paciente a pedido de outro médico. Ele foi convocado porque o médico estava hesitante quanto a um diagnóstico, e o convidou para decidir a questão. Era um diagnóstico difícil e necessário muita cautela. Freud alguns dias antes tinha recebido em seu consultório um homem que ele tinha tratado alguns anos atrás, que embora tivesse esclerose múltipla, ele tinha diagnosticado à princípio de histeria, com a promessa de cura através do tratamento psíquico, mas acabou que ficou com o sentimento de ter cometido um grave erro.

Este novo paciente mora na mesma estação ferroviária que o homem que ele deu o diagnóstico errado e Freud entende que o equivoco se deu para ele se lembrar de não cometer o mesmo erro cometido no passado, diagnosticando uma doença incurável como histeria. Freud afirma (1901, p. 110) “Para esse emprego como autocensura, os equívocos na ação mostram-se particularmente apropriados: o desacerto de agora busca representar o engano cometido em outra ocasião.”

Esquecimento de atos e hábitos esquecidos

No caso da Sra. Lou Andreas-Salomé, ela não sendo uma pessoa distraída ou desatenta, tinha por hábito esquecer o leite no fogo, e derramando no chão e no fogão, seu terrier branco o lambia, se aproveitando do ocorrido. Essa situação a deixava constantemente aborrecida e nervosa, pois nesta época o leite era uma mercadoria rara e cara, suas tentativas para acabar com isso eram em vãs.

Depois da morte de seu terrier este problema acabou e após sua auto-análise entendeu que o amava mais do que imaginava, pois percebeu que sem ela saber, o ocorrido era para satisfazer o desejo de seu terrier que sempre aguardava pelo leite derramado. Diante disso Freud explica (1901, p. 111) “Sra. Lou Andreas-Salomé, pode dar uma demonstração convincente de como a persistência obstinada num ato de “inabilidade” serve a propósitos inconfessados, e de modo muito hábil.” Entendendo que desajeitamentos podem expressar intenções não confessadas.

Ações acidentais são na verdade intencionais, isto é, são reveladoras do inconsciente, segundo a abordagem de Freud sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Segundo Freud (1901, p. 116) “Um bom exemplo de minha própria experiência de alguns anos atrás mostra como um movimento aparentemente desajeitado pode ser usado de maneira altamente requintada para fins sexuais.” Ele se utiliza de um caso que aconteceu com ele anos antes quando reencontrou na casa de amigos uma jovem que no passado despertava algum sentimento nele, mas naquele presente momento ele acreditava não existir mais.

Porém, um movimento desajeitado mostrou que ainda existia e demonstrou um belo exemplo para fins sexuais. Isso aconteceu quando ambos tentavam pegar uma cadeira para o tio da moça, e acabou que acidentalmente Freud subitamente atrás dela, a abraçou e colocou suas mãos em seu seio. Ele rapidamente se desfez da situação sem que ninguém percebesse.

Um caso de ferimento auto-infligido

Certa vez, uma jovem que dançou o cancan para sua família e marido, deixou todos contentes, menos seu marido ciumento que sussurrou: “Você tornou a se portar como uma meretriz!” e esse fato a atingiu demais. Ela dormiu mal a noite e pela manhã decidiu sair de carruagem, estava agitada e nervosa e no meio do caminho assustada com os cavalos saltou e quebrou a perna.

Com a quebra de uma das pernas, ele teve que ficar acamada por semanas, ao qual ficou sem qualquer queixa ou nervosismo. Segundo Freud em sua teoria sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901, p. 119) “…não podemos deixar de admirar a habilidade com que o acaso foi forçado a impor um castigo tão adequado ao crime: por muito tempo ela ficou impossibilitada de dançar o cancã.” O que chama a atenção nesses casos é a maneira como o individuo se comporta quando são vitimas de algum acidente, suas reações são incompreendidas, já que reagem com serenidade e resiliência.

De acordo com Freud (1901, p. 118) “(…) os ferimentos auto-infligidos ocasionalmente aparecem como sintomas patológicos e que, nesses casos, nunca se pode excluir o suicídio como um possível desfecho do conflito psíquico.” Acidentes, lesões, doenças, aparentemente involuntárias são na verdade uma intenção inconsciente, manifestando uma maneira de autopunição, autoaniquilamento decorrente de cobranças inconscientes.

Um oficial que estava profundamente deprimido e choroso com a morte da mãe, cansado da vida, desejava deixar o serviço para participar de uma guerra. Ele era cavaleiro exímio, e evitava montar a cavalo. A caminho de uma prova hípica que não podia faltar, sentiu um pressentimento ruim, e como não poderia deixar de ser, ele sofreu um acidente fatal. Segundo Freud “… um acidente aparentemente casual (andando a cavalo ou de carruagem) cujos detalhes justificam a suspeita de que o suicídio foi inconscientemente permitido.”

4. Atos acidentais e Sintomáticos na Psicopatologia da Vida Cotidiana

Existe uma linha tênue e quase imperceptível entre equívocos na ação e atos acidentais e sintomáticos, o segundo se diferencia pela forma puramente casual que acontece, sem a busca de nenhum pretexto ou intenção consciente.

Incidentes, Manias, tiques, movimentos repetitivos, mudanças, ou seja, ações costumeiras, freqüentes, habituais, regular ou mesmo esporádicas, tidas como características da pessoa e aceita pela mesma como algo banal ou sem importância, tem sentido e significado para o analista.

Brincar com a corrente do relógio, brincar com a bengala, rabiscar com a caneta, mudanças no vestiário, algum desleixo, botão desabotoado, enfim, atitudes aparentemente advinda de falta de atenção, hábitos, brincadeiras, etc. são material que podem ser estudado pelo psicanalista.

A observação de atos sintomáticos cotidianos

Um paciente de 13 anos enquanto, com histeria grave, conversava com Freud numa consulta psicoterápica, ficava brincando com uma bolinha feita de migalha de pão, e no decorrer da análise ele ia manifestando através dessa bolinha sentimentos que Freud soube decifrar. O menino ia fazendo figuras de homenzinhos, com muito rapidez e de olhos fechados, chamando atenção o apêndice entre as pernas que ele espichava, mal terminava a imagem e amassava. De outras vezes multiplicava as extensões.

Freud para demonstrar que o compreendia utilizou da história de um rei romano para conquistar a confiança do menino e conseguiu. Em pouco tempo ele se curou de sua neurose. De acordo com Freud (1901, p. 130) “Permiti-me, portanto, aguardar com curiosidade para ver de que modo se esboçaria nele o que era buscado.” Freud conteve sua curiosidade e esperou por indícios e conseguiu decifrar a causa da neurose do paciente através da observação dos atos sintomáticos.

É muito importante a observação dos atos sintomáticos, nas pessoas de modo geral, já que é possível através deles decifrar a causa de muitos sintomas. De acordo com Freud (1901, p.131) “…para o observador da natureza humana, freqüentemente revelam tudo – e às vezes até mais do que ele desejaria saber.”

O caso do Dr. M. Kardos

Em outro exemplo, um rapaz que era discípulo do Dr. M. Kardos recebeu um anel de presente dele. Semanalmente eles tinham o hábito de se encontrar para trocar e discutir ideias. Certa vez o jovem preferiu se encontrar com uma jovem ao invés de ir ao encontro, e para isso deu uma desculpa qualquer. Ocorre que o ato falho aconteceu, no outro dia ele esqueceu de usar o anel, e ao chegar em cãs, o achou no bolso do colete já demonstrando que havia algo errado naquela situação., à respeito disso Freud afirma: (1901, p. 135) “Com a aliança no bolso do colete é uma maneira proverbial de se fazer referência ao lugar onde ela é guardada pelo marido que pretende trair a mulher de quem a recebeu.”

Chegando a conclusão de que inconscientemente ele cometeu uma auto penalidade, como se não merecesse o anel, e uma confissão de infidelidade através deste ato falho. Deixando claro que o esquecimento não foi por acaso, não foi um simples esquecimento banal.

Dr. Hanns Sachs revela que no jantar com casal de idosos, parentes seu, presenciou o marido chamando a atenção da esposa para não tocar no prato de carne assada, isso porque ela tem uma doença no estomago e precisa ter uma dieta muito rigorosa. Em seguida ele pede para a senhora passar a mostarda, então ela pega no armário, sem perceber, o frasco com gotas para seu estomago e coloca na frente do marido, só que o frasco não tinha nenhuma semelhança que pudesse explicar o lapso, porque o vidro de mostarda tinha forma de barril.

Ela só percebe o ocorrido quando o marido, sorridente, chama sua atenção. Freud afirma (1901, p.132) “Qualquer um que se disponha a observar o próximo durante as refeições poderá identificar nele os mais belos e instrutivos atos sintomáticos.”

5. Erros e atos falhos combinados na Psicopatologia da Vida Cotidiana

O erro é uma falha na memória ou uma falsa recordação, a pessoa sabe o correto, mas comete o erro, diferente do erro que deriva de um real não saber. Segundo Freud (1901, p. 145) “Esses erros derivados do recalcamento, devem ser claramente distinguidos de outros que se baseiam numa verdadeira ignorância.”

Freud cometeu alguns erros ao escrever seu livro A interpretação dos sonhos, ao perceber fez uma auto-análise, e descobriu que todos eram derivados de recalcamento relacionados a seu pai.

Um dos exemplos de erro dado por Freud foi sobre seu comprometimento em emprestar dois livros a um paciente que iria viajar para Veneza e pediu emprestado para preparar sua viagem. Só que ele esqueceu completamente, mas quando o paciente perguntou, ele mentiu, disse que já tinha separado e foi buscá-los. Porém acabou pegando um dos livros errado e percebeu ao entregá-lo ao paciente, pois ele sabia viu que o livro não tinha nada a ver com Veneza.

Após auto-análise ele percebeu que na verdade ele não queria emprestar, porque essa viagem iria interromper desnecessariamente o tratamento com o paciente, além de causar dano material a ele. Com este ato falho foi possível perceber que a propensão à verdade é mais forte, dificultando a manter a mentira. Freud destaca (1901, p. 145) “Talvez seja genericamente espantoso que a ânsia dos seres humanos de dizerem a verdade seja muito mais forte do que se costuma supor.”

O que explica os atos falhos presente na psicopatologia da vida cotidiana?

Em relação aos erros Freud deu vários exemplos para constatar que por trás de atos falhos existe algo reprimido. O amante que liga para a amante por engano, quando conscientemente ele não queria isso. Cartas enviadas para o remetente errado, revelando verdades que conscientemente jamais seriam ditas.

Chamar alguém pelo nome de solteira, tentar registrar o nome da filha com nome errado, trocas de nomes, atitudes errôneas ao se despedir de alguém, pegar transporte errado, foram diversos casos que constataram que o erro tem uma explicação psicológica inconsciente.

Os erros também podem ser acompanhados de atos combinados, onde além do erro, existe outra ação aliada ao erro. Vejamos alguns exemplos:

Uma pessoa que tem o interesse de se tornar membro do comitê de uma associação literária para conseguir ajuda na sua peça teatral. Ele começa sem entusiasmo participando das reuniões semanais nas sextas-feiras. Após conseguir o que queria, começou a esquecer das reuniões, e conhecendo as teorias de Freud sobre o esquecimento, percebeu que o esquecimento estava acontecendo porque agora ele não precisava mais daquelas pessoas, e não aceitando sua indelicadeza decide participar sem falta da próxima reunião, passando a semana se cobrando para não faltar.

Ocorre que mesmo ele se esforçando para não esquecer, ao chegar o local, encontra a porta fechada, porque ele errou o dia da semana, foi a reunião um dia depois, no sábado.

Atos falhos revelam o inconsciente

Uma senhora viaja para Roma com seu cunhado, famoso artista, lá ele recebe uma medalha de ouro de origem antiga. A senhora fica encantada com a peça e atormentada por acreditar que seu cunhado não deu o devido valor ao presente. Na sua volta pra casa, ao desfazer sua mala, para sua surpresa e sem saber como aconteceu, descobre que a medalha estava na mala.

Ela imediatamente envia uma carta ao cunhado comunicando o ocorrido e que iria enviar a medalha no dia seguinte para ele. No dia seguinte ela não consegue encontrar a medalha, simplesmente sumiu de tal modo que ela não conseguiu encontrar. Ao fazer uma auto-análise ela percebe que o que ela realmente queria era ficar com a medalha, afinal, ela acredita que ela sim saberia dar o devido valor ao objeto.

Neste outro exemplo é possível observar como o inconsciente tem o poder de se manifestar através do ato falho mesmo quando é este observado pela pessoa e ela tenta ir contra. Neste caso Freud afirma (1901, p. 152) “…com que persistência o inconsciente sabe impor-se quando tem um motivo para impedir que se execute uma intenção, e como é difícil tomar precauções contra essa persistência. Um conhecido pede um livro emprestado a seu amigo, este concorda mas sente um mal-estar a princípio sem explicação.

Depois de um certo tempo ele lembra que seu amigo deve a algum tempo uma quantia em dinheiro e além de não pagar não se preocupou com isso. Mas como ele deu sua palavra que emprestaria o livro, ele conscientemente queria emprestar. No dia seguinte embrulhou o livro para entregá-lo, mesmo sentindo o mesmo mal-estar do dia anterior. Como ele iria sair, escreveu algumas cartas e colocou ao lado do embrulho para levá-las ao correios.

Ao sair percebe que esqueceu as cartas e volta para buscá-las, no caminho já dentro do bonde, percebe que esqueceu o embrulho, e ao se auto-analisar percebe que esqueceu o embrulho da primeira vez ao sair e pela segunda vez quando retornou para pegar as cartas que estavam ao lado. Repetindo firmemente o ato falho.

6. Determinismo e Superstição

O ato falho é um fenômeno psíquico determinado pelo inconsciente que, não sendo intencional acontece de forma desconhecida ao indivíduo, porém não podendo ser generalizado, não deve ser usado para justificar o que acontece conscientemente. Por isso Freud teve o cuidado em seu estudo sobre psicopatologia da vida cotidiana em apontar que o ato falho não fosse usado ao bel prazer para benefício de ninguém. De acordo com Freud (1901, p. 156) “…quando a eles se aplicam os métodos da investigação psicanalítica, ter motivos válidos e ser determinados por motivos desconhecidos pela consciência.”

O determinismo psíquico age através de atos falhos, ou seja, decisões aparentemente irrelevantes e insignificantes que são motivações inconscientes agindo nas decisões motoras. Freud destaca (1901, p. 165) “Quando levamos em conta a distinção entre motivação consciente e motivação inconsciente, nosso sentimento de convicção nos informa que a motivação consciente não se estende a todas as nossas decisões motoras.” Levando a crer que não basta ter consciência, existe algo importante guardado e querendo ser visto.

O inconsciente se manifestando através dos atos falhos trás conteúdos que de alguma forma demonstra uma necessidade de mostrar a verdade que não está sendo mostrada. Para Freud (1901, p. 165) “Talvez esse discernimento do determinismo dos nomes e números aparentemente escolhidos de modo arbitrário contribua para o esclarecimento de um outro problema.”

O nosso hábito de dar significado a fatos arbitrários

Freud também fez pesquisas e estudos relacionados à escolha de números, na psicopatologia da vida cotidiana. O porquê da escolha de certos números na vida das pessoas. Freud chegou à conclusão de que não são escolhas arbitrárias ou sem sentido. De acordo com Freud (1901, p. 161) “Também a escolha dos chamados “números favoritos” não deixa de estar relacionada com a vida da pessoa em questão e não deixa de ter um certo interesse psicológico.”

Um dos exemplos de análise de número foi o paciente médico, que falou do nada o número 426718 e sua associação foi que o resfriado quando tratado dura 42 dias e quando não dura 6 semanas. Em sua pausa Freud expôs uma observação, que os números escolhidos tinham todos os números até o 8, menos o 3 e o 5. Então o paciente explica que são em 7 filhos, a de número 3 e o de número 5 são seus irmãos que sempre foram considerados seus odiosos inimigos, então, ele acabou por omitir esses dois números.

O 18 ele explica que sempre dizia que se seu pai tivesse tido mais 1 filho, ele não seria o último e seriam 8 filhos. Portanto, o que no início parecia um número sem sentido, após submetido ao exame psicanalítico, foi descoberto que existia muito mais que um número qualquer.

Um outro exemplo foi tirado de um rapaz de 18 anos que estava se ocupando com a psicopatologia do cotidiano e propôs a sua mãe participar de seu estudo. Ao pedir para sua mãe dizer um número qualquer, ela fala 79, e ao perguntar o que vem a sua cabeça, ela responde que um lindo chapéu que viu no dia anterior, quando ele pergunta o preço, ela diz que era 158, então, ele divide o valor em 2 e chega a conclusão que o chapéu era excessivamente caro para ela, mas pensa que se fosse a metade do valor, ela o compraria. Chegando a conclusão que o número que ela falou não foi por acaso.

Qualquer pista vira apego, quando somos supersticiosos

São muitos os fatos, atos e palavras (ou a falta delas) que apontam existir uma psicopatologia da vida cotidiana, que por vezes é ignorada. Mas, se estivermos atentos a esses sinais, descobriremos muito sobre nós e nosso inconsciente: individualmente, socialmente.

Freud acredita que manifestações não intencionais vindas de seu íntimo podem revelar algo, ele não acredita em acaso. Agora manifestações externas sim são causadas pelo acaso e não demonstra nada de oculto sobre a pessoa.

[…] uma manifestação inintencional de minha própria atividade anímica de fato revele alguma coisa oculta, muito embora seja algo que só pertence a minha vida anímica [não à realidade externa]; creio no acaso (real) externo, sem dúvida, mas não em casualidades (psíquicas) internas.”(FREUD, 1901, p. 167)

O desconhecimento do indivíduo sobre as manifestações psíquicas através do ato falho, que aparentemente parecem casualidades, justifica a crença na superstição, uma vez que é preciso reconhecer a motivação que levou ao erro. Como existe de fato a casualidade ele acaba aceitando tudo como acaso. De acordo com Freud (1901, p. 167) “Presumo que esse desconhecimento consciente e esse saber inconsciente da motivação das casualidades psíquicas sejam uma das raízes psíquicas da superstição.”

Freud deu como exemplo de possível superstição um cocheiro que o levara a casa de uma paciente, erra o endereço e o deixaria por engano em outro endereço. Freud diz que se fosse supersticioso perguntaria se aquele erro significaria alguma coisa, uma advertência, um augúrio da sorte, etc. Mas entende que foi um incidente sem significado algum para ele, uma vez que o erro foi do cocheiro e não dele.

Freud comenta sobre a superstição afirmando que:

A superstição é, em grande parte, a expectativa de infortúnios, e uma pessoa que tenha freqüentemente desejado o mal a outrem, mas tenha sido educada para o bem e por isso recalcado tais desejos no inconsciente, será especialmente propensa a esperar o castigo por sua maldade inconsciente como um infortúnio que a ameaça de fora. (FREUD, 1901, p.168).

Levando a crer que a superstição tem sua raiz no aprendizado adquirido ao longo da vida, acreditando inconscientemente de que algo de ruim irá acontecer, afinal, o indivíduo merece castigo por ter praticado alguma maldade e esse castigo virá de fora.

Conclusão: Sobre a psicopatologia da vida cotidiana

Levando-se em conta o que foi observado, o psicanalista deve usar a linguagem como ferramenta básica para ser utilizada em seu consultório, observando seu paciente com atenção para descobrir através da sua linguagem questões inconscientes que podem desvendar sintomas atuais, ou seja, muitas vezes de pequenas perturbações funcionais da vida cotidiana da pessoa.

Através desse estudo do livro ‘Sobre a psicopatologia da vida cotidiana” foi possível observar que Freud usava de métodos científicos para chegar a todas conclusões que chegou, que utilizou da própria vida particular para estudar e exemplificar, mas também utilizou de experiências de pessoas que ele confiava, bem como de pessoas desconhecidas.

Foi possível observar que embora Freud tenha dividido o livro em diversos temas, de acordo com cada sintoma, esquecimentos, lapsos, equívocos, erros, etc. todos levam para a mesma causa. Todos igualmente são reflexos de conteúdos reprimidos, recalcados, inconscientes.

Muda-se os sintomas, mas a causa sempre é a mesma, com um sentido e um propósito por trás, o inconsciente se comunica através de atos falhos, e esses por sua vez, sempre se manifestando de forma sutil, fazendo as pessoas pensarem que estão desastradas, descuidadas, desatentas, ou que é bobagem, superstição, etc.

O estudo de Freud neste livro deixou claro que todas as pessoas sofrem de psicopatologia na vida cotidiana através dos atos falhos, seja homem, mulher, adolescente, idoso, pessoa intelectualmente bem resolvida, enfim, todo o ser humano. Isso porque Freud chega a conclusão que existem leis naturais que regem o psiquismo humano. Segundo Freud (1901, p.08) “Minha hipótese é que esse deslocamento não está entregue a uma escolha psíquica arbitrária, mas segue vias previsíveis que obedecem a leis.”

Mas o ser humano ainda insiste em ignorar que é o psiquismo humano que determina o que somos. Segundo Freud (1901, p. 157) “… estamos desconhecendo a extensão do determinismo na vida anímica.”

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1901.

O presente artigo foi desenvolvido pela aluna Cristiane M. Silva, como trabalho de conclusão do Curso de Formação em Psicanálise Clínica EAD (clique para ter mais informações do curso).

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