neurose e depressão

Neurose, desamparo e depressão na sociedade brasileira

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Hoje falaremos sobre o desamparo e depressão. Infelizmente vivemos em uma realidade que, muitas vezes, não contribui para que melhoremos como pessoas: criminalidade urbana, corrupção, falta de educação e de saneamento básico, misoginia, racismo e homofobia são apenas alguns dos males que acometem nossa sociedade e acabam fragilizando nossas relações interpessoais.

Entendendo o desamparo e depressão

Por vivermos em um contexto tão conturbado, temos a sensação de que pouco podemos fazer para mudar tal realidade. Agora Imaginemos uma situação hipotética, mas não muito distante de nossa realidade, onde um garoto que todos os dias frequenta a escola e, no caminho, se depara com inúmeros problemas.

O primeiro deles é o fato de, esse garoto, ao sair de casa, encontrar a sua rua sem nenhum tipo de tratamento de esgoto, o que além de dificultar sua locomoção, o coloca exposto aos mais diversos tipos de doenças.

Pois bem, passada essa barreira e chegando à escola, encontra uma outra realidade bem difícil: a falta professores. Os poucos que ainda estão presentes se encontram desmotivados, pois, além de seus salários não estarem em dia, eles ainda precisam conviver com a violência do entorno da escola.

Outra realidades

Mesmo assim esse garoto continua indo para escola por acreditar que algum dia essa realidade irá mudar. No entanto, os dias passam e nenhuma mudança acontece. Vem as eleições… Vem os candidatos e suas promessas… Onde estão as mudanças?… Nada acontece. Segue-se aquele mesmo ritmo… Lento…

Mas o garoto não desiste. Parece concentrado em seus objetivos. Continua sua caminhada usando suas energias para “chutar todas as pedras que aparecem no caminho”.

No entanto, ao longo de sua caminhada durante seus anos de vida, esse menino cresce, se transforma em mais um cidadão contribuinte e percebe que todas aquelas mudanças, as quais um dia ele pensou que iria acontecer, não vem.

O desamparo e depressão persistem

As eternas promessas políticas continuam; sua rua continua sem saneamento; a antiga escola onde estudou, já não existe mais e muitas coisas as quais ele esperava que melhorassem acabam sofrendo um efeito inverso.

Aquele menino, hoje um homem, acaba desistindo de alguns de seus ideais por se sentir pequeno diante de tamanho desamparo, o qual acaba internalizando em sua mente, fazendo dele uma pessoa passiva diante dos fatos que parecem ser “coisas do destino”. Infelizmente esse tipo de situação é corriqueira em nosso país e segue através das geração sem que muitos vejam uma transformação de fato.

Apresentado esses fatos, podemos dizer que estamos diante de um fenômeno muito estudado por aqueles que se dedicam a mente humana conhecido como desamparo aprendido.

O costume do desfavorecimento

Esse tipo de situação se dá quando uma pessoa acaba se “acostumando” com determinados acontecimentos desfavoráveis em sua vida durante um período de tempo muito longo. Muitas pessoas acabam internalizando sentimentos tão ruins relacionados a experiências anteriores, que se sentem completamente impotentes e não conseguem promover uma mudança em suas vidas.

De acordo com o site “A mente é maravilhosa” no artigo referente ao fenômeno discutido no exemplo acima, a ideia que se tem é que “o desamparo aprendido une as vítimas aos seus algozes”.

O professor “Pedro Calabrez” em seu canal do youtube conhecido como “Neurovox” aprofunda um pouco mais a questão dizendo que “o desamparo aprendido é um fenômeno psicológico onde os indivíduos que são expostos a uma situação de dor, angústia, fracasso, em geral.

Sofrimento, desamparo e depressão

São situações de sofrimento das quais ele não consegue escapar e sobre as quais ele não tem controle algum, tendem a aprender que não são capazes de controlar as coisas e, simplesmente aceitam novas formas de sofrimento.

Tudo isso nos remete a um outro fenômeno que, por vezes, acomete muitas pessoas e é conhecido como neurose do destino. Quantas vezes não ouvimos falar de um exemplo clássico onde uma determinada pessoa sempre repete suas boas ações, mas não consegue ser bem sucedida em sua procura por um bom emprego?…

Ou, até mesmo, quando em suas relações interpessoais, não consegue encontrar pessoas que formem laços sólidos, pois sempre acaba em traição? O neuropsiquiatra “doutor Pedro Carlos Primo” explica dizendo que “tudo funciona como uma perpétua volta…”.

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    Obra do destino

    Por vezes, em nosso cotidiano, temos a sensação de que, por mais que caminhemos nos ditos “caminhos corretos”, cumprindo com todas as nossas obrigações como cidadãos, nada irá mudar em nossas vidas; como se todo aquele sacrifício que é feito fosse nada mais do que obra do destino.

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    Com o passar do tempo essa pessoa passa a não acreditar mais que algo possa mudar em sua vida. O “doutor Pedro Carlos Primo” define e explica trazendo a seguinte idéia: “A neurose do destino é uma compulsão à repetição”.

    O mesmo doutor continua sua linha de raciocínio aprofundando ainda mais essa questão dizendo que “há na neurose do destino uma satisfação paradoxal, na qual a renuncia ao prazer alimenta o superego (instância crítica da personalidade), estabelecendo uma relação circular entre este e a pulsão de morte.

    Instância abstrata

    Nesse processo o superego se torna uma instância abstrata e impessoal que goza em renunciar ao gozo ou mesmo em provocar o sofrimento”.

    Diante do que foi apresentado surgem algumas reflexões: será que vivemos em uma sociedade que é programada, para incutir na mente dos cidadãos a ideia de que o verdadeiro prazer está em renunciar o que, de fato, nos faria felizes, para aceitar todas as mazelas e se sentir felizes simplesmente por estarmos vivos?

    Será que, como dizia “Raul Seixas” em um trecho de sua música “ouro de tolo”, “Eu devia estar feliz pelo senhor ter me concedido o domingo pra ir com a família no jardim zoológico dar pipoca aos macacos…”?

    Conclusão sobre o desamparo e depressão

    Ou será que, como dizia “Gonzaguinha” em sua canção “comportamento geral”, “você deve notar que não tem mais tutu e dizer que não está preocupado…” ou “Você deve rezar pelo bem do patrão e esquecer que está desempregado…”.

    Sabemos que os fracassos, as derrotas e as quedas fazem parte da vida de todos nós e que, em muitos casos, devemos aprender com essas experiências para continuarmos seguindo mais fortes, mas será que, em alguns momentos, tudo isso não é algo programado para nos tornar escravos depressivos?

    Referências bibliográficas:

    A MENTE É MARAVILHOSA (SITE) (Brasil) (org.). O desamparo aprendido. 2017. Disponível em: https://amenteemaravilhosa.com.br/o-desamparo-aprendido/. Acesso em: 10 jan. 2023.

    COMPORTAMENTO Geral. Produção de Milton Miranda. Realização de Gonzaguinha. Música: Comportamento Geral. 1973. (3 min.), son., color. Provided to YouTube by Universal Music Group. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NfsjNdzhazc. Acesso em: 07 jan. 2023.

    O DESAMPARO APRENDIDO. Intérpretes: Pedro Calabrez. [S.I.]: Didactics, 2018. (5 min.), son., color. Série Refletir. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=sIayPeCxU_Q. Acesso em: 09 jan. 2023.

    OURO de Tolo. Produção de Mazzola; Raul Seixas. Intérpretes: Raul Seixas. Música: Ouro de Tolo. 1973. (3 min.), son., color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Kc9OO1VVGyU. Acesso em: 08 jan. 2023.

    PRIMO, Drº Pedro Carlos. Neurose do destino. 27 jun. 2016. Facebook: @telepsi. Disponível em: https://pt-br.facebook.com/161000694253746/posts/277165579303923/. Acesso em: 08 jan. 2023.

    Este artigo sobre desamparo, neurose e depressão foi escrito por Humberto Santos de Andrade (e-mail: [email protected]), psicanalista clínico pelo IBPC (Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica), especialista em grafologia e neuro escrita.

    2 thoughts on “Neurose, desamparo e depressão na sociedade brasileira

    1. Muito bom o texto, gostei da utilização da metáfora menino. Creio que o mesmo não é apenas uma representação, mas ele está bem vivo e circulando por este país corroído pelas deficiências. Mas ele não é apenas um menino, mas ele é brasileiro.

      1. Muito obrigado, Mizael Carvalho! Agradeço pelo feedback! Que tenhamos saúde física e mental para continuarmos nossa caminhada!

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