o que é desejo reprimido

O que é desejo reprimido: significado e estudo de caso

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Você já ouviu sobre o que é desejo reprimido? Ou parou um instante para pensar o que acontece com a sua saúde mental quando um desejo do ID (inconsciente) é reprimido pelo SUPEREGO (princípios morais, regras, proibições e modelos idéias)?

Neste artigo o autor Marco Bonatti, Psicanalista Clínico pelo IBPC, busca compreender o que é desejo reprimido, desvendando as dinâmicas que geram um conflito psíquico e uma dor para o paciente.

Para isso, vamos nos ancorar na análise de um estudo de caso verídico e entender como o trauma se desencadeia na prática e na mente humana. Se você ficou curioso, continue a leitura.

Análise do caso “Diana”: sobre o que é desejo reprimido

Este é o caso de uma paciente com extrema timidez e vergonha, voz sufocada e quase ausente e falta de gozo na vida.

Quando a paciente entrou pela primeira vez no consultório estava em ponta de pé como uma dançarina do Ballet Bolshoi, suspensa entre céu e terra. Silenciosa até o ponto de ficar despercebida e invisível para o mundo e para si. O corpo era fino e esbelto, os olhos encravados sobre o tímido rosto e os lábios desbotados.

Era como uma flor murcha, sem água, sem energia e paixão e, sobretudo, sem desejos. Mas como uma pessoa podia viver assim: com os desejos reprimidos? Refleti em silêncio. Diana, nome de fantasia, parecia estar desconectada da sua alma, sem alento, a respiração fina e ofegante ressoava no corpo como uma caixa vazia.

Alguém um dia disse que no nome está escrito um destino. Os latinos diziam “Nomen omen”, o nome é um presságio. Pela mitologia, Diana é a deusa da caça e da lua, protetora dos animais do bosque, aquela que traz à luz a escuridão da noite.

O que é desejo reprimido no caso Diana

No entanto, a paciente Diana não estava num bosque encantado, mas presa numa selva obscura sem conseguir iluminar nem a si mesma.

Aparentemente Diana lembrava um caso de fracasso existencial, onde a vida escolhida pela paciente, não expressava seus valores, não realizava suas inclinações e frustrava sua verdadeira essência (Self).

Diana tinha 34 anos, cuidava de um casal de idoso, casou com um marido ausente e indiferente com que teve 2 filhos.

O desenvolvimento das sessões no caso “Diana”

Após 3 sessões, escrevendo a anamnese, convidei a paciente a deitar na maca. Pois, naquela época o nosso pobre consultório do projeto social Renascer na Esperança na periferia de Fortaleza, não tinha dinheiro suficiente para comprar um divã freudiano mas, meu Mestre e supervisor, o Prof. Raimundo Lima, havia autorizado o uso da maca na condição de encobri-la com um tecido de veludo, de amarrá-lo bem nos quatro cantos e de inclinar a cabeceira de 45 graus para permitir a regressão.

Foi surpreendente porque Diana, apenas deitada na luz da penumbra para permitir o relaxamento e a introspecção e o analista discretamente sentado atrás da cabeceira do “divã” por causar a menor resistência, começou a lembrar e a descrever um sonho.

O sonho de ficar molhada e o desejo reprimido

Era um sonho repetido em que a paciente estava vivenciando “pancadas e torradas de chuvas”, quase todos os dias durante anos. Diana no sonho ficava completamente “vestida e molhada” da cabeça até os pés.

Curiosamente, no sonho a paciente era feliz, brincando e “dançando com a chuva”, mas ao mesmo tempo seu rosto entristecia. Ela dizia que era uma sensação muito boa, que gostava de ficar “molhada”, mas logo era invadida por uma mistura de sentimentos e de emoções contrárias. Luz e sombras de um passado não bem resolvido.

Naquele dia encerramos a sessão com a lembrança e a repetição do sonho, sem nenhuma tentativa de interpretação psicanalítica.

O silêncio de Diana

Na semana seguinte, Diana entrou no consultório leve e silenciosa como uma borboleta, sentou na poltrona, cruzou e esticou as pernas para proteger o sexo e após um longo suspiro confessou que adorava ballet, que praticou-o durante mais de 5 anos (até os 13 anos de idade), mas que desistiu repentinamente por causa de um acidente.

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    A paciente confessou que amava dançar, se vestir de bailarina, sentir a leveza do corpo, aquela sensação de estar suspensa no ar e sonhava em tornar-se atriz, trabalhar no teatro, viajar e mergulhar na alma do Mundo.

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    Contudo, durante uma apresentação pública de final de ano no colégio ela errou um passo e foi repreendida e humilhada pelas colegas e pela irmã mais velha.

    O que é desejo reprimido: Sobre o desejo reprimido no caso Diana

    Na verdade, a professora do ballet disse que ela não tinha errado nada, mas que foi a única que acertou, enquanto as outras meninas do ballet erraram todas o mesmo passo. Diana se tornou um cisne negro, vivenciou o repúdio e a exclusão. Após convidar novamente a paciente na maca travestida de divã comecei a pesquisar os possíveis traumas que aconteceram na fase anal e que tinham a ver com humilhação e manipulação.

    A paciente fez uma regressão enquanto umas lágrimas secas desciam pelo canto direito do olho. Segundo a medicina chinesa, a parte direita é associada ao materno e feminino, a capacidade de doar e criar. Provavelmente aí havia uma ferida e um indício de um possível trauma.

    Diana não conseguia chorar ao ponto de provocar uma catarse, reprimia e guardava tudo por dentro, a sua voz era tão sutil de não conseguir decifrar todas as palavras que morriam na boca.

    Entendendo o que é desejo reprimido na psicanálise

    Segundo C. Gustav Jung o sonho é a tentativa do inconsciente de ficar curado. Para Sigmund Freud: “O sonho é a satisfação de que o desejo se realize”.

    Na minha opinião, o sonho de Diana de ficar molhada representava a necessidade da alma da paciente de voltar a gozar com seu corpo e sua vida.

    Exemplo de sonhar com água

    Pela psicologia analítica, a água representa o arquétipo da vida e o princípio de todas as coisas.

    Assim como na gestação, durante nove meses o bebê fica dentro do útero materno mergulhando no líquido amniótico. A vida humana é gerada na água e pela água, em temperatura e ambiente semelhante ao do útero, onde o bebê é em parte protegido do ambiente externo, da luz e barulho, chegando ao mundo de forma natural e pouco traumática.

    Contudo, muitos traumas do bebê, tem a ver com os conflitos vivenciados pela mãe durante a fase intrauterina. (Veja: https://www.psicanaliseclinica.com/conflitos-de-personalidade/).

    A água

    Segundo o grande filósofo Tales de Mileto, tudo tem origem da água: “quando densa, se transformaria em terra; quando aquecida, viraria vapor, que ao se resfriar, retornaria ao estado líquido, garantindo assim, a continuidade do ciclo”. De fato, tudo é uma coisa só e cada ação individual afeta o planeta, garante a conexão do homem com a natureza e da natureza com o universo.

    A água é o alimento material e espiritual que gera a vida no homem. A água é flexível, não se deixa prender em modelos, mas permanece no estado líquido do vir-a-ser, mantendo sempre a sua essência, mesmo mudando de forma.

    Por exemplo, quando você coloca o conteúdo de um copo de água em uma garrafinha, a água assume a forma desta, sem perder a essência primeira. Então, porque a água, princípio da vida, tinha a ver com o sonho (desejo) e o trauma (dor) da minha paciente?

    Enurese noturna: xixi na cama durante o sono, de forma involuntária

    Durante uma sessão Psicanalítica Diana lembrou que quando tinha 5 ou 6 anos de idade não segurava o xixi, mijando quase todas as noites na cama, que este fato provocou repulsa e protesto das irmãs mais velhas por causa do mal cheiro que ficava no quarto compartilhado.

    Ela teve que sair do quarto para uma rede colocada na sala. Porém, continuava a fazer xixi na rede e em seguida começou a sonhar com pancadas de chuvas.

    Em outra sessão, foi investigado mais a fundo o significado da água, da chuva e do xixi para a paciente e, mediante a técnica da associação livre, Diana acabou lembrando e repetindo um ritual que sua mãe a obrigou a praticar durante anos, que supostamente causou outro trauma na fase anal.

    O ritual da rede molhada

    Ao acordar com a rede molhada de xixi a paciente tinha que lavá-la e esfregá-la em uma grande bacia cheia de água e sabão. Diana, após lavar a sua própria rede, não podia colocá-la no quintal ao sol, mas a mãe com a ajuda da irmã mais velha agarrava a rede de um canto a outro apertando a rede para que a água escorregasse e a rede secasse.

    Enquanto a mãe e a irmã mais velha apertavam a rede, a minha paciente era obrigada a passar abaixo da mesma várias vezes, ficando completamente molhada. Durante o ritual Diana não podia chorar e era debochada e xingada.

    Pela análise do traço de caráter, Diana se encaixava em uma personalidade masoquista e frígida, com tendência à depressão. Foi a partir daquele momento que a severidade das proibições causou uma frigidez, ou seja, a ausência de desejo (consequência da repressão) e de libido sexual.

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    Diana e suas emoções

    Portanto, o terror do reproche ficou estampado no seu caráter tentando segurar por dentro qualquer emoção e tesão e sonhando, sucessivamente, com pancada de chuva… Quando Diana terminou com o ballet, que era aquilo que gostava mais na vida (a dança, o lúdico deixavam a paciente no gozo da vida, livre e solta como um peixe na água) porque a vergonha e dor era insuportável, recalcou o evento traumático e apareceram os sintomas da sua dor.

    Pois, o desejo de liberdade da paciente foi sufocado, reprimido, repudiado e preso. Enquanto as emoções se afogavam dentro dela, o desejo de ficar molhada encontrou um escape, uma fuga no sonho da chuva.

    Interessante notar que a paciente não lembrava o evento que reprimiu, mas expressa na ação presente “não gozar”, a repetição exata da dinâmica removida, ou seja, de não ficar molhada na rede.

    Repetição e desejo reprimido

    Em definitiva, existe a repetição contínua de uma ação, como numa peça trágica de teatro, onde os atores repetem, sem consciência, uma dinâmica inconsciente.

    Esta dinâmica acontece entre o desejo inconsciente do ID e o repúdio/ proibição do Superego, que se transforma em um trauma/tragédia que é repetido com conteúdo atualizado durante o ato sexual com o marido na medida que Diana não ficava molhada pelo desejo (como deveria ser normal na fase genital de uma pessoa sem traumas).

    Isso porque sentia-se culpada, portanto castrava, repudiava e matava o gozo na ponta da língua e no canto da boca (a oralidade e a fala da paciente ficaram bastante prejudicada).

    O que é desejo reprimido e a experiências traumática de Diana

    Inclusive Diana, não sublimou a experiência traumática, ou seja, não conseguiu utilizar aquele mecanismo de defesa que permite transformar uma experiência negativa em uma positiva (ex. Sublimação artística), mas simplesmente removeu para o inconsciente o evento traumático e repudiou a criatividade da dança (sua livre expressão).

    Dessa forma, a paciente além de recalcar o evento, o trauma deslocou-se na fase oral com o aparecimento do sintoma da perda da voz, onde os gemidos do gozo foram substituídos pelos suspiros e lamentos, ou seja, a linguagem particular do seu corpo desvendou o trauma psíquico vivenciado quando era criança.

    Conclusão: o que é desejo reprimido

    Segundo o brilhante Psicanalista Clínico Raimundo Lima, que ofereceu-se para me supervisionar na análise de casos mais contundentes e complexos, Diana ficou presa (fixação) ao trauma entre o desejo inconsciente de ficar molhada (sonho da chuva) e a repressão da proibição do superego de estar fazendo algo ilícito e proibido, como fazer xixi na rede.

    Freud explica claramente que as pulsões e desejos inconscientes que a pessoa gostaria de realizar muitas vezes esbarram com as proibições e os princípios morais presentes na instância superior da consciência, conhecida como Superego. De fato, as fantasias, as pulsões e as dinâmicas removidas que os pacientes carregam são deslocadas no inconsciente e condicionam a maior parte do comportamento do dia a dia.

    Mas às vezes o conteúdo reprimido escapa do inconsciente e aparece na consciência em forma de lapsos, atos falhos, fobias, etc. Ora, o antagonismo entre as pulsões e o ambiente externo introjetado na psique determinam um verdadeiro conflito e trauma que pode causar até a morte do gozo e da vontade de viver, depressão, tristeza, desânimo, falta de energia pulsional e erótica que a paciente acusava.

    Freud e o ego

    Neste contexto, segundo o fundador da Psicanálise Sigmund Freud, o Ego que representa a consciência e o princípio da realidade, pode adoecer ou enfraquecer.

    De fato, o Ego de Diana adoeceu, ficou subjugado (na própria casa) escravo de dois senhores (o inconsciente e o superego) e para poder sobreviver e não ser esmagado atuou o recalque, um mecanismo de defesa que lhe permitiu a sobrevivência e lidar com a dor.

    Diana escolheu sobreviver, em sentido Darwiniano, adaptando-se a um ambiente hostil.

    O recalque

    O recalque do desejo reprimido permitiu a Diana de afastar do estado da consciência a experiência traumática de fazer xixi na rede ao tempo que inibiu o gozo na vida e na sexualidade.

    É dizer, a psique transformou uma experiência dolorosa (xixi na rede) em um evento simbólico (sonho da chuva) que representava tanto o desejo de “ficar molhada” como a repressão da mãe “proibição e reproche”. Ou seja, o juízo moral introjetado e reforçado pelo ritual da rede “totem”, virou “tabù” matando a liberdade e o prazer da paciente.

    A repressão do desejo/gozo juntos a incapacidade de se legitimar na sexualidade (inibição de ficar molhada), de encontrar a liberdade de dançar no ballet (incluindo a possibilidade de errar) podem ser inscritos na mais ampla categoria do recalque do desejo causado pelos princípios morais e as rígidas regras da mãe.

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    Transformação da fobia

    Diana sentia-se imunda, ou seja, fora do mundo “moral”, sem vez e voz, repetindo em forma obsessiva pensamentos e comportamentos como aquele de limpar muitas vezes a própria casa, o próprio corpo e a lingerie…

    Portanto, existe uma conversão somática, que no caso de Diana se transforma em uma fobia, repulsa para si, repulsa para o outro e extrema timidez, agorafobia.

    De fato, ela matou seu gozo e apagou seu Dasein, ou seja, Ser-aí, mas também se afastou do seu Ser-no-mundo e do Ser-com-os-outros, diria um existencialista como Martin Heidegger. Assim a doença da paciente se tornou crônica: proibida pelo superego da mãe, frustrada no ritual da rede, no direito e na sexualidade, ou seja, de gozar e “ficar molhada”, fixou-se também no caráter masoquista.

    Modelo de ideal

    Era como se Diana se auto punisse, carregasse uma espada de Dâmocles feita de proibições e regras de condutas e ideais, consequentemente se auto baixava, complexo de inferioridade, por não representar e encarnar aquele modelo de perfeição e ideal da própria mãe.

    Em definitiva, na psique de Diana estavam morando dois monstros: o sentimento de culpa derivado das proibições dos pais e a imagem perfeita/ideal de si mesma que precisa sempre conquistar a aprovação dos outros e que causou sua submissão com a vida além de uma sensação desagradável de inferioridade, de não ser a pessoa certa, de ser suja, torpe e amoral.

    A paciente, ancorada a pensamentos obsessivos, tinha-se abandonado, pois não estava mais morando dentro de si, desconectada da sua essência e raízes.

    A Psicanálise na vida de Diana

    Depois de algumas sessões de Psicanálise Clínica, enquadrei melhor a minha paciente numa segunda hipótese diagnóstica, na psicopatologia da histeria (que além da depressão que falamos anteriormente caracteriza a maior parte do quadro clínico) onde a repressão do desejo de cunho sexual apresenta alguns sintomas físicos como perda de voz, afonia, dor de cabeça, entre outros…

    Afortunadamente, o trauma de Diana está no processo de reelaboração. Durante o tratamento psicanalítico a paciente lembrou detalhes horríveis do trauma passado que hoje se apresentam com conteúdo atualizado, mas entendeu a dinâmica e a interdependência daquilo que aconteceu com ela, re-significando e relacionando o passado ao presente.

    De fato, o maior perigo para a saúde mental é deixar-se vencer pelo fracasso e vazio, pelos sentimentos de culpa e as sombras, reprimindo desejos e sonhos. Com certeza, a vida de Diana ficaria melhor se ela deixasse se surpreender e aprendesse a deixar aflorar seus desejos mais profundos e íntimos.

    O insight

    O Dr. Cury um dia disse: A maior aventura de um ser humano é viajar. E a maior viagem que alguém pode empreender é para dentro de si mesmo. No entanto, Diana, aos 34 anos de idade, tinha deixado de viajar, tornando-se o maior carrasco de si mesma, cristalizando ações e pensamentos.

    No final da terapia a paciente fez um belo Insight, manifestou o desejo de voltar a dançar ballet numa escolinha noturna, longe da sua casa materna e próximo do seu sonho original.

    Minha paciente queria voltar a ser feliz como na época da dança, descobrindo o que realmente é, lavando aquela mancha preta, estampada pelos outros, na sua consciência. Por isso que Diana não podia colocar limites a seus sonhos, mas fé em si mesma. Estava certo Carl Gustav Jung quando afirmava: Quem olha para fora sonha, mas quem olha para dentro desperta.

    Este artigo sobre o que é desejo reprimido foi escrito por MARCO BONATTI ([email protected]). Sou Doutor PhD em Psicologia Social na UK na Argentina; Analista Reichiano do Corpo e do Caráter; Psicanalista Clínico e colunista no IBPC. Ajudo você a superar todos os conflitos psíquicos e desafios da vida. Faça análise e terapia diretamente on-line, no conforto da sua casa. Preços acessíveis a todos! EXPERIMENTE A PRIMEIRA SESSÃO GRATUITA! Escreva uma mensagem descrevendo seu problema, lhe retornarei em breve. Whatsapp: +55 (85) 994263190, Telegram: DrMarcoBonatti.

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