desenvolvimento infantil para Winnicott

Desenvolvimento infantil para Winnicott: parte II

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Este artigo busca continuar uma introdução à teoria do desenvolvimento infantil para Winnicott (1896-1971). Neste texto será discutida a Fase de Dependência Relativa (6 meses a 2 anos) e sua importância para o progresso no desenvolvimento infantil.

Este artigo tem uma parte inicial contextualizada na Fase de Dependência Absoluta (do nascimento aos 6 meses) segundo Winnicott, artigo publicado anteriormente no Blog.

Fase de Dependência Relativa no desenvolvimento infantil para Winnicott

A segunda etapa do desenvolvimento para Winnicott é a fase de “dependência relativa”. Esta fase vai dos 6 meses aos 2 ou 3 anos e indica o momento no qual a criança começa a se perceber enquanto um indivíduo separado do todo, compreendendo que os objetos e as pessoas são parte de um mundo externo.

Com o passar do tempo, o cuidador não pode estar mais tão presente ou atento à criança porque vai retomando sua vida pessoal e profissional. Com efeito, são produzidas mais “falhas” e frustrações à criança, necessárias para seu amadurecimento físico e psíquico.

Assim, a criança vai desenvolvendo a capacidade de se situar no tempo e no espaço, antecipar eventos ou aguardar pelos cuidadores. Ela passa a desenvolver meios para controlar suas frustrações, apesar de ainda depender de seus cuidadores.

Duas faces do mesmo cuidador

Ao adquirir maiores meios de independência devido à aquisição da habilidade de andar, alcançar/manipular objetos com maior precisão e dar suas primeiras palavras, a criança passa a vivenciar uma experiência de como se existissem “duas faces” do seu cuidador:

Ela reconhece que ainda depende do cuidador para oferecer sua segurança, preparar sua alimentação, aperfeiçoar sua higiene. Por isso, entende que há um cuidador dos momentos de calma e ternura, que oferece bem estar.

Porém, na medida em que o cuidador precisa lhe oferecer regras, passa mais tempo longe da criança e por vezes se ausenta da casa, a criança também visualiza um cuidador dos momentos de falha, de “agressividade”, como se quisesse lhe fazer algum mal.

Fenômenos e Objetos Transicionais no desenvolvimento infantil para Winnicott

A criança já não acredita mais que está unida com o mundo. Ela não crê na ilusão de que é capaz de satisfazer suas necessidades de forma “onipotente”, tal como o bebê é capaz quando chora e imediatamente recebe o objeto de prazer pelas mãos de seu cuidador (ex: mamadeira).

Em decorrência das frustrações vividas pela criança e do impulso para satisfazer seus desejos, ela desenvolve o que Winnicott chamou de fenômenos transicionais.

Um fenômeno transicional pode ser definido como qualquer atividade na qual a criança se envolve para evitar a angústia de separação do cuidador: levar coberta à boca, segurar um tecido, fralda, lenço ou travesseiro, se acariciar com algum objeto, fazer balbucios ou ruídos com a boca, etc.

A satisfação da necessidade

Este objeto com o qual a criança se apega para satisfazer uma necessidade que não pode ser satisfeita pelo seu cuidador naquele momento é chamado de Objeto Transicional.

Por meio destes fenômenos e objetos se forma um campo intermediário, composto pelo mundo psíquico íntimo da criança e também pelos objetos do mundo externo.

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É um espaço formado pelos seus desejos, sua angústia de separação e sua fantasia de satisfação do desejo, e também pelos objetos: brinquedo, lençol, travesseiro. Por isso, Winnicott chama este campo intermediário de espaço transicional: pois se trata da transição entre mundo interno e externo.

Brincar

O brincar da criança é o fenômeno transicional por excelência.

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    Nas brincadeiras forma-se um criativo campo de descargas psíquicas, de operação e realização dos desejos por meio da fantasia (de mamãe, papai, cozinheiro, policial, …). O espaço transicional é a estrutura do mundo simbólico da brincadeira.

    Utilizando a brincadeira, a criança expressa sua visão de mundo: suas necessidades, seus conflitos psíquicos, suas frustrações, reproduz os modelos sociais que estão sendo internalizados, as regras, os papéis sociais.

    Enfim, ela busca seu prazer num mundo simbólico sobre o qual ela tem o controle.

    Cuidador Suficientemente Bom

    Podemos dizer que a criança está em uma fase de plena separação entre “eu” e mundo externo, criando artifícios para lidar com esse choque de realidades que são as brincadeiras e os objetos transicionais. Para Winnicott, nesta fase o cuidador segue oferecendo os cuidados, o apoio, o carinho, sendo a segurança para a criança nos momentos de calma. Acolhendo a criança sempre que necessário.

    O cuidador suficientemente bom é aquele que não desaparece, não se ausenta (que não “morre” na visão da criança). Ele não se ausenta por um tempo tão longo que ultrapasse a capacidade da criança de manter uma representação viva do cuidador em sua mente. A criança ainda é capaz de acreditar que o cuidador está “vivo”, pois ele representa estabilidade e lhe transmite confiança.

    O cuidador permite e incentiva os fenômenos transicionais, visando respeitar e proteger a expressão única de sua criança. O cuidador carrega o objeto transicional na viagem, não lava apesar do odor, não toca nele quando a criança solicita, e também oferece momentos de brincadeira e aprendizado através delas.

    Conclusão sobre o desenvolvimento infantil para Winnicott

    Conforme a criança vive a experiência de eu e não-eu, de mundo interno e mundo externo, de integração e desintegração, no período de dependência relativa, ela vai desenvolvendo maiores graus de independência.

    A criança cria meios e adquire habilidades para não necessitar tanto mais do cuidado do adulto. Ela possui memórias confiáveis do cuidador, projeta suas necessidades buscando caminhos para satisfazê-las, internaliza as regras necessárias, compreende melhor o ambiente externo.

    Esta fase do desenvolvimento infantil que se segue após os 2 ou 3 anos é a Fase de Independência Relativa. Segundo Winnicott, a independência nunca é absoluta porque a pessoa não é um ser isolado do meio. Pelo contrário, o indivíduo está sempre se relacionando com o mundo, com as pessoas, com os objetos. Portanto, a independência relativa significa que o sujeito seguirá seu desenvolvimento psicossocial como um ser interdependente.

    O presente artigo foi escrito por Raphael Aguiar ([email protected]). Rio de Janeiro/RJ – Formando em Psicanálise Clínica pelo IBPC, Pós-graduando em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem pela PUC e Terapeuta Ocupacional pela UFRJ. Atua na clínica com saúde mental de crianças e adolescentes.

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