Dostoiévski e Nietzsche

Fiódor Dostoiévski e Friedrich Nietzsche: um diálogo

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Neste artigo, falaremos de dois autores fundamentais ao pensamento filosófico Fiódor Dostoiévski e Friedrich Nietzsche: um diálogo sobre a crise de valores, o fim da metafísica e a origem da má consciência. Este texto pretende investigar as possíveis aproximações entre o pensamento de Dostoiévski e Nietzsche, especificamente, os temas referentes à crise de valores, o fim da metafísica e a origem má consciência.

Tendo em vista que o escritor russo não tratou desses assuntos de forma sistemática, mas por meio do discurso literário, a conversa entre os dois pensadores será feita por meio do enredo de um conto dostoievskiano: O sonho de um homem ridículo, em diálogo com o pensamento de Friedrich Nietzsche.

Entendendo sobre Dostoiévski e Nietzsche

É importante destacar que Dostoiévski e Nietzsche influenciaram notavelmente Sigmund Freud e a psicanálise, cada um de maneiras distintas. As análises psicológicas profundas em suas obras ecoaram na compreensão de Freud sobre o inconsciente e a complexidade da psique humana, evidenciando a riqueza de ideias que contribuíram para a transição para o entendimento moderno da psique humana.

A crise de valores e o fim da metafísica

A narrativa dostoieviskiana inicia com o personagem-narrador, o homem ridículo, estabelecendo um monólogo sobre alguns acontecimentos da sua vida. Desse modo, o personagem sobrevoa seu passado relatando seu nascimento, escola e universidade com um teor de indiferença, com um encadeamento dos fatos desprovidos de sentido, cabe dizer, como algo completamente ridículo. Diante dessa jornada de episódios, o protagonista desponta para um arrebatamento niilista. Em suas palavras:

Desde que me tornei moço, ocorrera-me a convicção de que no mundo, em qualquer canto, tudo tanto faz. Fazia muito tempo que eu vinha pressentindo isso, mas a plena convicção surgiu no último ano, assim, de repente. Senti de repente que para mim dava no mesmo que existisse um mundo ou que nada houvesse em lugar nenhum. Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. No começo me parecia sempre que, em compensação, tinha havido muita coisa antes, mas depois intuí que antes também não tinha havido nada, apenas parecia haver, não sei por quê.

Pouco a pouco me convenci de que também não vai haver nada jamais. Então de repente parei de me zangar com as pessoas e passei a quase nem notá-las (DOSTOIÉVSKI, 2003, p. 44-45). Este herói trágico[3] atravessado por um cansaço, por um abalo psíquico que não vê mais sentido na luta desenfreada pela sobrevivência, nas batalhas entre nobres e escravos[4], no devir existencial do absurdo, se vê diante da possibilidade do suicídio. E assim, de forma contínua, esta obsessão passa a visitar a mente do protagonista. Esta teia de acontecimentos apresentada por Dostoiéviski é uma temática recorrente em suas obras, trata-se da reflexão sobre as possibilidades de transformação do homem moderno, tendo em vista a “morte” de Deus na história, ou seja, o estilhaçamento da transcendência e as consequências desse fato no devir existencial. Segundo Flávio Ricardo Vassoler

Sobre Dostoiévski e Nietzsche: relações

Imbuído de um ímpeto niilista efetivamente escatológico, o homem ridículo diria que todas e quaisquer tergiversações em relações ao suicídio não são suficientemente radicais. Ser um sádico (o homem do subsolo, Memórias do Subsolo), ser um assassino (Raskólnikov, Crime e Castigo), ser um pedófilo (Stavróguin, Os Demônios), ser o Todo-Poderoso (o Grande Inquisidor, Os Irmãos Karamázov), tudo isso é agir em um mundo que, após o crepúsculo dos deuses, já não faz sentido algum. Para o homem ridículo, a única conclusão escatologicamente coerente para o desterro transcendental dos homens é o suicídio. Toda e qualquer tergiversação após a morte de Deus não passa de mera covardia (VASSOLER, 2008, p.130).

Observa-se, portanto, que Dostoiéviski está refletindo sobre o espírito do seu tempo, isto é, o clima cultural e intelectual que permeava toda a atmosfera da modernidade – a crise de valores e o fim da metafísica. Esse desarranjo cultural faz parte do projeto dostoieviskiano, como fez em Crime e Castigo, em que a “morte” da metafísica, a negação de um sentido atado a transcendência, trouxe uma vacuidade para a vida, uma crise de valores e, ao mesmo tempo, a possibilidade de invalidar o “não mataras”, porque se Deus não existe, tudo é permitido!

Em O sonho de um homem ridículo, o personagem também vislumbra as possibilidades de romper as fronteiras da valoração transcendente, mas agora esta tarefa volta-se contra si mesmo.

Para onde foi Deus? Nós o matamos! Vós e eu!

Bem como Dostoievski, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche também discutiu no interior de sua filosofia sobre a crise de valores e “morte de Deus”. Em sua obra A Genealogia da Moral, ao dissertar sobre o surgimento da má consciência, Nietzsche explica que depois de um longo processo histórico em que a noção de culpa foi se consolidando na psique humana, e com o advento do cristianismo elevando ao máximo esse sentimento, este estado interior provocou um ato reverso, um declínio da fé em Deus e o enfraquecimento do sentimento de culpa.

O homem ridículo, nesse sentido, apresenta-se como um modelo dessa noção da morte da transcendência na tangibilidade da vida, pois seus traços psicológicos incidem, em certa medida, para uma postura que decide orientar sua existência a partir de leis que ele mesmo determina, não mais uma instância metafísica que valora a vida, mas o próprio ser como ponto de referência de suas concepções e daquilo que deve fazer.

Nietzsche

Nietzsche, igualmente ao pensador russo, de forma poética, no famoso Aforismo 125 da Gaia Ciência, anuncia essa temática da crise da crise de valores e o fim da metafísica com um brilho estilístico próprio da linguagem literária. Assim descreve:

Nunca ouviram falar do louco que acendia uma lanterna em pleno dia e corria pela praça, gritando: “Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!” Mas aqueles que não acreditam em Deus, ficavam rindo, e diziam: “Estará perdido, tal uma criança?”, “Estará escondido? Estará com medo de nós?”, “Terá viajado?” O louco então gritou: – Para onde foi Deus? O que vos direi! Nós o matamos! Vós e eu! Somos nós, nós todos, os assassinos! Mas como fizemos isso? Como esvaziamos o mar? Como apagamos o horizonte? Como tiramos a terra de sua órbita? Para onde vamos agora? Não estamos sempre caindo? Para frente, para trás, para os lados? Mas haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos vagando através de um infinito Nada? Não sentiremos na face o sopro do vazio? O imenso frio? Não virá sempre noite após noite? Não acenderemos lâmpadas em pleno dia? Não podem ouvir o barulho dos coveiros – enterrando Deus? Ainda não sentiram o fedor da decomposição divina? Os deuses também apodrecem! E Deus morreu! Deus está morto! E nós o matamos! Conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas e em cada uma entoou o seu Réquiem. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?” (NIETZSCHE, p. 2002, 147-148).

Segundo Oswaldo Giacóia (2000, p.11), esta passagem caracteriza-se como uma descrição que Nietzsche faz da consciência do homem moderno, o sentimento de vazio que tritura a vida humana. “Os cínicos escarnecedores, reunidos na praça do mercado, somos também nós, vencedores do combate da ciência contra as trevas da ignorância” (GIACÓIA, 2000, p.11). Essa crise de valores que permeia a construção poética do filósofo alemão, portanto, encontra voz na postura trágica do herói dostoievskiano. Embora Dostoiévski no oriente e Nietzsche no ocidente, ambos refletiram sobre a decadência do homem moderno — a crise de sentido que atravessava os tecidos mais ínfimos da vida, o fim de um modo metafísico dominante de pensar e, consequentemente, as possibilidades de transformação da humanidade a partir deste novo cenário.

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Nilismo, cisão psíquica, Dostoiévski e Nietzsche

Após o réquiem dos deuses, só há uma lógica niilista – o suicídio

Com esse quatro psicológico esboçado da modernidade, a narrativa segue com a decisão do personagem de cometer o suicídio. Essa atitude faz referência a uma ideia recorrente nas obras dostoieviskianas, a chamada imaginação escatológica. Segundo Joseph Frank (2018, p.14), refere-se à capacidade que Dostoievski tinha de criar personagens que põem ideias em movimento e depois as seguem até às últimas consequências.

E é isso que o homem ridículo pretende fazer, levar a sua lógica niilista e a afirmação da sua liberdade até as últimas conclusões. E assim o enredo segue com o personagem caminhando numa noite lúgubre em São Petersburgo e, de repente, vê uma bela estrela no céu e decide que aquela seria a noite de seu grande desterro! Nesse ínterim, em meio a elucubrações, ele conclui que irá se matar com um tiro na cabeça. E então a caminho de casa, convicto de seu projeto, uma menina se aproxima pedindo-lhe ajuda. Segundo o personagem-narrador, ela

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    Tremia toda com tremedeira miúda de calafrio. Estava em pânico e berrava desesperada: “Mámatchka!”. Entendi que a sua mãe estava morrendo em algum lugar, e ela fora correndo chamar alguém ou achar alguma coisa para ajudar a mãe. Mas não fui atrás dela e, de repente, me veio a ideia de enxotá-la. Ela apenas gritou: “Senhor!” (DOSTOIÉVSKI, 2003, p. 46).

    O herói trágico

    Diante dessa situação, o herói trágico é assaltado por uma breve reflexão sobre o que deveria fazer com aquela criança. Mas logo decide seguir a coerência de seus pensamentos: se tudo lhe era indiferente, se nada fazia sentido e a apatia orbitava sua personalidade, ele decide enxotar a garota, já que não faria sentido para um homem niilista e à beira do suicídio sentir pena.

    O pretenso misantropo, por conseguinte, executa sua liberdade de afirmar sua vontade de potência[6] expulsando a menina. Após esse desfecho, o personagem vai para casa e pega a sua arma, porém no momento da consumação do fato, sente uma pontada em seu coração, uma ebulição de emoções. E assim lembra-se da garotinha – era o sentimento de pena como um intruso, como algo que penetra nas entranhas da psique sem pedir licença.

    O homem ridículo, neste momento, se vê cindido — sua cabeça e seus sentimentos entram em desacordo! Assim ele relata: “Lembro que tive muita pena dela; quase até o ponto de uma estranha dor, aliás completamente inverossímil na minha situação” (DOSTOIÉVSKI, 2003, p. 49). Neste cenário, mergulhado neste lapso de reflexões e prestes a se matar, o personagem adormece e sonha.

    Os (des)arranjos psicológicos de uma era lúgubre

    Nesta altura da narrativa, a logicidade que aproxima Dostoievski de Friedrich Nietzsche vincula-se a esses jogos psicológicos antitéticos que permeiam o personagem trágico, isto é, sua cisão psíquica. O homem ridículo, poderia dizer a partir do filósofo alemão, está atravessado por dois tipos psicológicos: a moral dos senhores versus a moral dos escravos.

    Segundo Nietzsche, “enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um “fora”, um “outro”, um “não-eu” – e este Não é seu ato criador (NIETZSCHE, 1998, p.29).

    Neste sentido, por um lado o homem ridículo apresenta-se com uma atitude baseada naquilo que é útil para si, a afirmação de suas convicções, de suas próprias leis, por isso decide pelo suicídio, pela sua vontade. Entretanto, a experiência dialógica[7] apresentada na narrativa, mostra o personagem atravessado pela moral dos fracos, dos escravos, pelo não eu — é a má consciência orbitando, o sentimento de culpa, a racionalidade apolínea [8] dando ao homem uma modelagem — uma cisão. Este caráter paradoxal que permeia a psique humana, para o filósofo alemão encontrou seu ápice na modernidade, especificamente por conta do movimento reverso que a moral cristã proporcionou elevando a ideia de culpa que, primeiramente tinha na história uma configuração puramente animal, a noção de honrar as promessas. Com o cristianismo isso foi reconfigurado de outra maneira: culpa toma forma do pecado, o pecado é a reinterpretação do instinto animal.

    Crise, Dostoiévski e Nietzsche

    Com isso, a crise psíquica se instaura na contraposição da afirmação da própria vontade em detrimento de um ideal interpretativo em conter essa natureza instintiva. Esta crise psíquica, infere-se aqui, tem uma ligação direta com a crise de valores que perpassa a modernidade.

    Em Dostoievski, a falta de sentido, a vacuidade da vida leva o personagem a optar pelo suicídio — o niilismo, ou seja, um estado psicológico que se caracteriza pelo ponto de vista que não há nenhum sentido e utilidade na existência. Mas ao tentar levar essa lógica às últimas consequências, o personagem entra em conflito.

    Em Friedrich Nietzsche, este diagnóstico também pode ser considerado a partir da crise de valores, resultando também do niilismo. Mas no caso do homem ridículo, na filosofia de Nietzsche, este se enquadraria em um niilismo específico: o niilismo negativo — uma espécie de ideal ascético, já que a vida não tem sentido surge a incapacidade de suportar este universo, de realizar sua vontade de potência.

    Possibilidades

    O niilista negativo cria um mundo outro, uma verdade como possibilidade para a realização de sua vontade, já que não pode realizá-la neste mundo. Nesse sentido, tratando-se do homem ridículo, o suicídio seria uma solução escamoteada de uma verdade sob a negação deste mundo em favor de um mundo outro. É a afirmação de um ideal interpretativo (moral dos escravos) vinculada a um ressentimento de não conseguir afirmar a própria vontade, por isso lança as possibilidades de afirmar essa potência em um mundo distinto.

    Portanto, nesta tessitura de acontecimento, Dostoiévski em diálogo com Nietzsche, apresenta, a partir da crise de valores e o fim da metafísica, os efeitos psicológicos deste novo horizonte cultural – desta era lúgubre.

    Autoconhecimento e a origem da má consciência

    Os contornos da (de)formação da subjetividade e da civilização

    No início do sonho, o personagem trágico dispara contra o próprio coração e morre! De repente, aparece um ser desconhecido que passa a levá-lo para uma viagem intergaláctica, uma jornada onde o personagem começa a vislumbrar uma série de imagens referentes à vida terrena.

    De súbito, a criatura desconhecida fala para o homem ridículo: “— Você vai ver tudo” (DOSTOIÉVSKI, 2003, p.55), isto é, em um lapso temporal, o protagonista e o personagens desconhecido sobrevoam a história da humanidade descortinando a conformação da civilização e da subjetividade humana até o presente. O enredo daqui em diante, se aproxima, em grande medida, do processo genealógico adotado por Nietzsche na investigação histórica sobre a formação da má consciência até chegar às condições psicológicas do homem contemporâneo na obra Genealogia da Moral, nas seções 17 a 23.

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    Assim, o personagem é levado para um lugar paradisíaco, o primeiro estágio desta jornada, onde as pessoas vivem sem sofrimento, angústias, desespero, etc. “Eles não desejavam nada, eram serenos e não ansiavam pelo conhecimento da vida como nós ansiamos por tomar consciência dela” (DOSTOIÉVSKI, 2003, p. 57).

    Dostoiévski e Nietzsche e a honra

    No início, o homem ridículo, ao chegar neste lugar, sente-se profundamente espantado, mas aos poucos começa a se sentir entediado com aquelas pessoas, um vazio existencial com relação àquela realidade, por isso passa a ensinar seus valores aos habitantes daquele lugar. E em um lapso, conta o personagem-narrador, um milênio passa voando e este fica apenas com a sensação do todo. E assim, vai narrando essa visão panorâmica dizendo que os habitantes foram conhecendo

    […] a vergonha, e a vergonha erigiram em virtude. Nasceu a noção de honra, e cada aliança levantou a sua própria bandeira. Passaram a molestar os animais, e os animais fugiram deles para as florestas e se tornaram seus inimigos. Começou a luta pela separação, pela autonomia, pela individualidade, pelo meu e pelo teu (DOSTOIÉVSKI, 2003, p.61).

    Ainda nesse transcurso histórico, a narrativa desvela como, a partir da raiz psicológica do autoconhecimento, o ser humano foi desenvolvendo e criando a civilização – começaram a falar de ciência, justiça social, fraternidade, humanidade e com isso surge conjuntamente uma série de males como a escravidão, guerras, destruições, etc.

    Uma forma poética

    Numa linguagem nietzschiana, neste momento do conto, pode-se assim observar que o nascimento da autoconsciência trouxe a objetivada e o instinto em uma confluência antitética que configurou os mais ínfimos recônditos da vida – “o mundo dionisíaco despontando na desmesura e se desvelando como a verdade; a contradição e a volúpia nascida da dor se expressavam do mais profundo da natureza” (MACHADO, 1999, p.21).

    Em Os Irmãos Karamazov, Dostoievski também descreve esse arranjo, no quadro da existência, de forma poética: “A beleza é uma coisa terrível e horrível! Terrível porque indefinível, e impossível de definir, porque Deus só nos propõe enigmas. Aí os extremos se tocam, aí todas as contradições convivem (DOSTOIEVSKI, 2012, p.141).

    Sendo assim, infere-se da narrativa que, assim com o filósofo alemão, Dostoiévski também enxergava que o surgimento da consciência estava intrinsecamente ligado às manifestações dos atos valorativos na psique humana (o binarismo bem e mal), consequentemente, o nascimento da ideia de culpa – a má consciência.

    A má consciência, Dostoiévski e Nietzsche

    No processo de formação da má consciência, embora Nietzsche não tenha tratado como ponto de partida um lugar idealizado paradisíaco, mas o ponto comum em ambas abordagens é que para os dois autores é perceptível a ideia de um primeiro período em que os seres humanos viviam voltados para fora com ações puramente instintivas — sem consciência do próprio eu, da individualidade. Deste ponto, a consciência surge a partir de uma grande ruptura.

    Desse fato, na narrativa, Dostoiévski sinaliza, assim como Nietzsche, que o surgimento da civilização, a complexidade da cultura e como essa foi desencadeando a formação da subjetividade humana, em que nas reflexões nietzschianas, isso aparece com o surgimento do primeiro Estado, o qual “prosseguiu seu trabalho, até que matéria-prima humana e semi-animal ficasse não só amassada e maleável, mas também dotada de uma forma (NIETZSCHE, 1998, p.74).

    De acordo com filósofo alemão, esse fenômeno na história foi:

    “Um verdadeiro ventre de acontecimentos ideias e imaginosos, vir à luz uma profusão de beleza e afirmação, e talvez mesmo a própria beleza. Pois o que seria belo, se a contradição não se torna primeiro consciente de si mesma, se antes a feiura não tivesse dito a si mesma, eu sou feia?” (NIETZSCHE, 1998, p.77).

    Nietzsche aponta aqui para uma infinidade de criações culturais que não teriam ocorrido sem este processo de formação da consciência. No conto do escritor russo, isso pode ser inferido no caráter dialético da narrativa em que toda experiência moral carrega consigo sua contradição, sendo esta estendida para toda construção da civilização.

    Portanto, infere-se que Dostoievski bem como Nietzsche, viu neste processo do nascimento da consciência, conjuntamente com a experiência da valoração, o surgimento da culpa – a noção da má consciência – como uma doença tal como a gravidez. Isto é, uma doença que deu à luz a uma profusão de grandes acontecimentos!

    Conclusão: reflexões sobre Dostoiévski e Nietzsche

    A partir das reflexões apresentadas foi possível perceber quanto Dostoiévski e Nietzsche refletiram sobre os temas propostos neste trabalho. Com relação à questão da crise de valores e o fim da metafísica, observou-se que ambos apontaram para uma decadência que permeia o homem moderno – a crise de valores – sendo essa tensão relacionada ao fim da metafísica, isto é, o fim de uma forma de pensar.

    Além disso, tanto Dostoiévski como Nietzsche dissertaram sobre este assunto de forma poética, mimética mostrando como as tensões do contexto cultural da modernidade afetaram os modos de sentir e agir dos seres humanos. No que tange à temática da má consciência, identificou-se que os dois pensadores compartilham que o surgimento da consciência trouxe concomitantemente o ato de valorar o mundo, com isso o surgimento da má consciência. Ademais, ambos viram nesse processo a raiz dos contornos dialéticos da (de)formação de toda história da civilização.

    NOTAS:

    [1] Segundo Bakhtin (2004), o sonho de um homem ridículo enquadra-se no gênero chamado menipéia ou “aquilo a que podemos chamar experimentação moral e psicológica, ou seja, a representação de inusitados estados psicológico morais anormais do homem – toda espécie de loucura (“temática maníaca”), da dupla personalidade, do devaneio incontido, de sonhos extraordinários, de paixões limítrofes com a loucura (BAKHTIN, 2004, p. 133).

    [2] Niilista: etimologicamente, niilismo vem do latim – nihil (nada). Pecoraro (2007, p.7) o definiu como “a corrosão, a desvalorização, a morte do sentido”.

    [3] herói trágico: segundo Joseph Frank (2018, p. 346), os romances de Dostoiévski caracterizam-se como tragédias gregas, ou seja, narrativas onde emergem personagens atormentadas; em conflitos psicológicos pela consciência dos seus abismos.

    [4] nobres e escravos: referência aos tipos psicológicos propostos por Nietzsche.

    [5] São Petersburgo: cidade na Rússia.

    [6] vontade de potência: vontade de potência” em Nietzsche refere-se à força fundamental que impulsiona a vida, buscando constantemente expressar e aumentar seu poder.

    [7] Dialógica ou dialogismo refere-se à organização discursiva (consequentemente sua personalidade) de um falante que leva em conta outros enunciados. Esse é o verdadeiro mundo da ideia, o mundo das relações dialógicas que emerge das muitas vozes de um contexto social, vozes que se misturam formando o caráter dos personagens sempre por meio desse dialogismo

    [8] Referência à Nietzsche, especificamente os conceitos dionisíacos e apolíneos aplicados ao âmbito psicológico.

    Este artigo foi escrito por William Vieira dos Santos: possui graduação em Letras e Psicanálise pelo IBPC e atualmente está se graduando em Filosofia, além de ser bacharelando em Ciências e Humanidades. Faz parte do Grupo de Estudos de Filosofia Alemã da Universidade Federal do ABC. Suas pesquisas concentram-se no diálogo entre filosofia, psicanálise e literatura.

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