história de Freud

História de Freud: do início até criar a Psicanálise

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Esse trabalho será sobre a história de Freud e a teoria psicanalítica de Sigmund Freud, vem abordar o processo do desenvolvimento da psicanálise e a sua influência para o surgimento da teoria freudiana. Esta abordagem é relevante para o conhecimento a respeito da evolução das técnicas da psicanálise e a necessidade do uso em terapia.

Na primeira parte do trabalho, abordarei a vida de Sigmund Freud, sua infância, adolescência e início da juventude, o relacionamento com seus pais e irmãos. Na segunda parte, foca a pré-história da psicanálise e a sua influência para o surgimento da teoria freudiana.

A terceira parte já entrará no modelo topográfico e estrutural na visão freudiana e a quarta parte do percurso da hipnose até a associação livre. Para atingir esse entendimento sobre o percurso histórico do desenvolvimento da psicanálise, a metodologia empregada foi a bibliográfica, onde foram usadas algumas das obras do médico e psicanalista, Sigmund Freud e outros autores que contribuem para que saibamos cada vez mais sobre a teoria freudiana e como aplicá-la de forma coerente com a sua teoria e seus teóricos pós-freudianos.

A história de Freud: Quem foi Sigmund Freud

Nascido na Áustria, em 1856, Sigmund Freud já tinha dois irmãos mais velhos, filhos do primeiro casamento do seu pai. Sua mãe, Amelie, tinha por volta de vinte anos de idade quando se casou com Jacob, uma mulher inexperiente, porém, doce com o pequeno Sigmund, este reinou durante alguns anos como o único filho homem do casal. Ele e a sua família moravam na Alemanha, mas pouco tempo depois precisaram mudar-se para Viena, onde a sua mãe teve mais três filhas e dois filhos, o que fez com que a família se mudasse de uma casa pequena para uma maior.

Freud escolheu o menor quarto, este ficava distante dos demais quartos da casa, com uma pequena janela, onde teria a tranquilidade para ficar sozinho. Seu pai, Jacob, percebendo que seu filho tinha talento para os estudos, providenciou uma pequena estante, uma mesa, duas cadeiras e um lampião, para que seu filho pudesse ler os poucos livros que possuía. O menino Freud foi crescendo e sentindo-se importante para a família, pois era o irmão mais velho e, com o nascimento do seu irmãozinho, ele, que havia escolhido o nome do irmão, sentia o peso da responsabilidade de opinar na família, se tornando um irmão cuidadoso e respeitoso como os demais.

A vida de Freud foi marcada pela curiosidade e persistência, Sigmund passou para uma boa escola, mesmo tendo um ano a menos que os demais alunos aprovados para a escola ginasial, onde conseguiu destaque por sua brilhante inteligência e versatilidade em aprender rápido outros idiomas, sendo considerado o primeiro aluno da classe. Em sua adolescência, Sigmund experienciou emoções diferentes em sua relação com o pai. Se decepcionou algumas vezes, uma delas quando o seu pai chegou em casa com cheiro forte de álcool e sujo de lama, ao ser questionado pelo filho e por sua esposa, Jacob contou que havia esbarrado em um homem estranho e que o mesmo o empurrou, jogando Jacob em uma lama, que, sem esboçar reação, voltou para casa.

O pai na história de Freud

Na história de Freud, ao ouvir o relato do pai, Sigmund ficou chateado, foi para o seu quarto e lá ficou questionando para si mesmo sobre o porquê do pai não ter reagido, se fosse com ele, revidaria prontamente ao empurrão. No entanto, a adolescência de Sigmund não foi só de frustrações, ele era um aluno exemplar e conseguiu concluir o ginásio com louvor, sendo premiado por seu pai com passagens para viajar pela primeira vez sozinho em sua cidade natal.

Com a graduação, era chegado o momento de decidir por seu destino profissional, na história de Freud, ele pediu ao seu pai que lhe ajudasse a decidir e, em uma breve conversa com Jacob, ele defendeu a sua vontade em fazer o curso de medicina, contando ao pai o quanto a medicina aguçava a sua curiosidade e o atraia nas questões investigativas em relação à ciência. Finalmente, com o apoio de Jacob, Sigmund foi matriculado na Universidade de Viena em 1873. Em seus primeiros dois anos na universidade, Sigmund não era conhecido.

Ao iniciar o curso, optou por biologia marinha, iniciando nas pesquisas de zoologia marinha do professor Claus, onde percorreu por algumas matérias, tendo experiências de frustrações e êxitos em suas escolhas acadêmicas. Primeiramente com o professor Claus, em sua pesquisa sobre a biologia marinha, depois com a de fisiologia, com o professor Bruck. Com este, conseguiu certo status como especialista em pesquisa, tendo sua primeira conquista acadêmica no grupo do professor Bruck, com a pesquisa sobre os elementos que compõem o sistema nervoso dos animais inferiores. Com essa pesquisa na história de Freud, Sigmund tem a permissão dos mestres da academia para a sua primeira publicação no Bulletin da instituição.

Instituto Químico de Ludwig

Voltando de um ano conturbado de suas férias, em que acabou no serviço militar, Sigmund retomou as suas pesquisas e se dedicou a estudar patologia, cirurgia e psiquiatria. Em 1881, se qualificou em medicina com excelência. Já formado, Freud continuou o seu trabalho no instituto de pesquisa de Bruck, após a sua saída do instituto, foi trabalhar no Instituto Químico de Ludwig, onde permaneceu por um ano. Quando Sigmund estava no início do namoro com Martha Bernays, trabalhou durante dois anos no Hospital Geral, onde foi nomeado aspirante. Na história de Freud, com esse emprego, em 1882, Freud fica noivo de Martha e, logo após o noivado, trabalha na Clínica Psiquiátrica.

Era um trabalho exaustivo, mas importante continuar com ele. Sigmund, também trabalhou no departamento de dermatologia e, por volta de 1884, conseguiu entrar para o Departamento de Doenças Nervosas, onde as condições de trabalho não eram muito boas devido à insalubridade do local, deixando Sigmund desapontado. Mesmo assim, continuou com o Dr. Franz Scholz, pois, este lhe dava liberdade para que pudesse pesquisar e transitar livremente nas enfermarias, fazendo com que obtivesse sucesso em seus diagnósticos durante as autópsias de seus ex-pacientes.

Nesse ínterim, Freud descobriu o uso da cocaína, seus benefícios e malefícios, fazendo com que ele aprendesse a forma adequada de uso. Poucos meses depois da sua descoberta do uso da cocaína, Sigmund aceita ir trabalhar numa cidade nos arredores de Viena, em um hospital de doenças mentais para pacientes da alta sociedade. Na história de Freud esse trabalho não durou muito, pois Freud precisou voltar para Viena, onde havia sido chamado para prestar o exame de titulação, para receber o título de Neuropatologista, assim como uma bolsa de estudos de pós-graduação em Paris, onde pôde ir e finalmente conhecer o famoso professor Charcot, este logo tornou-se seu amigo.

Charcot

De volta a Viena, Freud abriu seu próprio consultório, não deixando de lado os estudos sobre hipnose, tendo como inspiração o seu mestre francês, Jean-Martin Charcot, que muito contribuiu para que Sigmund Freud avançasse em suas técnicas neurológicas ligadas a psique humana.

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A infância e adolescência de Sigmund Freud foi simples, mas cheia de afetos, ele tinha uma boa estrutura familiar, com pai presente e mãe carinhosa, sendo fatores importantes na formação do seu caráter, ajudando-o em seu altruísmo, foco e determinação, cruciais para que o pai da psicanálise se tornasse um profissional de renome.

A pré-história da psicanálise e a sua influência no surgimento da teoria freudiana

Na história de Freud, nos séculos XVII e XVIII, havia um discurso filosófico sobre o que seria a loucura. Segundo alguns filósofos, como Descartes, a loucura era algo que ia além do racional, que o homem pode ficar louco, mas o pensamento não é atingido pela loucura, essa visão cartesiana faz com que no século XVIII obtenha-se um entendimento de que o homem louco se identifica com o animal, com a desrazão e o homem sadio com um ser racional. Em seus estudos sobre a loucura, Foucault fala que na busca sobre esses estudos, o homem produz a própria loucura e, segundo ele, essa seria uma produção do século XVIII, onde surgem instituições, práticas e saberes.

Assim, a loucura deixa de ser uma desrazão para tornar-se, historicamente, algo que foge do controle, fazendo com que a psiquiatria, tomada de poder, queira controlar o homem louco. Para o psiquiatra Moreau de Tours, a loucura é comparada ao sonho, para ele o homem louco sonha acordado. Ao falar isso, Moreau rompe com a relação entre o normal e o patológico, abrindo caminho para vários estudiosos.

Na história de Freud em posse de tais conhecimentos sobre o seria a loucura, o médico Franz Mesmer, em seus estudos sobre os seres vivos, descobre as influências magnéticas, mais tarde conhecida como uma técnica chamada mesmerismo, essa técnica consistia no uso do magnetismo, um ímã, em seus atendimentos com seus pacientes. Com a evolução dos seus estudos, Mesmer passa a substituir o imã por sua própria mão, alegando que dessa forma também alcançaria o efeito terapêutico desejado.

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    Freud e sua popularidade

    Com a popularidade e êxito em algumas de suas terapias, seu consultório tem uma grande procura, então, como solução para atender esta demanda, ele resolve separar seus pacientes em grupos e colocá-los numa tina com água onde conseguiria uma maior fluidez percorrendo toda a tina, dando início a conhecida técnica do fluidismo, chamando a atenção da comunidade e causando estranheza em alguns, fazendo com que fosse acusado de charlatanismo,alegavam que não existia fluido nenhum e sim uma cura através da imaginação, tornando legítimo o sucesso da sugestão hipnótica usada por alguns médicos da época.

    Com o abandono do mesmerismo, surge uma nova técnica, a hipnose, de James Braid, conhecida como braidismo. Essa técnica diminui os sintomas ou os elimina. Tal técnica chama a atenção do neurologista Charcot que busca se aprofundar nos estudos e na relação com a histeria, algo que pudesse ser encontrado na anatomia do homem por meio de investigações clínicas.

    Ele relacionava algo no corpo do homem com as manifestações histéricas, chegando ao entendimento que tais manifestações vão além de investigações anatômicas e classifica como uma doença oriunda do sistema nervoso, fazendo-o buscar outras técnicas de intervenção clínica, chegando até os estudos da hipnose, este era o método que, naquele momento, conseguia mudanças significativas em relação ao sistema nervoso. Em 1885, quando Freud foi contemplado com uma bolsa para estudar em Paris, ele conhece Charcot que o apresenta aos seus estudos sobre histeria e hipnose, ganhando um aluno que logo se identifica com tais pesquisas. Pois, para eles, a histeria além de ser um conjunto de sintomas, acometia as mulheres e os homens.

    Histeria e a sexualidade

    Para Charcot, na história de Freud além de se preocupar com seus estudos, precisava convencer os outros estudiosos de que a histeria era algo diferente da loucura e que por isso precisava ser tratada em um hospital, não em asilos como faziam. Ele alegava que as pessoas histéricas precisavam dos cuidados de um neurologista e não de um psiquiatra. Charcot, também faz relação da histeria com traumas, dizendo que esses traumas fugiam da ordem física, tornando necessário que o paciente narrasse sobre a sua história pessoal, para que pudesse ser identificado o trauma. Assim, ele consegue comprovar uma ligação entre a histeria e a sexualidade.

    Porém, Sigmund Freud, usa esses estudos e inicia a sua própria investigação acerca dos traumas e a relação destes com a sexualidade. Ele também começa a estudar os doentes histéricos e sugere que esses sejam tratados em hospitais, afastados das manifestações ansiosas dos seus familiares. Uma vez sendo tratados em hospitais, estariam de alguma forma controlados. Várias técnicas terapêuticas eram usadas por Freud, hidroterapia, ginástica e, por fim, a hipnose. Sigmund percebeu que a maioria das suas técnicas faziam com que os sintomas fossem eliminados, mas a causa permanecia.

    Então, com a contribuição dos estudos de Joseph Breuer a respeito da hipnose sobre o aparelho psíquico, Freud emprega a hipnose como sugestão de entrada no inconsciente, pedindo para o doente que o ajudasse na identificação do que o traumatiza. Em 1892, com o avanço dos estudos sobre hipnose, em uma significativa influência de Breuer, Sigmund publica um de seus primeiros artigos sobre essa técnica hipnótica. Um dos casos bem-sucedido mais famoso de histeria foi o de uma das pacientes de Breuer, Anna O., que fica curada depois de dois anos de tratamento, servindo de inspiração para que Freud investigue com mais profundidade sobre esses estudos.

    História de Freud e a sugestão hipnótica

    Ao encontrar com Charcot, em um curso ministrado por ele em Paris, Freud lhe conta a novidade do sucesso de um dos casos de histeria do professor Breuer, mas Charcot não demonstra interesse nesse acontecimento e, ao voltar para Viena, Sigmund abre um consultório e se dedica aos atendimentos, assim, resolve aplicar a técnica de hipnose de Breuer em uma de suas pacientes. Para Freud essa técnica proporciona ao paciente uma descarga afetiva que estava originalmente ligada às experiências traumáticas, manifestadas e liberadas através da sugestão hipnótica, onde a paciente pode encontrar o caminho do seu próprio trauma, a essa descarga dava-se o nome de ab-reação.

    Com o passar do tempo e dando prosseguimento aos seus atendimentos, Freud foi percebendo que nas falas dos seus pacientes, em suas narrativas sobre a sua vida pessoal, havia um desconforto quando os pacientes narravam algo íntimo ou quando era algo que se aproximava da sexualidade, fazendo com que seus pacientes em hipnose, tivessem um certo impedimento de continuar as suas narrativas, então, Freud identifica uma defesa comum a todos, a defesa psíquica. Tais fatos fizeram com que Freud abandonasse a hipnose e voltasse seus estudos e atendimentos sobre as defesas psíquicas.

    Sigmund sugere aos seus pacientes que em suas narrativas tentassem acessar os fatos traumáticos, mas esses fatos quando levados para o nível do consciente, causavam vergonha e dor emocional, sendo um bloqueio em suas narrativas, para Freud isso seria uma manifestação das defesas psíquicas, pois o consciente não estava preparado para lidar com determinados traumas, sintomatizando-os deixando-os fora de acesso, sendo um mecanismo de defesa do Ego, que Freud vem a chamar de conversão, uma defesa pontual na histeria.

    A descarga emocional do afeto

    Referindo-se ao início da descoberta de Freud que fala sobre a defesa como um dos pilares da teoria psicanalítica, Luiz Alfredo Garcia-Roza escreve: “Freud só teve pleno acesso ao fenômeno da defesa quando abandonou a hipnose (…). Assim, o procedimento hipnótico era, sem que ele soubesse, o obstáculo maior ao fenômeno que seria transformado num dos pilares da teoria psicanalítica: a defesa.” (GARCIA-ROZA, 1988, p. 37).

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    Freud descobre a necessidade de modificar a sua forma de intervenção junto aos seus pacientes, pois percebe a recorrência de tais mecanismos nas falas de seus pacientes, como as defesas, as resistências e as conversões, tendo como ponto inicial para essa modificação interventiva, o momento da descarga emocional do afeto, buscando meios para que as pessoas pudessem trazer para o real, o consciente de forma mais elaborada, fornecendo para Freud condições para o aprimoramento em seus estudos de intervenção psicanalítica, dando início ao método psicanalítico.

    O aparelho psíquico e o modelo topográfico de Freud

    Para falarmos do modelo topográfico de Freud, precisamos entender o que seria o aparelho psíquico para este autor, pois foi por meio desses estudos que ele escreveu um dos livros mais famosos, A interpretação dos sonhos, de 1900. Para Sigmund, o aparelho psíquico precisava de tempo para se desenvolver e atingir um nível de amadurecimento. Sendo assim, quando nasce um bebê, este encontra-se em um estado de desamparo e tem uma concentração de esforços para lidar com os estímulos externos, o que para Freud seria a forma mais primitiva do aparelho psíquico.

    Para a evolução do psiquismo, no recém-nascido, a contribuição externa da mãe, ou de um cuidador, é imprescindível para que ele atinja a experiência de satisfação, essa experiência irá desembocar no que depois será o desejo para esse sujeito. Para Freud, as ideias que antes estavam no inconsciente se encontravam em um estado de repressão, sendo mantidas por uma força chamada resistência. Durante o trabalho de análise, Freud percebe que o inconsciente pode estar dividido em dois tipos, o latente, que segundo ele é apenas descritivo, e o reprimido, que é dinamicamente inconsciente.

    Freud, então, divide a primeira tópica em: inconsciente (Ics), pré-consciente (Pcs) e consciente (Cs), estes são estruturas próprias, com características particulares que formam o psiquismo. No inconsciente, estão as energias pulsionais que precisam se conectar a um afeto ou ideia para manifestarem-se no mundo exterior, Freud chamou isso de descarga libidinal. Podemos dizer que o inconsciente é constituído de lembranças primitivas e traços do mundo externo, nele são inscritas sensações e experiências da nossa infância, além de outras coisas.

    A história de Freud e as energias livres

    Além disso, as chamadas energias livres fazem parte do processo primário em que a energia irá transitar livremente o diferenciando do processo secundário, no qual o sujeito para de fantasiar para agir no mundo externo, portanto, há uma comunicação com sistema que constitui a próxima instância psíquica, o pré-consciente e com o consciente. Ademais, o recalque, servirá de selecionador ou filtro, entre o consciente e o inconsciente, fazendo com que haja uma seleção do que poderá aparecer no consciente de forma estruturada como a linguagem.

    O modelo topográfico não foi descartado por Freud, pois ele o utilizou para ampliar seus estudos relacionados às instâncias psíquicas, propondo um modelo estrutural dividido em Eu, Isso e Supereu. O Isso (id) é uma instância psíquica que está ligada ao inconsciente, no qual os impulsos são caóticos e regidos pelo princípio do prazer, não há racionalidade, moralidade ou sociabilidade. Um exemplo são os recém-nascidos que são constituídos principalmente pelo Isso, nessa fase da vida humana o Eu ainda não está completamente constituído.

    Freud fazia uma comparação e uma relação do Isso com o Eu, quando falava: É fácil ver que o ego é aquela parte do id que foi modificada pela influência direta do mundo externo, por intermédio do Pcpt.-Cs; em certo sentido, é uma extensão de superfície. Além disso, o ego procura aplicar a influência do mundo externo ao id e às tendências deste, e esforça-se por substituir o princípio de prazer, que reina irrestritamente no id, pelo princípio da realidade. Para o ego, a percepção desempenha o papel que no id cabe ao instinto.

    O aparelho psíquico

    O ego representa o que podemos chamar de razão e senso comum, em contraste com o id, que contém as paixões (…). (1923, p.37). O Eu está relacionado às percepções internas e externas, funcionando como um mediador. As percepções internas produzem sensações que surgem nos mais profundos processos do aparelho psíquico, como o sentimento de prazer e de desprazer. As percepções externas advêm dos sentimentos e experiências da infância, como a memória, a percepção, o pensamento, a linguagem, e outros.

    São partes do consciente que buscam adaptarem-se ao mundo externo, essas percepções servem para estruturar a identidade do sujeito. Ele media e limita as exigências e impulsos primitivos do Isso e limita também as demandas e exigências externas do supereu. O supereu se desenvolve na infância, absorvendo as experiências e influências externas da cultura e da sociedade, começando com o meio familiar de cada indivíduo.

    Tais influências contribuem para que osupereu se desenvolva, fazendo-o funcionar como um regulador da moral, influenciando o Eu e em batalha com o Id. Ele é o resultado de dois fatores: o biológico e o histórico, repressor de qualquer ato que possa afetar o aparelho psíquico, busca controlar o Id e se sobrepor ao Eu, este não atende às exigências do Isso que por sua vez é puro prazer. O Supereu também é uma instância que permite o cuidado, que promove o amparo e a proteção, não é só uma instância interditora, embora a sua representação moral do caráter, seja mais resistente e poderosa às sanções nos desvios morais.

    Da hipnose até o entendimento de Freud sobre a técnica da associação livre

    Para falarmos do método da associação livre, precisamos falar um pouco sobre as técnicas usadas anteriormente que contribuíram para o surgimento desta. Foi por volta do século XVIII que surgiu a hipnose, técnica usada pelos médicos nos atendimentos das mulheres com problemas psíquicos (as histéricas). Nesse sentido, a hipnose consistia em uma ordem dada ao paciente, na qual se exigia um foco nos comandos dados pelo médico e com baixa exigência da consciência periférica.

    Essa técnica, foi bastante estudada e explorada pelo médico James Braid, naquela época este utilizava a hipnose em suas pacientes no tratamento e na eliminação de sintomas, deixando-as expostas a qualquer tipo de influência comportamental, quando estavam em estado normal. Além disso, a histeria – por muito tempo não foi bem-vinda no meio médico – surge nesse mesmo século e pela dificuldade de se explicar o quadro da paciente, também era vista como um acometimento unicamente feminino. Em Paris, o neurologista Charcot, queria provar que a histeria era do campo da fisiologia e não do psiquismo.

    No século XIX, Charcot consegue classificar a histeria como uma doença de perturbações fisiológicas do sistema nervoso, tendo como principal intervenção clínica a hipnose. Em 1885, Freud conhece Charcot em Paris, onde assistindo às suas aulas se transforma em um entusiasta do modelo de intervenção das pessoas histéricas, chamada pelo próprio Freud de doença do sofrimento mental, e que não somente acometeria as mulheres, mas também os homens.

    Breuer

    Em Viena, na mesma universidade em que Freud estudava, um médico chamado Breuer teve a primeira experiência com uma de suas pacientes que sofria de histeria, esse caso conhecido como Ana O., com o qual o próprio Freud teve a oportunidade de acompanhar. Com este caso, Freud percebeu que, ao acordar do estado hipnótico, não havia trabalho que pudesse dar continuidade já que com o paciente acordado, este não se lembraria de nada e com os afetos reprimidos pelo paciente não se conseguiria eliminar os sintomas. Sobre o uso da técnica hipnótica e o investimento analitico, Freud diz: Precisamos continuar gratos à antiga técnica hipnótica, pois ela nos apresentou alguns processos psíquicos específicos da análise de forma isolada e esquemática.

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    Só assim conseguimos ter coragem de criar nós mesmos situações complicadas no tratamento analítico e mantê-las transparentes. (1914, p. 152) Com isso, Freud abandonou a intervenção mecânica, conhecida como hipnose, pois acreditava que a hipnose por si só, não abria uma narrativa para o próprio sujeito. Dessa forma, Freud inicia o seu trabalho de intervenção utilizando o método catártico, no qual o paciente pudesse reconstruir a cena do trauma, rememorando o evento traumático.

    Assim, isso possibilitaria a descarga desse afeto e a eliminação do sintoma, a esse evento de descarga emocional no qual o paciente se libertava do afeto através de suas lembranças traumáticas, deu-se o nome de ab-reação. Desse modo, Freud deu continuidade aos estudos sobre as técnicas e métodos de intervenções para curar as doenças dos seus pacientes. Ele lembrou de um experimento que presenciou em Nancy, quando o médico Bernheim mostrou que algumas pessoas em estado hipnótico poderiam vivenciar experiências diversas, perdendo apenas a memória das coisas vividas durante o estado hipnótico, sendo possível lhes despertar daquelas lembranças também no estado normal.

    A hipnose e a história de Freud

    Essas pessoas quando despertavam da hipnose, eram questionadas sobre suas lembranças e elas afirmavam não lembrar de nada, mas quando o médico lhes assegurava que elas lembravam e insistia em suas lembranças, elas conseguiam. Essas lembranças reforçaram algo que Freud já tinha em mente, sobre a hipnose e a catarse. Sem descartar a sua experiência com a catarse, Freud fala aos seus pacientes que ao pressionar-lhes com a mão à testa deles, se lembrariam de algo que os ajudaria na conexão com o trauma.

    Para Freud essa técnica não seria algo definitivo, embora o tivesse ajudado a confirmar que as lembranças esquecidas de seus pacientes não estavam perdidas, mas permaneciam recalcadas no inconsciente por uma força consciente. Na história de Freud, ele amadurece a ideia de escuta dos seus pacientes e abandona a técnica da pressão na testa, iniciando uma nova técnica, na qual encorajava os seus pacientes a dizer tudo que viesse à mente. Em relação ao cuidado no atendimento analítico e à resistência do paciente, Freud fala que: Precisamos dar tempo ao paciente, para que ele se aprofunde na sua resistência que até então lhe era desconhecida, para perlaborá-la, superá-la, na medida em que ele, a ela resistindo, continua o trabalho de acordo com a regra analítica fundamental (…).

    Essa perlaboração das resistências na prática pode se tornar difícil para o analisando e uma prova de paciência para o médico (…) (1914, p. 161) Mais tarde esse método viria a se chamar de associação livre, este depende da fala do paciente, do que ele traz como contexto de suas vivências, da sua infância, cultura, referências externas e internas oriundas do seio familiar e de seus traumas. Para Freud, nesse método de observação da narrativa de seus pacientes, não poderia haver questões morais envolvidas em suas falas, isto é, poder falar sem medo do julgamento por parte do analista.

    Conclusão: história de Freud e da Psicanálise

    Na história de Freud, a arte de interpretar, segundo o Método psicanalítico freudiano (1904[1905]), se deu através de estudos oriundos do processo catártico, com a contribuição dos estudos de Breuer sobre a histeria em 1895. Freud iniciou seus atendimentos com pacientes histéricos, usando o método catártico, que tinha como objetivo o afastamento dos sintomas, fazendo com que o paciente falasse (em estado hipnótico), até alcançar psiquicamente o ponto em que se deu o sintoma. Conforme as lembranças iam chegando ao consciente, o mesmo comunicava ao médico os seus traumas através de uma narrativa que era obtida em estado hipnótico.

    Freud observou detalhes em seus atendimentos que foram importantes para a psicanálise. Conforme o paciente narrava as suas lembranças, Freud foi percebendo que os sintomas enfraqueciam, mostrando-se aparentemente superados por seus pacientes conforme voltavam ao seu consultório. Mas o médico também percebeu que esse método não favorecia a todos os neuróticos, pois em alguns a hipnose não emplacou. Como também é sabido, Freud tinha algumas restrições quanto à própria hipnose, fazendo com que mais tarde ele a abandonasse.

    Na tentativa de entender o processo psíquico, mas dessa vez, sem a hipnose, Freud iniciou seus atendimentos pedindo para que seus pacientes lhes contassem tudo que viesse à mente, o que eles tivessem vontade de falar. Foi observando as narrativas de seus pacientes, que ele percebeu que alguns contavam histórias não muito recentes, outras contavam histórias recentes, ou fatos e, uma boa parte lhes contava de suas lembranças de infância.

    O material psíquico

    O mais importante na história de Freud, de todas essas observações era o que tinham em comum quanto ao material psíquico que aparecia nessas narrativas, onde Freud pôde observar que existia uma amnésia entre as narrativas, um esquecimento e, quando essa lacuna conseguia ser preenchida com o motivo real, a análise seguia de forma melhor até na cura. Mas ele também observou que enquanto essa lacuna não era preenchida, havia um certo desconforto quando acontecia de seus analisandos iniciarem suas falas a respeito de tais esquecimentos, fazendo com que Freud percebesse que havia uma força psíquica que fazia com que o recalque aparecesse, causando uma resistência.

    Essa resistência foi usada por Freud como um dos fundamentos da sua teoria, fazendo com que ele ajudasse os seus analisandos com tais lembranças, devolvendo para eles, indagações, usando as suas próprias palavras. Quando o paciente nos comunica que jamais havia pensado em tal coisa, podemos ter com isso, uma versão dessa manifestação, como se ele quisesse nos comunicar que “sim”, acertamos o inconsciente. Isso acontece depois que o psicanalista inicia seu trabalho a partir da comunicação da construção.

    E após as sessões seguintes que, através da associação livre, combinada ao conteúdo das construções, saberemos de qual forma o analisando reagirá, se negativamente ou se positivamente. Essas reações, só serão compreendidas com o curso do tratamento, em que o psicanalista saberá fazer as devidas correções às suas interpretações. Existe uma parte nessa construção que é feita pelo analista e comunicada ao paciente, que sob efeito dessa comunicação, irá construir uma nova parte e, sobre posse desse novo material, com alternância ou não, irá dar continuidade ao trabalho.

    O bom uso da técnica da associação livre

    Para o bom uso da técnica da associação livre, o terapeuta precisa treinar a sua escuta, o que para a psicanálise é conhecida como atenção flutuante, essa escuta em análise funciona como um tradutor, um decifrador, no qual o analista devolve para o analisando as suas próprias palavras, produzindo um efeito com menos resistência.

    Essa técnica tem como objetivo promover ao paciente, o conhecimento a respeito das emoções recalcadas existentes e inconscientes, assim como um conhecimento mais íntimo da sua pessoa acerca dos seus sintomas e recalques.

    Referências bibliográficas

    FREUD, S. Livro 14 O ego e o Id. Rio de Janeiro: Imago, 1969. FREUD, S. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. FREUD, S. (1914). Lembrar, repetir e perlaborar. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte, Autêntica, 2020. FREUD, S. (1909-1910). Cinco lições da psicanálise. Obras completas volume 9. São Paulo, Companhia das Letras, 2013. GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

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