imaturidade masculina

A infantilização e imaturidade masculina

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Segundo escreveu o psicanalista e consultor de relacionamentos, Alessandro Poveda, em seu blog Sac, o Centro Crown Clinic da cidade de Manchester realizou um estudo sobre a maturidade masculina e chegou a um resultado surpreendente, a constatação de que os homens só amadurecem próximo ou depois dos 54 anos. Quer saber mais sobre a questão da imaturidade masculina? Então continue a leitura!

O que explica a imaturidade masculina?

 Há muitas coisas que fazem com que os homens demorem tanto a amadurecer. As razões atribuídas a esse fato passam por diversos fatores, como a pressão financeira que advém da insegurança e da instabilidade que se vive até que se construa uma vida econômica estável e segura. 

Além disso, há a paternidade tardia, o que em média retardou a geração de filhos para meados dos 30 anos, isentando-o da responsabilidade de transferência de valores para alguém de seus cuidados. Ademais, há a “síndrome do Peter Pan”, que é a tendência de homens de 40 e 50 anos que valorizam  a cultura jovem. 

Alguns deles vão além, ouvem músicas e usam roupas de uma outra geração. Além disso, traumas de infância, baixa autoestima e problemas emocionais também podem culminar na imaturidade masculina.

Um outro fenômeno decorrente dessa maturidade tardia foi discutido no artigo publicado pelo Instituto Metodista de Ensino Superior, cujo tema é “O jovem adulto que reside com os pais: um estudo exploratório”. Muitos filhos com idade adulta, mesmo possuindo renda mensal que os permitem viver de forma independente, preferem residir com a família de origem. E e as razões para essa escolha perpassam por elementos psicológicos.

Por que os homens não saem de casa?

A saída da casa dos pais para uma nova residência representa, para a vida de um jovem, uma passagem simbólica cheia de significados psicológicos. Por isso, o rompimento dessa barreira e a cisão desse laço gera novas responsabilidades com profundas implicações no campo da maturidade.

 Segundo Camarano (2006), a fase adulta inicia-se aproximadamente aos 24 anos de idade e caracteriza-se por um ganho de maior independência e responsabilidade. Levandowski, Piccinini e Lopes (2009) consideram que, nessa fase, é necessária uma ruptura com os pais. Para que, assim, se consolide uma verdadeira autonomia e para que ocorra a terceira individuação do desenvolvimento psicológico. 

Entretanto, contrariando os aspectos positivos da autonomia e dos benefícios da responsabilidade na ruptura do cordão umbilical dos filhos com a saída do lar, a tendência de certo retardamento ganha cada vez mais espaço na sociedade contemporânea.

Os resultados dessa pesquisa compreendem três categorias de aspectos psicológicos comuns. Sendo a  dependência e imaturidade, passividade e insegurança e conflitos relacionados aocomplexo de édipo.

Assim, a permanência na casa dos pais pode ser explicada por vários motivos razoáveis, como dificuldade econômica, convivências práticas, comodidade etc.. Entretanto, essas justificativas encobrem aspectos psicológicos inconscientes.

Por exemplo, a dependência da figura dos pais. Talvez uma dependência de gratificações orais infantis proporcionadas pela figura materna. Muitas vezes, esse filho cria objeções, temendo que a namorada não se revele uma boa mãe cuidadora como sua própria mãe.

 Isso é típico de homens que buscaram a proteção dos pais na prolongação da adolescência, gerando a dependência das figuras parentais. Além disso, outros fatores também são levados em consideração, como o medo da solidão e o medo dos desafios inerentes ao mundo adulto. Assim, todos esses fatores contribuem para o aumento da imaturidade masculina.

Consequências da imaturidade masculina

Ainda que exista uma certa conscientização quanto a responsabilidade de dar o próximo passo em direção a vida autônoma e adulta, é percebido nos casos abordado pela pesquisa uma passividade peculiar dos indivíduos. Ou seja, tem o direito de lutar pela sua emancipação, porém, é visto claramente uma abnegação em detrimento a laços fortemente psicológicos e afetivos de dependência.

Ademais, laços estes que escondem insegurança, necessidade de auto afirmação, narcisismo entre outros. E, por falar em narcisismo, essa é uma característica predominante nesses casos, haja visto o medo de não encontrar no mundo externo à família a valorização e o investimento que os pais realizam.

Por isso, sujeitam-se ao prolongamento da adolescência, gerando consequências psicológicas a longo prazo. A adolescência prolongada evita a crise de uma percepção esmagadora de que o mundo fora da família não reconhece o papel imaginário que a criança desempenhou por quase duas décadas de sua vida. (Blos, 1996, p. 32).

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Conclusão

Como mencionado acima, a entrada na vida adulta representa uma cisão natural e necessária junto à finalização da adolescência. Ao que Freud chama de vínculo incestuoso com os pais, fazendo necessário a busca pela substituição desses vínculos.

Assim, é nesse momento que se resolva o complexo de édipo, responsável pela transição de etapas e mundos. Porém, nem sempre essa cisão é feita no tempo esperado, e seu prolongamento também traz sérias consequências para vida adulta. Na exposição feita pela pesquisa usada nesse texto, os indivíduos estudados também apresentam características de dependência e infantilidade derivado do mal processamento do complexo de édipo.

Ademais, uma forte ligação com a mãe e uma falta acentuada do pai também pode acarretar numa incompleta superação do conflito edipiano. Em um dos casos, o filho assume o lugar de homem da família, dividindo com a mãe a responsabilidade do lar e aumentando seu estreitamento e laço de dependência. Por isso, a distância da figura paterna pode ocasionar um bloqueio no processo de amadurecimento e crescimento do filho, elevando ainda mais o vínculo simbiótico com a mãe.

Por fim, todos esses aspectos apresentados até aqui revelam algumas razões que podem explicar a imaturidade masculina. Mas não busca reduzir a discussão em torno do aumento da infantilização masculina e do retardamento da maturação do mesmo. 

Isso, lembrando que outros fatores, como o advento da globalização e seus derivados, também provocaram diversas sequelas na vida do homem do século XXI, principalmente sobre aspectos psicológicos. Ademais, a liquidez da contemporaneidade submeteu as relações sociais, afetivas e profissionais  a um patamar de inseguridade e desconfiança sem precedentes.

Gostou do artigo? Então continue acompanhando nosso blog para desenvolver seu conhecimento acerca de assuntos pertinentes à vida cotidiana e em sociedade!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Blos, P. (1996). A adolescência masculina prolongada: formulação de uma síndrome e suas implicações terapêuticas. In: Blos, P. Transição adolescente: questões desenvolvimentais (pp. 28-38). Porto Alegre: Artes Médicas.

Camarano, A. A. (Org.). (2006). Transição para vida adulta ou vida adulta em transição? Rio de Janeiro: Ipea.

Levandowski, D. C., Piccinini, C. A., & Lopes, R. C. S. (2009). O processo de separação-individuação em adolescentes do sexo masculino na transição para a paternidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, 22(3), 353-361.

Este texto foi desenvolvido por Victor Barbosa Borjas, especialmente para o nosso Blog.

 

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