juramento do psicanalista

Juramento do Psicanalista: existe para o formando no Brasil?

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Este é um dos temas recorrente, emergente e bem atual também no imaginário do campo do saber e na esfera de atuação da Psicanálise, pois pessoas indagam frequentemente qual é o juramento do psicanalista ou ‘juramento oficial’ do formando e futuro operador da Psicanálise.

Entendendo sobre o juramento do psicanalista

Muitos já ouviram falar de que, em teoria, existe um ‘juramento’ em que pese, na prática, muitos ofícios e profissões ainda carecem de um juramento, de consenso. No percurso da formação específica da Psicanálise muitos interessados querem saber se tem ou não tem um juramento do psicanalista, pois sabem que quase todas as artes, técnicas, ciências e ofícios o que envolve bacharelados, licenciados, técnicos e tecnólogos de uma forma geral, possuem um juramento, curto ou longo mas possuem.

E tem sido lugar-comum em eventos dos atos de conclusões de cursos, realizarem na colação de grau, diplomação, certificação ou declaração ou atestado de conclusão o ato de estenderem o braço e realizarem o juramento verbal. A pergunta que todos fazem: Afinal, a Psicanalise tem seu juramento específico no Brasil?! Essa pergunta é importante e nos remete a um velho entendimento não partilhado de forma unânime, de que geralmente os órgão de classe são os que possuem um juramento de tradição desde suas constituições e fundações.

Isso não implica que um centro de formação tenha além de seu slogan, o seu juramento próprio se desejar e não existe impedimento algum de praticar o juramento em ato de formação. Alguns referem que fizeram, por exemplo, que até poderiam usar emprestado numa interface o juramento dos ‘psicólogos’.

O pequeno juramento do psicanalista

Seria importar o juramento, porém, não é o juramento dos psicanalistas. É um juramento pequeno, fácil de ser decorado, conforme vamos transcrever. Juramento dos Psicólogos, aspas: “Como psicólogo, eu me comprometo a colocar minha profissão a serviço da sociedade brasileira, pautando meu trabalho nos princípios da qualidade técnica e do rigor ético”. Esse é o juramento da classe dos psicólogos.

Alguns colocam em eventos no lugar de ‘psicólogo’ o termo ‘psicanalista’ mas não seria de bom alvitre. Entretanto, não é o juramento dos psicanalistas. Com relação aos psiquiatras que são especialistas dentro da Medicina eles realizam o juramento dos médicos que é o juramento de Hipócrates (460AC-377AC) em ato solene e tradicional efetuados por médicos quando do término de sua formação acadêmica.

Acredita-se que o juramento tenha sido escrito por Hipócrates, considerado como o pai da medicina ocidental, por um de seus alunos. Sobre Hipócrates os relatos dão conta de que ele era considerado uma figura de proa à época e muito importante na história da medicina. Ele teria nascido em Cós, na Grécia por volta de 460AC, e falecido em Larissa, idem Grécia, em 377 AC com 83 anos.

O longo juramento dos médicos

O juramento é o seguinte, vamos transcrever. Juramento dos Médicos, aspas: “Eu juro, por Apolo médico, por Esculápio, Vigia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e sem contrato escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza à perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça.”

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Voltamos a questão do juramento

Vejam que se constitui num juramento longo e realmente bem diferente. Mas, afinal voltamos a questão do juramento dos psicanalistas: Existe um juramento específico e peculiar dos psicanalista no Brasil ?! Sim, existe.

É um juramento sem consenso, longo, e que foi concebido por uma psicanalista e a ONP, (Ordem Nacional dos Psicanalistas) no Brasil, fundada em 2009, tem no seu sítio eletrônico.

Texto de autoria da psicanalista Lazir de Carvalho Santos. Consta que ela é uma psicanalista, de Paranaguá (PR), formada em engenharia civil e que fez um curso de especialização para atuar como psicanalista e terapeuta. O juramento é longo mas muito bem estruturado. A seguir vamos transcrever.

 O juramento dos Psicanalistas

Aspas: “Juramos perante todos os poderes do homem e, acima de tudo, perante nossas próprias consciências, fazer dos ensinamentos básicos da Psicanálise, uma chama sempre viva que iluminará perenemente, os inescrutáveis caminhos que devemos percorrer em busca da verdade, do direito e da fé para com nossos semelhantes. Jamais permitiremos que os poderes que nos foram conferidos, através do conhecimento do psiquismo humano, sirvam para criar privilégios ou manter o poder de uma minoria, em detrimento da coletividade; e, mesmo assim, faremos o possível para que esta, em seu poder avassalador, não transforme os seres humanos em, apenas, mais uma unidade de sua força.

Tudo faremos para que o Homem apareça sob sua verdadeira imagem, protegido pelo inalienável direito de Liberdade. Fraternidade e Amor ao próximo, sentimentos que transformam os seres humanos em constelações de um todo e único Universo. Nunca nos deixaremos intimidar pela aparente fraqueza da espécie humana e, diante disto, jamais empregaremos o ódio, a vingança, ou a acusação, para aplacarmos através deles, o nosso próprio medo, covardia ou a vergonha. Usaremos sempre da maior cautela possível ao analisarmos nossos semelhantes e, antes de estruturarmos a nossa concepção, prometemos viver os dramas que descobrimos, para assim, conscientemente, acharmos os necessários mecanismos que lhes sirvam de defesa para o completo restabelecimento de seu equilíbrio Psico-somático.

Mesmo nas horas mais difíceis juramos não transformar estes conhecimentos em situação mercantilizadora. Muito ao contrário, faremos de nossas naturais fraquezas, novas forças para continuarmos o nosso trabalho de pesquisa do psiquismo humano. Todas as descobertas úteis deverão se transformar em direito comum, com o qual procuraremos moldar a Humanidade, não ao sabor de nossas exigências, mas sim na imperiosa norma de suas naturais necessidades.

Criaremos em conjunto, ao lado do respeito para com os complicados mistérios da “psique humana”, sentimentos de desprendimento, igualdade e compreensão. Somente assim, despidos de quaisquer melindres condicionadores, caminharemos para nossos verdadeiros destinos, através da História, criando — sempre — condições para que o sentimento da caridade possa imperar. Sempre nos conduziremos através dos diálogos e das pesquisas. Nunca nos contentaremos com uma só verdade. E, ao lado das relações humanas que, acima de tudo, criaremos em nosso meio ambiente, chegaremos à análise científica de todos os traumas que assolam a humanidade, para assim, dentro do vasto campo da Psicanálise, que adotamos por doutrina, tentarmos encontrar as verdadeiras soluções, onde quer que estejam.

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    De posse delas, sem os limites impostos pelos costumes, pelos partidarismos político-religiosos ou pela moral radicalizadora, prometemos, cause o impacto que causar, usá-las em benefício da espécie humana, numa missão que sabemos árdua, mas que por isto mesmo, juramos hoje, transformá-la em nosso único e idealístico sacerdócio”.

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    Considerações finais

    Também é um juramento longo e, em termos de Brasil, é o que possuímos por hora. Mas, lembrando de que não é de consenso e esse juramento esta vinculado a ONP, Ordem Nacional dos Psicanalistas. Como já foi referido nada implica que uma organização desvinculada de proposta de órgão de classe tenha o seu juramento específico.

    Por fim, resta também salientar que muitos operadores da Psicanálise não são ligados em juramentos; o que vale, em tese, estaria em torno da escala de valores, ética, capacitação e resolução das demandas com seriedade e buscas de bons resultados. O juramento para muitos em teoria e a priori, serve para ser balizamento.

    A tradição do juramento constitui para muitos delimitar o papel do psicanalista e que tenha uma entrada formal na profissão, como um laço com a história para melhorar a confiança da sociedade assim como ter também um símbolo. Por isso que cada arte, ofício, profissão, técnica que se organizou em escolas para reproduzir seus quadros resolveram ter um juramento e um símbolo que os represente e seja um marco semiótico perante o imaginário social social.

    O presente artigo foi escrito por Edson Fernando Lima de Oliveira. Graduado com licenciatura em História e Filosofia. PG em Psicanálise. Realizando PG em Farmácia Clínica e Prescrição Farmacológica; acadêmico e pesquisador de Psicanálise Clinica e Filosofia Clinica. Contato via e-mail: [email protected]

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