lobo ou ovelha

Lobo ou ovelha? As Parafilias vistas pela Psicanálise

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Neste artigo falaremos sobre lobo ou ovelha, levando em consideração que no ano de 2011, muitas pessoas se encantaram pelo mundo do sadomasoquismo apresentado sob a veste de uma capa romântica através do enredo erótico do bestseller “50 tons de cinza”, da autora inglesa Erika Leonard James.

Mas o que a Psicanálise tem a dizer, enquanto estudo da mente e das questões ligadas aos impulsos sexuais, sobre essas e outras práticas que fogem do comum? Como elas surgem? E até que ponto elas podem ser consideradas trocas de intimidades saudáveis?

Lobo ou ovelha: Personalidade neurótica versus personalidade perversa

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, possuir um instinto ou um impulso sexual que foge ao comum, a exemplo das famosas “fantasias sexuais”, não representa propriamente uma parafilia. O estabelecimento do “diagnóstico”, por assim dizer, do Transtorno parafílico envolve muitos outros fatores de ordem mental, social e cultural da vida e, como não poderia deixar de ser, da personalidade de um indivíduo.

Um paciente com personalidade neurótica, por exemplo, tem menos chance de dar vazão a desejos ou ceder a impulsos sexuais de ordem parafílica do que um indivíduo com personalidade de base caracterizadamente perversa. Isso ocorre porque, nos neuróticos, prevalece o conflito entre o ID e o Superego do sujeito, acarretando uma angústia constante, o que impossibilita o estabelecimento da prática do prazer parafílico.

Por outro lado, na personalidade de base perversa, a ausência de um grau necessário de empatia e as possibilidades de estabelecimento do prazer em situações que fogem totalmente da normocromia criam um terreno fértil para a concretização daquilo que virá a ser classificado como parafilia.

A diferença entre o impulso e a prática, lobo ou ovelha

É nesse contexto que se dá a diferença entre o impulso, em outras palavras, o desejo de dar vazão a determinado ato sexual que se afasta consideravelmente do padrão social e a prática desse ato propriamente dito. Para o indivíduo que possui uma parafilia o ato sexual é a realização do impulso, a prática da parafilia e não o ato sexual normocrômico, como se costuma denominar; o prazer só se estabelece através da prática do ato transgressor, a exemplo do exibicionismo, do frotteurismo, do sadomasoquismo, da pedofilia etc.

O prazer, nesses casos, está intrinsecamente associado ao ato em si e não possui relações com o órgão sexual propriamente dito.; Esse tipo de comportamento vai além da noção típica de sexualidade; pode estar relacionado a crime hediondo; geralmente os indivíduos chegam à análise por imposição de sanções judiciais, nesses casos, existe a avaliação do profissional da área, psiquiatra, psicólogo, psicanalista, e o sofrimento em decorrência da suposta parafilia deve estar ocorrendo há pelo menos seis meses.

A origem e a compreensão por parte do indivíduo portador do transtorno e a ideia e lobo ou ovelha

Pesquisas na área sugerem que, em todos os casos, a parafilia estará associada a uma ruptura precoce (mal realizada) de processos de socialização e desenvolvimento da afetividade, em algum momento da formação ou do desenvolvimento da personalidade do indivíduo. Ou seja, sempre estará implicada por aspectos vivenciados durante a infância desse indivíduo.

Vale salientar que o impulso de ordem parafílica, por si só, tais como o desejo sexual específico, a compulsão masturbatória ou pornográfica, desde que de origem consensual não caracterizará propriamente o transtorno de parafilia. Para que isso ocorra, é necessário que diversos fatores atuem concretamente, prejudicando um outro indivíduo e evidenciando uma espécie de hipersexualidade relacionada aos sintomas parafílicos específicos em cada caso, com ênfase na busca do prazer imediato a despeito dos riscos.

Além da composição dos riscos iminentes aos quais o indivíduo portador de um transtorno parafílico é levado, observa-se uma espécie de sofrimento oriundo das compulsões envolvidas durante o processo de agravamento desses quadros.

O tratamento sob o ponto de vista da Psicanálise

Pesquisas recentes na área da Neuropsicanálise revelaram que o tratamento medicamentoso é essencial nesses casos, uma vez que o funcionamento da regulação bioquímica no cérebro dos portadores do transtorno ocorre de forma distinta do funcionamento da mente de um sujeito não portador do transtorno. Entretanto, não é possível negar ou diminuir a importância da análise nesse contexto, pois a Psicanálise ocupa um papel crucial no processo diminuição e contenção desses impulsos e/ou práticas.

Isso se dá porque sem a ampliação do repertório socioemocional do indivíduo parafílico, as medicações, por elas mesmas, pouco poderão auxiliar no combate aos impulsos de ordem inconsciente, dificultando e, por vezes, inviabilizando o tratamento dos transtornos, especialmente pelo fato de estarem diretamente associados às formas mais familiares de prazer conhecidas por esses indivíduos.

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Dessa forma, é necessário que políticas públicas sejam criadas e outras, por ventura já existentes, sejam ampliadas no sentido de possibilitar o reconhecimento de indivíduos predispostos ao desenvolvimento dos transtornos parafílicos, oferecendo-lhes acesso à terapia psicanalítica e medicamentosa, a fim de que se perceba que, antes de chegarem ao tribunal para serem condenados como lobos, esses indivíduos, um dia, também tiveram seus processos de desenvolvimento de personalidade afetados por diversos outros fatores e que, por isso mesmo, precisam de ajuda.

O presente artigo foi escrito por Samantha. Psicanalista em formação. Mestranda em Formação de professores e Especialista em Educação interdisciplinar. Contatos: [email protected] / @sbs.santos

6 thoughts on “Lobo ou ovelha? As Parafilias vistas pela Psicanálise

  1. Na busca de nova alternativa profissional, para ocupação pessoal, após a aposentadoria que se aproxima, me vejo cada vez mais no campo do auto conhecimento.

    1. Sylvio, Auto Conhecimento é importantíssimo e além de melhorar a própria vivência, muitas vezes, nos ajuda a antever sofrimentos! Quem nunca ouviu a frase, quando esteve em sofrimento: “Não culpe as pessoas pela vida que leva”! Se auto conhecer, em meio a caminhadas, com a mente “zen”, nos conecta ao Universo que nos emana respostas incríveis! Sucesso em sua busca pessoal e parabéns pela aposentadoria!

  2. Quero muito fazer o curso. Amo a psicanálise mas não possuo cartão de crédito no momento, como faço ?? Quero pagar em 12 parcelas.
    Obrigado.

    1. Maria: “sonhos não envelhecem”! Outrora perguntaram a uma senhora, formanda por volta dos 80 anos, o porque da graduação. No maior sorriso respondeu ao reporter: ” Se não der de exercer a profissão, nessa vida, já estou pronta para a outra vida!” (Tese da Reencarnação).

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