luto não reconhecido

O que é luto não reconhecido

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Neste trabalho desenvolveremos o conceito de luto não reconhecido e, mais especificamente, de luto. Como a escuta de um profissional pode ajudar a superar a dor e angústia relacionadas às perdas humanas?

Esta abordagem é de extrema relevância porque estamos vivendo tempos de dificuldade de desenvolver a empatia com os demais e a sociedade como um todo enfrenta, sozinha, a dificuldade de passar pelo processo de acolher e elaborar as dores geradas pelo luto.

Entendendo sobre o luto não reconhecido

Na primeira parte do trabalho, será abordada a temática da morte, suas implicações, desenrolar histórico e o papel que ocupa nas vidas das pessoas até a atualidade. Na segunda parte, focaremos em detalhar o luto, o conceito de luto não reconhecido e os sintomas que ajudam a identificar essa dor dos enlutados.

Finalmente, na terceira e última parte, são expostos os benefícios da escuta no processo de luto, especialmente no luto complicado. Para atingir esses objetivos, foi realizada uma pesquisa bibliográfica, com materiais de sites relacionados a luto e artigos científicos encontrados no site DominioPublico.com.br

A morte no processo de luto

Toda sociedade tem assuntos ou temas sensíveis, que causam desconforto ou até mesmo indisposição entre os que os abordam. Esses temas, chamados de tabus, são determinados pelas sociedades, através de padrões morais e convenções sociais impostas. Eles podem mudar de acordo com cada sociedade, uma vez que são determinantes culturais. Para grande parte das sociedades ocidentais, esses assuntos interditos incluem dinheiro, sexo e, naturalmente, a drogas.

Já evoluímos bastante no combate aos tabus, trazendo assuntos para debates, abordagens nas escolas com crianças e tratativas em novelas e programas de televisão. Mas um dos temas mais evitados ainda é a morte. Sempre que alguém tenta tocar nesse assunto, alguém, quase que imediatamente, desconversa, faz o sinal da cruz ou reclama que falar sobre isso traz “maus agouros”. Mas falar sobre a morte é falar sobre a vida, e por isso, ela tem um impacto tão profundo sobre nós todos. Ela nos convoca a refletir sobre nossa vida, o que fazemos com ela e sua finitude.

O medo da morte é inerente ao ser humano. Se manifesta na infância, quando experimentamos as primeiras perdas. O que a torna tão difícil de compreender é a impossibilidade de revertê-la, impossibilidade de ter de volta aqueles que já se foram, e isso nos coloca frente a frente com nossa própria mortalidade. A morte suscita o medo do desconhecido, o medo da solidão e do rompimento de laços afetivos. E é esse medo que tem movido as civilizações a se organizar e se construir para garantir sua perenidade.

O luto não reconhecido e a morte

Vale observar que o ser humano é o único ser vivo que tem consciência da sua morte e essa consciência que gera o conflito entre vida e morte, provoca transformações no jeito de agir e suas perspectivas. Entretanto, apesar da morte ser a única certeza da vida, não somos educados ou preparados para conviver com ela. Vários estudiosos têm tentado entender os vários aspectos da morte durante os tempos.

Historicamente, a morte vem sendo tratada de formas diferentes nas sociedades, sempre em função dos papéis ocupados pelas pessoas e pelas convenções estabelecidas à época. Na antiguidade, a morte acontecia dentro dos lares. Ela era uma presença constante e os familiares participavam do adoecimento, morte, preparação do corpo e sepultamento, desempenhando papéis importantes em relação à despedida do falecido. A morte intrigava, mas era parte da vida social das pessoas.

Quando chegamos à Idade Média, houve uma disseminação muito expressiva de doenças infecciosas, o que aumentava o número de óbitos das pessoas. Também havia uma mortalidade infantil muito alta, em função da má alimentação e das cargas excessivas de trabalho junto aos adultos. Isso tornava a morte uma companheira das pessoas e, por isso, não havia grandes alardes ou comoção quando alguém morria. Já, a partir do meio do século XIX, com o advento de novos conhecimentos e procedimentos, os doentes passam a ser tratados em hospitais e clínicas, e as mortes deixam de acontecer às vistas da família.

A relação com a morte e o luto não reconhecido

Isso transformou profundamente a relação das pessoas com a morte. Houve um distanciamento entre o falecido e a família, o que amplifica dores e a sensação de impotência frente ao óbito. Até os procedimentos funerários passaram a ser realizados por equipes preparadas e isso limitou a relação das pessoas com a morte ao mínimo exigido socialmente. Ariès (2003) cita que esse distanciamento do processo da morte também tem influência na relação com os enlutados.

Há uma dificuldade em abordar o tema da perda do ente querido, uma dificuldade em lidar com as emoções do enlutado e isso leva as pessoas a evitarem esse assunto para não causarem dor ou constrangimento. Com essa falta de apoio, o enlutado, que não consegue lidar bem com a dor, passa a direcionar sua energia para o trabalho e atividades de modo a não ter que se haver com o incômodo que a perda causa.

O Luto: sinais psíquicos e suas fases

À dor causada pela perda por morte, damos nome de Luto. O luto é um conjunto de sentimentos e estados emocionais que tem início pela possibilidade de perda de vínculo de algo que se ama e se estende posteriormente à perda. É o processo emocional de lidar com a angústia e o vazio que alguma perda significativa causa. É um processo individual e por isso é muito importante entender o significado de cada relação para cada indivíduo. Mas, apesar de ser um processo individual, há um forte efeito nas relações sociais e coletivas, pois impacta a relação do homem consigo mesmo e com os outros.

O processo do enlutamento se inicia com a possibilidade (expectativa) da perda e só termina quando o indivíduo se recompõe emocionalmente e consegue voltar às atividades do mundo exterior, de forma saudável. Quanto maior o apego ao objeto perdido, maior tende a ser a dor do luto vivenciada.

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Esse processo pode apresentar sintomas emocionais e físicos e precisa ser tratado de forma individualizada. A dor pode se apresentar como choro, tristeza, silêncio, raiva, dores no corpo, insônia ou falta de apetite, por exemplo. Em consulta à internet, são sete os sintomas mais comuns associados ao Luto:

  1. Tristeza: sintoma mais comum, manifestado através de saudade, sensação de solidão e vazio e choro constantes.
  2. Estresse: causado por compromissos relacionados à perda, como burocracias com papeladas, advogados, inventário.
  3. Choque: dificuldade em aceitar os acontecimentos e descrença sobre a veracidade dos fatos.
  4. Ansiedade: pode ser causada por medo ou dificuldade em saber como se restabelecer após a perda, relacionada a questões financeiras ou até mesmo identificar possíveis doenças em si mesmo
  5. Culpa: é muito comum pessoas que pensam que poderiam ter feito coisas diferentes que evitariam a perda ou até mesmo o sentimento de alívio pela morte de alguém que demandava muitos cuidados
  6. Raiva: aparece quando há um ressentimento ou a culpabilização de algum fator externo, como a polícia que não zela pela segurança, políticos, Deus ou até o próprio falecido, que poderiam ter evitado o óbito.
  7. Medo: sentimento de desamparo frente ao que será vivido com a ausência da pessoa.

Sintomas físicos e o luto não reconhecido

Com relação a sintomas físicos, os mais frequentemente identificados são palpitação, insônia, náuseas, dificuldade para alimentar-se, fadiga, imunidade baixa, doenças como alergias e gripes, infecções, dores e perda de energia e capacidade de concentração. Vale ressaltar que não existe uma regra para o aparecimento dos sintomas. Essas respostas emocionais dependem da capacidade do indivíduo de lidar com seu luto e seu momento de fragilidade.

Não existe um “mínimo esperado” e cada reação pode ser considerada normal em função do indivíduo e do meio em que ele vive. Contudo, foram identificados estágios comuns aos indivíduos que passam pelo luto. Kovács (2008) cita um estudo realizado pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, com pacientes terminais e seus familiares. Ela os entrevistou e identificou similaridades nas fases da aceitação da morte iminente e da superação após o óbito. A médica relaciona cinco estágios, que são:

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    1. Negação e isolamento: momento em que a pessoa recebe a notícia e precisa compreendê-la e se acostumar com ela. É um momento em que o indivíduo precisa estar amparado emocionalmente, mas enfrenta de forma individualizada.
    2. Raiva: quando surge o ressentimento ou a revolta. A dor é projetada para fatores externos e não se encontra uma justificativa plausível para os questionamentos realizados acerca da morte.
    3. Barganha: é a tentativa de obter cura da doença ou prolongamento da vida do doente caso faça algo ou realize alguma coisa. Normalmente é o momento de voltar-se a Deus ou figura religiosa.
    4. Depressão: é o momento que a tristeza e o vazio tomam conta do indivíduo. É nessa fase que a intervenção profissional pode ser necessária, pois o enlutado pode desenvolver problemas mais sérios como ansiedade, pânico ou a depressão se tornar mais severa. Se não for bem cuidado, o indivíduo pode não conseguir ir para o próximo estágio.
    5. Aceitação: após externalizar os sentimentos conflituosos, o indivíduo é capaz de entender o que está acontecendo e de inserir essa perda em sua nova realidade de vida.

    O processo de luto

    Normalmente, o processo de luto dura entre 2 e 3 anos, e o primeiro ano é considerado o mais crítico. Nessa fase, o enlutado passa pelas primeiras celebrações de datas comemorativas e simbólicas sem seu ente querido, como aniversários, Natal ou Réveillon.

    Quando a dor do luto perdura muito mais do que esse prazo, torna-se necessário e importante a atuação de algum profissional da saúde, pois a dor prejudica a pessoa a executar suas atividades básicas. É imprescindível entender que as fases não são engessadas, ou seja, o indivíduo pode transitar por elas ou até mesmo se recuperar do luto sem necessariamente passar por alguma delas. Cada um reage de uma forma e isso deve ser levado em conta.

    Conceito de Luto Não Reconhecido

    Por definição, luto é o processo emocional pelo qual alguém que sofreu uma perda significativa passa. É o viver com a angústia da ausência, até que se tenha capacidade de “incluir” essa ausência na normalidade da vida. Ele conceito está relacionado, primordialmente, a perdas através da morte, porém estudiosos do assunto não resumem o sentimento a essa perda. O luto é algo muito mais complexo e abrange também as demais perdas, como emprego, cônjuge, diagnóstico de doenças, animais de estimação entre outros.

    O luto por perdas além da morte não tem um espaço para ser expresso e sentido em nossa sociedade. Uma prova disso é que a dor não relacionada à morte, é chamada pela literatura de perda e não luto. Porém a reação dos enlutados se manifesta de forma semelhante, em todos os tipos de perdas, seja por morte, por separação, por antecipação de um rompimento, como no caso de diagnóstico de doenças terminais. O luto se relaciona a um direcionamento de afeto a um objeto, por isso é impossível mensurá-lo ou quantificá-lo.

    Mas sabe-se que quanto maior o afeto investido, maior tende a ser a dor causada pela perda. E cada um a sente de uma forma, não sendo assim um processo linear ou organizado. Saindo do prisma da morte, podemos dizer que o luto tem seu início frente a possibilidade de uma grande mudança, que demanda uma grande adaptação por parte do indivíduo, e sendo assim, um grande consumo emocional. Mas nem sempre a dor do luto tem origem em coisas ruins.

    A dor do luto

    Ao se casar, uma pessoa pode sentir a dor do luto da separação dos pais, ou ao ser promovido para um cargo em outra cidade, pode sentir o luto por deixar os amigos na cidade de origem. Casellato (2015) cita que o luto se inicia por uma mudança simbólica, que exige novas formas de organização dos indivíduos. Porém, essas perdas que não envolvem a morte, não são reconhecidas como dolorosas ou legítimas de luto, pelos indivíduos e pela sociedade. Chegamos, assim, ao conceito de lutos não reconhecidos.

    Chamamos de luto não reconhecido o processo de luto oriundos de perdas não relacionadas à morte, mas que afetam os indivíduos e a maneira de seguirem com suas vidas após a perda. Casellato (2005) reforça, ainda, que esses tipos de luto não são legitimados ou validados, o que pode gerar danos emocionais nos enlutados e dificultar ainda mais o processo de cura dessa dor. Quando falam dessa dor, podem ser repreendidos ou ter seu sofrimento minimizado por amigos ou familiares, o que dificulta a verbalização e a tratativa desses sentimentos.

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    Assim, os indivíduos ficam mais fragilizados e suscetíveis a sobrecarga emocional. O luto não reconhecido, normalmente, é identificado em perdas cuja dor não pode ser admitida ou socialmente suportada. Reconhecer implica em validar algo como verdadeiro e nem sempre, aquele que não reconhece a dor do outro o faz por maldade. Às vezes, essa pessoa não consegue lidar com as consequências de legitimar essa dor, seja por serem ambíguas ou porque existem normas sociais que inibem essa legitimação.

    Irrelevantes, insignificantes ou ilegítimas

    A sociedade pode estabelecer regras ou normas que negam direito ao luto às pessoas, cujas perdas podem ser consideradas irrelevantes, insignificantes ou ilegítimas. Vale ressaltar que essas regras podem ser explícitas ou implícitas, determinadas por uma sociedade toda ou por grupos aos quais o indivíduo pertença. A partir dessas normas, o indivíduo silencia sua dor ou deixa de expressá-la de forma completa.

    Como exemplos desse luto não reconhecido, temos desaparecimento de familiares, morte de pacientes de profissionais de saúde, morte ou perdas de animais de estimação, mulheres que não conseguem engravidar, pais que têm filhos com síndromes ou doenças raras, pais que têm filhos religiosos e que não poderão dar netos, diagnósticos de doenças graves ou acometimento de doenças que afetem a autonomia do paciente, como AVC.

    De forma mais comum ao dia a dia, temos separação de cônjuges, que deixam de ter com quem dividir as responsabilidades ou peso das decisões, mudanças de emprego, policiais ou bombeiros que ajudam em resgates de tragédias, voluntários que ajudam pessoas em situação de vulnerabilidade e que não tem condições de fazer mais pelas pessoas, imigrante que precisam abandonar seus países de origem e até mesmo a perda de um amante extraconjugal. Infelizmente, falhamos na validação do luto não reconhecido até em situações simples que envolvem crianças, o que já cria um ciclo de invalidação de sentimentos definidos como “banais”.

    Um trauma

    Um caso é a criança que perde seu brinquedo preferido em um parque e o pai ou mãe, fala para ele deixar de besteira porque não é nada demais. Ou quando os pais se mudam de cidade e a criança fica triste pela mudança de escola e a perda de seus amiguinhos mais queridos. Raramente acolhemos ou avaliamos essa dor, incentivando a criança a falar como se sente frente a isso. E quando adultos, somos ainda mais duros, pois já estamos mais inclinados a seguir normas sociais.

    Um exemplo é um policial que passa por algum trauma em uma operação e ao comentar sobre sua dor, ouve das pessoas que ele não deveria se sentir assim porque “ele sabia que seria difícil”. Ou uma pessoa que não consegue trabalhar em sua área de formação e escuta que deve ficar feliz por ter um emprego, seja ele qual for. Não reconhecer essas dores, vai além da falta de empatia. É um comportamento destrutivo que julga, despreza e desaprova o sentimento do outro, desincentivando a vivência desse percurso como algo que pode fazer o indivíduo mais forte.

    Quando temos uma dor não reconhecida, temos uma falha no caráter humano da sociedade. Fracassamos quando não oferecemos suporte aos enlutados, para que possam compreender e acolher sua dor como legítima. Isso só torna o indivíduo ainda mais solitário no meio de tantas outras pessoas, pois passa pelo sofrimento calado e sozinho, muitas vezes, sem nem mesmo validar sua própria dor. O luto não reconhecido é um acontecimento social que nos desafia a legitimar o sofrimento humano, independente de quem o sente e de como, quando e de que forma o manifesta.

    A escuta como processo de cura e o luto não reconhecido

    O luto, após todas as definições trazidas neste artigo, pode ser traduzido como a perda de uma perspectiva de vida, uma perda da construção da vida considerada ideal dentro das possibilidades. Esse processo de dor é natural e saudável, quando ele tem um começo, meio e fim. Não há regras como tempo de duração, sentimentos que aparecem ou comportamentos ditos normais.

    É preciso individualizar esse caminho para que a pessoa seja acolhida em sua angústia e consiga reconstruir sua vida, comportando a ausência deixada, sem impedir essa pessoa de seguir em frente. Para isso é necessário “elaborar o luto”. Elaborar o luto pode ser traduzido em tornar-se capaz de lidar com a ausência e transformar a dor em algo de crescimento. Entender a perda, aceitá-la, acolher a dor que era gerou, e conseguir colocar essa ausência em um lugar de participação na vida nova a ser construída.

    Porém, há pessoas que não conseguem percorrer esse caminho da superação. Ela se mantém presa, de certa forma, à dor que a perda causou, sem conseguir lidar com ela. Para esses casos, damos o nome de Luto Complicado e ele exige um acompanhamento profissional. O que o caracteriza é a incapacidade da pessoa se “desligar” da perda, associando o que acontece a ela com essa perda, ficando presa aos sentimentos de culpa, raiva ou medo.

    A reparação da perda

    Frequentemente, o luto complicado, acontece com pessoas que experienciam perdas repentinas, abruptas ou em tragédias. Quando o enlutado não tem um preparo prévio para aquela perda ou que a perda acontece quando não é esperada ou sobre a qual não existe nenhuma expectativa. Existem algumas características que podem ajudar a identificar um luto complicado e diferenciá-lo do luto normal.

    São características do luto complicado, além do longo prazo de duração do luto, sensação de vazio na vida, saudade muito intensa, raiva ou negação sobre o que aconteceu, amargura e desencanto com a vida, evitar tocar em algo que lembre a perda ou uma obsessão em reviver coisas que tragam lembranças do objeto perdido. Para saber qual efeito o luto pode ter sobre um indivíduo, é necessário compreender sobre sua constituição e seu papel dentro de sua realidade.

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    A relação com o objeto da perda, se há amparo familiar, idade do enlutado, histórico de perdas anteriores, natureza da perda, insumos para reparação da perda, contexto social e vulnerabilidades emocionais. Apesar de não poder ser quantificada, ou medida, a dor do luto precisa ser trabalhada, especialmente em casos de lutos complicados. O indivíduo deve poder se reconstruir e não ter essa dor atrapalhando o andamento de sua vida.

    Dor emocional

    Para casos graves, pode ser necessária medicação, mas mesmo nessas situações, é inegável o poder que existe em falar sobre o assunto e ser acolhido em suas demandas e sofrimento. Entender uma dor emocional deveria ser simples como entender uma dor física. Se estamos com dor de cabeça, identificamos sinais como olho inchado, rosto avermelhado, mão na testa ou nuca, enjoo, mas também temos sinais como dificuldade de concentração, incômodo com sons altos ou com cheiros fortes.

    Mas principalmente, o indivíduo é capaz de reconhecer que tem dor e a sinaliza para seu interlocutor. Mas porque não temos a mesma capacidade de acolher quem tem dor emocional? Ela apresenta sintomas emocionais e físicos, tenta verbalizar, mas nossa dificuldade em lidar com a perda, nos impede de acolher a dor do outro. A perda não deixa de ser um fator de estresse para o organismo e ele vai se comportar de forma a minimizar os dados desse estresse.

    Nesse momento se faz imprescindível a ajuda de um profissional para poder conduzir essa superação da dor. Alguém que esteja isento de carga emocional, que não tenha participado ou seja pessoalmente afetado por essa perda, que possa ouvir os sentimentos do outro sem julgá-lo ou questionar a validade deles. Esse profissional é capaz de ajudar a organizar os sentimentos e pensamentos, trazer clareza nas ideias, buscar identificar questões emocionais que impedem de ver alternativas e ajudar a pessoa a se readaptar à nova realidade. Para que isso aconteça, é essencial expressar e trazer à tona pensamentos e sentimentos, de forma livre e sem julgamentos.

    A reparação

    Dessa forma, o indivíduo pode encontrar caminhos e possibilidades para se reerguer. Moura (2006) cita um modelo proposto por Strobe & Schut, que alterna conversas orientadas para a perda e conversas orientadas para a reparação. Esse modelo é composto por sete passos:

    1. Narrativa: direcionar a conversa para que o enlutado conte os fatos. É uma maneira de fazê-lo processar a perda.
    2. Expressão: incentivar a expressão dos sentimentos ou emoções relacionadas à perda
    3. Reparação: orientar a falar de possibilidades de reconstruir a relação que tinha com o objeto perdido
    4. Informação: entender qual o nível de ciência que o enlutado tem de seu processo de luto e trazer informações novas para ele.
    5. Memorialização: incentivar o resgate de memórias e criar homenagens simbólicas para o objeto.
    6. Reconstrução: ajudar a reorganizar a construção de futuro e sua posição atual após a perda.
    7. Autoanálise: dar espaço para que o enlutado se perceba dentro da realidade e possa lidar com a dor de forma mais real e individualizada.

    Sob esse espectro, a escuta profissional que seja ativa e com empatia dá ferramentas para que o enlutado possa passar pelo processo da perda da forma mais adaptada a sua possibilidade e realidade. Não é objetivo da escuta fazer a dor passar, simplesmente, para liquidar com sintomas, mas sim, trilhar com o enlutado um caminho de reconstrução e enfrentamento.

    Conclusão

    A morte é uma sombra que paira sobre todas as pessoas da humanidade. E apesar de ser a única certeza da vida, ela ainda é encarada com temor e inseguranças. Essas inseguranças e medos é que fazem as pessoas encararem as próprias vidas como algo raro e único. E é justamente pela percepção da iminência da morte, que os seres humanos, buscam “combatê-la” ou adiá-la o máximo possível, para que possam se sentir confortados pela perenidade de sua vida.

    É essa busca pela perenidade que moveu civilizações e povo, para a compreensão e aceitação da morte e dos sentimentos relativos a ela. Junto da morte vem o luto, um processo emocional de abrir espaço para novas realidades que se apresentam e encontrar lugar para uma ausência que se instala. Esse luto gera dores, angústias, ansiedade e também sintomas físicos, que buscam externalizar a dificuldade do indivíduo em lidar com a perda e suas consequências.

    Ainda mais difícil é o processo daqueles que se enlutam com perdas que não são validadas ou legitimadas pela sociedade em que vivem, tornando o processo de superação da dor ainda mais solitário e complicado. Para os casos mais complicados, torna-se essencial o apoio de um profissional que possa amparar o enlutado em suas dores e conduzir, com isenção de sentimentos, o enlutado nesse percurso de processar a perda, acolher suas emoções e reconstruir a vida, que continua.

    A escuta ativa

    Nesse contexto, surge a necessidade da escuta ativa, imparcial e sem julgamentos, que permite ao enlutado digerir tudo que está acontecendo e reorganizar ideias e sentimentos de modo a encontrar seu novo lugar no mundo após essa perda tão significativa. Talvez esse tema da morte e do luto nunca tenha sido tão exposto e tratado por profissionais, especialmente em tempos de pandemia e de tanta violência.

    Mas vale resgatar a humanidade desse profissional que passa a ter o papel de apoio para ajudar o indivíduo a se reerguer e se estabelecer. A escuta deve ser ativa, isenta, porém empática, dando subsídios para que as pessoas consigam atravessar os momentos de dores, ansiedade e medos, sabendo que não estão sozinhas.

    Referências bibliográficas

    Ariès, Philippe. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. Barbosa, Caroline Garpelli. A família e a morte: estudo fenomenológico com adolescentes, genitores e avós / Caroline Garpelli Barbosa, 2010. Casellato G. O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido, 2015. Kovács, Maria Júlia. Desenvolvimento da Tanatologia: estudos sobre a morte e o morrer, 2008. Moura, Cristina M. Uma avaliação da vivência do luto conforme o modo da morte, 2006. https://www.hospitalinfantilsabara.org.br/sintomas-doencas-tratamentos/luto/ Acesso em maio, 2022. https://blog.vetoreditora.com.br/o-luto-e-a-ressignificacao-de-perdas/ Acesso em abril, 2022. https://zenklub.com.br/blog/saude-bem-estar/luto/ Acesso em maio, 2022.

    Este artigo sobre luto não reconhecido e a abordagem psicanalítica foi escrito por PRISCILA KUNZLER N. ALMEIDA, para este site do curso de formação em Psicanálise Clínica.

    4 thoughts on “O que é luto não reconhecido

    1. Excelente artigo. O luto é um dos maiores sofrimentos que enfrentamos. Conhecer melhor seu processo colabora para a atenuação dessa angústia. Parabéns pelo trabalho de vocês.

    2. Excelente artigo, é realmente muito difícil lidar com todos os tipos de luto e suas implicações.

    3. Parabéns pelo artigo! Muito esclarecedor e aprofunda em questões tão importantes que vivenciamos ou iremos vivenciar um dia!

    4. Percebo que se equipara ao luto por morte, para muitos, é a Aposentadoria! Numa ocasião avistei um ex colega, que presumo estava em horário de almoço ou já indo embora, já que iniciava a jornada as 7 da manhã com intervalo de 1 hora para almoço e na ocasião já deveria estar com 70 anos; quantas gerações foram colegas dele e mesmo que a chefia releve a idade e não exija tanta produtividade e cumprimento do horário, mas por ter sido época anterior a Covid-19, não havia home office, era sempre “presencial”! E pessoas assim, imagino a angústia: protelar o pedido de Aposentadoria não fará o tempo voltar, pelo contrário, exige do corpo reflexo e resistência fisica que com o passar dos anos, vai diminuindo sempre!!!

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