mente deprimida

Como funciona a mente deprimida

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Além, muito além do que pensamos: apontamentos sobre o funcionamento da mente deprimida.

Entendendo a mente deprimida

No decorrer dos séculos, um curioso hábito cultural tem se revelado um padrão em diferentes sociedades: o fato de a perda de um ente querido, implicar um período do que se convencionou chamar de “luto”.

Entretanto, apesar de bastante simbólico e já perpetuado no imaginário coletivo, o período de perda de um objeto de grande afeto, seja a morte de uma pessoa, ou uma separação traumática, se processa de formas muito mais profundas na mente do ser humano do que imagina o senso comum. Falaremos um pouco sobre os processos envolvidos nesta jornada no texto a seguir.

A mente deprimida para a Psicanálise

Uma queda na bolsa de valores Muitas pessoas, partindo do senso comum, ou seja, da compreensão coletiva do que é o luto, seja pela morte de uma pessoa querida, ou por uma frustração, decepção ou separação súbitas, imaginam que, após um período de tempo razoável (relativamente curto após o bum tecnológico que apressa todas as relações humanas diga-se de passagem), a pessoa enlutada precisa “seguir em frente” e retomar a rotina “normal da sua vida, simples assim.

O que a maioria das pessoas ignora, por não conhecer as dinâmicas pulsionais inconscientes existentes na mente humana é que não é tão simples assim. Segundo Freud, todos os objetos (pessoas, projetos, relacionamentos etc.) em que “investimos” uma grande quantidade de afeto, em forma de energia libidinal, se tornam alvo desse investimento justamente por serem fruto de um processo de autoidentificação do sujeito “investidor”. Por outro lado, essa representação mental que se faz do objeto de afeto é introjetada pelo sujeito, de modo que produz neste indivíduo uma marca, passando a fazer parte da sua identidade.

Dessa forma, quando ocorre a “perda” irreversível, seja pelo fim da existência propriamente dita do ser amado, pelo rompimento de um relacionamento, ou pelo fim de um projeto, sendo esta perda necessária, ou inevitável para a sobrevivência do sujeito, é aí que se inicia um novo e doloroso processo de desinvestimento da energia ali depositada.

Afastamento doloroso

Doloroso porque, ainda que haja o afastamento material do objeto de investimento libidinal, a representação mental desse objeto, ainda mais próxima do desejo do que a real existência desse objeto poderia ser, continua “viva” na mente do sujeito, de modo que este inicia uma luta em prol do “esquecimento” do objeto que já faz parte de sua própria essência, configurando assim, uma luta pelo desprendimento de si mesmo. Esse processo pode seguir em diferentes direções, dependendo das pré-disponibilidades mentais do sujeito em “luto”.

Os dois principais caminhos segundo o famoso ensaio “Luto e Melancolia”, escrito por Sigmund Freud, em 1917, como o próprio nome da obra denomina são o Luto ou a Melancolia. O luto, representado muitas vezes na ficção como sendo constituído essencialmente por um período de apatia e de uso da cor preta, gestos estes que simbolizariam respeito ao ente querido que se foi, faz parte do imaginário popular, porém esse imaginário nem sempre corresponde à realidade, como é o caso aqui.

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Para além da perda de uma pessoa amada, o verdadeiro processo de luto ocorre a partir de um “rompimento brusco”, necessário ou inevitável, por parte do sujeito, com relação a um objeto que lhe custou grande investimento afetivo, como mencionamos anteriormente. Apesar disso, nesse processo, há uma ligação relativamente simples com o objeto de afeto, e, portanto, a vivência dessa perda se dá de forma gradual e sem necessária ou definitiva perturbação da autoestima.

Mente deprimida e o afastamento da rotina

Durante esta vivência, se estabelece um período de afastamento das atividades rotineiras, porém isso ocorre de forma transitória, de modo que, gradualmente, o sujeito consegue recuperar-se após um tempo, encontrando o lugar para um novo objeto de afeto, ou energia pulsional.

Este processo constitui, portanto, uma vivência necessária para a superação da dor e para o estabelecimento de novas escolhas e representa, assim como a Melancolia, da qual falaremos a seguir, um quadro existente na personalidade de base neurótica, uma vez que representa um posicionamento do indivíduo diante de algo que a realidade lhe impõe.

A Melancolia, por outro lado, popularmente conhecida como sinônimo de saudade ou de tédio, também, aqui, nada tem a ver com a definição do senso comum. Na verdade, o que Freud denomina Melancolia em seu ensaio (já mencionado anteriormente) constitui um estágio que deveria ter se constituído em luto, mas que, por diversas razões, no entanto, direciona-se para outro caminho, estabelecendo aquilo que se costuma denominar Depressão.

Uma predisposição genética

Ocorre que, alguns indivíduos, que parecem já apresentar uma predisposição genética de ordem mental para diferenciações emocionais, de ordem patológica, não sabem ou não conseguem vivenciar a perda do objeto de investimento pulsional. Parece haver uma espécie de introjeção definitiva desse objeto na própria identidade do sujeito, em uma relação simbiótica e, portanto, indivisível.

Dessa forma, a relação que se estabelece quando o sujeito neurótico, com predisposição melancólica, se depara com a perda desse objeto se torna muito mais complexa, já que é, essencialmente ambivalente. Há uma perturbação profunda da autoestima e das capacidades ligadas às escolhas, além de um afastamento mais intenso e definitivo das atividades habituais, acarretando uma perigosa desmotivação para a vida, podendo vir a ameaçar a existência do sujeito, caso não seja tratada adequadamente.

A importância da análise nesse processo Como dissemos anteriormente, tanto o Luto quanto a Melancolia (aqui entendida como Depressão) constituem processos muito mais complexos do que “imagina a nossa vã filosofia” parafraseando o grande Shakespeare. E, ainda assim, consistem em formas importantes de nos posicionarmos diante da realidade. De modo que, quanto maior for o número de pessoas que começarem a compreender esses e outros processos mentais, mais próximos estaremos de uma sociedade mentalmente mais saudável.

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    Conclusão

    Nesse contexto, percebemos a importância da terapia analítica e da democratização dos conhecimentos sobre a mente, uma vez que essa última tem sido um dos grandes legados da Psicanálise para a sociedade, principalmente nos dias atuais, em que temos tantas informações ao nosso alcance e, no entanto, percebemos tão pouca empatia para com as pessoas portadoras de transtornos mentais.

    O presente artigo foi escrito por Samantha B. Santos([email protected]). Psicanalista em formação. Mestranda em Formação de Professores e Especialista em Educação.

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