Psicanálise e Literatura

Psicanálise e Literatura: relações e autores

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O Filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, no começo do século XIX enumerou seis artes em ordem de “plenitude”: arquitetura, escultura, pintura, música, dança e poesia. Continue a leitura e entenda mais sobre a relação entre a Psicanálise e Literatura.

Entendendo a Psicanálise e Literatura

Desde a Grécia antiga, até a formação da sociedade ocidental contemporânea, essas artes têm feito parte da história e da expressão humana. No entanto, no ano de 1923, o intelectual italiano Ricciotto Canudo propôs no seu “Manifesto das Sete Artes”, que o cinema fosse considerado como a sétima arte, aumentando a lista anterior de Hegel.

Posteriormente, também foi cogitado a possibilidade de inserir a fotografia, e os quadrinhos nessa lista. O que fica claro é que, ao se analisar qualquer uma dessas artes, percebe-se que elas sempre foram uma maneira que o ser humano utiliza para se expressar, comunicar, ou manifestar seus sentimentos.

A arte inicialmente, é pensada, é consciente, e carrega uma lógica e uma teoria por trás dela, contudo, em muitos momentos pode-se observar que ela surge a partir de conteúdos inconscientes, e que fogem inclusive do domínio do artista. O surrealismo foi um movimento artístico e literário, surgiu na França por volta de 1920, muito influenciado pelos estudos de Freud, que mostram a importância do inconsciente na criatividade humana.

A interpretação dos sonhos, a Psicanálise e Literatura

A interpretação dos sonhos, as histórias de ficção e os contos fantásticos, deixaram o homem mais livre da crítica, da censura, e da lógica que reprimia sua liberdade. A psicanálise e a literatura têm a partir daí histórias que se misturam.

Freud traz em sua obra muitas referências literárias, principalmente de Goethe e Shakespeare. Além de claro valor psicanalítico, a obra de Freud também é reconhecida por seu valor literário, sendo inclusive considerado um escritor “tal qual Schopenhauer”.

Freud foi realmente um grande leitor e escritor, percebeu e declarou que, ao escutar seus pacientes, o alívio e a cura poderiam acontecer de uma maior atenção dada as suas histórias, e a fatos cotidianos aparentemente irrelevantes, como por exemplo, os sonhos e os atos falhos.

Os sonhos e os atos falhos

O escritor italiano Umberto Eco disse que os livros conversam entre si; já o filósofo russo Mikhail Bakhtin propôs a teoria do dialogismo, da polifonia e da intertextualidade; ambos concordam que tanto no ato da fala como na literatura, não existem palavras não ditas, tudo já foi dito ou será dito futuramente, quando alguém diz algo a outra pessoa, isso já foi dito antes por outros, ou até por ela mesma, a resposta que se obtém também já foi dita antes.

Exemplo disso está na literatura de fantasia, J.K Rowling foi um fenômeno com a saga Harry Potter, mas essa não foi a primeira vez em que se ouviu falar de elfos, dragões, e criaturas mágicas.

Anterior a escritora britânica, J. R. R. Tolkien já havia criado uma vasta e importante obra de ficção, que contém elementos também presentes em: “As Brumas de Avalon” de Marion Zimmer Bradley, onde conta a história do Rei Arthur. Entretanto, a primeira narrativa da vida de Artur é encontrada na obra latina de Godofredo de Monmouth, “História dos Reis da Bretanha” de 1138, onde ficção se mistura com realidade.

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Psicanálise e Literatura de ficção e fantasia

Da mesma maneira, pode se encontrar elementos parecidos e mais antigos ainda no poema Beowulf, que é um poema épico, escrito em língua anglo-saxã, por autor desconhecido, possivelmente no século VIII.

Ao comparar a literatura de ficção e fantasia, com os contos de fadas, e as fábulas, observa-se que esses carregam muitos elementos em comum, e que conversam entre si, mas, o que faz uma obra ser genial, muitas das vezes é a “assinatura” do artista, ou seja, sua originalidade.

Podemos, portanto, entender e analisar o autor e a sua narrativa literária a partir de uma perspectiva psicanalítica, por outro lado, ao mesmo tempo, o autor também coloca o seu interlocutor no divã, provocando e instigando sua verdade e os seus valores, é uma via de mão dupla.

A realidade do cotidiano e a vida

Se por um lado, os heterônimos de Fernando pessoa e seu Alter ego, por exemplo, fornecem um material para se fazer a análise do autor, por outro lado, textos como os de José Saramago ou do argentino Júlio Cortázar questionam a realidade do cotidiano e a vida.

Logo, pode-se observar que, quanto mais excêntrico e singular é o artista, mais suas obras se tornam aclamadas, assim aconteceu com Alan Poe e Stephen King, no mistério-horror, e igualmente com Clarice Lispector e seu estilo inovador, intimista, de fluxo de consciência e de monólogo interior.

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    Em continuidade, deve ser por esse motivo que Jung diz, em “O Homem e seus Símbolos”, que os escritores não deveriam fazer terapia, uma vez que são suas neuroses que os impelem a criar. O escritor e cineasta Woody Allen certa vez disse em tom de ironia: “sou o fracasso da psicanálise”, contudo, foi a partir de suas análises e sonhos que ele teve inspiração para alguns de seus livros e filmes.

    Inconsciente, Psicanálise e Literatura

    Talvez Jung esteja certo ao dizer que as neuroses que são responsáveis pela criação, e o “fracasso” de Woody Allen reforce isso, mas talvez a própria experiência psicanalítica seja a catarse necessária, que traz do inconsciente as criações, tais quais ficções e contos de fadas.

    Muitos, erroneamente acreditam que os contos de fadas afastam a criança da realidade, mas na verdade os contos lhes falam de situações e sentimentos muito reais, e ajudam a desenvolver na criança a capacidade de fantasiar, fornecendo uma fuga necessária de seus medos, ansiedades, e ódios, seja para vencer a rejeição como em “João e Maria”, ou enfrentar conflitos edípicos como em “A Branca de Neve”, ou ainda para se portar diante da rivalidade entre irmãos como em “Cinderela”.

    Em síntese, muito mais do que possível, é necessário achar caminhos que relacionem a psicanálise e a literatura. Ao retirar a literatura da psicanálise, ou ignorar uma análise subjetiva da literatura, ambas sairiam empobrecidas.

    Considerações finais

    A literatura como forma de expressão artística consciente ou inconsciente, é equivalente ao que acontece no setting analítico, onde de forma livre e sem preconceitos, o analisando é chamado a fazer livre associação, externando sua história, sua narrativa de vida, seus medos, seus sonhos, seus anseios e suas fantasias.

    Tudo isso está enraizado nas experiências que o indivíduo teve desde sua infância, e isso inclui a mitologia, a religião, os contos de fadas, as crônicas, as fábulas, os filmes e as histórias de ficção das quais o indivíduo se nutriu desde sempre.

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    Para Aristóteles “a arte imita a vida”, já para Oscar Wilde “a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida”, talvez nenhum dos dois estejam errados, e a vida seja esse enorme novelo de histórias que misturam sonhos com realidade.

    Este artigo sobre Psicanálise e Literatura foi escrito pelo autor Igor Alves ([email protected]). Igor está cursando o último módulo do curso de Psicanálise Clínica do IBPC, é licenciando em Letras e Filosofia.

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