Racismo: Impactos na psique negra

Racismo: Impactos na psique negra

Publicado em Publicado em Psicanálise e Sociedade

As pesquisas que abordam a negritude concentram-se, frequentemente, no racismo e na discriminação como fenômenos sociais.

Todavia, a opressão racial afeta o indivíduo negro não apenas nessa dimensão, mas também no plano psíquico.

Tais aspectos serão analisados a seguir, com especial atenção aos sofrimentos decorrentes desse processo, tais como: Neurose obsessiva ou compulsiva, neurose de angústia (depressão), psicose paranoica e psicose narcísica.

Neuroses e Psicoses

Segundo Freud, o sofrimento psíquico divide-se, fundamentalmente, em dois grandes grupos: as neuroses e as psicoses.

Essa diferenciação é determinada pela forma como o sujeito lida com a realidade.

Enquanto na neurose observa-se um tipo de sofrimento menos severo.

Pode manifestar-se por meio de fobias ou histeria, a psicose engloba quadros mais graves, como a esquizofrenia e a paranoia.

Nesses últimos casos, nota-se o afastamento do sujeito em relação ao mundo externo e, em situações mais críticas, a negação da realidade.

Processos que, diferentemente da neurose, estruturam o funcionamento psicótico.

Ao considerar que a engrenagem racista impõe reflexos que ultrapassam o campo sociocultural, atingindo camadas profundas da psique.

O conceito de psicose evoluiu historicamente até ser diferenciado da neurose pela psicanálise freudiana.

Racismo E Padrão Imposto

Para Freud, enquanto a neurose estaria ligada ao conflito com o id, a psicose atuaria sobre um fragmento da realidade com o propósito de rejeitá-la.

A neurose obsessiva ou compulsiva pode materializar-se na busca pela perfeição.

Visando atingir o padrão imposto pelo “ideal do ego” branco.

O sujeito negro sente-se compelido a ser incontestavelmente mais eficiente para ser validado.

Por exemplo, estando sempre pronto a colocar sua competência à prova, o que evidencia seu sofrimento psíquico e tendência à ansiedade.

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No que tange à neurose de angústia (depressão) observa que ela ocorreria quando “o objeto perdido atrai para si todas as energias do eu a ponto mesmo de confundir o eu com o próprio objeto”.

O mecanismo estaria ligado a permanente condição de inferioridade do negro sob a ótica social branca.

Embate Interno No Racismo

A partir de Lacan, destaca que a psicose seria um “drama no coração simbólico”, tendo a castração como conceito fundamental para sua compreensão já que o falo, como significante do desejo, instaura-se de forma universal.

O Complexo de Édipo ocorre em três etapas:

1) identificação com o falo (objeto de desejo da mãe);

2) a lei da castração através da mediação do pai, que separa mãe e filho, gerando a falta simbólica; e

3) o desejo de “ter” em vez de “ser”.

A metáfora paterna define a trajetória do neurótico e do psicótico ao proporcionar o gozo fálico e instituir o desejo.

Essa luta pela superação pode levar a outros sofrimentos, dependendo da forma como o sujeito interioriza tais situações: a psicose paranoica e a psicose narcísica.

A primeira refere-se a um temor acentuado e antecipado à agressividade de uma sociedade racista.

Destruição Da Identidade

No caso da psicose narcísica (“delírios de grandeza”), a tentativa de autoproteção, retratação e sensação de exceção podem conduzir a extremos de vaidade e a uma impressão equivocada de superioridade.

Na obra Tornar-se negro, Neusa Santos Souza coloca a violência (corporal, moral, social e psíquica) como foco central: a destruição da identidade do sujeito negro para a construção de um “ideal do ego” branco.

A autora afirma: “O ideal de ego do negro é branco”, o que reflete uma profunda ferida narcísica.

Tornar-se negro é um processo de descoberta, uma epifania decorrente do flagrar-se inserido nas engrenagens do racismo estrutural, compreendendo o peso que tenta estagnar seus movimentos.

O “choque no complexo de Édipo” é um dos estopins para tais condições.

Como cicatriz do racismo estrutural, ocorre uma comparação desproporcional: os progenitores negros são descredenciados frente ao ideal de beleza e sucesso, construído sob a imagem do branco.

Surge, então, o mecanismo do “narciso invertido”, em que o negro não encontra no espelho o reflexo da beleza socialmente desejada, entrando em negação de sua etnia e desenvolvendo complexos de inferioridade.

O ‘Ideal’

Um exemplo clássico citado pela literatura é o estudo de Kenneth e Mamie Clark realizado na década de 1940 com bonecas.

Este estudo demonstrou a preferência de crianças negras por bonecas brancas, associando características negativas àquelas que se assemelhavam a si mesmas.

Esse cenário forçou gerações a buscarem um ideal estético alienante como a tentativa do colonizado de internalizar a cultura do colonizador para ser reconhecido como humano.

Por fim, a exposição à engrenagem racista leva ao enfraquecimento do ego e à construção de um superego extremamente rígido deixando os indivíduos propício a ansiedade e angústia.

É necessário que, para além da desestruturação das dinâmicas sociais do racismo, implementem-se processos que desmantelem sua configuração interna e psíquica, ou seja, aquela que reside no invisível.

Assim como a que não se assume e, portanto, no que ainda não se controla.

Este artigo foi desenvolvido através do Trabalho de Conclusão de Curso de Formação em Psicanálise Clínica da aluna Celina Lucas.

1 thoughts on “Racismo: Impactos na psique negra

  1. Sonia Silva Saraiva disse:

    Parece muito bom esse curso!

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