Relação mãe e filho

Relação Mãe e Filho segundo Winnicott

Posted on Posted in Psicanálise

Falar de comportamento familiar e, principalmente, da relação mãe e filho ou destas crianças com seus pais será sempre um tema extremamente delicado.

A composição familiar passou, durante os últimos séculos, por imensas transformações que refletiram não só nos infantes, mas, acima de tudo, na estrutura familiar como um todo.

Entendendo a relação mãe e filho

Se fizermos uma cronologia sobre a participação da mulher no mercado de trabalho e sua participação na família, perceberemos que a mesma passou, durante o caminhar da história, por muitas transformações e por muitos papéis.

Mas, quem é esta mulher que, ao longo da história, por conta das normas sociais e culturais, não conseguiu exercer plenamente seu papel? Que na modernidade, necessitou ser mãe, esposa e assalariada? Quais implicações, responsabilidades, conflitos e pressões precisou passar para ser reconhecida?

O que Winnicott nos traz, em seus estudos, sobre a teoria referente à mãe suficientemente boa, teoria esta que traz como sugestão a tentativa da genetriz em ser perfeita e como consequência, acaba caindo em sofrimento pois suas expectativas sempre acabam sendo frustradas pode nos dar algumas pistas para o entendimento destas consignas.

Winnicott e a relação mãe e filho

Sabemos, também, que o autor delimitava funções paternas e maternas onde a do genitor seria apresentar a criança no universo do trabalho, e a da genitora seria ser uma boa dona de casa. Através deste recorte, Winnicott nos dá componentes para analisarmos esta mãe, não apenas sob o olhar da psicanálise, mas, também sob um contexto antropológico e histórico na antiguidade até o século XVIII.

Se antes do “boom”, no século XVIII, ocorrida na Inglaterra, conhecida como Revolução Industrial, elas tinham a exclusiva função de cuidar dos serviços domésticos e da criação dos filhos, deixando a provedoria econômica sob a tutela do progenitor, que trabalhava fora e trazia o alimento para a mesa de sua família, após esta virada, no bojo da ascensão do capitalismo, várias e profundas mudanças ocorreram no mundo do trabalho e, automaticamente, na rotina familiar.

O trabalho dignifica, nos dá a possibilidade de conquistas inúmeras, traz desenvolvimento à sociedade, nos dá uma sensação única de liberdade, satisfação e acima de tudo autorrealização. Mas, por outro lado, mesmo compreendendo que este novo sistema exigiu a presença destas mães no mercado de trabalho, transformando, significativamente, os rumos da história, o trabalho fora de casa nos traz uma questão importantíssima a ser discutida aqui: poderia esta mãe ser considerada negligente pelas necessidades impostas àquela conjuntura econômica e social?

As mulheres e a relação mãe e filho

Para respondermos a este questionamento será mister conhecermos um pouco da situação não só das mulheres, mas, também das crianças dentro de um recorte historiográfico. Necessitamos saber, aqui, que a valoração do relacionamento entre mãe e filho, durante a história da humanidade nem sempre foi linear. Se formos pensar como as crianças e seus pais se relacionavam na antiguidade, fazendo alusão, a Grécia e a Roma Antiga, veremos, por exemplo, no papel do “pater” ou “pater família”, uma autoridade incontestável nesta organização social.

A criança, por sua vez, via nos mesmos, sua referência, seu porto seguro para as necessidades que iam do mais básico, às necessidades mais complexas. E não é à toa que, neste período, a criança tivesse um grau tão alto de dependência, afinal, segundo o filósofo ateniense Aristóteles ela era vista como um ser totalmente incapaz, e este período conhecido como infância era visto como algo maléfico e extremamente desastroso. E porque não associar esta infância à uma doença? Sim! Uma doença para os gregos!

Doença esta que, se não “curada”, poderia levar à cidade estado (pólis) à ruina, já que uma criança mal educada, automaticamente se transformaria em uma criança moralmente frágil. E, sendo moralmente frágil, representaria um perigo futuro à Democracia ateniense. A criança não era considerada cidadã, não tinha identidade, logo sem nenhuma capacidade cognitiva de decidir e de, nem mesmo, ter um pensamento próprio, posição esta que, se tivesse sorte poderia adquiri-la na idade adulta apenas se fosse filho de atenienses.

Mulher, esposa e mãe

Sua mãe também era despossuída de direitos políticos ou jurídicos. Neste período, a genetriz tinha pouca ou quase nenhuma influência sobre sua cria no que diz respeito à sua educação e a criação. Para as crianças do sexo masculino, que nasciam numa posição mais abastada, era destinado algum tipo de pedagogo, também chamado “nutridor” que exerceria um papel crucial no desenvolvimento da mesma. O que restaria, então a esta mãe?

Leia Também:  Efeito Placebo: resumo em Psicologia

Sabemos que tinha muito mais proximidade com as filhas mulheres que viam nela um espelho para se tornarem futuras donas de casa e consequentemente boas reprodutoras, administradoras de suas casas, dos seus escravos e da “criação” dos filhos. Durante o período conhecido como medievo, a situação das crianças e de suas genitoras não se fez melhorar. A autoridade paterna continua a prevalecer e a condição de mulher e esposa, de alguma forma, era similar a de seus filhos: estar submissa sob a tutela e a autoridade de um homem.

Esta mãe, mais uma vez, fica impossibilitada de exercer suas funções ou, as exercia por pouco tempo devido a dois motivos: o primeiro está relacionado a baixa expectativa de vida destes recém-nascidos. Extremamente frágeis fisicamente, permanecer vivo, no medievo, era uma grande loteria devido às péssimas condições, principalmente àquelas crianças mais carentes.

A relação mãe e filho e o afeto

Esta elevada mortalidade acabava influenciando esta mãe a não exercer um efetivo afeto, visto que era pouco provável que a criança sobrevivesse. A criança, além de estar fadada a uma sorte, ainda por cima tinha em sua mãe uma figura fria e distante.

Em segundo lugar, mas não pouco importante, era o reduzido tempo que esta criança convivia com seus pais, visto que se a família não tivesse uma condição de sustento, esta criança, a partir dos 7 aos 10 anos, já teria um destino certo: ser entregue, como aprendiz, a famílias para aprenderem um ofício. Já na transição do medievo para a modernidade, a partir do século XVII, conseguimos observar algumas sensíveis, porém discretas, mudanças associadas à família e a infância.

Já podendo respirar mais aliviadas, sem a sombra da morte rondando seus cômodos nem a de seus filhos, como a Peste Negra e tantas outras enfermidades, a mãe aparece num cenário bem diferenciado do anterior. Com a nova ordem econômica europeia, o capitalismo traz consigo, também, uma nova classe social: a burguesia. E neste novo sistema é mister que a criança seja cuidada e vista, afinal, ela acaba sendo, neste contexto uma peça fundamental em vários aspectos, principalmente como as representantes das gerações futuras.

    NÓS RETORNAMOS PARA VOCÊ



    Quero informações para me inscrever na Formação EAD em Psicanálise.

    Mães e a Revolução Industrial

    Aquela mãe apática, distante e sem esperanças passa a ser vista pela sociedade europeia do século XVIII como aquela que exala amor por sua prole, aquela quase santificada, aquela que gera a vida, aquela figura emblemática e, como dito antes, uma personificação da própria Virgem Maria, incentivando-a a internalizar estes cuidados com seus filhos.

    Ora, não sejamos ingênuos em acreditar que esta mudança de perspectiva aconteceu por um mero reconhecimento do que é ser mãe. Lembremos que este período histórico é permeado de grandes mudanças, como o advento da Revolução Industrial, logo um aumento populacional considerável desde o final da Idade Média levaria a um futuro aumento de mão de obra e toda uma filosofia iluminista e renascentista que evocava o antropocentrismo, o individualismo, e tantas concepções que mudaram o pensamento do homem moderno.

    Esta mulher que era apenas uma reprodutora passa por uma metamorfose ocupando posições antes inimagináveis. Foi engrossar as filas do mercado de trabalho, e, mesmo ganhando infinitamente menos que a figura masculina, via, no trabalho, uma necessidade de não apenas ajudar a prover a família, mas, talvez, nem soubesse ela deste desejo incontido de uma pseudo-independência.

    A proteção e a relação mãe e filho

    Todos os olhares voltavam-se para a mulher, exercendo uma coerção para que a mesma exercesse, de forma impecável, seu papel de mãe afetiva, preocupada com o bem estar de seus filhos já que ela foi criada para este fim e era de sua “natureza” cuidar, proteger e zelar pelo bem estar da prole.

    Imaginamos que esta coerção deva ter abalado àquelas mães menos favorecidas economicamente e que se viram numa situação bastante delicada, afinal necessitavam trabalhar para trazer o sustento.

    Nas famílias de classe média alta esta mãe tem um novo papel social na vida de seus filhos: educar nas letras. Muitas mães foram as primeiras professoras de seus pequenos curiosos. A sociedade contava com que esta mãe cumprisse fielmente seu papel social ao ponto de muitas mulheres, que tivessem um comportamento diferenciado, eram marginalizadas pela sociedade e vistas como uma pessoa de comportamento anormal.

    Considerações finais

    Será que as mulheres do passado tiveram a sensação de fracasso, de impotência por serem consideradas insuficientemente boas para seus filhos? Será que estas crianças foram atingidas emocionalmente pelo contexto sócio cultural da época em que viveram?

    Leia Também:  Design Thinking: o que é, como fazer na prática?

    Pouco saberemos, pois como dito anteriormente, a criança e a mulher tinham funções bem específicas e limitadas e não eram personagens de interesse da sociedade acadêmica.

    O que sabemos, com certeza, é que durante a trajetória histórica ambos tiveram papeis essenciais para o desenvolvimento da sociedade especialmente através dos estudos recentes da micro história analisando os “marginalizados”, rompendo com o instituído e transformando a história e a própria psicanálise num espaço de permanente desconstrução.

    O presente artigo foi escrito por Fernanda Assunção Germano([email protected]). Socióloga, Historiadora e Terapeuta Integrativa.

    6 thoughts on “Relação Mãe e Filho segundo Winnicott

    1. Artigo enriquecedor, nunca havia pensado desta forma como abordado, parabéns pela pesquisa!

      1. Oi, Sandra!!! Segue seu pedido. Grande abraço
        Winnicott, D.W. Os bebês e suas mães, São Paulo: Martins Fontes, 2006

    2. Muito bom artigo. Desejo fazer um pequeno comentário acerca a teoria”a mãe suficientemente boa ” de Winnicott . Essa teoria impõe uma carga muito pesada sobre a mãe, que seria impossível de ser atingida!

      1. Olá, Mizael. Fico feliz em saber que gostou do meu texto. Impõe mesmo!!! Vou deixar aqui o livro do Winnicott que aprofunda esta relação tão linda mas, também tão complexa! Grande abraço. Winnicott, D.W. Os bebês e suas mães, São Paulo: Martins Fontes, 2006

    3. Muito bom o artigo, apesar da mudança de visão quanto ao papel da mãe imposto pela sociedade, ao fazer este comparativo de antes e agora acabei percebendo que por vezes acabamos nós mesmas trazendo novamente este peso e responsabilidade para nosso cotidiano.

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado.