silêncio na terapia

Silêncio na terapia: quando o paciente silencia

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Antes de falarmos sobre o silêncio na terapia e o atendimento psicanalítico propriamente dito, faz-se necessário esclarecer alguns pontos importantes que o novo psicanalista deve considerar. Dentre esses conceitos, primeiramente deve-se levar em conta o mecanismo de resistência.

A resistência e o silêncio na terapia

A resistência é um mecanismo psíquico onde o inconsciente tenta se proteger. Na resistência ocorre uma oposição ao processo psicanalítico e ao terapeuta. É importante salientar que, cada trauma vivido, cria o que Freud chamará de neurose.

Essas neuroses serão protegidas por barreiras protetivas, elas visam proteger a psique do analisando de maiores sofrimentos. Dessa forma, o inconsciente esconde da pessoa esses traumas reprimidos. O processo psicanalítico busca uma forma de sistematizar o acesso a essas neuroses reprimidas.

Quando o analisando se dá conta disso, ou melhor, quando o inconsciente do analisando percebe uma tentativa de romper essas barreiras protetivas cria uma oposição à terapia psicanalítica. Essa oposição recebe o nome de resistência.

O inconsciente do analisando e o silêncio na terapia

Sendo assim, é muito comum que o analisando comece a criar empecilhos para a continuidade da terapia. Esquecer-se de pagar o psicanalista, marcar compromissos que coincidem com o horário terapêutico ou mesmo esquecer da terapia são alguns exemplos do processo de resistência.

Em suma, o paciente infringe as regras do contrato terapêutico firmado na entrevista inicial. Vale lembrar que a resistência não é algo episódico, ela será uma constante durante todo processo terapêutico. Muitas vezes sendo a própria resistência alvo da análise.

Entenda o silêncio do paciente na terapia

Dentre as principais formas de resistência, o silêncio do paciente se apresenta como uma das mais frequentes. De forma resumida, esse silêncio significa que o paciente não está disposto a relatar seus pensamentos ao analista, consciente ou inconscientemente.

Ele pode estar ciente de sua má vontade em falar sobre algo, inclusive expressando verbalmente isso, ou simplesmente pode não lhe vir nada à cabeça. Em ambos os casos o psicanalista deve analisar os motivos desse silêncio.

Não é fácil deparar-se com um paciente silencioso. Lidar com esse silêncio requererá habilidade do psicanalista, bem como firmeza e decisão. Duas possibilidades se apresentam nesse momento, o também silencio do analista ou perguntas reflexivas.

Como reagir ao silêncio na terapia

Se optar pelo silêncio, deve estar preparado para um embate psicológico, onde o analista não pode de forma alguma ceder antes. Não é uma técnica fácil de ser aplicada, requer treinamento e determinação.

Ao se pôr em silêncio também, o analista coloca o analisando em uma posição desconfortável, impelindo-o a falar, quebrando assim a resistência. Mas nem sempre essa quebra é rápida, podendo implicar em longos minutos constrangedores entre ambos. Contudo, se optar por perguntas reflexivas, eis algumas questões que podem lhe ajudar ao deparar-se com essa situação:

  • Em que você está pensando?
  • O que lhe passa à cabeça neste momento?
  • Te parece que eu deva analisar seu silêncio?
  • Estou equivocado em dizer que esse silêncio está relacionado a mim ou ao tratamento?

Estas são apenas algumas perguntas que podem induzir o analisando a refletir sobre seu silêncio e quebrá-lo de forma consciente. Ao responder qualquer uma dessas perguntas, o analisando reflete sobre sua posição. Ao explicá-la ao analista, ele se dá conta de sua negativa em expressar-se e, porque está acontecendo isso.

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Ante o paciente silencioso

É extremamente importante que o analista mantenha-se em uma postura tranquila e calma ao depara-se com o silêncio do analisando. Esse “ataque” ao analista não deve gerar uma “contra-transferência”.

Se o analisando perceber o desconforto do analista, sua postura defensiva só irá aumentar, haja vista o analisando sentir que está dominando a sessão terapêutica.

Dessa forma, o analista deve sempre estar no controle da sessão terapêutica.

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    O silêncio como arma do analista

    Dentro do set terapêutico o silêncio pode ser usado como importante meio de comunicação. Contudo, deve-se ter cuidado ao manejar essa ponderosa ferramenta psicanalítica. O mesmo analisando pode interpretar o silêncio do analista como um ato de acolhimento ou como uma reprovação.

    Caberá ao analista interpretar as reações do analisando e manejar quando e quanto de silêncio deve ser aplicado. O silêncio do analista pode adquirir diversos significados para o analisando, dependendo da condição transferencial instalada, ou até mesmo da condição contra-transferencial.

    O silêncio é um dos grandes causadores de stress que os pacientes enfrentarão no processo terapêutico. Por isso é importante que o analista aplique-o de forma consciente, cuidando da qualidade da técnica a ser aplicada, bem como da quantidade, como já abordado acima.

    O silêncio e a intervenção psicanalítica

    Dessa forma, o silêncio é uma intervenção psicanalítica, podendo ser passiva ou ativa, devendo ser aplicada em diferentes situações. O analisando pode precisar de tempo para colocar suas ideias em ordem ou lidar com sentimentos e fantasias que por ventura possam surgir.

    A narrativa em primeira pessoa de forma sistematizada, dentro de um ambiente seguro e sem julgamentos morais proporciona ao analisando uma visão muito mais clara de sua própria condição, sendo muitas vezes somente isso o necessário para que ele ache uma solução que tanto buscava. Nesta condição, o silêncio do analista não representa qualquer repressão, muito pelo contrário, o silêncio interessado é acolhedor e terapêutico.

    Já em uma situação onde o analisando começa a apresentar “desculpas” para um comportamento repreendido por ele mesmo, o silêncio do analista pode ser interpretado como reprendedor.

    Considerações finais

    Não raro o analisando conta alguma atitude e fica esperando uma aprovação do psicanalista. Diante do silêncio do analista ele começa a criar desculpas para seu comportamento. Mantido o silêncio, as desculpas vão mudando de caráter até ele mesmo concluir que não deveria ter tido tal atitude.

    Note que o analista não disse absolutamente nada, nem que aprovava, nem que desaprovava a referida atitude, bem como não fez qualquer expressão facial que denotasse qualquer uma dessas duas posições.

    Dessa forma, o analista não repreendeu o analisando, porém, o silêncio foi interpretado como repreensivo, o que o levou à reflexão e racionalização de suas atitudes. Em suma, se bem aplicado, o silêncio é uma poderosa arma no set psicanalítico, sendo uma ferramenta muito aplicada por profissionais mais experientes. Outras linhas terapêuticas irão preterir o silêncio, o que a torna uma ferramenta própria da psicanálise.

    O presente artigo foi escrito por Marcus M. C. Gómez ([email protected]), Psicanalista, mestrando em psicanálise, formado e pós graduado em filosofia dentre outras formações, entendeu que a educação é o único caminho para uma sociedade melhor. Tem na terapia psicanalítica e na educação seus pilares de atuação e de dedicação em sua vida.

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